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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

NOTAS DE ESCRITA


Exemplar do nº 44, da revista “Ler”, referente ao Inverno de 1998, e editada pelo “Círculo de Leitores”.

Este número da “Ler” contém as notas de escrita que José Saramago utilizará na escrita de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.


Para escrever “O Ano da Morte de Ricardo Reis", José Saramago, serviu-se de uma agenda de 1983, adaptada para o ano de 1936, e nela apontou os acontecimentos políticos, sociais e todo o “fait-divers” da época. Trata-se de um documento importantíssimo, que mostra o minucioso método de trabalho da sua escrita.


Estes documentos foram doados por José Saramago à Biblioteca Nacional.


“A abertura do livro (primeiro capítulo) decorre entre o momento da entrada da barra e a leitura dos jornais no quarto do Hotel Bragança, enquanto a chuva cai sobre a cidade. Caberá aqui, por ordem cronológica, a partida de RR para o Brasil, os dezasseis anos já passados, a revolução comunista ali, a notícia da morte de FP, a decisão de regressar, o regresso, as imagens do rio e da cidade, o hotel, a chuva, a melancolia.
Importante: os elementos da atmosfera do “Livro do Desassossego”, e também as informações concretas: o empedrado das ruas, as carroças do lixo, a inconfundível cor (cinzenta? Parda?) da Rua dos Douradores, os caixeiros, os restaurantes, ou casas de pasto. O Café Royal ficava ao pé do Hotel Bragança, onde hoje está um banco. Pelo tempo que viver, será o café de RR.
Que tipo de homem é RR? Fisicamente, aceite-se o que FP diz dele. E o resto? É “fino”? “aristocrata”? simples? requintado de gostos e maneiras? dado? discreto? convivente? Reservado?”

domingo, 1 de agosto de 2010

ESCREVER: UM ACTO SOLITÁRIO


Exemplar do nº 43, da revista “Ler”, referente ao Verão/Outono de 1998 , e em que o "Círculo de Leitores" saúda José Saramago pelo Prémio Nobel da Literatura.

Francisco José Viegas assina o prefácio, e a abrir escreve:

“Antes de mais: este prémio é para Saramago. Não é um prémio para a literatura portuguesa. Convém reafirmá-lo: é para José Saramago, para o autor de “Memorial do Convento”, “Levantado do Chão”, “Viagem a Portugal”, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, “Ensaio sobre a Cegueira”, ou “Todos os Nomes”. O trabalho de um escritor é um acto solitário. Nele se defrontam os demónios pessoais, a fé e a falta de fé, o destino individual e o mundo que passa pelas suas páginas.”

As primeiras páginas da “Ler”, são preenchidas com fotografias de José Saramago e afirmações suas em entrevistas, e publicadas em diversos órgãos de comunicação. Assim:


“Eu sei que aquilo que eu escrevo já foi escrito antes, como tudo o que hoje fazemos, salvo raras excepções, já foi feito há muito tempo, antes de nós. Tudo é assim na vida, na literatura tambén"– “Ler”, 1989

“Sou favorecido porque tive uma espécie de adolescência prolongada. Entrei pela vida adulta como se tivesse conservado um ar de adolescente. Isso traduz-se, também, numa certa forma de olhar. Olho as coisas como se os meus olhos não estivessem habituados a isso.” – “Ler”, 1989

“Para se ser ateu como eu sou, deve ser preciso um alto grau de religiosidade. Pode pensar-se que, como não crente, não tenho direito nenhum de me apaixonar por uma figura como a de Jesus Cristo. Não estou de acordo. Qualquer escritor, todo o escritor, deveria, um dia confrontar-se com a figura de Jesus Cristo.” – “Ler”, 1991

“Quais são os meus autores preferidos? Montaigne, Cervantes, o Padre António Vieira, Gogol e Kafka”
– “ABC”. 1998


“Quero recordar que se tivesse morrido aos sessenta anos, não tinha escrito nada. Quero que os jovens saibam que nós, velhos, estamos aqui para trabalhar.” – “El País”, 1998

sábado, 31 de julho de 2010

O NARRADOR COMO PERSONAGEM


Exemplar do nº 38, da revista “Ler”, referente à Primavera/Verão de 1997, e editada pelo “Círculo de Leitores”.

Contém um ensaio de José Saramago: “O autor como narrador”:


“Abandonando qualquer precaução retórica, o que aqui estou assumindo, afinal, são as minhas próprias dúvidas e perplexidades sobre a identidade real da voz narradora que veicula, nos livros que tenho escrito e em todos quantos li até agora, aquilo que derradeiramente creio ser o pensamento do autor. E também me pergunto se a resignação ou indiferença com que os autores de hoje parecem aceitar a “usurpação”, pelo narrador, da matéria, da circunstância e do espaço narrativos que antes lhe eram pessoal e inapelavelmente imputados, não será, no fim de contas, a expressão mais ou menos consciente de um certo grau de abdicação, e não apenas literária, das suas responsabilidades próprias”


Também neste número, José Augusto Mourão”, num texto intitulado “A Litote do Insuportável”, regressa ao “Ensaio Sobre a Cegueira”:


“Saramago, como a sentinela bíblica, anuncia a noite que cai: tudo vai mal. Viagem ao mundo concentracionário do escritor com passagem pelo tema das alegorias por uma discussão acerca dos géneros literários e paragem algures pelo lugar-comum do “mal sentido” e pelo desejo utópico de felicidade, tudo com um guia que cruza textos para procurar o sentido. Pedagógico, “porque é quando o mundo se faz imagem – o saber publicitado, o sagrado dos congressos e do desporto, as artes plásticas – que a cegueira cobre o mundo do seu véu de cinismo e de desaparição. O triunfo do audiovisual é afinal o triunfo do simulacro.”

sexta-feira, 30 de julho de 2010

TENHO O PARTIDO QUE TENHO



Exemplar do nº 16, da revista “Ler”, referente ao Outono de 1991, e editada pelo “Círculo de Leitores”.Contém uma entrevista, a José Saramago, feita por de Francisco José Viegas.

“Não abdica do ideal comunista, escreveu um livro (a publicar em Novembro próximo) sobre a vida de um Cristo imaginado humano. “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, a lançar pela Editorial Caminho, é, em simultâneo, uma biografia de Jesus e do seu tempo, e uma reconstrução das suas ideias e obras, antes de o cristianismo as deter e reter para si, Uma vida apaixonante de Cristo, de Deus, de Maria e de S. José, por José Saramago.”Aborda-se “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” mas, quando a entrevista foi concedida, viviam-se dias agitados na URSS, um golpe pretendia pôr em causa a “Perestroika.” Francisco José Viegas não perde a oportunidade de saber o posicionamento de Saramago sobre esses acontecimentos, bem como em relação à sua militância como membro do PCP.

“As suas actividades políticas não o impediram de escrever nos últimos dois anos?

“Não nunca me interromperam o trabalho, para já porque as minhas actividades políticas estão, neste momento reduzidas a nada. Além do mais, o meu partido, o PCP, entende que eu não tenho que ser distraído do meu trabalho com actividades políticas mais imediatas.
É possível a sobrevivência do comunismo?

Acho que sim. Repare, a ideia, o ideal comunista não nasceu ontem, não nasceu com Lenine, com Marx. Acompanhou o homem desde o início de tudo. Desde o início dos tempos… o facto de os recentes acontecimentos na URSS apontarem claramente para um caminho que se situa fora da área do comunismo não quer dizer que o comunismo tenha acabado. O modelo falhou não tenho dúvidas. É mais do que óbvio. Podemos dar-lhe os nomes que quisermos, socialismo científico, socialismo real, mas os factos estão aí, a dizê-lo e a prová-lo claramente: o modelo real falhou. Este era um dos modelos possíveis. Mas penso que o ideal não morre.
(…) Eu tenho o partido que tenho, e não tenho outro. Se estou dentro, tenho de enfrentar todas as consequências. Na minha relação com o PCP não entro em conta com a minha “base social de apoio” (a expressão é do Eduardo Prado Coelho) enquanto escritor, ou cidadão. Se tiver de acontecer que o facto de o PCP não ter feito a sua “perestroika” afecte a minha vida pública como escritor, não é por isso que deixo o meu partido. Não, não deixo o partido.”

quinta-feira, 29 de julho de 2010

UMA TERNURA PELOS PERSONAGENS FEMININOS

Exemplar do nº 6, da revista “Ler”, referente à Primavera de 1989, e editada pelo “Círculo de Leitores”.

Contém uma entrevista, a José Saramago, feita por de Francisco José Viegas.

José Saramago acabara, então, de publicar “História do Cerco de Lisboa”.

“Ao longo dos seus livros construiu dezenas de personagens, mas nota-se sempre uma ternura maior pelos personagens femininos. Está de acordo?”

Sim, sim. No caso dos meus romances, os personagens femininos são aqueles que eu mais quero, que eu prefiro. Os homens, nesses romances, são sempre, ou quase sempre, não diria pobres diabos, mas gente menor… No “Levantado do Chão” os homens têm ainda força (talvez devido a uma espécie curiosa de machismo alentejano que vai desaparecendo em favor de uma força crescente das mulheres, de geração para geração). No “Memorial do Convento, repare, à frente da Blimunda, não há Baltasar que se aguente… O Ricardo Reis, ao pé de Lidia, é apenas, um pobre heterónimo…

E no caso da “História do Cerco de Lisboa”?

Aí, a força está nas mulheres… Claramente das mulheres. Isto não é uma atitude feminista – deve-se ao facto de eu crer que elas são realmente, fortes, que têm muito para dar. E porque eu gosto muito delas… Acho que, para não cair na frase “la femme est l’avenir de l’ homme” – que é uma coisa mais vazia do que à primeira vista se possa pensar ou dizer – eu penso que elas têm mais autenticidade e mais generosidade que nós. Valem mais que nós, homens. Na verdade, daquilo que é substancial e essencial na vida, aprendi pouco com homens e aprendi muito com as mulheres. Não por idealizações. É o ser humano inteiro, aquilo que elas são… Bom, algumas, eu sei, não são nada disto…”