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segunda-feira, 6 de junho de 2022

PULULAM POR AÍ E ESTRAGAM VIDAS...



 

Naquele Novembro de 2008, em que João Rendeiro solicitou ao Banco de Portugal um empréstimo de 750 milhões com garantia do Estado, para equilibrar o Banco Privado Português, nessa noite, sorridente foi à televisão apresentar o seu livro Testemunho de Um Banqueiro: A História de Quem Venceu os Mercados, com prefácio  de João Cravinho -  «Esta é a história do banqueiro, filho de um casal proprietários de uma sapataria em Campo de Ourique, que do nada chegou ao topo no mundo das Finanças, com negócios em Portugal, Espanha, Brasil e África»
João Rendeiro é um dos investidores mais ousados e respeitados no mercado financeiro português.»

Durante os tempos, andou a gerir fortunas de poderosos, ricos, celebridades várias e as poupanças de uma série de desgraçados que, na mira de dinheiro fácil, se meteram em caminhos que nunca deviam percorrer.

Os ricos que se lixem, mas aquela gente de pé-de-meia com uns dinheiros guardados para quando aparecer um qualquer João Rendeiro a vender-lhes paraísos, são hoje um grupo de lesados que passam dificuldades várias, uns não aguentaram o revés e suicidaram-se, outros arrastam-se, espalhando a sua indignação à frente das autoridades do país.

A 13 de Maio, numa prisão em Durban, João Rendeiro apareceu enforcado.

O antigo presidente do BPP estava detido na África do Sul desde 11 de Dezembro de 2021 a aguardar extradição, após três meses de fuga à justiça portuguesa para não cumprir pena em Portugal.

«Nunca mais volto a Portugal», terá dito a um jornalista.

O corpo já chegou a Lisboa. A família exigiu nova autópsia porque admite que existe uma história mal contada.

Atrás de João Rendeiro, descontados os do pé-de-meia, está uma série de gente, porque tóxica, tornada flor que não se deve cheirar.

No Público de 14 de Maio, está estampada uma fotografia de gente sorridente: João Rendeiro, Raul Capela, Francisco Pinto Balsemão que, em 1996, foram a Belém apresentar o negócio Banco Privado Português.

O mesmo Francisco Pinto Balsemão que, ainda segundo o Público, nas suas Memórias, arrasa Rendeiro e descreve-o como «uma pessoa completamente insensível e persistentemente egocêntrico, que não o ajuda a distinguir o bem do mal e permite-lhe, julga ele, ficar em permanência ancorado no total egoísmo», Mais Sentencia: «No meu caso, como no de muitos outros, vários em situações pessoais de autêntica sobrevivência, nunca a palavra Ximbalau foi aplicada com tanta propriedade».

Falando de outro banqueiro, Ricardo Salgado, o Ministério Público pediu, em recurso para o Tribunal da Relação de Lisboa, um agravamento da condenação do ex-presidente do BES, de seis para 10 anos de prisão, no processo separado da Operação Marquês.

Acontece, porém, que a enorme corte de advogados de Ricardo Salgado, enviou para o Tribunal da Relação de Lisboa um recurso com 792-páginas-792, recordando o diagnóstico de Doença de Alzheimer do arguido e lembrando que a prisão do banqueiro irá acelerar a sua morte.

Não coloco quaisquer outros comentários a estes pormenores de vida e morte dos dois banqueiros.

Que me lembre, sempre tive ideias formadas acerca de banqueiros e capitalistas. São eles, juntamente com meliantes, os responsáveis por quase todas as desgraças que afligem os humildes e os pobres deste mundo.

Acrescento apenas que, há umas semanas, estive a reler o policial de E. C. Bentley, O Último Caso de Trente, e pude voltar a ler:

«Quando o cérebro privilegiado de Sigsbee Manderson foi trespassado por uma bala, disparado por mão desconhecida, o mundo nada perdeu que valesse uma lágrima sequer; pode mesmo dizer-se que aprendeu uma lição: a da vaidade irremediável que consiste em acumular riquezas como aquele homem acumulara, sem fazer um amigo que o chorasse ao morrer, sem praticar uma só ação que honrasse a sua memória.»

quarta-feira, 18 de maio de 2022

OLHAR AS CAPAS


O Último Caso de Trent

E.C.Bentley

Tradução: Baptista de Carvalho

Capa:Luís Alegre

Colecção Vampiro nº 43 (Nova Série)

Livros do Brasil, Lisboa, Março de 2022

Entre o que interessa e o que parece interessar pode o mundo que nós conhecemos julgar acertadamente?

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

UM ÓDIO SEM TRÉGUAS



Bem se vê que nunca viveu na América. Só nas minas da Pensylvania havia pelo menos trinta mil homens, sem contar com mulheres e crianças, que odiavam Manderson e o teriam morto a tiro com todo o prazer. O homem que sufocava com um dedo greves de que dependiam o pão de milhares de pessoas podia contar por inimigos todos aqueles que em qualquer momento poderia lançar na miséria. E o ódio dessa gente não conhece tréguas. Há tempos dinamitaram em Idaho a casa de um homem que os prejudicara dez anos antes em Nova Jersey e conta-se o caso de um mineiro que assassinou o seu inimigo quando este já se esquecera do mal que lhe fizera. Acha que o Atlântico é barreira bastante para homens destes? É muito perigoso ser capitalista na América, acredite.

E. C. Bentley em O Último Caso de Trent

quarta-feira, 21 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


O Último Caso de Trent

E. C. Bentley
Tradução: Baptista de Carvalho
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº 41
Livros do Brasil s/d

- E não se trataria de uma crise nervosa, tão vulgar entre os capitalistas americanos? – sugeriu Trent. – Já tenho lido nos jornais casos desses.
- Não acredite nisso – replicou Bunner. – Essas crises nervosas só atacam os que enriqueceram de repente. Os grandes capitalistas, os homens da craveira de Manderson, têm a cabeça no seu lugar e não é fácil que a percam. Estão couraçados contra os acidentes emocionais. É certo que alguns são considerados maníacos, mas isso não é pròpriamente caminho para a loucura; é apenas excentricidade e nada mais: há os que não podem ver carne, os que odeiam cães, os que comem só peixe, etc.