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quarta-feira, 29 de junho de 2022

POSTAIS SEM SELO


Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega sempre tarde de mais.

Joseph Conrad

terça-feira, 5 de junho de 2018

POSTAIS SEM SELO


Enfiei o livro no bolso. Garanto-vos que abandonar a leitura foi como furtar-me ao aconchego de uma velha e sólida amizade.

Joseph Conrad em Coração de Trevas

terça-feira, 8 de maio de 2018

POSTAIS SEM SELO


Tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega sempre tarde demais.

António Lobo Antunes, citando Joseph Conrad numa crónica na Visõo

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

sábado, 2 de dezembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Natal do Clandestino

José Rodrigues Miguéis
Capa e desenhos: Bernardo Marques
Estúdios Cor, Lisboa, Natal de 1957

Há cidades que parecem viver na intimidade dos dramas do mar; onde este está sempre presente, em convívio com os homens. E nada fala tanto ao coração errante e solitário, como este apelo eterno do mar junto dos cais.
Foi a um destes molhes meio esbarrondados que o navio atracou pela manhã de 24 de Dezembro, vindo do sol, do mar aberto e azul da África e dos trópicos: era um velho cargueiro esgalgado, de alta chaminé enfarruscada, com grandes remendos no casco a desfazer-se em ferrugem, e a linha de flutuação alguns palmos acima das ondas: uma dessas ruínas obscuras que singram vagarosamente os mares do mundo, coxeando, em busca de freguês, com roupas mal lavadas a enxugar pelos cordames e alguns marujos esquálidos acotovelados nas amuradas a olhar a terra estranha. Um destes navios que podiam ter inspirado um conto triste a Joseph Conrad ou Pierre Mac Orlan.
Trazia uma carga pobre e variada: óleo de palma, cocos, bananas em mau estado, amendoim, uns fardos de algodão, e um macaco mais ou menos domesticado, que adoecera em viagem e gemia numa cama de trapos, queixoso do inverno.
Vinha a bordo, também, um passageiro clandestino de que não rezavam os livros de navegação, um só, que não pagara a passagem, entregue aos cuidados cúmplices de um ou dois marinheiros: escondido nas entranhas gemebundas do calhambeque, num cubículo sem ara e sem luz junto às carvoeiras.

sábado, 16 de julho de 2016

OLHAR AS CAPAS


Coração das Trevas e No Extremo Limite

Joseph Conrad
Tradução: Margarida Periquito
Capa: Carlos César Vasconcelos
Relógio d’Água Editores, Lisboa, Janeiro de 2012

Todavia, como estão a ver, não fui fazer companhia a Kurtz nessa hora. Pois não. Fiquei cá, para sonhar o pesadelo até ao fim e para mostrar a minha lealdade a Kurtz uma vez mais. Era o destino! O meu destino! Que coisa engraçada é a vida, essa misteriosa trama de lógica implacável para se alcançar um objectivo vão. O mais que se pode esperar dela é um certo conhecimento de nós próprios – que chega demasiado tarde -, e uma safra de inesgotáveis desilusões. Lutei com a  morte. É a batalha menos empolgante que se possa imaginar. Desenrola-se numa atmosfera cinzenta impalpável, sem nada debaixo dos pés e nada à nossa volta, sem espectadores, sem clamor, sem glória, sem o grande desejo de vencer, sem o grande receio da derrota, num clima doentio de tíbio ceticismo, sem grande convicção na nossa razão e ainda menos da do nosso adversário. Se é dessa forma que o derradeiro ato de introspecção ocorre, então a vida é um enigma maior do que alguns pensam. A última oportunidade de me pronunciar esteve por um fio, e concluí, humilhado, que provavelmente não teria nada para dizer. É por isso que afirmo que Kurtz era um homem notável. Ele tinha alguma coisa para dizer. E disse-a.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros.

António Lobo Antunes em Quinto Livro de Crónicas

quarta-feira, 22 de abril de 2015

POSTAIS SEM SELO


O autor escreve apenas metade de um livro. A outra metade fica por conta do leitor.

 Joseph Conrad

Legenda: pintura de Jon Boe Paulsen

terça-feira, 3 de agosto de 2010

JOSÉ SARAMAGO NA FEIRA DO LIVRO DE BRAGA

Na sessão de abertura da Feira do Livro de Braga, realizada de 27 de Fevereiro a 14 de Março de 1959, foi lançado um livro sobre José Saramago que reúne textos, na sua maioria inéditos, de Baptista-Bastos, Carlos Reis, Clara Ferreira Alves, Helena Carvalhão Buescu, José Manuel Mendes, Luísa Lelliud-Franco, Maria Alzira Seixo, Vitor Aguiar e Silva. O livro integra, também, fotografias de anteriores passagens de Saramago pela Feira do Livro de Braga.

Este é o texto de Baptista-Bastos:

Tenho vivido entre livros e palavras, que são as esperanças concentradas de quem sempre realizou os seus sonhos, sonhando-os. Fui um capitão de mil e uma aventuras, porque encarnei tudo o que era personagem encantatório. O curioso de isto tudo é que, sendo um homem de palavras, e por elas existindo, frequentemente, fascinado e estonteado, os meus heróis foram mais os de o cinema do que os da literatura.
Houve, em mim, na minha longínqua adolescência, uma porção de Bogart, de Jeff Chandler (já ninguém se lembra deste), de Burt Lancaster, de Jean Gabib´n e de Jean-Paul Belmondo. Fui o ardentemente longo namorado e amante de Lana Turner, Ava Gardner, Veronika Lake e Joan Crawford: ah! aqueles olhos, aqueles seios!
Nos buques sou um invejoso sem remédio. Invejo Herman Hesse por ter escrito “Narciso e Goldmundo”: Joseph Conrad por ser o autor de “Lord Jim”; Hemingway, por “O Adeus às Armas”; Vailland por “Les Mauvais Coups”; Nabokov, por “Lolita:; Edmund Wilson, por “Rumo à Estação Finlândia; Lukacs pelos volumes de “Estética”; Marx, por “Crítica do Programa de Gotha”; Freud, pela “Interpretação dos Sonhos”.
Porém, a inveja maior que me assola é a de não ter escrito, pelo menos, quatro dos livros de José Saramago: “Todos os Nomes”, por causa de todos nós: “Memorial do Convento”, porque põe todos nós em causa; “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, porque a causa somos nós e a tristeza do existir no fascismo; “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, pela grandeza do áspero diálogo com o transcendente das causas.





Com mão diurna e mão nocturna viajo, amiúde, por essas páginas iluminadas que nos dizem dos pretextos, dos triunfantes júbilos, da geografia das almas, das batalhas incertas e das certezas das lutas. Mas a minha inveja é mansa; é só comigo; direi mesmo: benigna inveja. É a inveja do leitor que, de repente, através do outro, descobre que o outro abriu as escadas e franqueou as portas de um mundo que é dele, mas distribuído por quem dele se acerca. Os meus encontros com José Saramago sempre me reconduzem a um território de benevolência, de confraternidade, de inumeráveis descobertas.
Não dava a vida por nenhum livro que amo. Mas a minha vida não teria sentido sem aqueles livros e autores amados. Por exemplo: sem a lição exemplar da obra de Saramago, e da vida do autor, que com ela se conjuga e se associa. Se a obra de Saramago, escorada num edifício lexical admirável, no-lo diz que o sentido da vida é o de descobrir que a vida tem sentido, a vida de Saramago no-lo assevera que o homem, quando quer, consegue tudo quanto quer.