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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

COMO UMA PEDRA A ROLAR



Quando li que o Prémio Nobel da Literatura não seria conhecido na semana em que todas as atribuições acontecem, tirei a conclusão que o júri do prémio, citando Simon and Garfunkel, sentia-se a atravessar uma ponte sobre águas tumultuosas.

A razão do atraso soube-se agora: Bob Dylan.

Não fiquei escandalizado.

Apenas reconheço que é uma nomeação inesperada.

O que sinto por Dylan está, grosso modo, desenhado em Lendo Versos, Ouvindo Bob Dylan.

Nem vírgula a mais, nem vírgula a menos.

Apenas acrescentar um pormenor, apenas isso:

Já que a Academia Sueca resolveu mudar os conceitos, ou o que lhe quiserem chamar, do prémio, que a escolha tivesse recaído em Leonard Cohen ou Chico Buarque de Holanda.

Mas que fique Dylan: o centésimo décimo terceiro Nobel da Literatura.

No capítulo das mais belas canções da História da Música, tem larguíssima representação.

Que tal é a sensação de se estar por sua conta, sem um caminho para casa, como um perfeito estranho, como uma pedra a rolar?

domingo, 9 de outubro de 2016

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


No 2º dia de Dezembro, os Rolling Stones lançam Blues & Lonesome.

Vai ser um bom Natal.

O álbum marca o regresso dos Stones à pureza inicial da sua música. – os blues.


O que eu procurava era o âmago da música – a expressão. Não teria havido jazz se não fossem os blues e não teria havido blues sem escravatura; essa versão particular e mais recente de escravatura, diferente daquela que nós, pobres celtas, tivemos de sofrer às mãos do império romano. Os poderosos sempre sujeitaram povos inteiros à miséria, não apenas na América. Mas quem sobrevive à escravatura produz algo de primordial. Algo que não vem da cabeça, vem das entranhas. Algo que está para lá da sua própria musicalidade; esta pode assumir as formas mais diversas. Há imensos tipos de blues. Há tipos de blues muito leves, há tipo de blues mais pesados, pantanosos. É nos pantanosos que eu me situo. Ouçam o John Lee Hocker. Toca de um modo muito arcaico. As mais das vezes ignora a progressão harmónica, que é sugerida, mas não tocada de modo explicito. Os músicos que tocam com ele podem segui-la; ele não, fica onde está, inamovível. Implacável. Outra coisa crucial no John Lee Hocker, fora aquela grande voz e a implacável guitarra, era o seu bater de pé, que fazia lembrar o rastejar de uma boa. Ampliava o som da batida com uma caixa chinesa, cinco centímetros por dez.

Na net já pode ser encontrado um excerto de uma das faixas do disco: Just Your Fool que remete para a harmónica de Little Walter.


sábado, 26 de março de 2016

SEXTA-FEIRA HISTÓRICA


Ontem, Meio milhão correu a ver os Rolling Stones em Havana.

O rock sempre a fazer História.

sábado, 19 de março de 2016

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Três dias depois de Barack Obama visitar Cuba, os Rolling Stones dão um concerto gratuito na Ciudad Deportiva de Havana.

Temos andado por muito mundo, mas este concerto em Havana vai ser um marco para nós, e, esperamos, para todos os nossos amigos em Cuba, lê-se num comunicado do conjunto.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

ACABAS PRESO NA TUA GAIOLA



Se só tocar com os Stones, sinto-me fechado numa bolha. Até com os Winos isso pode acontecer. Para mim, é muito importante trabalhar também noutros contextos. Tocar com a Norah Jones ou com o Jack White foi uma experiência inspiradora, tal como com o Toots Hibbert – gravámos juntos duas ou três versões de Presure Drop. Se não tocas com outros gajos, acabas preso na tua gaiola. Quietinho no teu poleiro, qualquer bala te rebenta com os miolos.

Keith Richards em Life

segunda-feira, 1 de junho de 2015

JUNTA-SE À BANDA OUTRO GAJO


Quando tocamos ao ar livre, junta-se à banda outro gajo – São Pedro. Ou ele está bem disposto ou manda vir um vento na direcção errada, desviando o som consigo. Alguém acaba por levar com o melhor som dos Stones do mundo – a três quilómetros de distância e sem sequer o ter pedido. Felizmente, tenho a minha varinha mágica. Antes de o concerto começar, na altura do controlo de som, repito sempre o mesmo ritual: pego numa das minhas varetas e faço uns sinais cabalísticos para o céu e no chão do palco. «Já está; vai haver bom tempo.» É um fetiche, mas se apareço num concerto ao ar livre sem uma vareta, toda a gente acha que estou doente. Normalmente, pouco antes de o espectáculo começar, o tempo fica bom.
Alguns dos nossos melhores concertos decorreram sob as piores condições inimagináveis. Em Bangalore, da primeira vez que tocámos na Índia, a monção rebentou a meio da primeira canção e manteve-se até ao fim. Eu mal podia ver os trastes da guitarra, com tanta chuva a jorrar e salpicar. «Monção em Bangalore»; ainda hoje, é assim que nos referimos a essa noite. Granizo, neve, chuva, seja o que for – o público aguenta sempre. Se lá ficares com ele, por piores que sejam as condições, não arreda pé: fica ali a curtir o rock e a ignorar a meteorologia. O pior é quando vem uma vaga de frio. Quando tens os dedos gelados, torna-se mesmo difícil trabalhar. Nas raras vezes em que acontece -, o Pierre arranja-nos uns sacos térmicos para aquecermos os dedos por uns minutos antes da canção seguinte, só para ter a certeza de que não enregelam.

Keith Richards em Life

sexta-feira, 17 de abril de 2015

CONTRATO VINCULATIVO


Era lá que o Roy todas as noites, presenteava o público com a sua delirante versão de stand-up comedy. Nessa noite o Roy tinha cozinhado uma refeição enorme: borrego assado, pudim de Yorkshire e ainda crumble de maçã e creme de ovos.
- Isto é crene de ovos a sério? – perguntei-lhe eu.
- Claro que sim.
- Não é nada, compraste-o enlatado.
- Fui eu que o fiz, meu anormal! Vem em pó num pacote e eu é que juntei o leite.
Tivemos uma discussão exaltada e lembro-me de lhe ter atirado com um copo do outro lado da mesa.
Com os meus melhores amigos, aqueles de longa data, tudo começa sempre do mesmo modo: assim que os conheço, sinto uma ligação instantânea. Consigo detectá-los num segundo; algo me diz que poderemos confiar um no outro. É um contrato vinculativo. O Roy é um deles, desde essa noite. Uma vez criado o laço, deixar ficar mal um amigo é para mim o pior dos pecados. Significa que não percebeste o verdadeiro sentido da amizade, da camaradagem, que são as coisas mais importantes do mundo.
Sem os meus amigos, eu não seria nada.


Keith Richards em Life

sábado, 24 de janeiro de 2015

SABES O QUE É ISTO, BILL?


Em Setembro e Outubro de 1973, percorremos a Europa em digressão, depois de Goats Head Soup sair. Tínhamos agora na banda o Billy Preston nos teclados, sobretudo no órgão, que se manteve connosco até 1977. O Billy tinha aparecido na cena como um meteoro, tocando com o Little Richard e quase se tornando num quinto Beatle, para não falar da sua própria música, que tantos hits produziu. Nasceu em Houston, na Califórnia, e era um músico, soul e gospel que praticamente tocou com todos os melhores artistas. Acompanhavam-nos ainda dois trompetistas, dois saxofinistas e dois teclistas – O Billy no órgão e o Nick Hopkins no piano.
O Billy trouxe aos Stones um novo som. Basta ouvir o que gravámos com ele, como Melody, para perceber que ele encaixava perfeitamente na banda. Mas quando tocávamos ao vivo, o gajo não ficava descansado enquanto não punha o selo bem escarrapachado em cada canção. Estava habituado a ser uma estrela por direito próprio. Uma vez em Glasgow, estava a tocar tão alto que abafava o resto da banda. Chamei-o aos bastidores e mostrei-lhe a minha navalha. «Sabes o que é isto, Bill? Caro William, se não baixas imediatamente o volume dessa merda, vais conhecê-la de perto.» Isto não é um concerto dos Rolling Stones e do Billy Preston. Tu és o teclista dos Rolling Stones. Mas na maior parte das vezes, não era coisa que me aborrecesse. Sei que o Charlie adorava a influência jazzística e fizemos coisas óptimas juntos.

Keith Richards em Life

domingo, 11 de janeiro de 2015

AO OLHAR PARA TRÁS


Um dos grandes gozos de escrever uma canção é que não se trata de uma experiência intelectual. Podes recorrer ao cérebro aqui ou ali, mas o mais importante é capturar momentos. O Jim Dickinson, que descanse em paz – morreu a 15 de Agosto de 2009, enquanto eu escrevia este livro – voltará mais tarde para vos dizer «sobre» o que era Wild Horses, já que eu não sei dizer. Nunca escrevi uma canção como quem escreve um diário, embora hoje, ao olhar apara trás, possa reconhecer que não tenha estado assim tão longe disso.
O que é que leva alguém a querer escrever canções? De certo modo, uma vontade de chegar ao coração das pessoas, de ganhar raízes nele. Ou, pelo menos, de obter dele uma ressonância: é lá que as pessoas se tornam um instrumento muito mais potente do que qualquer guitarra. Tocar as pessoas torna-se quase uma obsessão. Escrever uma canção que é lembrada e acarinhada é uma ligação, um encontro preciosos. Uma espécie de fio que nos liga a todos. Uma facada no coração. Às vezes, penso que uma canção é uma tentativa de apertar um coração o mais possível sem provocar um ataque cardíaco.


Keith Richards em Life

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

UM PASSO EM FRENTE DECISIVO


Em Novembro de 1964, lançámos a canção Little Red Rooster, um blue puro e duro do Willie Dixon, com guitarra, slide e tudo. Foi uma decisão arrojada para a época. A ideia não agradava à editora, ao management, a mais ninguém fora nós mesmos. Mas sentíamo-nos na crista de uma onda, suficientemente confiantes para fazer finca-pé. A canção era quase um desafio à pop, o manifesto da nossa arrogância de então. I am the little rooster/Too lazy to crow for day. «Uma canção sobre um galo? Estamos mesmo a vê-la chegar a número um. Que imbecis...» Mas eu e o Mick insistimos. Vamos apertar com os gajos. É isso que se espera dos Rolling Stones. E foi esse disco que fez rebentar as comportas. De repente, tinhas o Muddy e o Howlin'Wolf e o Buddy Guy com as agendas cheias. Foi um passo em frente decisivo. E chegou mesmo ao primeiro lugar. Estou certo de que, depois disso, o Berry Gordon, na Motown, se sentiu mais confiante para exercer pressão noutras frentes. E o êxito do disco também contribuiu para o rejuvenescimento dos blues de Chicago.

Keith Richards em Life 

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

FOI ELE PRÓPRIO QUEM MO DISSE


O Joe Walsh ouviu-nos ao vivo quando ainda andava no liceu e disse-me que o impressionámos imenso. Nem ele nem nenhum dos seus amigos tinha ouvido nada parecido, porque não havia. Ele praticamente só ouvia doo-wop; nunca tinha ouvido o Muddy Waters. É incrível que o seu primeiro contacto com os blues tenha sido através de nós – foi ele próprio quem mo disse. Foi também depois de nos ouvir que decidiu abraçar a carreira de trovador. E assim se deu que hoje seja impossível entrar num qualquer restaurante de estrada sem o ouvir dar à guitarra em Hotel California.


Keith Richards em Life.

Legenda: Joe Walsh

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

E TRANSFORMAMO-NOS NAQUILO


Tipos como o Bobby Womack diziam-nos: «Quando vos ouvimos pela primeira vez, julgávamos que vocês eram pretos. Perguntávamos: de onde raio é que vêm estes filhos-da-mãe?» Até a mim me custa a perceber como eu e o Mick, naquela porra de cidade, conseguimos a proeza. Talvez fosse de nos embrenharmos com tanta intensidade naquele som, dia e noite. Fazê-lo num apartamento húmido em Londres talvez não fosse assim tão diferente de o fazer em Chicago. Não tocávamos mais nada, e transformámo-nos naquilo. Não soávamos ingleses e isso surpreendeu-nos a nós próprios.

Keith Richards em Life

Legenda:  Bobby Womack



sexta-feira, 31 de outubro de 2014

EH, PÁ, VOCÊS DEVIAM ERA FECHAR A NOITE



                                        Keith Richards em Life


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

É A MINHA CANÇÃO


O que permanece na minha memória do final de 1968 é a expressão preocupada do Robert, a neve sempre a cair, as telas por pintar, e um certo alívio proporcionado pelos Rolling Stones. No dia do meu aniversário o Robert veio visitar-me sozinho. Trouxera-me um disco novo. Pousou a agulha sobre o lado um  e piscou-me o olho. Saiu de lá o «Sypaty for the Devil» e começámos os dois a dançar. «É a minha canção», dizia ele.

Patti Smith em Apenas Miúdos

domingo, 24 de agosto de 2014

A PRETO E BRANCO


Sem sequer dar por isso, absorvi muita música na altura. Em Inglaterra, imperava o nevoeiro; não apenas o físico, mas também um outro, um nevoeiro de palavras. As pessoas não manifestavam as suas emoções. Na verdade, quase nem sequer falavam. As conversas nunca iam direito ao assunto. Contornavam-no, obedecendo a códigos e eufemismos. E a certas coisas não podias sequer aludir. Eram os vestígios da era vitoriana, retratados de modo brilhante em certos filmes a preto e branco de inícios dos anos 60 – Sábado à Noite, Domingo de Manhã; Jogador profissional. A própria vida era a preto e branco; o Technicolor vinha ao virar da esquina, mas em 1959 ainda não tinha chegado. Não tenho dúvida de que o que as pessoas realmente querem é tocar o coração umas das outras. É para isso que serve a música. Se não o podes dizer, canta-o. Ouçam as canções da altura. Tão pungentes e românticas, enquanto tentam dizer o que não é permitido sequer em papel. O tempo melhorou, são sete e meia da tarde, o vento já se foi, P.S. Amo-te.
A Doris era diferente. Era uma pessoa muito musical, como o Gus. No fim da guerra, entre os três e os cinco anos, ouvi Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Big Bill Broonzy, Louis Armstrong. E aquela música falava-me, todos os dias a ouvia porque era o que a minha mãe punha a tocar. É provável que eu lá tivesse chegado mesmo por outras vias, mas a Doris ensinou-me a passear os ouvidos pela zona negra da cidade, sem sequer dar conta disso. Sabia lá eu de que cor era a pele dos músicos: bem podiam ser brancos, pretos ou verdes. Mas se tiveres um ouvido um nadinha musical, passado algum tempo começas a notar a diferença entre o Ain’t That a Shame  do Pat Boone e o Ain't That a Shame do Fats Domino. Não é que a versão do Pat Boone seja particularmente má, ele era um óptimo cantor, mas comparada com a naturalidade da do Fats, soa oca e produzida. A Doris também gostava do que o Gus ouvia. Ele recomendava-lhe Stéphane Grappelli, o Quinteto do Hot Club do Django Reinhardt – ah!, o maravilhoso swing daquela guitarra -, Bix Beiderbecke. Ela gostava de um bom swing. Mais tarde adorou ouvir o grupo do Charli Watts no Ronnie Scott’s.


Keith Richards em Life


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

OLHAR AS CAPAS


Life

Keith Richards com James Fox
Tradução: José Luís Costa
Cavalo de Ferro Editores, Lisboa, Outubro de 2011

Que raio teríamos nós na cabeça quando parámos para almoçar no restaurante 4-Dice em Fordyce, Arkansas, no fim-de-semana do Dia da Independência? E mesmo que fosse noutro dia qualquer, dada a minha experiência de dez anos a conduzir nos recantos mais conservadores da América… Fordyce não passava de uma cidadezinha, Os Rolling Stones estavam na ementa da polícia, de uma ponta a outra do país. Não havia chui que não quisesse pôr-nos as mãos em cima, desse lá por desse: era promoção garantida, e limpar a América desses inglesitos abichanados tinha-se tornado para a bófia uma missão patriótica. Corria o ano de 1975, tempos violentos e de confronto aberto. A época de caça aos Stones abrira oficialmente em 1972, ano da nossa última digressão ao país, a famosa STP – Stones Touring Party. O Departamento de Estado registou então a ocorrência de motins (verdade verdadinha), casos de desobediência civil (idem idem, aspas aspas), sexo ilícito (seja lá o que isso for) e episódios de violência em todo o território da nação. E tudo culpa nossa, meros trovadores, Tínhamos instigado a juventude à rebelião, corrompíamos a América e decidiram que nunca mais nos deixariam percorrer os Estados Unidos. Era uma questão política séria nos tempos do Nixon, que já tinha recorrido pessoalmente aos seus capangas e truques sujos contra John Lennon, quando temeu que ele lhe pudesse custar uma eleição. A nós coube-nos o rótulo de banda de rock and roll mais perigosa do planeta, o que foi oficialmente comunicado ao nosso advogado.

terça-feira, 11 de março de 2014

O ORIENTE É VERMELHO!


No domingo, foi tempo de Macau assistir ao 14 OnFire dos Rolling Stones.

 Mick Jagger, conhecido vocalista da banda Rolling Stones, foi fotografado em Macau no restaurante O Santos.

O músico britânico, de 70 anos, deixou-se fotografar com o proprietário do restaurante, O Santos onde os adeptos benfiquistas de Macau se costumam juntar para acompanhar os jogos dos encarnados.

Legenda: fotografia e legenda de A Bola-On Line.