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quarta-feira, 26 de março de 2025

POSTAIS SEM SELO


Não gosto de sonhar, gosto de dormir bem. Sonhos gosto de os ter acordado e em boa companhia.

Júlio Pomar

Legenda: Almoço sobre a Erva, pintura de Edouard Manet

domingo, 16 de fevereiro de 2025

DISTO, DAQUILO, E DAQUELOUTRO


Fernando Assis Pacheco, quando entrevistou Carlos Paredes para os seus Retratos Falados, intitulou a entrevista: «O Filho do Rei Artur».

Carlos Paredes era um homem que detestava falar de si próprio.

J. Plácido Júnior que assina, na revista Visão, a evocação dos 100 anos do nascimento de Carlos Paredes, conta a seguinte história:

«Se como pessoa e músico, provocava emoções fortes em terceiros, Paredes era, em contraponto, de uma modéstia desmesurada. Um bom exemplo está numa história relatada pelo jornalista e escritor António Costa Santos, que perdeu a conta às entrevistas que lhe fez. Numa dessas vezes, levou consigo o álbum Espelho de Sons, de 1988, para o guitarrista lhe autografar a capa. “E ele escreveu: “Com a admiração do Carlos Paredes.” António Costa Santos ficou estupefacto: “Ó Paredes, então vai pôr-me aqui com admiração?!... Quem o admira sou eu” Que não defendia-se o guitarrista, “O amigo é muito importante”. Conclusão: “Não posso mostrar isto a ninguém. É uma vergonha”, ri-se hoje António Costa Santos, embora na altura tenha ficado virado do avesso com Paredes.”»

Fernando Assis Pacheco lembra a Carlos Paredes que, em Maputo, foi aplaudido de pé no final do espectáculo.

Paredes lembra logo que as palmas não foram para ele, mas para o Malangatana - «já viu o meu descaramento?» -  porque atreveu-se a pedir ao pintor que no palco pintasse um quadro enquanto ia improvisando música de acordo com o que via surgir na tela.

«O Malangatana prezou de tal maneira este contacto com um músico português que escolheu três telas virgens, oferecidas por um grande pintor moçambicano seu mestre e, sobre elas fez três quadros. Entendemo-nos perfeitamente. Eu ia vendo surgir as cores e as formas, e entusiasmava-me.»

Rui Vieira Nery, num artigo no JL:

«Raros terão sido os criadores musicais portugueses das últimas décadas, em qualquer género, que tanto tenham marcado, como referência indispensável e querida, o nosso imaginário musical e o nosso prazer elementar  de ouvir música.»

O pintor Júlio Pomar:

«O país onde o Carlos Paredes fez a sua música numa nuvem de merda com algodão em rama por fora. O que dava arranjo a certos que hoje ainda choram de saudades desses tempos.»

A escritora Lídia Jorge:

Cresci e fiz-me adulta, pensando que a guitarra portuguesa era o Paredes. Isto é, a guitarra portuguesa e Paredes eram, para mim, coincidentes, mesmo uma única coisa.»

A este génio, a este talento do tamanho do mundo, a ditadura portuguesa, nos princípios dos anos 60, atirou-o para os calaboiços da PIDE. Esteve lá um ano e meio, acabando por expulso da função pública, após o julgamento.

Ruy Vieira Nery:

«Era um príncipe que não soubemos merecer. E no momento desta última despedida só consigo lembrar-me das palavras do Hamlet: Adeus, doce príncipe»

«No dia em que me cruzar com o russo que me atirar à cara o “Guerra e Paz” e o americano que me tente ofuscar com o Grand Canyon, eu pergunto-lhes: “Têm dois minutos e vinte e sete segundos?” Se não, pior para eles. Se sim, ficarão agradecidos para o resto da vida. Ponho-os a ouvir “Mar Goês”.

Mar Goês é a prova que sim. Sim, um dia os portugueses entraram em pequenos barcos e tornaram o mundo grande, porque completo. Havia de ser um amanuense do Hospital de São José, um tímido com andar estranho, que me confirmaria que já houve portugueses fortes. Os dedos de Carlos Paredes são como os lenhadores do pinhal de Leiria, são como o marinheiro que subia à gávea, são como o capitão que dizia por ali e não cedia.»

Ferreira Fernandes

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Não gosto de sonhar, gosto de dormir bem. Sonhos gosto de os ter acordado e em boa companhia.

Júlio Pomar 

Legenda: Almoço sobre a Erva, pintura de Edouard Manet

sexta-feira, 9 de junho de 2023

OLHAR AS CAPAS


Estrada Nova

Papiniano Carlos

Capa: Júlio Pomar

Biblioteca da Censura do jornal Pùblico nº 14

Edição fac-simile, Junho de 2023-06-09

 

Libertação

 

A liberdade ficava para lá

do arame farpado

e do meu corpo fétido, pobre,

roído de chagas, cheio de pús,

com olhos cegos de tanta escuridão!

 

A sentinelas cinzentas espiavam.

 

Mas que me importyavam as sentinelas?

 

Mal me cabia na boca roxa

a  língua cortada, grossa, sarrosa,

quando por ela anunciei

que era LIVRE,

e o meu grito espantoso

pôs um arrepio na nuca

de todos os tiranos.

 

Pasmaram as sentinelas

e o meu cadáver tomou na terra.

sexta-feira, 10 de junho de 2022

10 DE JUNHO DE 1974


 No dia 10 de Junho de 1974, um grupo de quarenta e oito artistas plásticos do Movimento Democráticos dos Artistas Plásticos pintou, no Mercado da Primavera em Belém, um enorme mural.

Entre muitos outros pintores, participaram na pintura colectiva Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro, MargaridaTengarrinha Dias Coelho, Sá Nogueira, João Abel Manta, Palolo, Ângelo de Sousa, Nuno San-Payo, Lima de Carvalho, João Vieira, Jorge Martins, Querubim Lapa, Alice Jorge, Fernando Azevedo, Rogério Ribeiro, José Escada, Vítor Palla, António Domingues, Jorge Vieira, Carlos Calvet.

Vergílio Ferreira no seu Diário:

«Dois amigos pintores (o Baptista e o Querubim) deixaram-me dar umas pinceladas. Lembrei-me de Napoleão, em Austerlitz, aos soldados: tu podes dizer «eu estive lá». De modo que também lá estive.»

Este mural viria a desaparecer, num incêndio, em 1981, e nunca se conseguiu apurar as causas.

O mural fazia parte de uma série de actividades de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.

Durante o dia, o Mercado da Primavera registou, através da cultura e das artes, outros eventos de saudação à Liberdade que o Movimento das Forças Armadas nos trouxera.

O grupo de teatro A Comuna concebeu um espectáculo, vulgo cegada, em que figuras  notórias da ditadura eram caricaturadas.

O espectáculo estava a ser transmitido, em directo, pela Televisão, mas a emissão foi subitamente interrompida quando o actor, que fazia de Cardeal Cerejeira, proferia estas palavras:

«Senhor Presidente da República. Senhor Presidente do Conselho. Filhas, artistas e filhos meus muito queridos em vosso Senhor Jesus Cristo. Pedem a o patriarca Cerejeira que diga algumas palavras nesta festa de artistas. Que palavras pode dizer o patriarca de Lisboa senão fazer cantar como um apóstolo anima mea gaudiae pinctome, canatatis, representatis, pictos, pictos, picta.
Que palavras pode dizer o cardeal de Lisboa senão o fazer exultar de alegria a arte. O grito do Natal ressoa em nós quando a arte se transforma em parte e se parte para a Arte que é o particípio do Espírito Santo.

Esta é a festa dos artistas em que pelo que fazeis dais glória aos nossos governantes que mais não fazem que executar a vontade de Deus e a vontade do povo, salvo seja…»

Passados poucos minutos, a locutora Alice Cruz, leu o seguinte comunicado:

O programa que transmitíamos em directo do Mercado da Primavera foi interrompido por ordens superiores, estranhas aos trabalhadores da televisão que manifestam o seu repúdio por tal medida, pelo que oportunamente tomarão a atitude conveniente.


A ordem de interrupção fora ordenado pelo Major Mariz Fernandes, representante da Junta de Salvação Nacional na RTP .

 No dia seguinte, Raul Rego, ministro da Comunicação Social, emprestou a sua concordância com o acto censório, e acrescentou:

Temos que ter em consideração os sentimentos de parte da população portuguesa.

Passados dias, o Conselho Permanente do Episcopado divulga um comunicado afirmando a sua mais viva indignação por esse espectáculo que foi sentida pela generalidade da população católica de Portugal.

Fontes:

Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa.

Legenda:

a)      Pormenor do mural colectivo tirado de Entre as Brumas da Memória

b)      Fotografia da feitura do mural, tirada de O Século de 12 de Junho de 1974

c)      Fotografia da representação da cegada de A Comuna tirada do Expresso de 15 de Junho de 1974.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

POSTAIS SEM SELO

Não vive a arte senão de afectos: os afectos é que compõem o ar que a arte respira, o corpo que ela ilumina, a razão do seu pensar.

Júlio Pomar Autobiografia

Legenda: O Almoço do Trolha pintura de Júlio Pomar

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

OLHAR AS CAPAS


 Autobiografia

Júlio Pomar e Marcelin Pleynet

Capa: Pedro Aguilar

Assírio & Alvim, Lisboa, 2004

 

O que é pintar?

Pintar, é pintar, é pintar é pintar.

Para poder levar as minhas águas

a um moinho credível imitei

Miss Stein, Gertrude para os íntimos,

uma americana gorda e lésbica ancorada no Paris no meio das duas

guerras  e tendo por amiga Alice Toklas, senhora de farto buço, e muito

feia de quem andava a inventar

uma autobiografia

que seria

livro de sucesso assim assim.

Gertrude percebera que algo se passava

nos desmandos coloridos dos seus visitantes

Matisse e Picasso, ambos fascinados

pelo desconfiado e precocemente envelhecido maníaco

de nome Paul Cézanne, que não deixava ninguém pôr-lhe a pata

               por cima

e da obra dele tiravam a razão

de olhar as coisas

com o fito de ver o que lá está e neles se inspirou a americana para

escrever que uma rosa é uma rosa é uma rosa.

Não é para contar estórias que tu escrever ou eu pinto.

A estória é o que deitamos na panela a amornar nas cinzas

Onde inesperado sopro lhe levantará fervura.

A cozinha é a cozinha como

uma rosa é uma rosa, querem

coisa mais simples?

domingo, 7 de junho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

OS IDOS DE JUNHO DE 1974

No dia 10 de Junho de 1974, um grupo de quarenta e oito artistas plásticos do Movimento Democráticos dos Artistas Plásticos pintou, no Mercado da Primavera em Belém, um enorme mural.
Entre muitos outros pintores, participaram na pintura colectiva Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira, Costa Pinheiro, MargaridaTengarrinha Dias Coelho, Sá Nogueira, João Abel Manta, Palolo, Ângelo de Sousa, Nuno San-Payo, Lima de Carvalho, João Vieira, Jorge Martins, Querubim Lapa, Alice Jorge, Fernando Azevedo, Rogério Ribeiro, José Escada, Vítor Palla, António Domingues, Jorge Vieira, Carlos Calvet.

Vergílio Ferreira no seu Diário:

Dois amigos pintores (o Baptista e o Querubim) deixaram-me dar umas pinceladas. Lembrei-me de Napoleão, em Austerlitz, aos soldados: tu podes dizer «eu estive lá». De modo que também lá estive.»


Este mural viria a desaparecer, num incêndio, em 1981, e nunca se conseguiu apurar as causas.

O mural fazia parte de uma série de actividades de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.

Durante o dia, o Mercado da Primavera registou, através da cultura e das artes, outros eventos de saudação à Liberdade que o Movimento das Forças Armadas nos trouxera.

O grupo de teatro A Comuna concebeu um espectáculo, vulgo cegada, em que figuras  notórias da ditadura eram caricaturadas.

O espectáculo estava a ser transmitido, em directo, pela Televisão, mas a emissão foi subitamente interrompida quando o actor, que fazia de Cardeal Cerejeira, proferia estas palavras:

Senhor Presidente da República. Senhor Presidente do Conselho. Filhas, artistas e filhos meus muito queridos em vosso Senhor Jesus Cristo. Pedem a o patriarca Cerejeira que diga algumas palavras nesta festa de artistas. Que palavras pode dizer o patriarca de Lisboa senão fazer cantar como um apóstolo anima mea gaudiae pinctome, canatatis, representatis, pictos, pictos, picta.
Que palavras pode dizer o cardeal de Lisboa senão o fazer exultar de alegria a arte. O grito do Natal ressoa em nós quando a arte se transforma em parte e se parte para a Arte que é o particípio do Espírito Santo.

Esta é a festa dos artistas em que pelo que fazeis dais glória aos nossos governantes que mais não fazem que executar a vontade de Deus e a vontade do povo, salvo seja…

Passados poucos minutos, a locutora Alice Cruz, leu o seguinte comunicado:

O programa que transmitíamos em directo do Mercado da Primavera foi interrompido por ordens superiores, estranhas aos trabalhadores da televisão que manifestam o seu repúdio por tal medida, pelo que oportunamente tomarão a atitude conveniente.


A ordem de interrupção fora ordenado pelo Major Mariz Fernandes, representante da Junta de Salvação Nacional na RTP .

 No dia seguinte, Raul Rego, ministro da Comunicação Social, emprestou a sua concordância com o acto censório, e acrescentou:

Temos que ter em consideração os sentimentos de parte da população portuguesa.

Passados dias, o Conselho Permanente do Episcopado divulga um comunicado afirmando a sua mais viva indignação por esse espectáculo que foi sentida pela generalidade da população católica de Portugal.

Legenda:
a)      Pormenor do mural colectivo tirado de Entre as Brumas da Memória
b)      Fotografia da feitura do mural, tirada de O Século de 12 de Junho de 1974
c)      Fotografia da representação da cegada de A Comuna tirada do Expresso de 15 de Junho de 1974.

Fontes: Recortes de acervo pessoal, Diário de Uma Revolução, Mil Dias Editora, Lisboa, Janeiro de 1978, Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores, Lisboa, Maio de 1976, Portugal Hoje, edição da Secretaria de Estado da Informação e Turismo, A Funda, Artur Portela Filho, Editora Arcádia, Lisboa

Texto publicado no dia 16 de Junho de 2014.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Cais negramente reflectido nas águas paradas,
Bulício a bordo dos navios,
Ó alma errante e instável da gente que anda embarcada,
Da gente simbólica que passa e com quem nada dura,
Que quando o navio volta ao porto
Há sempre qualquer alteração a bordo!

Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso!
Alma eterna dos navegadores e das navegações!
Cascos reflectidos devagar nas águas,
Quando o navio larga do porto!
Flutuar como alma da vida, partir como voz,
Viver o momento tremulamente sobre águas eternas.
Acordar para dias mais directos que os dias da Europa,
Ver portos misteriosos sobre a solidão do mar,
Virar cabos longínquos para súbitas vastas paisagens
Por inumeráveis encostas atónitas...

Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe,
E depois as praias próximas, vistas de perto.
O mistério de cada ida e de cada chegada,
A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade
Deste impossível universo
A cada hora marítima mais na própria pele sentido!
O soluço absurdo que as nossas almas derramam
Sobre as extensões de mares diferentes com ilhas ao longe,
Sobre as ilhas longínquas das costas deixadas passar,
Sobre o crescer nítido dos portos, com as suas casas e a sua gente,
Para o navio que se aproxima.

Ah, a frescura das manhãs em que se chega,
E a palidez das manhãs em que se parte,
Quando as nossas entranhas se arrepanham
E uma vaga sensação parecida com um medo
– O medo ancestral de se afastar e partir,
O misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo –
Encolhe-nos a pele e agonia-nos,
E todo o nosso corpo angustiado sente,
Como se fosse a nossa alma,
Uma inexplicável vontade de poder sentir isto doutra maneira:
Uma saudade a qualquer coisa.
Uma perturbação de afeições a que vaga pátria?
A que costa? a que navio? a que cais?
Que se adoece em nós o pensamento,
E só fica um grande vácuo dentro de nós,
Uma oca saciedade de minutos marítimos,
E uma ansiedade vaga que seria tédio ou dor
Se soubesse como sê-lo...

A manhã de Verão está, ainda assim, um pouco fresca,
Um leve torpor de noite anda ainda no ar sacudido.
Acelera-se ligeiramente o volante dentro de mim.
E o paquete vem entrando, porque deve vir entrando sem dúvida,
E não porque eu o veja mover-se na sua distância excessiva.

Fernando Pessoa

domingo, 29 de julho de 2018

TENHO UM METRO E SETENTA E OITO


Vamo-nos aproximando do das derradeiras páginas das Memórias de Rómulo/Gedeão.
Conta agora aos tetranetos as homenagens que lhe fizeram em vida:

«…aqui para nós que ninguém nos ouve, achei demasiadas tantas homenagens. Não me lembro de nenhum caso como este. Foi talvez único. Eu imagino como os meus colegas de çetras, das poesias e das prosas, terão franzido o sobrolho à medida  que foram tendo notícia dos acontecimentos. Mas que é isto? A surpresa deles teria sido igual à minha. Achei sinceramente que foi demais.»

No dia 17 de Dezembro de 1966, a Escola Secundária Pedro Nunes, antigo Liceu Pedro Nunes, homenageou o seu antigo professor:

«Comecei por efectuar duas visistas aos meus antigos locais de trabalho que deixei há vinte e um anos, em 1975. A primeira foi ao Laboratrio da Física à entrada do qual descerrei o pano que cobria uma lápide sobre a porta que atribuía o meu nome àquele espaço. Lá dentro tudo em ordem, o material nas prateleiras dos armários (à excepção das peças roubadas pelos alunos após o 25 de Abril), e a minha mesa de carpinteiro, que o reitor de então lá pusera a meu pedido, onde saboreei longas horas em que nela serrei, limei, martelei, preguei».
(…)
«Num dos últimos dias do mês de Dezembro a Editora João Sá da Costa lançou ao público uma edição da poesia de António Gedeão intitulada “Poesia Completa”. É uma edição luxuosa, de grande formato, que reúne toda a minha obra poética, os seis volumes que publiquei, ilustrada com dezasseis estudos do consagrado pintor Júlio Pomar. A obra custa um pouco menos do que recebo, em dois dias, do meu vencimento de miserável reformado. Também haverei de ser condecorado por ter conseguido viver com tão pouco.»
(…)
«Reparando em tanta e tanta gente que se me dirigiu, por escrito, ou por boca, em tanta gente que participou nas diversas homenagens, gente de nomeada, professores universitários, investigadores, cientistas, avulta o desinteresse dos letrados, dos escritores, dos chamados intelectuais. O reduzidíssimo número dps que se manifestaram, três ou quatro, fizeram-no porque foram especialmente convidados para colaborarem, como foi o caso de Urbano Tavares Rodrigues, que estou certo nunca se lembraria de me escrever, dando-me cumprimentos, se não o tivessem escolhido para falar sobre mim na sessão da Academia das Ciências. Nem um só escritor se lembrou de me enviar um cartãozinho de cumprimentos. Nem um só. Vocês, meus queridos tetranetos, que me conhecem bem, sabem que isto, em mim, não é motivo de aborrecimento, de desagrado, de ressentimento, de protesto, mas apenas motivo de reparo. Reparei que nenhuma pessoa de letras, espontaneamente, me cumprimentou. Recordei até aquele rapaz, de nome João de Melo, escritor, com quem um dia conversei, que em certo momento me disse que eu era “um grande poeta. Sim – disse eu. Tenho um metro e setenta e oito. Ele não se riu, nem sorriu. Olhou-me sério e de sobrancelhas carregadas.»

Rómulo de Carvalho em Memórias

Legenda: Liceu Pedro Nunes

quarta-feira, 23 de maio de 2018

POSTAIS SEM SELO


É preferível o que está para acontecer do que aquilo que acontece.

Júlio Pomar

Legenda: pormenor da primeira página, de hoje, do Diário de Notícias

terça-feira, 22 de maio de 2018

OLHAR AS CAPAS


Temas e Variações
Parte Escrita III

Júlio Pomar
Apresentação e Organização: Sara António Matos e Pedro Faro
Capa: Miguel Rosa
Edição Atelier-Museu Júlio Pomar, Lisboa, Setembro de 2014

Autobiografia

Em sete linhas o autor quis
arrumar o que as memórias recolheram
e em casá-lo nestas linhass pôs a teima
que põe em fazer coisas, vício

que mais que ofício é pura teima.
Nessas sete linhas quis mostrar
o pouco que o mundo lhe mostrou
e a que pôde deitar mão, ou desdizer

segundo as causas que o acaso quis
para mães das mais que vagabundas
filhas que nelas fez, suas
obras que negar não pode..

Júlio Pomar

Lisboa, 2004

JÚLIO POMAR (1926-1970)



Pronto, agora ficámos sem o Júlio Pomar.
Aperta-se o cerco…
Que dizer?
Brecht ajuda muito:
«Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.»

sábado, 7 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES (1924-2017)


Figura incontornável da política portuguesa.
Em Março de 1981, disse de si mesmo: uma das raras referências democráticas da sociedade portuguesa.
O respeito pela figura de Mário Soares, obriga a não rever águas que já passaram, águas que já não movimentam moinhos.
A História fará o seu julgamento.

Legenda: retrato de Júlio Pomar

sábado, 2 de julho de 2016

QUOTIDIANOS


Antes disso, vivia - e isto foi importante para mim - num quarto andar da Rua das Janelas Verdes, com o Tejo defronte - o Tejo como era na altura. O Tejo com movimento, com navios de carga, com fragatas, tudo. Passei do Tejo com movimento para as Avenidas Novas, que era uma coisa chata. Isso de ver o Tejo fez-me muita falta e talvez esteja na origem da minha mania de fazer bonecos. Essa falta de um espectáculo permanente talvez me tenha levado, por hipótese, a desenhar.

Júlio Pomar

sábado, 26 de março de 2016

QUOTIDIANOS


Se o navio afunda
a solução é atirar ao mar os passageiros.

E quando estivermos todos no fundo mar com o navio,
ainda que, mortos, não o possamos saber,
teremos então finalmente conseguido
atingir o ponto luminoso do equilíbrio.

Luís Filipe Castro Mendes, poema colocado por Nicolau Santos na sua coluna Cem Por Cento no Expresso.

Legenda: pintura de Júlio Pomar

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

90 ANOS



Júlio Pomar nasceu há 90 anos.

Como toda a gente, sou um bicho carregado de memória. Mas não tenho memória prática – não sei um único número de telefone, perco-me nas ruas, esqueço os detalhes das conversas ou das casas. Mesmo nos retratos que faço de cor: as coisas entram, são caldeadas e o que fica é mais um sentido, uma alusão a, do que uma soma de pormenores. W quando faço passar o modelo, o trabalho mais excitante começa no momento em que sinto a necessidade de apagar, ir desfazer a imagem registada no papel, para deixar agir um poder-elaborante, não directamente consciente.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

PAINEL DE LIBERDADE


Naquele primeiro 10 de Junho em liberdade, que não mais foi Dia da Raça, uma enorme festa transformou o Mercado da Primavera, em Lisboa, num grito de solidariedade para com o Movimento das Forças Armadas.

Nesse espaço 48 artistas plásticos, (tantos como os anos de ditadura) das mais variadas tendências, pintaram um enorme painel colectivo ( 24 metros de comprimento por 4,5 de altura)  em que cada um, à sua livre maneira, pintou as suas cores da liberdade.

A parede dividida em 48 quadrados, piso térreo e dois andaimes marcando o primeiro e segundo pisos.

O calor era muito e alguns artistas trabalharam em tronco nu.

Assim ficaram distribuídos os 48 quadrados:

 1 – Margarida Tengarrinha
 2 – Sá Nogueira
 3 – João Abel manta
 4 – Júlio Pereira
 5 – Henrique Manuel
 6 – Palolo
 7 – Artur Rosa
 8 – Ângelo de Sousa
 9 – Nuno Sam-Payo
10 – Lima de carvalho
11 – Teresa Magalhães
12 – Guilherme Parente
13 – Fátima Vaz
14 – Manuel Peres
15 – René Bartholo
16 – João Vieira
17 – Jorge Martins
18 – Querubim Lapa
19 – Manuel baptista
20 – Eduardo Nery
21 – Charrua
22 – Helena Almeida
23 – Costa Pinheiro
24 – Jorge Pinheiro


25 – Júlio Pomar
26 – David Evans
27 – Alice Jorge
28 – Emília Nadal
29 – Fernando Azevedo
30 – Vespeira
31 – Rogério Ribeiro
32 – José Escada
33 – Vítor Palla
34 – Tomás Mateus
35 – António Domingues
36 – Menez
37 – António Sena
38 – Justino Alves
39 – Eurico
40 – Sérgio Pombo
41 – João Moniz Pereira
42 – Nikias Skapinakis
43 – Vítor Fontes
44 – Jorge Vieira
45 – Ana Vieira
46 – Maria Velez
47 – António Mendes
48 – Carlos Calvet

Fiquei sempre com a ideia de que não foi dada a esta obra colectiva, expressão do reconhecimento e da solidariedade dos Artistas Democráticos para com o Movimento da Forças Armadas, o devido valor.

Houve mesmo  quem lhe chamasse uma manifestação oportunista.

O painel acabou por ficar armazenado em instalações situadas perto do local onde foi pintado.

Em 1981, o painel seria totalmente destruído após um estranho incêndio que destruiu todo o armazém-

Legenda
- pormenor do painel em fotografia copiada de Portugal Anos 70 de Joaquim
  Vieira.
- Júlio Pomar pintando o painel fotografia em HelenaVaz Silva com Júlio Pomar.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

POSTAIS SEM SELO




Auto-retrato e texto de Júlio Pomar em Helena Vaz da Silva Com Júlio Pomar.

OLHAR AS CAPAS


Helena Vaz da Silva Com Júlio Pomar

Helena Vaz da Silva/Júlio Pomar
Capa: Auto-retrato (design gráfico José Cândido
Edições António Ramos, Lisboa, Novembro de 1980

Quando se formou o Mud Juvenil, eu fiz parte da primeira comissão central, onde estavam entre outros, Mário Soares e Octávio Pato, que assinava na circunstância Octávio Rodrigues…
Em 1946-47 pintei um fresco com mais de 100 metros quadrados no Cinema Batalho, do Porto, encomenda particular que haviam tido a audácia de me confiar e eu a audácia assim destemperada em propor-me e aceitar. Tinha vinte anos. Casara-me. E no intervalo dos andaimes, num quarto minúsculo onde dormia, pintei o «Almoço do Trolha» que anda para a frente e para trás quando se trata de evocar o neo-realismo. A Pide prendeu-me antes do mural estar pronto. Como utilizava a técnica tradicional do fresco, em que cada fragmento tem de ser pintado de uma só vez antes da secagem da parede, o canto inferior direito (cerca de 4 metros quadrados) ficara nu. Assim abriu o cinema e o público acorreu e indagou e soube o porquê. Quando saí da prisão acabei o fresco rapidamente, nas horas em que o cinema não funcionava. Depois a Pide mandou que ele desaparecesse e ele foi tapado. O «Almoço do Trolha» não teve destas desgraçadas honras. Mas quando o expus, o quadro que lhe estava ao lado e se chamava «Resistência» foi apreendido no assalto da Pide à Sociedade de Belas Artes durante a segunda Exposição Geral de Artes, estava eu preso.