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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

RÉPLICA AO EPIGRAMA DE SCHILLER «DIGNIDADE DO HOMEM»


                                  O EPIGRAMA


Não me falem mais disso, por favor!

Dai-lhe de comer, dai-lhe onde morar, dai-lhe de vestir

- e a dignidade, essa, virá por si.

 

                                  A RÉPLICA

 

Deram-lhe de comer

(As grandes telas fauves das charcuteries

 

Deram-lhe onde morar

(E não só onde morar: televisões e frigoríficos…)

 

Deram-lhe de vestir

(Os nylons, as peliças, a indiferença…)

 

E a dignidade, essa

Continua habitando

Os que lutam por ela.


José Fernandes Fafe em Poesia Amável

segunda-feira, 12 de maio de 2025

POEMAS AUTOGRAFADOS


O Poema Autografado pertence, hoje, a José Fernandes Fafe.

É o nº 11 da Colecção Poetas de Hoje, editada pela Portugália Editora e chama-se Poesia Amável.

Já fomos dizendo que a maior parte dos volumes desta Colecção tem a abrir um prefácio. Curiosamente, José Gomes Ferreira, escolhido para fazer o prefácio do livro de José Fernandes Fafe, escreve:

«Por Minerva! um livro destes não necessita de prefácio! Merecia aparecer sozinho na sua simplicidade de sorriso colado, por escândalo, nos dentes podres da caveira dos tempos. Sim, orgulhosamente sòzinho.

Porém, segundo parece, a organização interna da Colecção Poetas de Hoje exige a implacável inclusão dum prefácio.»

O poema escolhido por José Fernandes Fafe como autógrafo, chama-se:

 

Os Nossos Jardins Suspensos

 

Os nossos jardins suspensos

São estas mulheres:

 

Carregam à cabeça

cestos densos de lírios,

maravilhas, malmequeres…

 

José Fernandes Fafe, para além de poesia e romance foi autor da biografia de Ernesto Che Guevara, editada em Itália, pela Mondadori, em 1968, sob o pseudónimo de David Alport.

Após o 25 de Abril foi embaixador de Portugal em Cuba, mais tarde também embaixador no México, Cabo Verde e Argentina.

Os poemas de Fafe não poderiam deixar de ser outra senão o serem Amáveis.

Como nota o Zé Gomes Ferreira:

«Como vêem, o segredo é fácil e José Fernandes Fafe decifrou-o, despremeditado, de rua em rua, mãos nas algibeiras, a assobiar e a sorrir. (Com a caveira a doer-lhe por dentro, claro.).

A poesia não o larga nunca. Nem na cadeira do barbeiro, ave de tesoiras… E muito menos nas andanças pelo planeta. Segue-o por toda a parte, de braços enrolados no pescoço a segredar-lhe improvisos (talvez laboriosamente fabricados. Sabe-se lá o que se passa nos laboratórios secretos dos artistas!).»

Mais ainda:

«Não, não é por coincidência que o primeiro poema de Poesia Amável é um Salmo à manhã. Nem por acaso que, no belo fecho do livro, surge este verso tão revelador:

A minha casa fica na Manhã»

Transcrevemos todo o poema:

 

Estas palavras são a casa dum louco.

Anda lá dentro um

e a falar só…

 

Este papel branco é a luz calcárea

os cegos acordeonistas de Lisboa…

 

A minha casa fica na Manhã.

 

Todos os dias a destroem,

Todos os dias a reinvento.

 

A minha casa é o Amor.

 

A minha casa é a Liberdade.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

OS FIOS TELEFÓNICOS


Os fios telefónicos

São pautas musicais.

 

Onde os pardais,

dispondo-se em semínimas, bemóis,

compõem (Ó alegria de criar!)

a imitação dos homens pelos pardais:

 

O chilreio dos beijos

ao telefone

pelos bocais.

 

José Fernandes Fafe em Poesia Amável

segunda-feira, 8 de junho de 2020

SALMO À MANHÃ


Telhas,
teclas.

O gato no telhado é o pianista.
Melhor: o organista.

Tubos dum órgão, chaminés,
fumegam botes e casas cor de rosa...

O gato arranha um salmo...
Como o Sr, Jourdain fazia prosa.

José Fernandes Fafe em Poesia Amável

quinta-feira, 14 de junho de 2018

POEMA

Estas palavras são a casa dum louco.

Anda lá dentro um

e a falar só…

 

Este papel branco é a luz calcárea

os cegos acordeonistas de Lisboa…

 

A minha casa fica na Manhã.

 

Todos os dias a destroem,

Todos os dias a reinvento.

 

A minha casa é o Amor.

 

A minha casa é a Liberdade.


José Fernandes Fafe em Poesia Amável

terça-feira, 27 de março de 2018

CARTAZ TURÍSTICO


Portugal
país de pirâmides
de sal

Podeis vê-las aqui, na Ribeira do tejo.

Desfilam à cabeça das mulheres
num faraónico cortejo
entre as fragatas e o cais.

Mas sal, Tejo e manhã
é luz demais: Cegamos.
Nasce um fosfeno de cristais.

Nasce o silêncio da Sedução.

É quando se ouve mais
o canto
da carregação.

José Fernandes Fafe em Poesia Amável

Legenda: fotografia de Artur Pastor

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

JOSÉ FERNANDES FAFE (1927-2017)


Morreu JoséFernandes Fafe, escritor e diplomata.

Sofreu um AVC no dia 1 de Fevereiro, depois de, na véspera, celebrar 91 anos.

Foi o primeiro embaixador português em Cuba nomeado por Mário Soares, então ministro dos Negócios Estrangeiros.

A propósito, ler o texto que o embaixador Francisco Seixas da Costa escreveu no seu blogue Duas ou Três Coisas.

A produção literária de José Fernandes Fafe inclui mais de duas dezenas de obras, de poesia, teatro, romance e ensaio. Uma das suas obras mais conhecidas - Annie: uma portuguesa na revolução cubana - centra-se na biografia de Ana ("Annie") Silva Pais, a filha do último diretor da PIDE, Fernando Silva Pais, que foi para Cuba em 1963 acompanhando o marido e se apaixonou pela revolução cubana.

Um poema de José Fernandes Fafe tirado de Poesia Amável:

Poente

Compreende-se tudo,
de repente:

São oito séculos a ver o Sol morrer
afogado no mar,

diàriamente.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Poesia Amável

José Fernandes Fafe
Prefácio: José Gomes Ferreira
Colecção Poetas de Hoje nº 11
Portugália Editora, Lisboa, Outubro de 1963

Se não tivesse sido a esquadra americana, que fez esgotar a cerveja na cidade, eu não teria ido à outra banda beber um fino… Não nos teríamos encontrado, por conseguinte.
Mas, também, se o teu isqueiro não se tem avariado e a tua voz não fosse - até na adversidade! - manselinha (« - Por favor…» Nas comissuras dos lábios, tanto destino cruzado! - «Muito obrigado, Senhor…») sequer teria reparado em ti…
Qual é a explicação da tua voz? Herdaste-a de teus pais? De teus avós? De que Senhora Aónia és descendente?
«Poeta desempregado…» espalham para aí os teus. Mas se não fosse um poeta… quem te houvera de amar, ó minha feia? E empregado… como é que eu poderia, às quatro horas da tarde - numa quinta-feira - estar, digam-me lá, na outra banda?
Os marujos… e se eles eram cupidos… (crescidos, americanos, vestidos à marinheira…) que nos feriram com uma seta, teleguiada, certeira…

……………………………………………………………………………………

Foram as manobras da NATO…
Foi um isqueiro empanado…
Foram as voltas do Mundo…
Foi uma loucura (dizem os amigos)
… que engendrou - cegamente - o nosso encontro em Cacilhas.
Coisa tão bela e absurda como o aparecimento do Homem!