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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

POSTAIS SEM SELO

E morro eu de morte como toda a gente.

Luíza Neto Jorge

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

OLHAR AS CAPAS


 Cronos

Cadernos de Literatura e Arte Nº 4

Direcção de Mendes de Carvalho, Eduardo Prado Coelho, Fernando Luso Soares

Colaboração de Mário Sacramento, Alexandre O’ Neill, Mário Cesariny, António Ramos Rosa, Natália Correia, Fiama Hasse Pais Brandão. Mendes de Carvalho, Luiza Neto Jorge, Vitor Silva Tavares, Urbano Tavares Rodrigues, entre outros.

Edição de Autores, Lisboa s/d

Como tantos outros homens da minha idade, cheguei à primeira dentição intelectual bebendo o leite impoluto do ensaísmo sergiano, para depois comer o pão que o Diabo amassou. Ficou-me desse desmame um remoer de culpa absurda quando as vagas implacáveis do Realismo Ideológico começaram a espadanar sobre a sua obra a espuma amarela da Verdade Represa, pelo Sol Nascente e por outras plagas. Abrirei assim o meu exame – exame dela e meu – pondo-me a rosto com esta pergunta: Que se passou com Sérgio para que fosse, a um tempo, o Mestre inigualável de quantas gerações viram e verão na Inteligência o piloto do Mundo (mas não o seu armador!), e a Sereia que pôs embargos à derrota da nau de Ulisses?

(Do texto António Sérgio: O Ensaista e o Doutrinário da autoria de Mário Sacramento)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

A MAGNÓLIA

A exaltação do mínimo,

e o magnífico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem a forma

o meu resplendor.



Um diminuto berço me acolhe

onde a palavra se elide

na matéria — na metáfora —

necessária, e leve, a cada um

onde se ecoa e resvala.



A magnólia,

o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exaltado aroma

perdido na tempestade,



um mínimo ente magnífico

desfolhando relâmpagos

sobre mim.

Luiza Neto Jorge

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

SO-NETO JORGE, LUIZA

A silabar que o poema é estulto

o amado abre os dentes e eu deslizo;

sismos, orgasmos tremem-lhe no olhar

enquanto eu, quase a rimar, exulto.



Conheço toda a terra só de amar:

sem nós e sem desvãos, um corpo liso.

Tenho o mênstruo escondido num reduto

onde teoricamente chega o mar.



Nos desertos -íntimos,insuspeitos-

já caem com a calma as avestruzes

-ou a distância, com os oásis, finda;



à medida que nos arcaicos leitos

se vão molhando vozes e alcatruzes

ao descerem ao fundo pego, e à vinda.

 

Luiza Neto Jorge

sábado, 3 de setembro de 2022

OLHAR AS CAPAS


 

A Obra Ao Negro

Marguerite Yourcenar

Tradução: António Ramos Rosa, Luisa Neto Jorge e Manuel João Gomes

Colecção Ficção Universal nº 9

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 1998

Continuando no seu caminho, ficou Zenão de novo só. Cerca do meio-dia, sentou-se para comer o pão, num talude de onde já se avistava a linha cinzenta do mar.

Um caminhante munido de um grande bordão veio sentar-se ao pé dele. Era um cego, que do seu alforge tirava também qualquer coisa para quebrar o jejum. O médico admirou a habilidade com que aquele homem de olhos brancos se desembaraçou da gaita-de-foles que trazia ao ombro, desatando a correia e pousando delicadamente o instrumento sobre a relva.

O cego felicitava-se por o dia estar tão bom. Ganhava a vida fazendo dançar os rapazes e raparigas na estalagem ou nos pátios das quintas; nessa noite ia dormir a Heyst, aonde no domingo tocaria; seguiria depois para os lados de Sluys: graças a Deus, havia sempre juventude bastante de quem auferir lucro e mesmo, às vezes, prazer. Mynheer talvez não acreditasse, mas havia mulheres que gostavam de cegos: não tinha nada que lamentar-se da desdita de já não ver.

Como muitos outros cegos, também este usava e abusava da palavra ver: via que Zenão era um homem na força da idade e que tinha educação; via que o Sol estava ainda a meio do céu; via que quem ia a passar numa vereda por detrás deles era uma mulher meio doente transportando uma canga de onde pendiam dois baldes. Nem tudo, porém, era falso nessas gabarolices: foi ele quem primeiro se apercebeu do deslizar de uma cobra por entre a erva. Chegou mesmo a tentar matar com o pau o repugnante animal. Zenão deixou-o, depois de lhe ter feito a esmola de um liarde e afastou-se no meio de ruidosas bênçãos.


segunda-feira, 5 de abril de 2021

OLHAR AS CAPAS


Como a Água que Corre

Marguerite Yourcenar

Tradução: Luiza Neto Jorge

Capa: Carlos Bravo

Biblioteca Novis nº 18

Abril/Controljornal, Lisboa, Maio de 2000

Mas à hora de deitar, depois do dedal de Madeira que sempre tomava ao meter-se na cama, mostrou-se mais loquaz:

- Conheceste-lo já na ruína – disse ele subitamente, de lágrimas nos olhos. – Mas eu convivi e viajei com ele antes dos trinta anos, quando ele ainda auferia, como eu, de dinheiro e de consideração. Nunca vi homem mais livre, mais lúcido, mais nobre. A sua pujança abarcava tudo quanto havia. Percorremos juntos a Itália e a Alemanha: ele ia sempre, por assim dizer, um passo à minha frente… Mas em Amesterdão… Cada qual regressa, em suma, à concha em que Deus o pôs. Fiz carreira… Casei com uma mulher de boas famílias… Ainda se ele tivesse ficado entre os judeus, dignos de consideração pela sua riqueza e pela posição que  desfrutam entre os seus! Mas preferiu quebrar com eles e ir viver para umas águas furtadas, sozinho, como se isso pudesse ser… Asseveram-nos, além disso, que as suas últimas companhias… Talvez não passem de boatos. Eu, por mim, sempre me conservei no meu posto, sem hesitações.

quinta-feira, 4 de março de 2021

RECANTO 12


Vinha    do outro lado do tempo    do inverno seguinte

um ruído rápido e ao mesmo tempo, assim parecia,

anfíbio

como alguém em trânsito para o seu mar

ao sair do emprego, e o instrumento

sol-terra-lua-homem-mulher-puta-que-vos-pariu-deus-vos-abencoe-

-etecetera-amén-

a buzinar-lhe aos ouvidos

 

e de vertiginosa a roda um instrumento a mais

em potência de tortura passou imediatamente a ser

útil vertiginosa indispensável

porque é uma roda e só por isso

porque tudo segue o mesmo percurso e no mesmo tempo

e na mesma roda de espaço que nós em tudo

e só por isso

quando a caixa toráxica passa a ser de metal

por assimilação

e de plástico por fora e roda no corpo

e só no sexo o circuito é uma onda fundente

liquidamentamante

lemos  o   capítulo   do sangue

quando em transe se descarrega como a campainha

de que as palavras são o toque e os silêncios

o clarão da música.

 

Assim se fala, ouvem-se telefones, como possuídos

por outrém

de que as palavras se chamassem fala

e o terror ventriloquia.

Luiza Neto Jorge

segunda-feira, 6 de julho de 2020

SÍTIO SORVIDO



Passada a porta passado oceano e firmamento
é o café que surge, a experimentar
quem vem de fora.

Inúmeras chávenas
menores despojos deixa a peste

Enquanto a mesa redonda põe
a minha doçura à prova

a chávena combativa
objecto a ferver
no fundo que porcaria
esconde?

É que nem tudo nem todos
são visíveis deste sítio
quer seja o oceano a porta
ou o purgatório

Luiza Neto Jorge

sexta-feira, 29 de março de 2019

MINIBIOGRAFIA


Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.


Luiza Neto Jorge

Legenda: contra capa de uma «plaquete» publicada pela Cinemateca Portuguesa no ano em que Luiza Neto Jorge morreu, com textos escritos pelos realizadores com quem trabalhou: Margarida Gil, Jorge Silva Melo, Paulo Rocha, Alberto Seixas Santos e Solveig Nordlund.
Luiza Neto Jorge morreu a 23 de Fevereiro de 1989.

domingo, 24 de março de 2019

POSTAIS SEM SELO


Domingo é o espaço onde todos cabem sem lhes ser preciso fazer vénia ao sol.

Luiza Neto Jorge

terça-feira, 16 de outubro de 2018

OLHAR AS CAPAS



Léo Ferré

Léo Ferré
Selecção e tradução dos poemas, canções: Luiza Neto Jorge
Selecção e tradução de outros textos: Manuel João Gomes
Capa: Judite Cília
Ulmeiro, Lisboa, Março de 1984

Os Artistas

Eles são de uma outra raça mas não sabem que o são
Eles são de um outro clã mas convivem convosco
Eles dão-nos o seu braço e estendem-vos a mão
Vós deixai-los passar não têm a ver convosco
Eles são a manhã clara nas vossas noites surdas
Eles são aquele sol negro dos vossos estios d’ inverno
Eles cantam pela noite às vossas têmp’ras mudas
Eles plantam a Loucura no seio do vosso inferno

Eles pintam o desgosto na face da papoila
Eles escrevem o amor nos quartos nus gelados
Eles enrolam o tempo sob a asa d’uma rola
Eles insuflam a vida nos pactos já quebrados
Eles dão a lei futura ao qu’à d’ontem apela
Eles decidem de tudo se à rédea os quer o esperto
Vinte mil anos há qu’eles se mostram à janela
Vinte mil anos há qu’eles clamam no deserto

Eles são de uma outra raça mas não sabem que o são
Eles são de um outro clã mas convivem convosco
Eles dão-vos o seu braço e estendem-vos a mão
Vós deixai-los passar não têm a ver convosco
Vinte mil anos há qu’entram pelos olhos dentro
Vinte mil anos há que passas sem vê-los
Vinte mil anos há que tu bem querias vê-los
E quando os visses tu já não te viam eles

São gente doutras bandas

Os artistas

segunda-feira, 2 de julho de 2018

OS FRUTOS FRIOS POR FORA


A vida está cada vez mais cara
no meu tempo a vida
era mais em conta
fazia menos calor
as cidades não mudavam de lugar
corria uma brisa, como uma vassoura.

O fruto, um autómato surpreendido.
Desprendeu-se da casca, que viu?
Um autocarro, um avião, um submarino.
Os frutos frios por fora
são por dentro aquecidos a electricidade.
Os frutos davam frutos, flores, brinquedos.

No meu tempo o rio corria limpo
como um corredor novo
nadávamos nus
uns pelo meio dos outros
extraíamos um amante do vulcão mais próximo.

A um dos meus o mais novo
o mais próximo da sua idade
matou-o o fumo!

Vivia-se até à última.
A vida era mais em conta; depois
derramaram-se histórias sobre mim
os olhos de Buda destilavam
penicilina, eram o que se chama uns olhos
divinos.

Nunca mais quero animais
em casa. Morriam os animais
comprava-se veneno, matava-se gente.

Muitos amantes dormindo sobre a lava.
Morríamos em ilhas separadas por
um cordão de rios ininterruptos.
Nem tínhamos idade para ser crianças num
continente.

Havia no meu tempo fábricas
sumptuosas. Onde se fabricava uma constelação
exacta e limpa, um amor sumptuoso e seus afluentes,
e ínfimas máquinas purgatórias.
Fabricava-se mais e melhor que hoje.

Não há respeito por ninguém;
por exemplo o diamante
não tem a utilidade de uma jóia:
é só um diamante (para um asceta)
só um dia amante (para um suicida).
Com uma jóia, sim, compra-se o mundo.

No meu tempo mal se via a terra
às escuras. Uma luz satélite, um olho
artificial,
uma luz de fruto verde frio por fora
operava esse milagre, essa visão.

Meu pai, que se ausentara,
sabia que seu pai ia ser morto.
Estendia-se a roupa sobre o fogo.
Crescia o pão largo como uma
ampola de penicilina, em tempo de guerra
de guerrilhas.

Luiza Neto Jorge 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O POEMA ENSINA A CAIR


O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada e subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós numa homenagem
póstuma.

Luiza Neto Jorge 

Legenda: imagem Martin Cathrae

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Prometeu ser virgem toda a vida
Desceu persianas sobre os olhos
Alimentou-se de aranhas,
humidades
raios de sol oblíquos.

Luiza Neto Jorge, epígrafe em Que Importa a Fúria do Mar de Ana Margarida de

Carvalho.   

quarta-feira, 12 de julho de 2017

DO MEDO


É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(Ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)

Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de um flauta eternizou

no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida

é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte

Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde
(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)

desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite

sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins

e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne

Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor

há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem

Quando nos será possível um suicídio exacto
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis? 

Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte

Luiza Neto Jorge

quinta-feira, 22 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Antologia de Poesia Universitária

Organizada por Alfredo Barroso, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz,
 J. M. Vieira da Luz, Rui Namorado
Colaboração de Alfredo Vieira da Luz, Almeida Faria, António Augusto Menano,
António Manuel Lopes Dias, António Freire Torrado, Armando, Armando de Carvalho, Boaventura de Sousa, Eduardo Prado Coelho, Fernando Vaz Garcia, Ferreira Guedes, Fiama Hasse Pais Brandão, Francisco Delgado, Gastão Cruz, João Columba, João Medina, João Rui de Sousa, J.M. Vieira da Luz, José Carlos de Vasconcelos, Luís Serrano, Luísa Ducla Soares, Luíza Neto Jorge, Manuel Alegre, Manuela Imar, Margarida Losa, Rui Namorado, Ruy Belo, Sérgio Cardoso
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Novos Poetas
Portugália Editora, Lisboa, Fevereiro de 1964

Janeiro de Sessenta e Dois

este janeiro português que entrou mansinho
desistiu quase pela chuva
mas entrou
limpando docemente os pés.

mas quase um janeiro de almanaque:
com burros em Lisboa cochichando
com damas coroadas de cinzento
e os pobres aos pulinhos nos cafés.

sacodem-no apressadas as varinas
ideias adoecem-no sem asas
e os burgueses roçam com a língua
plo ventre melancólico das casas.

seus dias vão depressa para os ardinas:
poleiro persistente onde um cavalo
relincha no colo das semanas
miando desastrado como os sinos
metido com vamps americanas.

janeiro português por onde poisas
doméstica abelha sem corola
arrastas sem saber o gosto às coisas
e a tia chega ao fim da camisola...


(Poema de Armando Silva Carvalho)

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

RUY CINATTI NA MESA DO CAFÉ




Entrar pela Parisiense e encontrar em cima das mesas prosas de Ruy Cinatti.

Prosas passadas a stencil, devidamente datadas.

Rui Cinatti policopiava poemas e textos que distribuía pelas ruas da cidade.

Por este tempo, estava de muita má disposição com o Partido Socialista.

Hei-de voltar à Parisiense, um café-pastelaria na esquina da Rua da Misericórdia com a Praça de Camões, onde paravam artistas de diversas artes.

Lembro-me da Luiza Neto Jorge, do Manuel João Gomes, do Jorge Silva Melo, do Vitor Silva Tavares, pelas tardes, sentadios naquelas mesas.

A Parisiense já não existe.

Está lá um daqueles hotéis a armar ao pingara-lhe.

Estes papéis do Ruy Cinatti, estão amarelecidos pelo tempo.

Clicando sobre os textos é possível uma melhor leitura.

domingo, 18 de outubro de 2015

V.S.T. & ETC



Paulo da Costa Domingos é o meu nome, e os melhores anos da minha juventude, como desertor de uma sociedade que me é antipática, foram vividos, unha com carne, no companheirismo e no universo poético do Vitor Silva Tavares, editor de livros na sua & etc, mas também mentor de uma ética cultural, e ainda, embora parco, também escritor.

Agradeço à Cláudia Clemente por, ao ter dado pela nossa existência, isso tê-la interessado a ponto de levar a nossa acção poética para dentro da sua obra cinematográfica.

Agradeço ao editor do filme este formato-dvd, confortável na medida em que cada um de nós pode agora levá-lo consigo para casa para vê-lo e revê-lo.Agradeço ainda à FNAC-Chiado a abertura da sua sala de convívio aos admiradores da nossa razão de resistência (por certo, militantes). (Digo militantes, porque, no que toca a & etc, somente militantes de um gosto invulgar poderão tê-la debaixo de olho há já tantos anos.)

Bom, e hoje não estou aqui para fazer mal a ninguém; estou aqui para apresentar a impressão digital do meu companheiro de aventura Vitor Silva Tavares. O mesmo irredutível Vitor Silva Tavares que, desde 1973, veio apresentando-me à fina-flor da comunidade intelectual portuguesa... (não estou a falar daqueles animadores do acordo artístico para serviçais do bom-senso; refiro-me às mulheres e aos homens muito especiais que marcaram como ferro em brasa esta nossa época desleixada e de aborto de uma Revolução prometida, mulheres e homens de cultura que tocaram o coração de leitores avessos, exactamente, ao bom-senso.

Nomes: alguns nomes incontornáveis, e apenas de amigos mortos, porque esses – garantidamente! – já não podem mais asnear ou desiludir-nos: [por ordem de saída de cena] o Pedro Oom, o António José Forte, a Luiza Neto Jorge, o Fernando Ribeiro de Mello, o Virgílio Martinho, o José Cardoso Pires, o João César Monteiro, o Eduardo Guerra Carneiro, o Álvaro Lapa, o Mário Cesariny, o Manuel João Gomes, o Luiz Pacheco, o João Vieira,...)

Nada mais apropriado para apresentar esta aventura, de que também eu fui parte integrante e, reconheço, parte incómoda,... dizia eu: nada mais apropriado do que ler-vos – como se o tivesse escrito, de fresco, há dois minutos – o meu texto «Amarga Disposição», com o qual participei na celebração das duas décadas de existência da & etc (& etc hoje com 37 anos «de morte para amanhã»):

Foi ontem, há 20 anos, quando aqui cheguei. A um cubículo exíguo na Rua da Mãe d’Água 13-2.º dt.º, que servia de redacção ao quinzenário & etc, e foi para vir a integrar uma escassa equipa de jogadores permanentes então assistidos por inúmeros colaboradores externos. Lista de personagens quase do meu total desconhecimento, que, até à reviravolta dos humores em Abril de 1974, nunca parou de crescer, cumprindo as honras da linguagem da casa e as tarefas rebeldes de uma resistência bem disposta. Alguns deles – entre artistas plásticos, tradutores e os mais – devemos reconhecê-los como nucleares. As suas participações consigo levam o nome.

Nessa altura, poeta designava notavelmente inconfundíveis princípios de vida, sentido próprio contra ventos e marés. Hoje, como é sabido, a estética e os graus académicos ocuparam todos os terrenos baldios, não sobra nesga onde plantar uma couve portuguesa. Lugar às (ditas) “novas” “sensibilidades”!

Há duas décadas, portanto, a identificação dos inimigos do homem-de-rosto-descoberto-e-corpo-inteiro era tão fácil que ninguém, deste lado, declinava o oportuno instante, que se lhe aprazasse, para molhar na sopa. [...]Às vontades que fizeram a revista & etc, entre Janeiro de 1973 e Outubro de 1974, substituiu-se um leque de livros de autor algo estranhos, por comparação com a literatura de salamaleques e cócegas a prémio.

Sendo nós, hoje, cada vez menos, e cada vez mais amarga a disposição, o ideal não esmoreceu: sabotar o gozo de mandões e poderosos, instilar algum fel no reino da estupidez. As maçãs da sabedoria e da revolta colhem-se do chão. Ou mesmo do subsolo. Na Rua da Emenda – actual morada poética somente dos aventureiros que ainda acompanham o Vitor Silva Tavares – desce-se até ao subterrâneo 3 por uma rampa que sobe, e vice-versa.

Eu ligo sempre a & etc ao Vitor Silva Tavares, não por qualquer estigma personalista que pudesse assombrar a editora, mas porque – no sentido culto e cultural de que o Vitor é herdeiro, mestre e transmissor de mensagem – um editor é aquele que faz imprimir a sua marca pessoal, a sua impressão digital, sobre tudo quanto toca. É por isso que, ainda recentemente, à beira da publicação de um livro meu no catálogo da & etc, acatei com júbilo o parecer de primeiro leitor – e leitor também com a autoridade de escritor – que o Vitor sempre foi de todas as obras por ele publicadas.

Trata-se de uma regra que, por mim, faz escola. É de facto regra que eu próprio defendo e promovo, enquanto também editor autónomo de livros... numa terra onde estes industriais do livro, que há agora, nem lêem aquilo que publicam nem jamais entraram dentro de uma tipografia para proceder ao acompanhamento final daquilo que atiram para o mercado, em golfadas de vómito de novidades.

O filme, que agora poderão com tempo visionar, dá, muito acertadamente, a ideia de um grande rega-bofe, que é o nosso dia-a-dia. Essa partilha do gozo permanecerá inalterável até ao nosso fim!... porque fizemos dessa alteridade uma arma de guerra... Afinal, com razão lá dizia o outro: «a cantiga é uma arma».

Todavia, sempre existiu quem não fosse em cantigas, ou porque não gostasse da nossa música, ou porque fossem sisudos... A Igreja, por exemplo, é sisuda. Dos políticos não pode dizer-se o mesmo: destes só pode afirmar-se que são meramente estúpidos... Quero com isto dizer que, para desconforto do nosso natural e legítimo exercício cívico, para insulto da nossa alegria de estar a transformar o mundo e as mentalidades, ciclicamente e em doses calculadas ou o Estado ou a Igreja tentaram cobrir-nos com o seu visco censório.

Durante os anos em que a revista conseguiu existir sitiada pela ditadura do velho Estado Novo, lá íamos nós, de cada vez que era posta em marcha a feitura de mais um número, lá íamos nós, no inapelável cumprimento da lei, com resmas de papéis apaixonantemente escritos obter autorização para os imprimir! E apesar dos cortes, no geral a ignorância dos censores, ou o seu laxismo de funcionários mal-pagos, não lhes permitiam medir forças no terreno culto da mera alusão, ou da metáfora, ou de um dito sarcástico...

Curiosamente, nessa época, que eu testemunhei, já de regime fascista em estado de putrefacção, nunca enviaram sobre nós as polícias. O mesmo não veio a suceder após a tal revolução abortada. Em pleno regime apregoadamente democrático, a 7 de Julho de 1980, por movida queixa da Igreja, o Estado mandou a Polícia Judiciária apreender em sede de editor os possíveis exemplares de um folheto histórico, cujo conteúdo visara... em 1910!, repare-se, um então bispo no exercício das suas maldades. Inteligente, portanto, este assalto à história passada, quando nem o autor do texto nem o visado já tinham língua para terçarem razões.

Quanto ao filme que agora se encontra disponível para o visionamento doméstico, tanto podem encará-lo como um testemunho da verdade como tê-lo na conta de uma ficção – posso garantir que a Cláudia Clemente soube captar o espírito. E o espírito com o qual levámos por diante as nossas vidas tem sido a nossa mais nobre ficção, que irá desaparecer no esquecimento; são as nossas obras a verdade que vai ficar.

Texto lido por Paulo da Costa Domingos na apresentação do documentário &etc. de Claudia Clemente

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

NOTAS PARA A RECORDAÇÃO DO MEU AMIGO JOÃO


 No arrazoado que acompanha os DVD da Integral João César Monteiro quase arrisquei opinião: “Apetece dizer que os filmes do César são mais “escritos” (ou “escritas”) do que as suas representações, ou ilustrações, audiovisuais.”

Valha isto o que valer, não enfatizo: afinal também eu, qual César pouco augusto, “não percebo nada de cinema” (piada dele aos especialistas?), isto apesar de ir às fitas desde a idade de chucha na boca – o que não dá direito a borla e capelo.

Gaguejei não muito afastado das vozes mais abalizadas de gente que faz cinema ou que, diminuindo, trabalha a fabricá-lo, coisa que remete para questões de finança e técnicas de fabrico. O resto são flores – nas entrevistas.

Segundo os profissionais, “o César escreve muito bem, só é pena que seja ele a realizar os filmes”. Pois: quando foi ele a dizer o mesmo sobre os seus charmes plumitivos, ressabiado prometeu logo ali assassinar o escrevente. Hossana!, não conseguiu.

Por mim acontece ou aconteceu que até o escrevinhei (na orelha do volume que reúne os argumentos de LE BASSIN DE J. W. e de AS BODAS DE DEUS): Melhor do que ele, ninguém escreve em português de – e para – cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já quase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras – comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.

Logo aqui se vê que não estamos perante linguagem crítica, seja esta o que for. Não ousa o exegeta quejandas subjectividades impressivas, antes parte em romaria aos “Cahiers”, ou aos “Inrockuptibles”, petiscar ideia e jargão formatado. Ai de mim, que “também eu escrevi cartas de amor, como as outras, ridículas”. Já é azar.

Admirarei menos os filmes do César? – Nem vale, para o caso. Desconfio sempre de dicotomias com água (forte) no bico. E já o disse, assinado, que um só plano do bijagós (exemplo: “uma laranja sobre a mesa”), pela sua carga, pela sua densidade, pesa mais em mim que quanta estrelada filmografia: é que os instantes de graça (“instantes de Camões”, pressentia-os o Manuel Maria Barbosa du Bocage) só faíscam, só fulguram, em receptores sintonizados. A questão das agulhas magnéticas não é aqui despicienda.

Tem mais que idade para ter juízo, posto o não tenha, a minha queda pela escrita do César. E julgo saber, ou tão-só intuir (não vai dar ao mesmo?) de onde ela venha (aparte o pendor congénito), com seus recortes vicentinos, sem requebros barrocos, sem colagens “esquisitas”. Leituras dele, pois mais que muitas – e aí está a biblioteca, feita e refeita ao sabor de tempestades, a atestá-lo. Para não gastar papel, que está caro, aponte-se ao acaso os românticos franceses e alemães, os surrealistas e demais grandes transparentes, todo o Sade, meu caro Watson, todo o Nietzsche (esse que inundou de luz negra o script original de VAI E VEM), mais os modernistas portuguesas e seus egrégios avós, Nobre, Pessanha, Cesário, mais Dante, Molière, Shakespeare, Dostoievski, chega? Tivera ele mais uns meses de vida e arriscaria ter de sair de casa expulso pela cubicagem de livros e cêdês – mas esta é outra música.


Lá por onde rompemos solas e puímos fundilhos, canoras vozes a ambos excitaram as ávidas orelhinhas (sentenciou Mestre Aquilino que para se ser escritor “é prechijo orelha”). No palco sonoroso – pleno olho da rua ou suspeitos cafés tristes – era um rol de tenores: do grave, e probo, Carlos de Oliveira, sotto-voce alquimicado em cristal na Micropaisagem e em Finisterra, ao “corpo escrevente” Luiza Neto Jorge, passando – pare, escute e olhe – pelo Cesariny de Pena Capital e Nobilíssima Visão (ele que já louvara, simplificando, o Álvaro de Campos e dera o pontapé definitivo no “realismo socialista” com seus trolhas e suas couves, pelo picaresco Cardoso Pires, pelo atómico Herberto das viscerais magias, e pelas verrinas, pelos vitríolos, pelo negro humor sacana de um batalhão de pelintras alcoólicos (ou românticos inveterados, como queiram) tais o Virgílio Martinho, o Forte da faca nos dentes, o Sebag planeta precário, o Pacheco da crítica de circunstância, o Ernesto Sampaio da luz central, o Pedro Oom sonhador espacializado, o Manuel de Castro crocodilo, gente que oriunda ou nem por isso de idealismos igualitários e até, alguns, de militâncias ao jeito moscovita (tentação ditada pelo sufoco da ditadura que não por rigores ideológicos, sempre de pôr entre aspas em tão incorrigíveis egocêntricos), será o berro libertador, ou libertário, e se pusera cá fora, entre rancores que remédio literários, a “rir de tudo”.

César à coca. E a buscar contrapeso e medida na ática Sophia como nos labirintos caligráficos da Velho da Costa, com quem forjou cumplicidades digamos “dialéticas”.

Salgaram todos a língua já de si agilíssima daquele que em suas primícias de bardo (Corpo Submerso, ed, Do Autor, 1959), a par de um tocante, por ingénuo, lirismo amoroso e existencial à la Daniel Filipe ou Zé Gomes Ferreira do Eléctrico (mas lá está ela, a pulsão lírica, a assomar nos filmes, contrapontando bojardas), afirmara ter, como brincadeira preferida, “atirar merda à cara das pessoas” e , como religião, o Urinismo – O ritual de carácter absolutamente erético consistia em Mijar em igrejas e conventos: auspiciosas liberdades poéticas a configurar o “Surreal-abjeccionismo” proposto por Pedro Oom como saída, “para sobreviver livre”, a um surrealismo por cá agrilhoado (na ignomínia salazarenta, “que pode fazer um homem desesperado quando o ar é um vómito e nós seres abjectos?”) e que lhe hão-de enfarpelar uma imagem de marca não mais descartável.

[Setembro de 2003 (ver “Diário de Notícias”), meses depois da sua morte, ainda um tal Mexia, Pedro, o associava a Luiz Pacheco, ao Manuel João Vieira dos “Ena Pá 2000”, ao humorista José Vilhena e cá ao rapaz como fazendo parte de “uma sub-cultura lisboeta mais ou menos escabrosa” própria, logo concomitante, de “uma família devassa”. Em sacristia, muito educativo.]

Os tempos então vividos (décadas de 60-70, com a erupção académica de 61, a guerra colonial e, sobretudo, com o Maio de 68 a disparar formidáveis anarqueiradas e ardentes esquentações românticas sem virgens ao luar) jogaram de feição com o alto-contraste de um César em condição ontológica de vadio e pedinte, não raro roído de fomeca, mas senhor – alto lá! – de “todos os sonhos do mundo”, incluindo o de cinema, contrariado que fora em pequenino ao ver recusada pela progenitora a sua “visão cinematográfica de OS TAMBORES DE FU-MANCHU”: cineasta à vista?

Ora sonhar é fácil – posto que nem sempre sustente a vida, isto é, o estômago. Escrever poemas ou cartas de amor loucas loucas, encher granéis a exprimir amores e desamores sobre matéria de arte, a 7ª (o sublinhado anula o seu uso mercantil), sempre sai mais barato (basta papel, bic, bica e beata no beiço), pode render um que outro maravedi (perguntem ao Bénard de “O Tempo e o Modo”) e, hélas!, desde logo orientar azimutes para a poética (visceral, vivencial) da criação cinematográfica que havia de vir, desse lá por onde desse e custasse, a quem estas coisas custam, o que custasse. Saltando da literatura, pois que dela partindo, o verbo queria-se iluminado, refulgente, um dia animado na alvura da pantalha como violação, exorcismo, e sublimação. A cabeça fervia-lhe (autopsicografava-se já então o “esquizoide”), sendo que o sopro da combustão advinha, não por menos, do compulsivo ódio à burguesia (por uma vez, sem aspas) como do mais intenso, do mais radical fundamentalismo poético – Poesia e Revolução num corpo único e à prova de ara sacrificial. “Je est un autre”. O outro, obviamente, precatava-se: tem a bondade de me auxiliar?


Salivas trocadas, raivas, zangas, risos, no ir descendo nocturnamente a Fontes Pereira de Melo, e porque o abaixo assinado então em funções editoriais no “Literário” do “Diário de Lisboa”, vá de pôr o génio ao trabalho – e de facto ao tostão, fiéis seguidores ambos do preceito cesarínico “ganhar sim, mas pouco”, que era e é, nos sem jeito para o negócio, o que se paga pelo suplemento de oxigénio a que se pode chamar “liberdade”, dessa que abomina, e portanto dispensa, genuflexões de colete e respeitinho.

Vem daí o “pas de deux”, nunca mais abandonado. E quando irrompe (em 73) a revista & etc (aquela que se quis cultural q.b. porque ele há mais vidas e outros modos de se estar nas ditas) foi um fartar vilanagem: prosa de Joãozinho arrancada a ferros dos castos lápis censórios, e logo pois sob cobertura “das mais amplas liberdades” consentidas e fomentadas pela folheca – vá de ameaças de murro e pontapé ou, em alternativa, de processos judiciários. De pronto, a interrogação do energúmeno ao editor responsável: “Dá prisa?”. E logo a resposta do amigo da onça: “Que tabaco fumas?”

Porque ninguém, muito menos eu (se de um lado chove, do outro troveja), lhe travava a gana, lhe amaciava a pena, lhe comovia o músculo cardíaco, sequer por mor de amizades corporativas ou conveniências alimentícias. Vista a esta distância, e mesmo somando as “liberdades democráticas” prodigalizadas pelos poderes dominantes ajaezados de abrilistas, é ainda de espanto graúdo o destempero, o furor interventivo, a causticidade, a própria e sempre tão cuidada acutilância estilística do nosso homem em Lisboa – voz subterrânea alcandorada à polémica do tempo a partir de um subterrâneo da Rua da Emenda.

Cá entre nós, era um festim. E já o cinema por um binóculo, a vozearia (ainda que de papel, ou no papel) a percutir nos tímpanos dos decisores. Aqui, uma mútua conspiração, muda, inominável. E uma relação ao abrigo de transacções: nunca por nunca, quer na revista quer nos livros publicados, recebeu César um chavo da chafarica, nunca por nunca arrecadou esta (cá, “só amor gratuito”, como o Régio) um chavo pelo trabalho do César.

[Citando João de Deus, o outro, o de Campo de Flores mas também de Criptinas, “vou-vos contar uma história / em prova desta asserção”: estava pronto em chumbo na tipografia o livro Morituri quando a & etc dá o badagaio – nem um tuste para gastos. Que fazer, Vladimir Ilitch? Posto o autor ao corrente, das duas uma: ou chumbo para a caldeira, execução sumária, ou, bóia de salvação, propor a obra, sem despesas, ao editor Nelson de Matos, então na Arcádia.

César opta pela hipótese salvadora, corro ao Nelson, aceita este pagar à tipografia a impressão em troca de ficar a Arcádia com os exemplares da tiragem. Vivas e olés! Publicado o livro (todo & etc, capinha de João Vieira, extra-texto do João Rodrigues, sobrecapa kraft, anilina preta a dar patine às margens das folhas), recebe o autor por copygaitas 20 ou 25 exemplares e eu uns 5 ou 6 pelo trabalho.

Que de euforia! O livro estava cá fora, são e salvo.

… E mais ficou quando, por sua vez falida a Arcádia na enxurrada do 25 de Abril, foi parar a padiolas de venda na rua, contribuindo assim para almoços & jantares de uns tantos trabalhadores desempregados. Anos volvidos, ainda eu comprava, para o desvalido autor, qualquer exemplar que se encontrasse aí perdido.
Desse avantajado sucesso popular retenho um livro na estante. Creio que à altura da morte, o César nem um para amostra.]


Virá a talhe de foice (já que não pode vir a sabre ou a canhão: as letras têm destas limitações) relembrar a miserável campanha difamatória que almejou conspurcar o autor da BRANCA DE NEVE: os pipolares altifalantes da piolheira denominada de pagadora de impostos, no nítido nulo do pensamento crítico, vá de estrondearem o César como salteador de carteiras, burlão que saca o seu do bolso da maralha contribuinte para, costas ao alto quanto a trabalhinho que se visse, ter a lata de pôr em circulação um filme “todo negro”. O “puta que os pariu”, como o “quer que o público se foda” – léxico de Monteiro quando fera acossada –, ao invés de sublinhar a dramática condição do artista face à mais boçal ignorância mesclada de malvadez, cavou de vez o fosso entre uma súcia devoradora de lixos e um homem que sempre recusou submeter o seu trabalho à lógica mentecapta, e aos imperativos, do capital. De muito poucos se pode dizer o mesmo.

Por cá andou, devassado de sonhos de grandeza. Nesta feita cabisbaixa “revisited”, alguns palpitam, ou fosforescem, em forma de filmes. Outros ressaltam nos textos que escapou, espelhando. De costas viradas a uma contemporaneidade lorpa, promotora descarada de equívocos e embustes celofanizados pelo marketing, negou o oportunismo jornaleiro, dito “sociológico”, e avançou com seus próprios pés por um território dificultoso, em parte por desbravar, mas que livra o cinema do espartilho de “espectáculo” – no que este tem de pronto-a-comer & amanhã há mais – para o inscrever de pleno direito no plano superior do espírito, que é aquele a que o artista se obriga.

Este “Lord das Escócias d’outras eras” nosso contemporâneo, forçado a Nosferatu pela pestilência do tempo e do lugar, tornou público um ser endemoinhado, sarcástico, inconveniente até à insuportabilidade. Não poucos foram “vítimas” das suas fúrias incontroladas, das suas telhudas exigências, da violência das suas objurgatórias. Assim fardado (ocultando pois o Pierrot lunar), não é de admirar que o João César Monteiro fosse temido e, pior, odiado. Ele, que em tempos se diagnosticava “não sou uma natureza agressiva, antes pelo contrário” (in “A Minha Certidão”), apesar de ter pretendido estilhaçar uma garrafa de tinto na moleirinha do Cunha Telles por este o ter chamado oportunista, ressentia-se fundo – e devolvia a parada, com juros. A quem o julgou derrotado, ou afim domesticado, após o som e a fúria da borrasca BRANCA DE NEVE, respondeu com o script mais soberbo, mais feroz, de toda a lusa cinematografia – VAI E VEM – e, como num imenso adeus quiçá premonitório, com o seu filme mais hierático, mais conciso e contido, mais cristalino do seu cânone de rigor obstinado.

Com distanciamento irónico ou sem ele, confessou-se aos 20 anos “sempre heróico” e “de peito exposto às feras. Certo é que, algo zurzido por acidentes e disparates da vidinha, nunca lançou a toalha ao tapete nem se acomodou ao repouso do guerreiro. Não é que o percurso biográfico de razão ao promitente herói da Figueira da Foz?

Não sei se “o cinema” perdeu alguma coisa com a sua morte. Eu perdi – mas quem sou eu senão o que gostaria de afirmar que a Cidade também, aquela Cidade onde “tout homme rêve d’être dieu” (citação de André Malraux no pórtico de Corpo Submerso)?

Sabemos que a alturas tantas da sua vida, num desdobramento heteronímico, o César Monteiro passou a denominar-se João de Deus.

Em tal Diabo, foi e é para levar a sério, diz-me aqui a caneta.

Vítor Silva Tavares em João César Monteiro, Cinemateca Portuguesa.

Legenda:Anúncio, publicado no Diário de Notícias de 12 de Dezembro de 2003 e capas dos livros de João César Monteiro publicados pela & etc.

terça-feira, 24 de abril de 2012

VIAGEM EM REDOR DE UMA REVISTA


Esta foi a escolha, para o dia 24 de Abril de 1974, que Eduardo Guerra Carneiro fez para os leitores do Cinéfilo.

Na crítica de cinema, Eduardo Prado Coelho, um dos colaboradores do Cinéfilo, aborda Ritual, filme de Ingmar Bergman.

Começa assim:

Qualquer comunicação travada entre duas pessoas parece depender sempre de um contrato implícito, que estipula a fronteira, que separa o que se pode dizer do que não se pode dizer. A comunicação autêntica corresponde ao alargar progressivo destas fronteiras. Assegura-se assim que num exame de literatura o professor me pode interrogar sobre os meus sentimentos perante um soneto de Camões, mas não pode, segundo o contrato que nos une, inquirir acerca da minha da minha vida. E assim por diante. Pois é esta mínima lei, que parece regular as relações entre as pessoas , que Bergman transgride espectacularmente no seu filme Ritual – e daí a violência.



Para terminar a crítica, Prado Coelho escreveu:

Rito infindável (que apenas uma decisão formal vem fechar) – ou (como se diz num poema de Luiza Neto Jorge) “rio que só tinha de humano o ir/secando”.

O filme estava em exibição no Estúdio do Cinema Império.

No Monumental podia ver-se Harry, o Detective em Acção de Ted Post com Clint Eastwood.

A violência transformada no mais desprezível dos espectáculos.

No Mundial exibia-se O Nosso Amor de Ontem de Sidney Pollack, Com Robert Redford e Barbra Streisand

Da história de amor filmada no mais puro estilocpublicitário ao revivalismo da América  dos anos 40, passando pela “mensagem” social e pelas vedetas sempre em grande plano, nada falta nesta superprodução medíocre, fabricada para o êxito fácil fácil e imediato. De lamentar, sobretudo, o facto de se tratar de um filme realizado por Sydnay Pollack, um dos cineastas americanos mais interessantes da última década, agora, ao que parece, promovido a funcionário conformado.

O Politeama continuava a exibir Eusébio, a Pantera Negra de Juan de Orduña

A imagem convencional do mito ou como aproveitar o futebol para lucro fácil.

O Cine Clube Universitário fazia exibir no cinema Paris, Ladrões de Bicicletas de Vittorio de Sica

No Porto, o Cinéfilo aconselhava, no Estúdio, a ver  A Máscara de Ingmar Bergman, com Bibi Anderson e Liv Ullmann.

Não tarde a ir vê-lo. Aconselhamo-lo mesmo a vê-lo mais do que uma vez, que uma obra como Persona, não encontrará muitas vezes.

O Cine-Clube do Porto exibia, no Batalha, O Mundo a seus Pés de Orson Welles.