Um velho recorte de uma crónica de António Guerreiro publicada no Público de
10 de Setembro
de 2021
Ao
passar os olhos pela Loja Frenesi, vi que a 2ª edição
de
Levantado do Chão de José Saramago está à venda.
Paulo
da Costa Domingos, há longo tempo, proprietário da Frenesi, adianta:
LEVANTADO
DO CHÃO
JOSÉ
SARAMAGO
capa e arranjo gráfico de José Araújo
Lisboa, 1983
Editorial Caminho
4.ª edição
210 mm x 137 mm
368 págs.
exemplar estimado; miolo limpo
VALORIZADO PELA DEDICATÓRIA MANUSCRITA DO AUTOR
95,00 eur (IVA e portes incluídos)
«É o livro charneira na obra do escritor. Antes, independentemente das suas
qualidades reconhecidas entre pares na arte, era um escritor encurralado por um
crónico reduzido número de vendas; o vertente romance projectá-lo-á entre os
leitores vulgares de Lineu, trazendo-lhe uma justa admiração crescente. A
controvérsia que sempre os seus romances causaram – a pontos de um ministro de
Estado passar a ser conhecido pela triste figura de ignorante que fez ao vetar
a candidatura de Saramago a um prémio literário – radica apenas no preconceito
ideológico contra as vozes de um partido político. No geral os seus adversários
nunca o leram, porque a maior homenagem a um escritor é ser lido.
Do vertente livro disse a professora universitária Maria Lúcia Lepecki:
«[...] Construído numa dignidade de linguagem de todo invulgar, numa beleza
conteudística e formal quase dolorosa, espelho do modo afectivo e inteligente
como José Saramago está no mundo enquanto homem político e intelectual, Levantado
do Chão é, mais que envolvente, avassalador. Uma força da natureza, se
tal é lícito chamar a um produto cultural.»
Esta 4.ª edição ainda apresenta impresso na portada um núcleo de dedicatórias,
encimado por «À Isabel [da Nóbrega], sempre», que o escritor fará desaparecer
em posteriores reedições.»
Este
pormenor das dedicatórias que José Saramago retirou, a partir de um certo tempo,
retirando o nome de Isabel da Nóbrega para passar a colocar Pilar del Rio, tem
servido a muito boa gente para desmerecer o nome de José Saramago.
Saramago
pronunciou-se por várias vezes sobre o assunto, garantindo que as dedicatórias
fizeram sentido na altura em que essas edições foram publicadas. E essas
edições, já esgotadas, permanecem em sintonia com as inclinações amorosas da
altura, o tempo em que os livros foram escritos.
No
Cais, aqui e aqui, tratámos o assunto.
Em
19 de Setembro de 2021, na sua crónica no Ipsilon, do jornal Público,António
Guerreiro citava uma observação, a propósito das dedicatórias, feita por Joana
Mourão Carvalho:
Saramaguiano que sou, tento alhear-me destas miudezas, porque sabe-se que as paixões são o que são, e o importante está na obra de José Saramago.
Tentado
que estive a colocar uns comentários, acabei por desistir.
Sou
um saramaguiano à minha maneira.
Nunca
fui coleccionador de primeiras edições, nunca frequentei lançamentos de livros
e apenas tive um brevíssimo diálogo com José Saramago na Festa do Avante de 1977, e nesse dia fiquei com o único autógrafo que pedi e se encontra no livro O Ano de 1993.
Contudo,
se tenho primeiras edições dos livros de Saramago, é porque me apressei a
comprá-los para os poder ler, e apenas por isso.
Não
conheço o trabalho da jornalista Christina Martins. Já há um bom tempo deixei, por
motivos de higiene, de ler o Expresso. O que António Guerreiro, escreve na
sua crónica do Público, serve para memória futura.
Para
além dos livros de Saramago, tenho vindo a comprar obras de autores que tratam
da obra e do cidadão José Saramago.
É
o caso de Um País Levantado em Alegria de Ricardo Viel, publicado por
ocasião dos 20 anos sobre a atribuição do Nobel a Saramago.
Para
amenizar a azia que me saltou, poderia recorrer a uma Rennie, mas peguei neste
livro e copio do prefácio de Eduardo Lourenço:
«O merecido sucesso de José Saramago coroa um destino de escritor que deve tudo à violência da sua vontade de escalar os céus, sem pressa, dando tempo ao tempo. José Saramago pertence a uma linhagem mais rara do que se julga, a dos que escrevem depois de ter vivido. E à mais rara ainda, sobretudo na nossa tradição, de não ceder à natural tentação de se vingar da vida, do mundo, da História, glosando compulsivamente a sua experiência subjectiva e fazendo girar o mundo à sua volta.»
Onde
é que aqui entra o pormenor de Isabel da Nóbrega ensinar José Saramago a comer
com faca e garfo?
Valham-nos os deuses todos, mas todos mesmo, do Olimpo!
Passados estão quase
30 anos sobre a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago.
Volta e meia volta a lengalenga de que Isabel da Nóbrega fez do labrego um senhor: «Se não fosse a Isabel, quem seria o Saramago, que nem saber comer à mesa.»
Agora foi um artigo/reportagem publicado no Expresso, assinado por Christiana Martins.
O velho Luiz Pacheco é que os topou bem:
«Aí a raiva de muita gente não foi contra o escritor –
que não lêem – nem foi contra o próprio Saramago - que não conhecem de parte
nenhuma -, foi contra o comunista que ganhou o Nobel. E também contra o gajo
que ganhou cento e tal mil contos! Inveja em estado puro.»
A Mulher Na Sociedade Portuguesa
Ciclo de Colóquios na
Faculdade de Direito de Lisboa
Textos de:
Isabel da Nóbrega,
José Esteves, Natália Nunes. Sérgio Ribeiro, Sophia de Mello Breyner Andresen,
Urbano Tavares Rodrigues e outros
Capa: Miguel Flávio
Colecção Caderno de
Hoje nº 8
Prelo Editora,
Lisboa, Maio de 1969
Pois não existe o problema da mulher, mas sim o problema da humanidade.
E é por isso que o Feminismo é um caminho errado e já ultrapassado. Aliás
sempre à roda da mulher se criaram falsos problemas.
(Da intervenção de Sophia Mello Breyner Andresen).
Ferveu. Thermos. Copo.
Frasco. Colher de chá. Tudo na bandejinha. Permanente, esta interrogação. Não
me agarro a certezas. Estou sempre pronta a rever as minhas ideias. Mas não me
integro em nenhum meio. Não lhes pertenço. Porquê? A sensação, por vezes, de me
desintegrar… Oh, Henrique…»
- pronto. A bandejinha. Afasta o candeeiro.
– Lá fora, apagaste a
luz, amor?
– Apaguei.
– E fechaste o gás, meu
amor?
– Sim, fechei.
- Mas há uma porta que
range… Tinha de ser…
– Eu vou fechá-la,
amor, eu vou já ver. – Era a porta da varanda. Abri-a de par em par. A fresca
noite entrou. É noite. É Junho, amor, e estamos vivos. E não estamos sozinhos.
Oh, esta alegria de não estarmos sós.
Guardo da infância as quentes noites de Verão, lembro a
miudagem a correr nas ruas, e as pessoas vinham para a porta da rua conversar,
outras ficavam à janela, as pessoas conheciam-se, falavam, por vezes
zangavam-se, outros iam para os jardins, ficavam pelos bancos ou bebiam
cervejas e capilés nas leitarias do bairro.
A televisão viria a destruir o feliz convívio das gentes
simples do meu bairro. As pessoas fecharam-se nas casas. E passámos a não saber
nada uns dos outros, como numa peça de teatro de Peter Handke.
«Pelos Santos Populares organizavam-se bailes de rua
«abrilhantados» (era assim que se dizia) por agrupamentos musicais de corda:
banjos e bandolins, violas. Chamavam-lhes «trupes-jazz», e tocavam as canções
da época: sambas e boleros, e alguns tangos. Mas começavam sempre por valsas.
Eu ficava-me por ali, feito tolo, a observar os dançarinos. Bem gostaria de me
recostar a uma rapariga, e sentir o perfume do seu corpo, mas não sabia dançar,
e era melhor estar parado do que fazer figura de tolo ainda maior.»
Baptista-Bastos
em A Bolsa da Avó Palhaça
Eu passava a saber que, para além de poeta, Saramago era um cronista. O volume reúne crónicas
publicadas em A Capital e no Jornal do Fundão.
É neste volume que surge
a primeira dedicatória à escritora Isabel da Nóbrega.
Numa carta, datada de 7 de Junho de 1968, Saramago escreve a José Rodrigues Miguéis:
« A minha falta
de notícias, essa, liga-se a problemas de ordem particular que me têm posto o
juízo em água. Tanto tempo andei a dar na ponta de uma agulha, que por fim
acabei por me empalar nela… Se um tal estado e uma tal situação são compatíveis
com a disponibilidade de espírito necessária para escrever cartas – deixo isso
ao seu critério… Não queira saber o que tem sido (e continua a ser) a minha
vida!»
Volto às cartas de Saramago para Miguéis:
«E peço-lhe que não faça caso da aridez desta carta: ontem deu-me para recordar o meu avô camponês – e fiquei assim: amargo. Felizmente para a literatura portuguesa deu crónica… Manha de literato, defeito de escriba: tudo acaba por se transformar em literatura…»
Também por um comovente
discurso em Estocolmo com o Prémio Nobel como pano de fundo.
Da crónica de Josefa:
«Estou diante de ti e não entendo. Sou da tua carne e
do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este Mundo e não curaste de saber o
que é o Mundo. Chegas ao fim da vida, e o Mundo ainda é, para ti, o que era
quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não
fazia parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal, a que em cinco
minutos se dá a volta, uma casa de telha vã e chão de terra batida.»
Da crónica de
Jerónimo:
«Mas a imagem
que me não larga é a do velho que caminha sob a chuva, obstinado e silencioso,
como quem cumpre um destino que nada pode modificar. A não ser a morte. Mas,
nesta altura, este velho, que é meu avô, ainda não sabe como vai morrer. Ainda
não sabe que poucos dias antes do seu último dia vai ter a premonição (perdoa a
palavra, Jerónimo) de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu
quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, dos frutos que não voltará a
comer, das sombras amigas. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a
memória o não fizer ressurgir no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e a
interrogacão das estrelas. Só isto — e também o gesto que de repente me põe de
pé e a urgência da ordem que enche o quarto aquecido onde escrevo.»
«O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de
morrer!»
«Bem sei que os tempos, aqui para nós, não vão para crónicas.
Dividido entre o título da primeira página e o boletim meteorológico (ou não9,
entre as notícias do estrangeiro e as novidades locais – o leitor afasta os
olhos carregados de preocupações ou com bilhete para as evasões possíveis.
Crónicas, que são? Pretextos ou testemunhos? São o que podem ser…» (página 49).
Uma crónica notável, O Sapateiro Prodigioso que, em findar de texto fica assim retratado:
«É um homem interessado que vive numa aldeia
e tem uma loja com um horizonte de plátanos que se arrepiam à noite, quando o
céu se cobre de estrelas. (página 24).
Só eu era um freguês de todas as horas.» (página 22)
Outras crónicas, outros sublinhados:
«Ninguém sabe nada de si antes da acção em que tiver de
empenhar-se todo. Não conhecemos a força do mar enquanto ele não se move Não
conhecemos o amor antes do amor.» (página 11).
«A história das pessoas é feita de lágrimas, alguns risos, uma tantas pequenas alegrias e uma grande dor final.» (página 21).
«Estarmos vivos é já em si uma vitória. A vida é
breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver.» (página 39).
Uns
trastes voltarão a bolsar:
«Ela fez dele, que era um labrego, um
senhor. Se não fosse a Isabel, quem seria o Saramago, que nem sabia comer à
mesa?»
Deixá-los
ladrar!
Recorde-se
dois textos por aqui publicados:
Um
no dia 27 de Junho de 2015:
«As
paixões acontecem, não se explicam.
Jorge
Amado no seu livro memorialista, Navegação de Cabotagem:
«As
reedições de meus livros saem iguais às primeiras, apenas as gralhas vão em
constante aumento, Paloma, que os andou relendo para saber o que os personagens
comem, me informa que os erros gráficos se contam aos milhares. Tampouco jamais
buli nas dedicatórias, também elas datadas – mesmo em se tratando de pessoas a
quem deixei de estimar nem assim lhes retirei o nome da oferenda mesmo se
retirei o indivíduo do meu bem-querer. Refiro-me, é claro, às edições
brasileiras, as traduções fogem ao meu controlo. Lá estão os nomes todos, um a
um – quando escrevi o livro estimava os admirava fulano a quem o dediquei, se
depois ele se revelou calhorda, o nome permanece na dedicatória datando a
escrita e a ingenuidade do autor.»
José
Saramago não teve este entendimento.
Desde
que conheceu Pilar, as novas edições dos livros, antes dedicados a Isabel da
Nóbrega, passam a não ter essa indicação.
Num
lamento, Isabel da Nóbrega disse que foi uma atitude que não era preciso tomar.
Segundo
o jornalista Luís Leal Miranda (jornal I
de 26 de Junho de 2010), Saramago pronunciou-se por várias vezes sobre o
assunto, garantindo que as dedicatórias fizeram sentido na altura em que essas
edições foram publicadas. E essas edições, já esgotadas, permanecem em sintonia
com as inclinações amorosas da altura.
Num
outro registo, Saramago salientou que as dedicatórias permanecem nas edições
correspondentes ao tempo em que os livros foram escritos.
A história é conhecida.
Depois
de ler livros de José Saramago, principalmente O Ano da Morte de Ricardo Reis,
a jornalista espanhola Maria del Pilar ficou como que encantada.
«Senti
que tinha de agradecer ao autor os livros que me tinha dado a ler. E sobretudo
dizer que tinha tratado os seus leitores como seres inteligentes. Tinha-me
sentido respeitada como leitora e quis agradecer-lhe.»
Veio
até Lisboa e conseguiu uma conversa com Saramago.
Tal
como na sinfonia de Beethoven, ambos terão sentido o destino a bater-lhes à
porta.
Sabe-se
o que aconteceu.
Desde
então, os livros de José Saramago deixaram de ser dedicados à Isabel para
passarem a ser dedicados a Pilar.
Os
dois primeiros livros de José Saramago, Terra
do Pecado (1947), Os Poemas Possíveis
(1966), não têm qualquer dedicatória.
Mas
em Provàvelmente Alegria já se revela
uma leve indicação do que serão as dedicatórias futuras:
«Para
tão grande amor tão curta a vida.»
Cheguei
tarde ao encontro deste verso,
Outro
o escreveu por mim, mas dele tomo,
Como
rosa colhida que te ofereço.
Em
Deste Mundo e do Outro (1971), algo
um pouco mais especifico:
Não
se dirá aqui o nome. Mas da sua exaltação nasceu este poema, do seu rigor esta
autobiografia, da sua verdade esta meditação e basta.
Mas
é com o livro seguinte, A Bagagem do
Viajante (1973) que o nome finalmente surge e que, por diversos livros,
José Saramago manterá:
Dir-se-á
desta vez aqui o nome. Pelas mesmas razões da exaltação, do seu rigor e da sua
verdade. E porque estes dias são mais exaltantes ainda, mais rigorosos e de uma
verdade que já é unidade inultrapassável. Isabel.
Seguem-se:
As
Opiniões que o DL Teve
(1974):
Para a Isabel e para os meus amigos.
O Ano de 1993 (1975):
Para
a Isabel. Este livro, o antes e o depois dele, todos os passos e todos os
gestos, todas as palavras ditas e as que estão por dizer. Assim. Mesmo que o
tempo não entenda já de coisas como esta.
Os
Apontamentos
(1976):
À
Isabel, este livro e todos.
Aos
trabalhadores do «Diário de Notícias» que foram o meu apoio e a primeira
justificação de quanto escrevi.
Manual
de Pintura e Caligrafia
(1976):
Para a Isabel, tão inseparável deste livro como da minha vida.
Objecto
Quase
(1977):
Para a Isabel, porque me disse de que lado está a vida.
A
Noite
(1979)
À Luzia Maria Martins, que me achou capaz de escrever esta peça.
À
Isabel
Levantado
do Chão
(1980):
À
Isabel sempre.
A
João Domingos Serra e João Besuga, e também a Mariana Amália Besuga, Elvira
Besuga, Herculano António Redondo, António Joaquim Cabecinha, Maria João
Mogarro, João Machado, Manuel Joaquim Pereira Abelha, Joaquim Augusto
Badalinho, Silvestre António catarro, José Francisco Curraleira, Maria saraiva,
António Vinagre, Bernardino barbas Pires, Ernesto Pinto Ângelo – sem eles não
teria sido escrito este livro.
À
memória de Germano Vidigal e José Adelino dos Santos, assassinados.
Que Farei Com Este Livro? (1980):
À Isabel cada vez mais.
Viagem
a Portugal
(1981)
A
quem me abriu portas e mostrou caminhos, à companheira constante que tantas
vezes disse. «Repara» - e também em lembrança de Almeida Garrett, mestre de
viajantes.
Memorial
do Convento (1982):
À
Isabel, porque nada perde ou repete, porque tudo cria e renova.
O
Ano da Morte de Ricardo Reis
(1984):
À
Isabel, outro livro, o mesmo sinal.
A
Jangada de Pedra
(1986)
Sem
dedicatória
A
Segunda Vida de Francisco de Assis
(1987):
Sem
dedicatória.
A
História do Cerco de Lisboa
(1989) é o primeiro livro em que aparece Pilar:
A
Pilar
A partir daqui todos os livros serão dedicados a Pilar.
Em As Pequenas Memórias (2006), pode ler-se:
A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar.
Todo
o ser humano é falível.
Felizmente!
Em
1944, José Saramago casa com a pintora Ilda Reis.
Entre 1954 e 1964, Isabel da Nóbrega viveu com o crítico João Gaspar Simões, que nunca perdoou ter sido trocado por um obscuro jornalista e tradutor.
A
relação com Saramago durará de 1970 a 1976.
Pelo
próprio Saramago fica a saber-se que Isabel da Nóbrega lhe abriu portas e novos
caminhos.
Completamente
despropositado e idiota existir quem defenda que foi Isabel da Nóbrega quem ensinou
José Saramago a escrever.
Antes
de Isabel, Saramago já era escritor.
O outro texto foi publicado a 28 de Junho de 2015:
«Na Cronobiografia de
José Saramago, preparada por Fernando Gómez Aguilera, pode ler-se:
1970
Começa a viver com a escritora Isabel da
Nóbrega, relação que durará até 1986.
Contudo, a
atracção de Saramago por Isabel, ou vice-versa, é anterior a 1970.
No índice Onomástico da Correspondência trocada
entre José Rodrigues Miguéis e José Saramago, há três entradas para Isabel da
Nóbrega.
Em nenhuma delas o seu nome aparece, mas
poderá concluir-se que se o pormenor é citado no Índice motivos
existirão, e a isso não será alheio o desejo do autor que assim fosse.
Vejamos:
Desculpe esta secura. Esta carta, embora
pequena, foi interrompida várias vezes por questões tão comezinhas que até
fazem raiva.
(Carta datada de 31 de Julho de 1961)
Leu já a «crítica» que o Gaspar Simões
fez ao seu livro (A Escola)? Tardou mas arrecadou, benza-o Deus! Por que bulas
é aquele homem crítico literário, e influente, é que eu não entendo. Ou o homem
é estúpido, ou não sabe ler. Ou será as duas coisas? Duma coisa estou eu certo:
é da maldade dele. Porque se aquilo não é maldade, então só vejo outra saída:
senilidade, que, como todos sabemos, às vezes refina na velhacaria.
(Carta datada de 4 de Novembro de 1961)
Uma carta minha, depois de todo este
tempo de silêncio, deve causar-lhe uma impressão de revenant. Em
certo sentido, essa impressão é justificada, poi tanta coisa se passou na minha
vida, nestes últimos meses, que eu próprio chego a pensar se não terei morrido
mesmo – e ressuscitado. Não estive doente, pelo menos no sentido usual da
palavra, não tive médico à cabeceira nem termómetro ao canto da boca, mas
estive prestes a destruir toda a minha futura, sabe-se lá de que maneira e com
que consequências. Para abreviar: saí de casa, deixei a família, atrás de uma
miragem em figura de mulher – que são sempre as piores miragens. Felizmente que
o bom-senso e a descoberta de que a razão verdadeira da minha vida estava,
afinal, naquilo que estaticamente deixara. Tudo se recompôs, é certo, mas
depois de tanto sofrimento (sofrido e infligido) que ainda me espanta agora
como estou são de espírito.
Com tal situação, que se arrastou durante meses, não prejudiquei apenas a minha vida particular e a dos meus. Os meus deveres na editora foram um pouco esquecidos, e devo à amizade e compreensão dos nossos amigos Canhão e Correia o não estar agora numa situação difícil.
(Carta datada de 19 de Setembro de 1962)
Morreu
a escritora e jornalista Isabel da Nóbrega.
Tinha
96 anos.
Um
trabalho intenso em jornais e revistas, fazendo parte do grupo fundador do
jornal A Capital.
Como
romancista, destaque para o romance Viver
Com os Outros.
- Lá fora apagaste a luz, amor?
- Apaguei.
- E
fechaste o gás, meu amor?
- Sim, fechei.
- Mas há uma
porta que range... Tinha de ser...
- Eu vou fechá-la, amor, eu vou já ver. Era a porta da varanda. Abria-a de para em par. A fresca noite entrou. É noite. É Junho, amor, e estamos vivos. E não estamos sòzinhos. Oh, esta alegria de não estarmos sós.
Sou um leitor compulsivo.
Não preciso de grandes sinais para
comprar um livro: pela capa, pelos começos, pelos finais, por tudo e mais
alguma coisa.
Lembro-me que comprei Viver com
os Outros da Isabel da Nóbrega pela leitura da parte final do discurso
que Mário
Dionísio proferiu no jantar da atribuição do Prémio Camilo Castelo Branco de
1964.
No meio de imensa papelada, fui dar com
esse pedaço de recorte.
Comovi-me.
Já agora: numa carta, datada
de 20 de Março de 1966, José Saramago escreve, a José Rodrigues Miguéis sobre
esse jantar:
Neste triste país, o sage é o homem calado que não quer conhecer ninguém nem quer que o conheçam. Há dias fui ao jantar da entrega do Prémio Camilo À Isabel da Nóbrega: é de morrer. Tanta impostura, tanta falsidade, tanto esforço para parecer mais inteligente que o vizinho, e sobretudo mais célebre. E tudo isto sob a capa de modéstia jesuítica, uma capa cheia de buracos de orgulho e inveja. E esta gente é a nata, e esta gente conduz, orienta, dá entrevistas, pontifica, tem opiniões acerca de tudo e de coisa nenhuma. E todos, seja qual for a cor da epiderme, têm um lema: «Hors l'église (notre église) pas de salut!» E com medo de não nos salvarmos, lá vamos para a sombra do campanário do vizinho, não vá acontecer que a salvação não esteja afinal onde a supúnhamos. Há excepções, claro, há gente digna, sem dúvida, mas a balbúrdia não deixa que as suas vozes se oiçam, e quando, através da confusão, do burburinho, se ouve uma voz honesta, responsável,logo a irmandade se faz, logo os campanários afinam os rebates - e enquanto o intruso não se cala, justos céus, é ver quem mais bate.