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sábado, 13 de março de 2021

POESIA & POESIA


Poesia pró coração
poesia procuração
poesia rissóis pra fora
poesia para a velhice
para atrasados mentais
e também prá parvoíce

poesia libidinosa
para acordar os chéchés
e pra outras coisas mais

a poesia cor de rosa
para corações doentes  
de donzelas suspirosas
rosas rosas amarelas

poesia clorofilada
para lavagem de dentes

poesia para o natal
expressamente encomendada
e poesia natalícia
pró menino dos papás
a poesia necrológica
dum velhinho trucla zás

a poesia só formal
porque o poeta coitado
tem o vício de escrever

a poesia cautelosa
porqu'isto nunca se sabe

a poesia fadunchada
e uma fadista aluada

a poesia da borbulha
que passa depois daquilo

poesia obrigada a mote
a cavalo num poeta
sentado num burro a trote

a poesia pra que conste
dum poeta muito muito
muito muito muito bicha

poesia quinquagenária
duma jovem rapariga

poesia bordada à mão
dum ancião já sem pé

a poesia ao pé da mão
a poesia ao pé do pé

poesia encapada   capada

Poesia pra tudo
poesia pra nada


Mendes de Carvalho em Poemas de Ponta eMola

quinta-feira, 26 de março de 2020

CANTIGA DO POBREDIABISMO DE CAFÉ


Intelectuais reconhecidos pelo notário
poetas muitos reconhecidos pela família
romancistas traduzidos lá fora cá pra dentro
o dr. bastante burro que faz mal às musas
o escultor que tacteia a senhora escultural
o ensaísta amigo das poetisas lusas
o crítico ficheiral arrumado responsável
irresponsável vespertinamente às quintas-feiras
a viúva abundante devoradora de miúdas
pequenas com muito jeito pró teatro e tudo
mancebos beija aqui beija ali beija acolá e nada
o tatebitatismo do senhor que foi ministro
o fotógrafo de arte que tem dentes postiços
a postiça menina que se atira à dentadura
o profissional contador de anedotas
e a anedota que se conta da esposa
a antiga casta susana entre os velhos
os velhinhos entre a vida e a morte
os artistas suburbanos da amadora
antologistas do verso erótico dos amigos
o declamador nortenho de pronúncia ainda lá
três inventores e meio da filosofia nacional
muitos pintores que chateiam as paredes
muitos senhores que teimam tinta e papel

e se houvesse justiça tinham pena capital


Mendes de Carvalho de Cantigas de Amor & Maldizer em Satírica

sábado, 1 de fevereiro de 2020

UM POEMA DE CAFÉ


Sentadinhos à mesa do café
alguns intelectuais do dito
resolvem tu cá tu lá os males
deste caótico mundo.
Um sujeito sentado a um canto
lê guloso dez tostões de alegria
num jornal fabricado de propósito
por velhos mal humorados
com direito a reforma por inteiro.
Um homem com ar de asceta
metido num grosso volume
dum filósofo compendiador
do pensamento luso-europeu.
Uma dama espadaúda
faz colagens num rapaz mimoso.
Um recém-licenciado
é muitíssimo doutorado ao telefone.
Um criado procura a espinha dorsal
perdida em trinta anos de serviço efectivo.

Mendes de Carvalho de Camaleões &Altifalantes em Satírica

quarta-feira, 18 de abril de 2018

ATENÇÃO


         O atravessamento é de inteira responsa-
          bilidade dos peões que deverão assegurar-se
          previamente de que nenhum comboio se
          aproxima. Art. 76 do Decreto-lei nº 3978

De sua inteira responsabilidade
assegurou-se previamente
de que o comboio se aproximava
de sua inteira responsabilidade
tomou a grande a traiçoeira decisão
de escolher matematicamente a hora
da morte em contravenção

Mendes de Carvalho em Satírica

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

PONTO NEVRÁLGICO


Às cinco horas da tarde
sobe-se e desce-se o Chiado
bebe-se chá no Chiado
bebe-se o ar do Chiado
come-se nas montras do Chiado
conversa-se no Chiado
conversa-se do Chiado
literatura-se no Chiado
figura-se no Chiado.

Chiada-se.

Mendes de Carvalho em Satírica

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

QUOTIDIANO PERDIDO


O tabaco e o vinho
não resolvem
mas outro dia

Agora
o que me falta
rigorosamente
és tu

sem literatura

O poema é morfina
                 não cura

Os sinais que deixaste na cama
a presença do teu corpo singular
a tua mão na minha ao adormeceres
o deitar o vinho no teu copo
o gesto teu de acender o cigarro
as palavras nervosas tranquilas
tudo quotidiano
necessário
sem rotina

Os meus cinco sentidos
te reclamam
exactamente como és

sem tirar nem pôr
da cabeça aos pés

Tu és o meu dicionário
sem ti tropeço nas palavras

noite a noite
iludo no vinho
o meu vocabulário

Mendes de Carvalho em Poemas de Ponta e Mola

Legenda: fotografia de Steve Almond

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Satírica

Mendes de Carvalho
Introdução de Serafim Ferreira
Círculo de Leitores, Lisboa, Março de 1974

Arte de Bem Comer

Há quem coma com todo o requinte
quem coma entornado no prato
os que comem sempre a mesma coisa
há quem viva só para comer
 ou coma para aguentar os ossos
quem roa os ossos quem roa as unhas
quem coma sempre no dia seguinte
quem engula depressa devagar
quem coma de pé sentado deitado
os que mastigam com a boca aberta
 e os que não podem abrir a boca
há quem coma bicos de papagaio
quem coma aquilo que não quer
quem coma sonhos e coma flores
quem coma água e palite os dentes
quem tenha mais olhos que barriga
ou tanta barriga que ande de cor
quem coma tudo quem não coma nada
quem coma difícil com dentes postiços
 e quem tenha dentes e não tenha nozes
quem coma no ritz quem coma porrada

Não se deve viver sem mastigar

Nas várias maneiras de bem ou mal comer
a arte maior é comer e calar

sábado, 25 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Poemas de Ponta & Mola

Mendes de Carvalho
Editorial Futura, Lisboa, Abril de 1975

POEMA DE ABRIL

No silêncio da noite
a palavra
(a)guardada

No silêncio da noite
a palavra
libertada

No silêncio da noite
transmitida
a palavra

No meu país cinzento
no meu país sofrido
mártir
prisioneiro
e atraiçoado

a palavra alastra
e voa
a tua palavra
meu povo
penitente
sem pecado

tinhas um cravo de sangue
um cravo de medo
um cravo de morte
um cravo de sal
cravo de terror
cravo de caxias
cravo de peniche
e tarrafal

Na manhã de Abril
um cravo encarnado
nasce no peito
aberto
dum soldado

Na cidade na aldeia
nas praças nas ruas
irrompe liberta
uma flor de força
e de combate

um cravo-país-amor