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quarta-feira, 1 de abril de 2026

TODOS OS MEUS AMIGOS VIAJAM SEMPRE EM 1.ª CLASSE...

Todos os meus amigos viajam sempre em 1.ª classe…

Pelo menos levam a cabeça em 1.ª classe.

 

Do Universo, vêm ter comigo

E me dizem:

“O senhor não pode ir aqui,

“O seu lugar não é aqui,

“O senhor tem que ir para a 3.ª classe do seu corpo

“ o senhor tem que viajar onde os seus olhos dizem

Sim, porque esta é que é a verdade;

Os meus olhos dizem sempre:

3.ª classe, 3.ª classe. 3.ª classe…

 

Um dia tive uma rapariga

Pareceu-me que ela era como eu,

Que viajava em 3.ª classe.

Gostava dela porque era macia

E boa para tudo quanto vivia.

Gostava dela porque acendeu duas luzes

Na minha 3.ª classe sempre tão escura,

Sempre tão 3.ª classe.

E ela viajou comigo muitas horas

Brilhantes de 1.ª classe.

Mas não.

Não… de facto ela viajava comigo

Porque não tinha mais ninguém.

 

Mário-Henrique Leiria de Poesia Édita, Inédita e Dispersa em Poesia

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

DÁ-ME

dá-me         amor

dá-me a folha de árvore

que guardaste na algibeira

pelo menos

dá-me o descanso de dormir

no meu próprio corpo

enquanto o pássaro

- qualquer pássaro –

deixa inesperadamente de cantar

e repousa

enquanto o diálogo

                  o nosso diálogo

se interrompe para que passem

as nuvens

nesse momento          precisamente nessa ocasião

dá-me o teu silêncio

e perguntas

não me faças        não me faças nenhuma

creio que agora é inútil.

 

Mário-Henrique Leiria em Poesia

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

CANÇÃO DO MUNDO NOVO

Entre eternos dias de poeira
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva

assim vamos quotidianamente

mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino

assim vamos quotidianamente

 

Mário-Henrique Leiria

terça-feira, 14 de outubro de 2025

DEIXA-ME PARA ALÉM DAS NUVENS

deixa-me para além das nuvens

no grande descanço das coisas mortas

esquecido

no centro da própria recordação do que se perdeu

levado pela crueldade

dos meus próprios dedos

deixa que tudo seja a sombra

dos rostos solitários

pelo sangue talvez sonho

mas nunca nunca

a solidão da realidade

deixa que o isolamento

do meu corpo

seja o teu próprio isolamento

que os meus lábios te vejam

mais uma vez

a última única primeira

talvez só para mim

dá-me aquilo que nunca te pedi

mas vai

vai só verdadeira.

 

Mário-Henrique Leiria em Poesia


quinta-feira, 2 de outubro de 2025

ESPERAR-TE

 esperar-te

esperar-te da mesma maneira solitária

com que se tem

saudades da paisagem numa vista

ficar incerto

- talvez desconhecido –

olhando as mãos vazias e inúteis

um cigarro somente

enquanto passam minúsculos animais

e o fumo te espera também

esperar

esperar apenas e não já esperar-te

esperar qualquer coisa

um rio que corra lentamente

um grande desastre de automóveis

o desmoronar da torre antiquíssima

um corpo que apareça de súbito

esperar

só por esperar

tanto pode ser que venhas

com que não venhas

que nunca venhas

depois

quando chegares

já eu parti.

 

Mário-Henrique Leiria em Poesia

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

EU SEI

eu sei
que há um lugar por descobrir
um lugar tenebroso e cantante
como a ponte dos velhos manequins


o teu corpo
dois seios despedaçados
e o vento só o vento
soprado através
dos teus cabelos

Mário-Henrique Leiria

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

DEIXA QUE EU QUEBRE TUDO

Deixa que eu quebre tudo que tenho e que terei
tudo o que é de todos e que só a mim pertence
deixa-me quebrar o cavalo que me deste
na noite do nosso primeiro encontro
deixa-me partir a bola o cão o espaço
deixa-me quebrar a minha casa e a minha cama
a minha única cama. . .
não o,uero que me contem a aventura
nem que me dêem almofadas
não quero que me ofereçam sombras
só por mim construídas e logo abandonadas
nem sequer esquinas de ruas
não quero a vida
sei claramente que a não quero
a não ser que ela esteja partida quebrada
quebrada por mim e por ti

e a minha infância
essa dou-ta
inteira muito longa e cruel
deixa que dela me fique apenas
essa crueldade
e que nela só eu siga
ignorando o que me deste
e que
martelo ou pedra
eu continue partindo quebrando
esfacelando dilacerando
o teu corpo que já não está ao meu alcance
deixa-me ser anatomicamente autêntico
sem êrro
sangrando
perdido para sempre

Mário-Henrique Leiria

quinta-feira, 10 de julho de 2025

RETORNO À MEMÓRIA

estar sempre com frio

como o caminhar à noite só sem luz

como a árvore que olha com raiva a tempestade

talvez mesmo como a cama

que conserva apenas as formas já desfeitas

dos corpos que nelas se deitam

 

depois com o vento

é a saudade das madrugadas doutros tempos

quando o simples descer uma escada

era a mais extraordinária das aventuras

quando a certeza de encontrar uns braços abertos

estava evidente no fundo da escuridão

 

então tudo era simples muito belo

qualquer palavra tua

era a mais maravilhosa das afirmações

qualquer gesto que fizesses

era o mais belo movimento de amor

caminhar ao acaso

era a grande viagem sempre renovada todos os dias

e à noite

não havia frio como agora

mesmo que o mar nos cobrisse de algas

mesmo que a areia

trouxesse consigo o gelo das mais remotas estrelas

 

agora amor escuto o teu olhar

através da distância cada vez maior e mais alucinante

que nos separa

escuto-o através da ponte

que formaram os caminhos por nós percorridos um dia

vejo-te como partiste

muito pura flores na testa mãos abertas

igual às madrugadas doutros tempos

igual à grande aventura

de caminhar ao acaso


Mário-Henrique Leiria

segunda-feira, 30 de junho de 2025

CANÇÃO DA MANHÃ

Como os estranhos pássaros nascidos em tua boca
como os rios que te correm entre os olhos
como   as   esmeraldas   que   formam   as   asas   dos   teus ombros
como os longos ramos da árvore de sono do teu braço
como o grande espaço em que o teu corpo repousa
deitado na tua própria mão
como a tua sombra idêntica à nuvem
que se encontra no mar

assim é a presença que de ti tenho
nas noites em que o fogo se acende
nas montanhas longínquas e fulgurantes
quando os meus passos me projetam
para os mais elevados cumes solitários
quando o sangue canta
através do aço vibrante do meu corpo
levando-me ao longo do caminho de flores rubras
que tu plantaste

assim é o desejo de te encontrar
nascida nas minhas mãos
erguida como torre de catedral perdida
envolta na minha boca
caminhando comigo
pela estrada que nossos pés abrirão     triunfantes

 

Mário-Henrique Leiria em Poesia

sexta-feira, 27 de junho de 2025

P.S.


Final do 2º volume da Obra Completa do Mário-Henrique Leiria, editada pela  E-Primatur,  são  570 páginas de grande literatura portuguesa, que já ninguém lê, já ninguém quer saber!

E não, não encontrámos ninguém como tu. 

E estás a fazer-nos uma falta do caraças!

segunda-feira, 23 de junho de 2025

OLHAR AS CAPAS


Poesia

Mário-Henrique Leiria

Obras Completas Vol. II

Introdução, Organização e Notas: Tania Martuscelli

E-Primatur, Lisboa Maio de 2025

 

Triângulo Kabalístico

 

Eu sei que as túlipas
são os olhos de todos os aviões perdidos

Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina

Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores

Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada

Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente

Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes

Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos

Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar

Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos

domingo, 16 de março de 2025

POSTAIS SEM SELO

                    

Sabes, querida, o cansaço tem o seu limite. Tem mesmo.

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

CANÇÃO DA MANHÃ

 

Para ti, Isabel,

este “desejo de te encontrar” quando ainda

não te conhecia


Como os estranhos pássaros nascidos em tua boca
como os rios que te correm entre os olhos
como   as   esmeraldas   que   formam   as   asas   dos   teus ombros
como os longos ramos da árvore de sono do teu braço
como o grande espaço em que o teu corpo repousa
deitado na tua própria mão
como a tua sombra idêntica à nuvem
que se encontra no mar

assim é a presença que de ti tenho
nas noites em que o fogo se acende
nas montanhas longínquas e fulgurantes
quando os meus passos me projetam
para os mais elevados cumes solitários
quando o sangue canta
através do aço vibrante do meu corpo
levando-me ao longo do caminho de flores rubras
que tu plantaste

assim é o desejo de te encontrar
nascida nas minhas mãos
erguida como torre de catedral perdida
envolta na minha boca
caminhando comigo
pela estrada que nossos pés abrirão triunfantes

Mário-Henrique Leiria  Depoimentos Escritos

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

O SOL TE ESPERA, AMÉRICA

 Exacto como o risco do giz

que atrai o galo

antes da briga

é o sol que te espera

América

navegadores tentaram

te inventar

quando já sabias navegar

muito antes da chegada

das naves que os traziam

no teu trópico do sul

tão feroz e rugidor

há a cor da faca eficaz

que corta com atenta precisão

tudo o que pretende ocultar

o sol que te espera

América

a ti

SulAméricaCentral

gravada no dizer lendário

Lautaro

Tupac-Amaru

Marighella

mito agressivo

e quente e verdadeiro

antiga e castigada

em conhecer combate

contra gringo couraça invasora

América

desenhada em mapa de senhores

 

o amor também te está

América magra

e vertical

enquanto com mão correcta

e colorida

cortas e cospes

o pé possuidor

que te quer pisar a mais e mais

América escura

estás olhando o espaço

sabendo que és tu

quem fará

na força e no orgulho

o sol que te espera

 

o Sol está esperando américa

américa Índia

américa negra

américa Amor Decisivo

 

eu te amo

américa livre e sorridente

 

Mário-Henrique Leiria em Novos Contos do Gin-Tonic

quarta-feira, 8 de maio de 2024

FACILIDADE

Quando fez a primeira comunhão
o pai explicou-lhe
com honesta rectidão
as comunhões
são como os bonés de caça
basta tapar as orelhas
e já está
tens o que desejas
ficas logo comunhado
gostou
e comunhou-se mais três vezes
sempre atento e preocupado
mas era fácil
daí em diante teve a certeza
bastava tapar as orelhas
era só
era uma beleza
pronto
orelha protegida
e comunhão logo garantida.

Mário-Henrique Leiria em Contos do Gin-Tonic 

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

TORAH

Jeová achou que era altura de pôr as coisas no seu devido lugar. Lá de cima acenou a Moisés.

Moisés foi logo, tropeçando por vezes nas lajes e evitando o mais possível a sarça ardente.

Quando chegou ao cimo, tiveram os dois uma conferência, cimeira, claro. A primeira, se não estou em erro.

No dia seguinte Moisés desceu. Trazia umas tábuas debaixo do braço. Eram a Lei.

Olhou em volta, viu o seu povo aglomerado, atento, e disse para todos os que estavam à espera:

- Está aqui tudo escrito. Tudo. É assim mesmo e não há qualquer dúvida. Quem não quiser, que se vá embora. Já.

Alguns foram.

Então começou o serviço militar obrigatório e fez-se o primeiro discurso patriótico.

Depois disso, é o que se vê.

Mário-Henrique Leiria em Contos do Gin-Tónico

sexta-feira, 5 de maio de 2023

QUOTIDIANOS


Chega Março e começo a observar o amadurecer das nêsperas na árvore que o meu vizinho Orlando tem no seu quintal.

Olho também, quando começam mesmo a amarelecer, as paragens que a passarada vai fazendo.

Gosto de traseiras dos prédios de Lisboa.

Cristina Carvalho, filha de Rómulo de Carvalho/António Gedeão, lembra o pai, nas noites de Verão, após o jantar, debruçar-se no parapeito da janela, olhando as traseiras: «cálida e cheirosa a noite. O céu azul escuro repleto de estrelas.»

«No parapeito da janela, as eternas violetas que regava dia sim, dia não, esperavam pela sua discreta atenção.

Ali ficava, em silêncio, a escrever. A telefonia, sempre no mesmo posto, vertia baixinho.

Às oito em ponto jantava-se. Conversava-se, então, e muito! E era bom quando de verão se abria a janela da casa de jantar que dava para os quintais das traseiras e ouvíamos, como numa reza prévia, como uma oração, as conversas das vizinhas, de janela para janela, sempre e sempre àquela hora.

A comer e a conversar, ali estávamos à mesa mais ou menos uma hora. Era como a presença do verão – a época do ano que Rómulo mais gostava – por ali, pendurado das janelas das traseiras, mais ou menos pouco tempo.« 


O prédio onde nasci, cresci, tinha traseiras e essas traseiras tinham quintais com árvores, papoilas, malmequeres, pássaros, joaninhas e gafanhotos, do prédio, onde vive há cinquenta anos, também se vêem traseiras e quintais. E é desse prédio que olha a nespereira do vizinho Orlando. O problema com as nêsperas reside no facto de terem de ser apanhadas um pouco antes de estarem no ponto, lindas, apetecíveis. Se assim não for os pássaros comem-nas. Sim, porque um pássaro, com aquele olho-de-lente é um finório, sabe o que é bom.

Os tempos vão calmos e claros de brilho primaveril e se falamos em nêsperas, em magnórios, como se diz no norte, temos sempre que desembocar no Rifão Quotidiano do Mário-Henrique Leiria

«Uma nêspera
estava na cama
Deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece»

 Não era em quintais, mas lembra-se de, em miúdo, algumas pessoas colocavam nas varandas nespereiras em vasos. Certamente que não davam frutos, mas era como uma qualquer certa nostalgia, sabe-se lá de quê.

Lembra-se de uma dessas varanda» num prédio na Graça, por cima da Leitaria Mimosa.

O prédio foi reconstruído, já não tem varandas e a Leitaria Mimosa deixou de existir

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

ORIGEM DOS SONHOS ESQUECIDOS


Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca

Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar

Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado

Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante

Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras

Qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre ti e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo.

Mário-Henrique Leiria

sábado, 12 de janeiro de 2019

ESCUTA



escuta amor

talvez um dia
em que de mim já nada mais
te lembres de dois braços existia
que te abraçaram convulsivamente
nessa altura
deixa que os lábios te sangrem
deixa que o sangue
te corra pelo peito

e as mãos
essas
abandona-as

Mário-Henrique Leiria, Expresso, 25 de Janeiro de 1975

Legenda: não foi possível obter o autor/origem da imagem.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

PARTIR


Partir para a noite
sem saudade nem esperança
olhando apenas aquilo
que já não temos
      nunca tivemos
aquilo que só possuímos
dentro da memória de um sonho

Partir para o espaço solitário
como uma sombra da distância
sem receio
sem sequer a angústia
de saber que não há regresso

Partir como quem fuma um cigarro
o último
talvez como a nuvem
que se desfaz lentamente
queimada por um sol
implacável       feroz      inconsciente

Partir sem um sorriso
nem uma tristeza perdida

Partir

(15/12/61

Mário-Henrique Leiria em Depoimentos Escritos