Quando li que o
Prémio Nobel da Literatura não seria conhecido na semana em que todas as
atribuições acontecem, tirei a conclusão que o júri do prémio, citando Simon and
Garfunkel, sentia-se a atravessar uma ponte sobre águas tumultuosas.
Já que a Academia Sueca resolveu mudar os conceitos, ou o que lhe quiserem chamar, do prémio, que a
escolha tivesse recaído em Leonard Cohen ou Chico Buarque de Holanda.
Mas que fique
Dylan: o centésimo décimo terceiro Nobel da Literatura.
No capítulo das
mais belas canções da História da Música, tem larguíssima representação.
Que tal é a sensação de se estar por sua conta, sem um
caminho para casa, como um perfeito estranho, como uma pedra a rolar?
O que eu procurava era o âmago da música – a
expressão. Não teria havido jazz se
não fossem os blues e não teria havido blues sem
escravatura; essa versão particular e mais recente de escravatura, diferente
daquela que nós, pobres celtas, tivemos de sofrer às mãos do império romano. Os
poderosos sempre sujeitaram povos inteiros à miséria, não apenas na América.
Mas quem sobrevive à escravatura produz algo de primordial. Algo que não vem da
cabeça, vem das entranhas. Algo que está para lá da sua própria musicalidade;
esta pode assumir as formas mais diversas. Há imensos tipos de blues.
Há tipos de blues muito leves, há tipo de blues mais
pesados, pantanosos. É nos pantanosos que eu me situo. Ouçam o John Lee Hocker.
Toca de um modo muito arcaico. As mais das vezes ignora a progressão harmónica,
que é sugerida, mas não tocada de modo explicito. Os músicos que tocam com ele
podem segui-la; ele não, fica onde está, inamovível. Implacável. Outra coisa
crucial no John Lee Hocker, fora aquela grande voz e a implacável guitarra, era
o seu bater de pé, que fazia lembrar o rastejar de uma boa. Ampliava o som da
batida com uma caixa chinesa, cinco centímetros por dez.
Na net já pode
ser encontrado um excerto de uma das faixas do disco: Just Your Fool que
remete para a harmónica de Little Walter.
Três dias depois
de Barack Obama visitar Cuba, os Rolling Stones dão um concerto gratuito na
Ciudad Deportiva de Havana.
Temos andado por muito mundo, mas este concerto em
Havana vai ser um marco para nós, e, esperamos, para todos os nossos amigos em
Cuba, lê-se num comunicado do
conjunto.
Se só tocar com os Stones, sinto-me fechado numa
bolha. Até com os Winos isso pode acontecer. Para mim, é muito importante
trabalhar também noutros contextos. Tocar com a Norah Jones ou com o Jack White
foi uma experiência inspiradora, tal como com o Toots Hibbert – gravámos juntos
duas ou três versões de Presure Drop. Se não tocas com outros gajos, acabas
preso na tua gaiola. Quietinho no teu poleiro, qualquer bala te rebenta com os miolos.
Quando tocamos ao ar livre, junta-se à banda outro
gajo – São Pedro. Ou ele está bem disposto ou manda vir um vento na direcção
errada, desviando o som consigo. Alguém acaba por levar com o melhor som dos
Stones do mundo – a três quilómetros de distância e sem sequer o ter pedido.
Felizmente, tenho a minha varinha mágica. Antes de o concerto começar, na
altura do controlo de som, repito sempre o mesmo ritual: pego numa das minhas
varetas e faço uns sinais cabalísticos para o céu e no chão do palco. «Já está;
vai haver bom tempo.» É um fetiche, mas se apareço num concerto ao ar livre sem
uma vareta, toda a gente acha que estou doente. Normalmente, pouco antes de o
espectáculo começar, o tempo fica bom.
Alguns dos nossos melhores concertos decorreram sob as
piores condições inimagináveis. Em Bangalore, da primeira vez que tocámos na
Índia, a monção rebentou a meio da primeira canção e manteve-se até ao fim. Eu
mal podia ver os trastes da guitarra, com tanta chuva a jorrar e salpicar.
«Monção em Bangalore»; ainda hoje, é assim que nos referimos a essa noite.
Granizo, neve, chuva, seja o que for – o público aguenta sempre. Se lá ficares
com ele, por piores que sejam as condições, não arreda pé: fica ali a curtir o
rock e a ignorar a meteorologia. O pior é quando vem uma vaga de frio. Quando
tens os dedos gelados, torna-se mesmo difícil trabalhar. Nas raras vezes em que
acontece -, o Pierre arranja-nos uns sacos térmicos para aquecermos os dedos
por uns minutos antes da canção seguinte, só para ter a certeza de que não enregelam.
Era lá que o Roy todas as noites, presenteava o
público com a sua delirante versão de stand-up comedy. Nessa noite o Roy tinha cozinhado uma refeição
enorme: borrego assado, pudim de Yorkshire e ainda crumble de maçã e
creme de ovos.
- Isto é crene de ovos a sério? – perguntei-lhe eu.
- Claro que sim.
- Não é nada, compraste-o enlatado.
- Fui eu que o fiz, meu anormal! Vem em pó num pacote
e eu é que juntei o leite.
Tivemos uma discussão exaltada e lembro-me de lhe ter
atirado com um copo do outro lado da mesa.
Com os meus melhores amigos, aqueles de longa data,
tudo começa sempre do mesmo modo: assim que os conheço, sinto uma ligação instantânea.
Consigo detectá-los num segundo; algo me diz que poderemos confiar um no outro.
É um contrato vinculativo. O Roy é um deles, desde essa noite. Uma vez criado o
laço, deixar ficar mal um amigo é para mim o pior dos pecados. Significa que
não percebeste o verdadeiro sentido da amizade, da camaradagem, que são as
coisas mais importantes do mundo.
Em Setembro e Outubro de 1973, percorremos a Europa em
digressão, depois de Goats Head
Soup sair. Tínhamos agora na banda o Billy Preston nos teclados, sobretudo
no órgão, que se manteve connosco até 1977. O Billy tinha aparecido na cena
como um meteoro, tocando com o Little Richard e quase se tornando num quinto
Beatle, para não falar da sua própria música, que tantos hits produziu. Nasceu
em Houston, na Califórnia, e era um músico, soul e gospel que
praticamente tocou com todos os melhores artistas. Acompanhavam-nos ainda dois
trompetistas, dois saxofinistas e dois teclistas – O Billy no órgão e o Nick
Hopkins no piano.
O Billy trouxe aos Stones um novo som. Basta ouvir o
que gravámos com ele, como Melody,
para perceber que ele encaixava perfeitamente na banda. Mas quando tocávamos ao
vivo, o gajo não ficava descansado enquanto não punha o selo bem escarrapachado
em cada canção. Estava habituado a ser uma estrela por direito próprio. Uma vez
em Glasgow, estava a tocar tão alto que abafava o resto da banda. Chamei-o aos
bastidores e mostrei-lhe a minha navalha. «Sabes o que é isto, Bill? Caro
William, se não baixas imediatamente o volume dessa merda, vais conhecê-la de
perto.» Isto não é um concerto dos Rolling Stones e do Billy Preston. Tu és o
teclista dos Rolling Stones. Mas na maior parte das vezes, não era coisa que me
aborrecesse. Sei que o Charlie adorava a influência jazzística e fizemos coisas
óptimas juntos.
Um dos grandes gozos de escrever uma canção é que não
se trata de uma experiência intelectual. Podes recorrer ao cérebro aqui ou ali,
mas o mais importante é capturar momentos. O Jim Dickinson, que descanse em paz
– morreu a 15 de Agosto de 2009, enquanto eu escrevia este livro – voltará mais
tarde para vos dizer «sobre» o que era Wild Horses, já que eu não sei dizer.
Nunca escrevi uma canção como quem escreve um diário, embora hoje, ao olhar
apara trás, possa reconhecer que não tenha estado assim tão longe disso.
O que é que leva alguém a querer escrever canções? De certo
modo, uma vontade de chegar ao coração das pessoas, de ganhar raízes nele. Ou,
pelo menos, de obter dele uma ressonância: é lá que as pessoas se tornam um
instrumento muito mais potente do que qualquer guitarra. Tocar as pessoas
torna-se quase uma obsessão. Escrever uma canção que é lembrada e acarinhada é
uma ligação, um encontro preciosos. Uma espécie de fio que nos liga a todos.
Uma facada no coração. Às vezes, penso que uma canção é uma tentativa de
apertar um coração o mais possível sem provocar um ataque cardíaco.
Em Novembro de 1964, lançámos a canção Little Red Rooster, um blue puro e duro do Willie Dixon, com guitarra, slide e tudo. Foi uma decisão arrojada para a época. A ideia não agradava à editora, ao management, a mais ninguém fora nós mesmos. Mas sentíamo-nos na crista de uma onda, suficientemente confiantes para fazer finca-pé. A canção era quase um desafio à pop, o manifesto da nossa arrogância de então. I am the little rooster/Too lazy to crow for day. «Uma canção sobre um galo? Estamos mesmo a vê-la chegar a número um. Que imbecis...» Mas eu e o Mick insistimos. Vamos apertar com os gajos. É isso que se espera dos Rolling Stones. E foi esse disco que fez rebentar as comportas. De repente, tinhas o Muddy e o Howlin'Wolf e o Buddy Guy com as agendas cheias. Foi um passo em frente decisivo. E chegou mesmo ao primeiro lugar. Estou certo de que, depois disso, o Berry Gordon, na Motown, se sentiu mais confiante para exercer pressão noutras frentes. E o êxito do disco também contribuiu para o rejuvenescimento dos blues de Chicago.
O Joe Walsh ouviu-nos ao vivo quando ainda andava no
liceu e disse-me que o impressionámos imenso. Nem ele nem nenhum dos seus
amigos tinha ouvido nada parecido, porque não havia. Ele praticamente só ouvia doo-wop; nunca tinha ouvido o Muddy
Waters. É incrível que o seu primeiro contacto com os blues tenha sido
através de nós – foi ele próprio quem mo disse. Foi também depois de nos ouvir
que decidiu abraçar a carreira de trovador. E assim se deu que hoje seja
impossível entrar num qualquer restaurante de estrada sem o ouvir dar à guitarra
em Hotel California.
Tipos como o Bobby Womack diziam-nos: «Quando vos ouvimos pela primeira
vez, julgávamos que vocês eram pretos. Perguntávamos: de onde raio é que vêm
estes filhos-da-mãe?» Até a mim me custa a perceber como eu e o Mick, naquela
porra de cidade, conseguimos a proeza. Talvez fosse de nos embrenharmos com
tanta intensidade naquele som, dia e noite. Fazê-lo num apartamento húmido em
Londres talvez não fosse assim tão diferente de o fazer em Chicago. Não
tocávamos mais nada, e transformámo-nos naquilo. Não soávamos ingleses e isso
surpreendeu-nos a nós próprios.
O que permanece na minha memória do final de 1968 é a
expressão preocupada do Robert, a neve sempre a cair, as telas por pintar, e um
certo alívio proporcionado pelos Rolling Stones. No dia do meu aniversário o
Robert veio visitar-me sozinho. Trouxera-me um disco novo. Pousou a agulha
sobre o lado um e piscou-me o olho. Saiu
de lá o «Sypaty for the Devil» e começámos os dois a dançar. «É a minha
canção», dizia ele.
Sem
sequer dar por isso, absorvi muita música na altura. Em Inglaterra, imperava o
nevoeiro; não apenas o físico, mas também um outro, um nevoeiro de palavras. As
pessoas não manifestavam as suas emoções. Na verdade, quase nem sequer falavam.
As conversas nunca iam direito ao assunto. Contornavam-no, obedecendo a códigos
e eufemismos. E a certas coisas não podias sequer aludir. Eram os vestígios da
era vitoriana, retratados de modo brilhante em certos filmes a preto e branco
de inícios dos anos 60 – Sábado à Noite, Domingo de Manhã; Jogador
profissional. A própria vida era a preto e branco; o Technicolor vinha ao virar
da esquina, mas em 1959 ainda não tinha chegado. Não tenho dúvida de que o que
as pessoas realmente querem é tocar o coração umas das outras. É para isso que
serve a música. Se não o podes dizer, canta-o. Ouçam as canções da altura. Tão
pungentes e românticas, enquanto tentam dizer o que não é permitido sequer em
papel. O tempo melhorou, são sete e meia da tarde, o vento já se foi, P.S.
Amo-te.
A
Doris era diferente. Era uma pessoa muito musical, como o Gus. No fim da
guerra, entre os três e os cinco anos, ouvi Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Big
Bill Broonzy, Louis Armstrong. E aquela música falava-me, todos os dias a ouvia
porque era o que a minha mãe punha a tocar. É provável que eu lá tivesse
chegado mesmo por outras vias, mas a Doris ensinou-me a passear os ouvidos pela
zona negra da cidade, sem sequer dar conta disso. Sabia lá eu de que cor era a
pele dos músicos: bem podiam ser brancos, pretos ou verdes. Mas se tiveres um
ouvido um nadinha musical, passado algum tempo começas a notar a diferença entre
o Ain’t That a Shame do Pat Boone e o Ain't That a Shame do Fats Domino. Não é que a versão do Pat Boone seja
particularmente má, ele era um óptimo cantor, mas comparada com a naturalidade
da do Fats, soa oca e produzida. A Doris também gostava do que o Gus ouvia. Ele
recomendava-lhe Stéphane Grappelli, o Quinteto do Hot Club do Django Reinhardt –
ah!, o maravilhoso swing daquela guitarra -, Bix Beiderbecke. Ela gostava de um
bom swing. Mais tarde adorou ouvir o grupo do Charli Watts no Ronnie Scott’s.
Que
raio teríamos nós na cabeça quando parámos para almoçar no restaurante 4-Dice
em Fordyce, Arkansas, no fim-de-semana do Dia da Independência? E mesmo que
fosse noutro dia qualquer, dada a minha experiência de dez anos a conduzir nos
recantos mais conservadores da América… Fordyce não passava de uma cidadezinha,
Os Rolling Stones estavam na ementa da polícia, de uma ponta a outra do país.
Não havia chui que não quisesse pôr-nos as mãos em cima, desse lá por desse:
era promoção garantida, e limpar a América desses inglesitos abichanados
tinha-se tornado para a bófia uma missão patriótica. Corria o ano de 1975,
tempos violentos e de confronto aberto. A época de caça aos Stones abrira oficialmente
em 1972, ano da nossa última digressão ao país, a famosa STP – Stones Touring
Party. O Departamento de Estado registou então a ocorrência de motins (verdade verdadinha),
casos de desobediência civil (idem idem, aspas aspas), sexo ilícito (seja lá o
que isso for) e episódios de violência em todo o território da nação. E tudo culpa
nossa, meros trovadores, Tínhamos instigado a juventude à rebelião, corrompíamos
a América e decidiram que nunca mais nos deixariam percorrer os Estados Unidos.
Era uma questão política séria nos tempos do Nixon, que já tinha recorrido
pessoalmente aos seus capangas e truques sujos contra John Lennon, quando temeu
que ele lhe pudesse custar uma eleição. A nós coube-nos o rótulo de banda de
rock and roll mais perigosa do planeta, o que foi oficialmente comunicado ao
nosso advogado.
No domingo, foi tempo de Macau assistir ao 14 OnFire dos Rolling Stones.
Mick Jagger, conhecido vocalista da banda Rolling Stones, foi
fotografado em Macau no restaurante O Santos.
O músico britânico, de 70 anos, deixou-se fotografar com o proprietário do
restaurante, O Santos onde os adeptos benfiquistas de Macau se costumam juntar
para acompanhar os jogos dos encarnados.