Não gosto de sonhar, gosto de dormir bem. Sonhos gosto de os ter acordado e em boa companhia.
Legenda: Almoço
sobre a Erva, pintura de Edouard Manet
Legenda: Almoço
sobre a Erva, pintura de Edouard Manet
Fernando Assis
Pacheco, quando entrevistou Carlos Paredes para os seus Retratos
Falados, intitulou a entrevista: «O Filho do Rei Artur».
Carlos Paredes
era um homem que detestava falar de si próprio.
J. Plácido
Júnior que assina, na revista Visão, a evocação dos 100 anos do
nascimento de Carlos Paredes, conta a seguinte história:
«Se como pessoa e músico, provocava emoções fortes em
terceiros, Paredes era, em contraponto, de uma modéstia desmesurada. Um bom
exemplo está numa história relatada pelo jornalista e escritor António Costa
Santos, que perdeu a conta às entrevistas que lhe fez. Numa dessas vezes, levou
consigo o álbum Espelho de Sons, de 1988, para o guitarrista lhe autografar a
capa. “E ele escreveu: “Com a admiração do Carlos Paredes.” António Costa
Santos ficou estupefacto: “Ó Paredes, então vai pôr-me aqui com admiração?!...
Quem o admira sou eu” Que não defendia-se o guitarrista, “O amigo é muito
importante”. Conclusão: “Não posso mostrar isto a ninguém. É uma vergonha”,
ri-se hoje António Costa Santos, embora na altura tenha ficado virado do avesso
com Paredes.”»
Fernando Assis Pacheco lembra a Carlos Paredes que, em
Maputo, foi aplaudido de pé no final do espectáculo.
Paredes lembra logo que as palmas não foram para ele,
mas para o Malangatana - «já viu o meu descaramento?» - porque
atreveu-se a pedir ao pintor que no palco pintasse um quadro enquanto ia
improvisando música de acordo com o que via surgir na tela.
«O Malangatana prezou de tal maneira este contacto com
um músico português que escolheu três telas virgens, oferecidas por um grande
pintor moçambicano seu mestre e, sobre elas fez três quadros. Entendemo-nos
perfeitamente. Eu ia vendo surgir as cores e as formas, e entusiasmava-me.»
Rui Vieira Nery,
num artigo no JL:
«Raros terão sido os criadores musicais portugueses
das últimas décadas, em qualquer género, que tanto tenham marcado, como
referência indispensável e querida, o nosso imaginário musical e o nosso prazer
elementar de ouvir música.»
O pintor Júlio
Pomar:
«O país onde o Carlos Paredes fez a sua música numa
nuvem de merda com algodão em rama por fora. O que dava arranjo a certos que
hoje ainda choram de saudades desses tempos.»
A escritora
Lídia Jorge:
Cresci e fiz-me adulta, pensando que a guitarra
portuguesa era o Paredes. Isto é, a guitarra portuguesa e Paredes eram, para
mim, coincidentes, mesmo uma única coisa.»
A este génio, a este talento do tamanho do mundo, a ditadura portuguesa, nos princípios dos anos 60, atirou-o para os calaboiços da PIDE. Esteve lá um ano e meio, acabando por expulso da função pública, após o julgamento.
Ruy Vieira Nery:
«Era um príncipe que não soubemos merecer. E no momento desta última despedida só consigo lembrar-me das palavras do Hamlet: Adeus, doce príncipe»
«No dia em que me cruzar com o russo que me atirar à cara o “Guerra e Paz” e o americano que me tente ofuscar com o Grand Canyon, eu pergunto-lhes: “Têm dois minutos e vinte e sete segundos?” Se não, pior para eles. Se sim, ficarão agradecidos para o resto da vida. Ponho-os a ouvir “Mar Goês”.
Mar Goês é a prova que sim. Sim, um dia os portugueses entraram em pequenos barcos e tornaram o mundo grande, porque completo. Havia de ser um amanuense do Hospital de São José, um tímido com andar estranho, que me confirmaria que já houve portugueses fortes. Os dedos de Carlos Paredes são como os lenhadores do pinhal de Leiria, são como o marinheiro que subia à gávea, são como o capitão que dizia por ali e não cedia.»
Ferreira Fernandes
Legenda: Almoço
sobre a Erva, pintura de Edouard Manet
Estrada Nova
Papiniano
Carlos
Capa: Júlio Pomar
Biblioteca
da Censura do jornal Pùblico nº 14
Edição
fac-simile, Junho de 2023-06-09
Libertação
A liberdade ficava para lá
do arame farpado
e do meu corpo fétido, pobre,
roído de chagas, cheio de pús,
com olhos cegos de tanta escuridão!
A sentinelas cinzentas espiavam.
Mas que me importyavam as sentinelas?
Mal me cabia na boca roxa
a língua cortada, grossa, sarrosa,
quando por ela anunciei
que era LIVRE,
e o meu grito espantoso
pôs um arrepio na nuca
de todos os tiranos.
Pasmaram as sentinelas
e o meu cadáver tomou na terra.
Entre muitos outros pintores, participaram na pintura colectiva Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro, MargaridaTengarrinha Dias Coelho, Sá Nogueira, João Abel Manta, Palolo, Ângelo de Sousa, Nuno San-Payo, Lima de Carvalho, João Vieira, Jorge Martins, Querubim Lapa, Alice Jorge, Fernando Azevedo, Rogério Ribeiro, José Escada, Vítor Palla, António Domingues, Jorge Vieira, Carlos Calvet.
Vergílio Ferreira no seu Diário:
«Dois amigos
pintores (o Baptista e o Querubim) deixaram-me dar umas pinceladas. Lembrei-me
de Napoleão, em Austerlitz, aos soldados: tu podes dizer «eu estive lá».
De modo que também lá estive.»
Este mural viria a desaparecer, num incêndio, em 1981, e nunca se conseguiu apurar as causas.
O mural fazia parte de uma série de actividades de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.
Durante o dia, o Mercado da Primavera registou, através da cultura e das artes, outros eventos de saudação à Liberdade que o Movimento das Forças Armadas nos trouxera.
O grupo de teatro A Comuna concebeu um espectáculo, vulgo cegada, em que figuras notórias da ditadura eram caricaturadas.
O espectáculo estava a ser transmitido, em directo, pela Televisão, mas a emissão foi subitamente interrompida quando o actor, que fazia de Cardeal Cerejeira, proferia estas palavras:
«Senhor
Presidente da República. Senhor Presidente do Conselho. Filhas, artistas e
filhos meus muito queridos em vosso Senhor Jesus Cristo. Pedem a o patriarca
Cerejeira que diga algumas palavras nesta festa de artistas. Que palavras pode
dizer o patriarca de Lisboa senão fazer cantar como um apóstolo anima mea
gaudiae pinctome, canatatis, representatis, pictos, pictos, picta.
Que palavras pode dizer o cardeal de Lisboa senão o fazer exultar de alegria a
arte. O grito do Natal ressoa em nós quando a arte se transforma em parte e se
parte para a Arte que é o particípio do Espírito Santo.
Esta é a festa dos artistas em que pelo que fazeis dais glória aos nossos
governantes que mais não fazem que executar a vontade de Deus e a vontade do
povo, salvo seja…»
Passados poucos minutos, a locutora Alice Cruz, leu o seguinte comunicado:
O programa que
transmitíamos em directo do Mercado da Primavera foi interrompido por ordens
superiores, estranhas aos trabalhadores da televisão que manifestam o seu
repúdio por tal medida, pelo que oportunamente tomarão a atitude conveniente.
A ordem de interrupção fora ordenado pelo Major Mariz Fernandes, representante da Junta de Salvação Nacional na RTP .
No dia seguinte, Raul Rego, ministro da Comunicação Social, emprestou a sua concordância com o acto censório, e acrescentou:
Temos que ter em consideração os sentimentos de parte da população portuguesa.
Passados dias, o Conselho Permanente do Episcopado divulga um
comunicado afirmando a sua mais viva indignação por esse espectáculo
que foi sentida pela generalidade da população católica de Portugal.
Fontes:
Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.
Legenda:
a) Pormenor
do mural colectivo tirado de Entre as Brumas da Memória
b) Fotografia
da feitura do mural, tirada de O Século de 12 de Junho de 1974
c) Fotografia da representação da cegada de A Comuna tirada do Expresso de 15 de Junho de 1974.
Não vive a arte senão de afectos: os afectos é que
compõem o ar que a arte respira, o corpo que ela ilumina, a razão do
seu pensar.
Júlio Pomar Autobiografia
Legenda: O Almoço do Trolha pintura de Júlio Pomar
Júlio Pomar e
Marcelin Pleynet
Capa: Pedro Aguilar
Assírio & Alvim,
Lisboa, 2004
O que é pintar?
Pintar, é pintar, é pintar é pintar.
Para poder levar as minhas águas
a um moinho credível imitei
Miss Stein, Gertrude para os íntimos,
uma americana gorda e lésbica ancorada no Paris no meio das duas
guerras e tendo por amiga Alice
Toklas, senhora de farto buço, e muito
feia de quem andava a inventar
uma autobiografia
que seria
livro de sucesso assim assim.
Gertrude percebera que algo se passava
nos desmandos coloridos dos seus visitantes
Matisse e Picasso, ambos fascinados
pelo desconfiado e precocemente envelhecido maníaco
de nome Paul Cézanne, que não deixava ninguém pôr-lhe a pata
por cima
e da obra dele tiravam a razão
de olhar as coisas
com o fito de ver o que lá está e neles se inspirou a americana para
escrever que uma rosa é uma rosa é uma rosa.
Não é para contar estórias que tu escrever ou eu pinto.
A estória é o que deitamos na panela a amornar nas cinzas
Onde inesperado sopro lhe levantará fervura.
A cozinha é a cozinha como
uma rosa é uma rosa, querem
coisa mais simples?