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domingo, 16 de maio de 2021

E NEM TEMOS UMA GRANDE HISTÓRIA PARA CONTAR AOS FILHOS


Há 20 anos éramos esquerdistas, maoístas, trotskistas, guevaristas, anarquistas; hoje somos todos neo-liberais e post-modernos (enfim, quase todos…)

(…)

Estes tempos são tempos de arrependidos de todos os géneros; Bob Dylan está cheio de dinheiro e usa lentes de contacto; Regis Debray estuda Milton Friedman às escondidas, Não transformámos o mundo nem mudámos a vida;  a vida é que nos mudou a todos (o «Che» morreu na Bolívia, baleado por um «ranger» anónimo; José Afonso morreu de doença; e o Artur Queirós ganhou o Prémio Ibéria de Jornalismo). Foi uma derrota sem glória pelo menos sem tanta glória como a derrota dos nossos pais nas trincheiras de Valência, nos campos de Almeria, ou passando o Ebro en un barquito de vela.

Os revolucionários, mesmo os de café, são os cornudos da História; nós nem por isso. Os cafés passaram a bancos e as namoradas com quem, de mãos dadas atravessámos os anos da brasa sobre as barricadas do Quartier Latin ou nos jardins da Cidade Universitária, são hoje professoras do liceu e assinantes do Círculo de Leitores.

Restam-nos alguns discos, alguns livros, algumas memórias. E nem temos uma história, uma grande história para contar aos filhos, porque os nossos filhos preferem as histórias dos campeões da Wall Street e emocionam-se mais com um «crash» da Bolsa do que com verduras românticas com «pavês», «slogans», ocupações selvagens. Elvis Presley, afinal, não era informador da CIA? João XXIII não tinha acções nas fábricas de material de guerra? Giap não tinha campos de concentração? Fidel não tinha Padilla a apodrecer numa cadeia?

05.03.1988

Manuel António Pina em Crónica, Saudade da Literatura

sábado, 15 de maio de 2021

MAS SALVE-SE A ILUSÃO


10 de Junho de 1967

Faz hoje trinta anos exactos que fui preso, a primeira vez pela polícia do fascismo – ao tempo, a P.V.D.E. É dia comemorativo! Assinalá-lo abrindo nele este diário, que será de reflexões ou apontamentos e não de factos, pois foi o perigo destes que me fez evitar o gosto do jornal íntimo. Se nunca houve carta ou rabisco que os cães de fila não esquadrinhassem à lupa! Entre prisões (5) e buscas (3), quantas recordações não perdi, voluntária ou involuntariamente! Até o diarismo, companheiro e confidente da frustração, foi boicotado…

Envelhecer é desvalorizar o futuro dum ponto de vista pessoal. E reganhar, de certo modo, o passado. Se estas linhas, escritas entre duas consultas, podem ajudar-me a encher o vazio do imediato, por que evitá-las, hoje? Bem se me dá que as levem ou as destruam! Não deixarei nelas o que quer que seja que prejudique terceiros.

Passei estes anos a preparar uma maturidade inútil, descubro-o agora: no plano social, procurando condições políticas que, realizando as aspirações gerais, viabilizassem as minhas; no plano intelectual, adquirindo uma utensilagem que estruturasse uma intervenção idónea. Com a saúde que resta e o tempo que nunca sobra, já pouco ou nada poderei fazer, mesmo que as condições mudem a tempo. O que foi foi, não o discuto, nem o deploro. Nunca houve alternativa possível. Mas salve-se a ilusão desta lápide.

Mário Sacramento em Diário

sexta-feira, 14 de maio de 2021

UMA ENORME CUMPLICIDADE


12 de Setembro de 1991

Pensava-o imortal, não sei porquê. Talvez porque nunca o vi envelhecer. Entrou em minha casa há vinte anos – uma casa vagamente «minha», onde morei apenas alguns meses ali para os lados da avenida de Roma. Uma casa que nem me chegou a ser casa, a não ser por duas ou três coisas muito nítidas que nela me aconteceram. Uma delas foi o António Reis. Ele vinha do Porto, não sei se naquele dia ou no meu imaginário, e era alguém que tinha escrito uns poemas de uma extrema sensibilidade, rasantes ao solo, de uma sensibilidade minimalista, a que chamar por isso mesmo Poemas Quotidianos. O meu mérito estava em ter gostado daqueles versos; o erro seria complicá-los demasiado. Desde esse dia que me ligou ao António Reis uma enorme cumplicidade. E isso transbordou para o cinema. Para o Jaime, primeiro. E depois para o Trás-os-Montes.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume I

LEITURAS

De há uns tempos a esta parte, tenho vindo a colocar, nas pedras do Cais, alguns pedaços de Diários que existem na biblioteca da casa. Assim tem acontecido com Miguel Torga, Vergílio Ferreira, José Saramago, José Gomes Ferreira.

Esqueci-me do Eduardo Prado Coelho, do Mário Sacramento, devo estar a esquecer-me de mais algum. Vou rectificar e passam a ser seis. Mas como a semana tem sete dias, introduzo as Crónicas do Manuel António Pina,  - por que não lhes chamar diários? - poderiam também ser as crónicas do João Bénard da Costa. Dá-me um certo prazer voltar a estes livros e segue o pedido de desculpa, aos dois ou três leitores do blogue, pela chatice que lhes dou.

Ali atrás escrevi: «esqueci-me do Eduardo Prado Coelho, do Mário Sacramento…»

Posso dizer: «esqueci»?

O que se faz quando se perde a memória?

quinta-feira, 13 de maio de 2021

PALAVRA QUE NÃO É INVENTADO


17 de Dezembro de 1965

Hoje, dia do aniversário da Rosalia, encheu-se a casa de muita gente a festejar a data, aliás assinalada por vários acontecimentos que me acordaram no coração a velha angústia de punhais amarelos que eu julgava adormecida para sempre.

Terminei a noite a rir… A rir com gosto deste verdadeiro pedacinho de ouro que se me deparou inesperadamente durante a leitura de um artigo encomiástico sobre A Memória das Palavras, inserto no Jornal do Ribatejo e assinado pelas iniciais H.F.S.:

«E se eu um dia chegasse a mandar, A Memória das Palavras seria livro de leitura obrigatória em todas as escolas e liceus do País.

Palavra que não é inventado.

Corei até às raízes mais profundas da vergonha.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume I

quarta-feira, 12 de maio de 2021

SARAMAGUEANDO


30 de Junho de 1993 

Fernando Venâncio escreve no Jornal de Letras um artigo - «O homem que ouviu desabar o mundo» - sobre o Vergílio Ferreira, a propósito da Conta-Corrente. E em certa altura diz: «Afirmei, um dia, levianamente, que a ascensão de Saramago se mantivera invisível ao diarista Vergílio. Hoje, dou-me conta que, sob a referência inofensiva, sob o próprio silêncio, é essa partida do destino um dos motores do sofrimento. Vergílio Ferreira jamais perdoará isso aos fados (E quem, no seu lugar, perdoaria? Na nossa história literária são casos excepcionais as boas-vindas. Deu-as António Vieira a Manuel Bernardes, soube-as dar Filinto a Bocage. Não há memória de muitas mais.) Mas as autênticas contas de cósmica que lhe calhou, são bem mais vastas e mais cruéis. Os considerandos poderão ser complicados, mas a tese é límpida: os parvos ainda não perceberam que o romance acabou. Não que Vergílio o saiba de observação, porque ele escassamente lê. “A obra dos outros mesmo de muito alteados no panegírico, não me interessa absolutamente nada” (p. 73, sublinhado no original). Há pior: “De vez em quando uma página ou outra de um autor entusiasma-me e vexa-me mesmo por me entusiasmar” (ib).» Não comento. Digo apenas que Vergílio Ferreira, no fundo, não faz mal a ninguém. Dói-lhe e morde onde lhe dói para que lhe doa ainda mais, e isso talvez seja uma forma de grandeza.

José Saramago, Cadernos de Lanzarote, Volume I

segunda-feira, 10 de maio de 2021

MANDA O QUE LHE MANDAMOS MANDAR

18 de Março de 1974

O livro de Spínola alastrou numa revolta militar frustrada. O livro? Há um clima de inquietação, um cansaço do provisório em que vivemos. O difícil da questão é que solução alguma se nos impõe como boa. Há que escolher a menos má. Qual? A África é dos pretos que «exploramos» há quinhentos anos. Exploramos? Só? Mas como aguentar o embate da separação? O recurso seria retroactivo: termo-nos preparado para isso. Mas Salazar, como certos bichos, o que segregou foi pedra. Dizem-me: o Marcelo quer aguentar a guerra até estarmos preparados. Mas o desgaste não vai mais depressa do que a preparação? Tentamos acumular de um lado, enquanto gastamos do outro. Qual o saldo? Entretanto, ainda se recorre à retórica imperial. «Deus manda combater, não vencer», diz Marcelo. Mas Deus manda o que lhe mandamos mandar. Deus de paz, Deus carniceiro, Deus celeste ou terreno. O Deus de Marcelo não é muito inteligente. Ou estará simplesmente enrascado, sem saber o que fazer.

Vergílio Ferreira em Conta-Corrente em Volume I

domingo, 9 de maio de 2021

O HOMEM TEM O CAMINHO QUE ANDA


17 de Outubro de 1941

Cada vez mais desesperado. Quanto mais olho, mais vejo, mais vejo tudo turvo à minha volta. Fé? Evidentemente… Enquanto há vida há esperança – lá diz o outro. Mas, francamente: fé em quê? Num mundo e numa gente que almoça valores, janta valores, ceia valores, e come, afinal, o semelhante ensopado com hipocrisia? Peçam-me tudo, menos que tape os olhos. Bem basta quando a terra mos cobrir! – Ah! mas a humanidade acaba por encontrar o seu verdadeiro caminho – dizem-me duas células ingénuas do entendimento. E eu respondo-lhe assim: Não, o homem não tem caminhos ideais e caminhos de ocasião. O homem tem o caminho que anda. Ora este senhor aqui há tempos caminhou três séculos atrás dum mito que se resumia em queimar, expulsar e perseguir uns outros homens, cujo pecado era este: saber filosofia, medicina, física, astronomia, religião, comércio – coisas que já nesse tempo eram dignas e respeitáveis.

Miguel Torga em Diário Volume II

sábado, 8 de maio de 2021

RIMOS, RIMOS; RIMOS...

 

16 de Novembro de 1965

E, de súbito, lembrei-me de uma visista que fiz em 1946 (há 20 anos) à mãe do João José Cochofel no Hotel Europa. Encontrei-a a rir, a rir, a rir, a rir…

- De que está a rir? - perguntei também a rir, sem motivo.

- Do Nemésio que acaba de sair daqui… Imagine que me disse que queria entrar para o Partido Comunista.

Rimos, rimos, rimos, rimos, rimos!...

José Gomes Ferreira, em Dias Comuns Volume I 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

SARAMAGUEANDO

9 de Junho de 1993

De manhã, Escola Secundária de Gil Vicente. Duas horas a falar, de pé. Creio que os alunos ficaram satisfeitos, mas não posso impedir-me de suspeitar que, no fundo, nada disto – livros, escritores – lhes interessa muito. O programa manda, faça-se o que diz o programa, mas os gostos destes moços estão noutro lado. Foi-me perguntado (nunca falha) que conselho daria eu a um jovem aspirante a escritor, e eu respondi como sempre: não ter pressa (como se eu não a tivesse tido nunca) e não perder tempo (como se eu não o tivesse perdido jamais). E ler. ler, ler, ler…

José Saramago em Cadernos de Lanzarote Volume I

quinta-feira, 6 de maio de 2021

UM INSTANTE DE NUVEM NO AR

 

30 de Agosto de 1973

Toda a vida vivi no provisório. Admitamos. A nada, assim, ou a poucos me sinto ligado. Ou a ligação existe quando alguém depender de mim. Assim eu não dependo de nada, o que é igual a ser escravo de tudo. Dependesse eu de alguma coisa e isso me ordenaria a vida. Velho hábito este da falta de uma segurança. O «físico». A instável saúde, sempre. Uma segurança. Ideias? Políticas? Mesmo a «glória» - que incrível aberração. Um instante de nuvem no ar. O dia-a-dia entretido no instante do dia-a-dia. E no entanto a arte. E é a única fidelidade. A pequena luta comigo para alcançar o inalcançável. Um livro mais feliz, um trecho, uma frase. Logo depois, a luta recomeça para conseguir outro livro, outra frase, logo a seguir provisórias. Até que a morte corte a ilusão pela raiz e seja ela definitiva.

Vergílio Ferreira em Conta-Corrente Vol. I

terça-feira, 4 de maio de 2021

SEMPRE A ÚLTIMA PALAVRA

 

20 de Novembro de 1940

Não há maneira. Por mais boa vontade que tenham todos, uma discussão nesta santa terra portuguesa acaba sempre aos berros e aos insultos. Ninguém é capaz de expor as suas razões sem a convicção de que diz a última palavra. Depois, por desgraça, a este fogo absoluto que queima tudo, junta-se esta nossa tendência apostólica, que, onde sente um náufrago, tem de o salvar.

O resultado é simples: é não poder haver uma colaboração nas ideias, um alargamento de cultura e de gosto, e dar-se uma trágica concentração de tudo na mesquinhez do individual.

Miguel Torga em Diário I Volume

segunda-feira, 3 de maio de 2021

OUTRO GALO NOS CANTARIA


25 de Julho de  1966

Em torno da nossa mesa habitual na cave do Martinho, o Magalhães Godinho, o Carlos de Oliveira, o Abelaira e eu discutimos futebol.

Trocámos de certas consequências grotescas advenientes desse fenómeno, sobretudo dos artigos dos jornalistas analfabetos («a selecção portuguesa possui todas as características da imaginação da raça latina» - escreve um deles).

- Em todo o caso – articula Magalhães Godinho – sejamos justos. Se os nossos catedráticos, por exemplo, encarassem a sua profissão com a seriedade que o Eusébio encara a dele, outro galo nos cantaria.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume I

domingo, 2 de maio de 2021

SARAMAGUEANDO


6 de Junho de 1993

Uma leitora na Feira: «Quando o Levantado do Chão disse comigo: este escritor é diferente dos outros.» Acertou em cheio. Não disse «melhor que os outros», disse «diferente», e não imagina a que ponto lhe fiquei grato. Saiba que entre os muitos milhares de palavras até hoje se escreveram a meu respeito, nunca tinha encontrado essa. Diferente. Tem razão, diferente. E a mais não aspiro.

José Saramago em Cadernos de Lanzarote, Volume I

sexta-feira, 30 de abril de 2021

COMO POETA É QUE É UM BOM PROSADOR


4 de Agosto de 1970

Relido um bocado do Torga, já não sei porquê. Uma ideia bem assente é que Torga é um Aquilino depurado, ou seja, sem os grilhões de ouro vocabulares. (Este Aquilino. E andou ele por França. Não viu nada. Que fidelidade à bruteza da província!) Ou ideia bem assente é que Torga é muito melhor poeta que prosador. Ou: como poeta é que é bom prosador. Esta segunda versão é que deve estar certa. O que invariavelmente me irrita neste homem, bons deuses, é o falar constantemente de si – em voz grossa. Mas não me chateiem por favor: já disse que é um bom poeta.

Vergílio Ferreira em Conta-Corrente I Volume

terça-feira, 27 de abril de 2021

É PRECISO DIZER ISTO


S. Martinho de Anta, 30 de Março de 1932

É preciso dizer isto. É preciso fazer esta confissão, mesmo que a posteridade depois desista da lápide. É preciso dizer que li hoje de enfiada dois romances policiais, dum tal Sr. Armstrong, e que gostei. E acrescentar que tinha ao lado, interrompida, A Luz de Agosto do Faulkner.

Miguel Torga em Diário I Volume

segunda-feira, 26 de abril de 2021

O RITMO DAS HORAS VULGARES DO DIA


13 de Julho de 1966

Hoje, às 8 da manhã, já eu estava debruçado da varanda da sala, a ver deslizar as gentes de carne de trabalho que se dirigiam para a escravatura diária nas fabriquetas próximas do Bairro Industrial de Alvalade, onde moro). Operários de ganga surrada, empregadotes de lancheiras (que reforçam a solidão) e raparigas, muitas raparigas a sacudirem as ancas para serem raparigas. Alguma bonitas, maior número de feias e quase todas graciosas nos seus vestidos de fazendas de miséria, comprados a prestações.

Aqui e ali pares de namorados a aproveitarem a frescura da manhã para as mãos torcidas dos idílios…

Perto das nove, porém, a paisagem humana foi-se alterando.

Começaram a dobrar as esquinas os burocratas da A.E.G. mais dormidos e calmos. Divisei até várias alemãs pernudas… E um ou outro director a fechar, solene, a porta do carro e a pisar a rua com a dignidade de naturalizá-la germânica…

Depois tudo adquiriu o ritmo das horas vulgares do dia… E sentei-me a devorar o pequeno-almoço, entristecido por não sei que sensação de existirem no mundo pessoas a mais que banalizavam até à mediocridade os sentimentos e as paixões, impossíveis de dividir por tanta gente.

Urgência de rebentar horários…

José Gomes Ferreira em Dias Comuns I Volume

Legenda: José Gomes Ferreira viveu desde 1956 na Avenida Rio de Janeiro no nº 33 2º andar esquerdo.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

PUNHAIS DE VINGANÇA MIÚDA


28 de Junho de 1966

Apreensão do último livro de versos da Natália Correia: A Lira e o Vinho.

-Porquê – perguntámos, pasmados.

E o Nikias, no Martinho, explicou:

- Não passa de um reflexo do escândalo da publicação da Antologia da Poesia Erótica e Satírica (colectânea organizada e prefaciada pela Natália – o que lhe valeu um processo de ódio na Boa Hora).

Isto é: a Censura já não serve apenas para os imbecis nos contagiarem de estupidez baixa.

Também serve de punhal de vingança miúda.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Vol. I

quinta-feira, 22 de abril de 2021

SARAMAGUEANDO

4 de Junho de 1993

Na Feira aparece uma pessoa a comprar todos os meus livros. Põe-nos todos diante de mim para que os autografe, os grossos e os finos, os caros e os baratos, trinta e tal contos de papel, conforme vim a saber depois, e o que me desconcerta é que o homem não é um convertido recente ao saramaguismo, um adepto de fresca data, um neófito disposto às mais loucas ousadias, pelo contrário, falo do que de mim leu com à-vontade e discernimento. Resolvo-me a perguntar-lhe a razão da ruinosa compra, e ele responde simplesmente, com um sorriso onde aflorou uma rápida amargura: «Tinha-os todos, mas ficaram na outra casa.» Compreendi. E depois de ele se ir embora, ajoujado sob a carga, pus-me a pensar na importância dos divórcios na multiplicação das bibliotecas…

José Saramago em Cadernos de Lanzarote, Volume I

segunda-feira, 19 de abril de 2021

FECHAR A PORTA COM DUAS VOLTAS

 

16 de Julho de 1970

Viver só. Estar só até à morte. Ninguém quer conhecer-nos para nos amar. Defendermo-nos sem uma falha de atenção. Fechar a porta com duas voltas. E vir então para a rua. E ser quotidiano e medíocre. E ser amável. E ser igual, para que todos fiquem tranquilos sem a ameaça, a insolência, o insulto de uma «diferença».

Já o disse. Mas não há mal em repetir.

Vergílio Ferreira em Conta-Corrente Vol. I