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quinta-feira, 4 de junho de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


O Partido e a guerracolonial, pág. 293 do 4º volume da Biografia de Álvaro Cunhal:

«Onde melhor poderemos lutar contra a guerra é lá onde ela se faz e junto daqueles que a fazem e junto dos milhares de jovens soldados que nessa guerra estão envolvidos. É aí, dentro dos quartéis, nos momentos de embarque e no próprio campo de batalha, que os comunistas e todos os jovens progressivos podem mobilizar os soldados para acções a atitudes objectivamente contra a guerra e neutralizar a influência e as ordens dos comandos e oficiais fascistas. Podem agir de modo que, onde as tropas fascistas poderiam obter uma vitória, tenham uma derrota». 

OLHAR AS CAPAS


Álvaro Cunhal

O Secretário-Geral

(1960-1968)

Volume IV

José Pacheco Pereira

Temas e Debates, Lisboa, Dezembro de 2015

…apesar disso, Sampaio confessou várias vezes o fascínio que a presença e inteligência de Cunhal lhe tinham suscitado.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

OLHAR AS CAPAS


Álvaro Cunhal

O Prisioneiro

(1949-1960)

Volume III

José Pacheco Pereira

Capa: António Rochinha Diogo

Temas e Debates, Lisboa, Fevereiro de 2006

Uma «biografia política de Álvaro Cunhal não pode ser feita apenas dos eventos directamente relacionados com o prisioneiro, porque o biografado associou como poucos a sua vida pessoal com a história do comunismo português. Não há na sua visa adulta uma frase que tenha escrito, um desenho que tenha feito, um acto de que tenha sido responsável que não tivessem como interlocutor privilegiado o PCP. Por isso, não pode compreender Cunhal, mesmo nos seus anos de maior isolamento, sem relação total com o partido de que fazia parte.

terça-feira, 2 de junho de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Página 558 do 2º volume da Biografia de Álvaro Cunhal:   

«E foram também intelectuais comunistas que traduziram esteticamente o carácter «heróico» do momento. O conjunto de canções que Fernando Lopes-Graça compôs, no entusiasmo dos dias iniciais do MUD, foram talvez a mais importante herança simbólica de um movimento que parecia imparável e em que tudo parecia possível.

Vieram a ser publicadas na Seara Nova, nos finais de 1945 com poemas de José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira e Arquimedes da Silva Santos, todos militantes ou simpatizantes comunistas. Uma canção intitulada «Companheiros, Unidos!» era apresentada como «hino do MUD», falava de «um combate que vença e que mate – servidão, reacção, escuridão!». Mas a que ficou mais célebre foi «Jornada», com letra de José Gomes Ferreira, que se tornou o verdadeiro hino da oposição portuguesa popularizado que foi pelo MUDJ».

OLHAR AS CAPAS


Álvaro Cunhal

«Duarte» o Dirigente Clandestino

(1941-1942)

Volume II

José Pacheco Pereira

Capa: António Rochinha Diogo

Temas e Debates, Lisboa Maio de 2001

Muitas vezes, nas páginas deste livro, hesitei se devia identificar  como sujeito da acção o partido, o PCP ou Álvaro Cunhal, Muitas vezes poderia ter escrito aprnas Cunhal, porque a sua marca de autoria está lá na acção colectiva, no texto anónimo, na posição política. O leitor não estranhe, portanto, que Cunhal como actor individual não apareça em vários capítulos deste livro, porque essa não-presença é puramente ilusória.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Página 462 do 1º volume da Biografia de Álvaro Cunhal, carta de Cunhal a Mário Soares (27.12.1941) agradecendo os votos natalícios e de Ano Novo:

«Caro Mário Soares

Muito obrigado pela sua gentileza.

Espero que o ano de 42 traga uma nova felicidade aos homens de todos os países.

É, acima de tudo, esta felicidade geral que as pessoas dignas podem desejar. Entretanto, cada qual tem a possibilidade de encontrar satisfações no esforço próprio, no trabalh, e num comportamento honrado.

Pedindo-lhe que transmita os meus cumprimentos a seu Ex.mo Pai,

Saúdo-o cordialmente

Álvaro Cunhal»

OLHAR AS CAPAS

Álvaro Cunhal

«Daniel», o Jovem Revolucionário

(1913-1941)

Volume I

José Pacheco Pereira

Capa: António Rochinha Diogo

Temas e Debates, Lisboa Maio de 1999

Quando Álvaro Cunhal chegou a Lisboa a seguir ao 25 de Abril, era um homem com mais de sessenta anos. Com esta idade, tinha atrás de si uma vida e uma experiência sem qualquer paralelo com outro dirigente partidário português, Era o único que estava politicamente activo desde o início da ditadura e que somava as três componentes de experiência da oposição: dirigira um partido clandestino no interior, sofrera uma longa pena de prisão e conhecera o exílio.

Álvaro Cunhal foi o único dirigente da oposição portuguesa que, dos marinheiros revoltosos de 1936 aos operários grevistas de 1943, ais esquerdistas dos anos sessenta, a Jaime Cortesão, Bernardino Machado, Bento de Jesus Caraça, Mário Soares, Humberto Delgado – no plano nacional – e a Suslov, Ponomarev, Brejnev, Santiago Carrilho, Jacques Duclos, Fidel de Castro, Berlinguer -  no plano internacional – teve um papel efectivo: foi um actor dos acontecimentos e não um espectador cerimonial. Em nenhum outro político português se condensa melhor a atribulada história do Portugal que sempre recusara Salazar. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS


Catarina Pires, hoje jornalista free-lancer, presta um depoimento no livro de Miguel Carvalho: Álvaro Cunhal, Íntimo e Pessoal.

Autora do livro Cinco Conversas com Álvaro Cunhal, empresta ao livro de Miguel Carvalho, breves palavras sobre como decorreram essas conversas.

«As conversas era, normalmente, à tarde. Às vezes

almoçávamos os dois, de pé, no bar da sede. Uma sopa e mais qualquer coisa. Foi ele quem me apresentou aos «peixinhos da horta», que eu não fazia a menor ideia do que fossem.»

Efectivamente muitos não sabem o que é esse petisco simples que dá pelo nome de peixinhos da horta.

Saramago falava que muitas crianças não sabiam que o leite não vem das vacas mas dos pacotes de leite Tetra Pak que se vendem nos supermercados.

Mas gosto muito da frase de Catarina Pires:

«Foi Álvaro cunhal que me apresentou aos peixinhos da horta».

 

A minha avó Brígida, a minha sogra Clementina, faziam uns excelentes Peixinhos da Horta.

A receita é muito simples.

Ambas tinham o mesmo procedimento.

Cortavam as pontas do feijão e tiravam o fio.

Coziam o feijão em água com sal.

Deixavam escorrer o feijão, faziam molhos de 2 tiras, envolviam num polme (farinha, gemas de ovos, um pouco de água) e fritavam em óleo bem quente.

As tentativas que fiz, poucas, diga-se, não saíram grande coisa. A falha minha, está no polme, que não pode ser nem demasiado grosso, nem demasiado fino. É uma questão de mão e elas tinham mesmo mão.

Na Internet encontram suficientes receitas. Escolhi os Peixinhos da Horta da Clara de Sousa, excelente apresentadora e jornalista da SIC:

Ingredientes:

  • 500 g de feijão-verde
  • 100 g de farinha
  • 1 ovo
  • 125 ml de água
  • 1 colher de chá de bicarbonato de sódio
  • 1 esguicho de vinagre de vinho branco ou sidra
  • sal e pimenta q.b.
  • óleo ou azeite para fritar

Confecção:

1.    Coloque uma panela com água e sal ao lume.

2.    Lave o feijão verde, retire o fio e corte-o ao meio no sentido do comprimento e ao meio no sentido da largura, para ter pedaços mais pequenos.

3.    Mergulhe o feijão-verde na água a ferver e cozinhe durante 7 minutos, só até ficar al dente. Passado esse tempo escorra imediatamente e mergulhe o escorredor onde estão as vagens em água com gelo para arrefecer rapidamente.

4.    Enquanto o feijão-verde coze faça o polme misturando a farinha, o ovo, o bicarbonato e sal e pimenta a gosto. Junte a água, metade de cada vez e bata para ter um polme sem grumos, denso mais fluído.

5.    Na hora de fritar junte um esguicho de vinagre ao polme e bata para envolver.

6.    Passe as vagens pelo polme e frite em óleo ou azeite bem quente.

7.    Escorra sobre papel de cozinha e sirva com maionese e gomos de limão.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

NESTE DIA


Neste Dia, o dia para José Saramago é 30 de Setembro de 2008, página 43 do 1º volume de O Caderno.

O escrevinhador que sou, pontuou lá para trás, que a esperança não pode ser um nome como outro qualquer.

Álvaro Cunhal disse um dia que «a esperança pode ser um sentimento em relação a algo que não se confia que possa ser alcançado». E fez um largo risco em O Ano da Morte de Ricardo Reis quando Saramago lhe diz: «A esperança, só esperança, nada mais, chega-se a um ponto em que não há mais nada senão ela, é então que descobrimos que ainda temos tudo.»

Estaremos cansados de esperar?, poematizou Eugénio de Andrade.

Miguel Torga, indo mais longe, a dizer-nos que a angústia é o rosto sério da esperança.

Mas estávamos aqui pela leitura do Caderno de Saramago:


«Sobre as virtudes da esperança tem-se escrito muito e parolado muito mais. Tal como sucedeu e continuará a suceder com as utopias, a esperança foi sempre, ao longo dos tempos, uma espécie de paraíso sonhado dos cépticos. E não só dos cépticos. Crentes fervorosos, dos de missa e comunhão, desses que estão convencidos de que levam por cima das suas cabeças a mão compassiva de Deus a defendê-los da chuva e do calor, não se esquecem de lhe rogar que cumpra nesta vida ao menos uma pequena parte das bem-aventuranças que prometeu para a outra. Por isso, quem não está satisfeito com o que lhe coube na desigual distribuição dos bens do planeta, sobretudo os materiais, agarra-se à esperança de que o diabo nem sempre estará atrás da porta e de que a riqueza lhe entrará um dia, antes cedo que tarde, pela janela dentro. Quem tudo perdeu, mas teve a sorte de conservar ao menos a triste vida, considera que lhe assiste o humaníssimo direito de esperar que o dia de amanhã não seja tão desgraçado como o está sendo o dia de hoje. Supondo, claro, que haja justiça neste mundo. Ora, se neste nestes lugares e nestes tempos existisse algo que merecesse semelhante nome, não a miragem do costume com que se iludem os olhos e a mente, mas uma realidade que se pudesse tocar com as mãos, é evidente que não precisaríamos de andar todos os dias com a esperança ao colo, a embalá-la, ou embalados nós ao colo dela. A simples justiça (não a dos tribunais, mas a daquele fundamental respeito que deveria presidir às relações entre os humanos) se encarregaria de pôr todas as coisas nos seus justos lugares. Dantes, ao pobre de pedir a quem se tinha acabado de negar a esmola, acrescentava-se hipocritamente que “tivesse paciência”. Penso que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-la a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência é contra-revolucionária. Talvez seja, talvez, mas eu inclino-me a pensar que, pelo contrário, muitas revoluções se perderam por demasiada paciência. Obviamente, nada tenho de pessoal contra a esperança, mas prefiro a impaciência. Já é tempo de que ela se note no mundo para que alguma coisa aprendam aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças. Ou de utopias.»

sábado, 11 de outubro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ

Ainda não existia a Amazon, ainda não existia a secção de música clássica da Discoteca Roma, o meu pai tinha grandes dificuldades em encontrar discos de música clássica russa. Conseguiu comprar Tchaikovski, Borodine, Rimsky-Korsakov, Stravinski, Moussorgsky, poucos mais e faltava-lhe Rachmaninov, Shostakovich, muitos mais.

Nunca leu A Arte, o Artista e a Sociedade de Álvaro Cunhal, publicado em Novembro de 1996, ( o meu pai deixou-nos em Junho de 1990), apesar de ter sido escrito em 1957, nas masmorras da Pide em Peniche.

«Pode, noutro exemplo, conhecer-se a vida e a obra incerta, dificultosa de Rachmaninov. Pode considerar-se que na sua obra há muito que outros fizeram tão bom ou melhor. Pode valorizar-se mais o virtuosismo que a inspiração. Mas não se responda com qualquer apreciação racional ou especializada ao espontâneo encanto do arranque crescente, envolvente e arrebatador do 2º Concerto para Piano e Orquestra.»

Álvaro Cunhal em A Arte, o Artista e a Sociedade, pág. 76.

 Legenda: pormenor da capa de A Arte, o Artista e a Sociedade, por sua vez um pormenor de um quadro de Lucas Cranach, pintor alemão do Renascimento. intitulado Retrato de Mulher.


sexta-feira, 25 de abril de 2025

EI-LA A CIDADE


 Quarenta e sete anos, dez meses e vinte e quatro dias, durou a barbárie salazarenta/marcelista, o tempo do desprezo, como lhe chamou Mário Dionísio.

Éramos um país que vivia debaixo de um atraso sem medida, tempos terríveis que só quem neles viveu tem a justa medida – quem passa por elas é que sabe!

O avô senta o neto nos joelhos e conta: foi assim.

Acreditávamos.

Tão só.

«Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exacto perfume das flores.»

A festa foi bonita, pá.

Manuel António Pina:

«Durou, o sonho, só uma semana, mas esse é um património que ninguém nos tirará. Na tarde do 1º de maio, já nos confrontávamos uns com os outros.

De então para cá, tem sido o que se sabe. Carlyle escreveu que as revoluções são sonhadas por idealistas, realizadas por radicais, e que quem delas se aproveita são os oportunistas de todas as espécies.»

Cinquenta e um anos sobre a madrugada, lembrando Sophia, que esperávamos, quando emergimos da noite e do silêncio.

Também escreveu José Saramago:

«Nenhum dia é festivo por ter já nascido assim: seria igualzinho aos outros se não fossemos nós a «fazê-lo» diferente.»

Ao longo destes anos, tenho vindo a ouvir os que, a partir de um certo tempo, sempre anunciarem que o 25 de Abril se tornaria num 5 de Outubro.

Nunca acreditei e ainda não vi a possibilidade de isso vir a acontecer.

Gente que pensa que a memória do 25 de Abril é algo difuso, que com o tempo se tornará insignificante, gente que advoga o silêncio como um argumento.

Serenamente vos digo:

Não há nenhum 25 de Abril em que não me venha à memória, o 1º poema de Canto e Lamentação na Cidade Ocupada, incluído em  A Invenção do Amor e Outros Poemas, de Daniel Filipe lido, relido vezes sem conta, nos tais tempos difíceis:

Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma

em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria

e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Ei-la a cidade prometida

esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor

Legenda: Desenho da Prisão de Álvaro Cunhal

sexta-feira, 28 de março de 2025

OLHAR AS CAPAS


Cinco Dias, Cinco Noites

Manuel Tiago

Colecção Resistência nº 6

Edições Avante, Novembro de 1975

André resolveu aceitar e foi apresentado ao homem.

O encontro teve lugar nas proximidades da estação de Campanhã, distante do centro da cidade, a horas mortas e num sítio deserto. Estava uma noite baça, húmida, morna e sem cento. Depois de se esgueirarem ao longo da vedação, para lá da qual se ouviu, no silêncio, o chocar metálico de dois vagões em manobras, André e o camarada que o ia apresentar desembocaram na via. Seguiram uns cem metros e pararam atentos. No escuro e no silêncio, luziu a alguns passos e fogo de um cigarro.

- O comboio já passou – disse o camarada a despropósito.

Como em resposta, por tês vezes, o pequeno clarão do cigarro piscou no escuro. Aproximaram-se. O vulto do fumador precisou-se melhor. Aproximando-se também.

- É este o amigo – Disse o camarada.

Não se sabia se falava deste, do fumador ou dos dois.

André apertou na sua mão seca, ossuda e brusca. Agora próximo, de novo se abriu o clarão do cigarro. André mais adivinhou que viu um bigode negro e um rosto angulosos e moreno.

 Os três vultos desceram o talude junto à via férrea e seguiram por uma azinhaga sombria, enfeixada entre renques de árvores de forma confusa. Um vago e adocicado cheiro a óleos colava-se no ar. De novo se ouviu, súbito e insólito, agora mais distante, o chocar dos vagões em manobras.

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

OLHAR AS CAPAS


Por Enquanto, O Povo Unido Ainda Não Foi Vencido

Manuel Vasquez Montalbán

Selecção, organização e tradução: Rita Luís

Posfácio: Francesc Salgado

Capa: V. Tavares

Edições Tinta-da-China, Lisboa, Junho de 2024

Mário Soares iniciou o seu périplo europeu em Roma, como convidado de honra na homenagem mundial de Dolores Ibárruri, La Passionaria. Estava na tribuna e levantou o punho esquerdo, que é o punho levantado pelos socialistas; os comunistas, que são casmurros, peculiares e reformistas, levantam o punho direito só para chatear. Pois bem, Soares esteve com La Passionaria e depois conversou com comunistas espanhóis e italianos e com socialistas espanhóis, italianos e alemães. Falou também com Calvo Serer, outro dos surpreendentes assistentes que presidiram à homenagem a Ibárruri. Soares queria favorecer uma imagem esquerdista deteriorada pela luta contra o «cunhalismo» que, segundo ele, é uma doença senil do comunismo e que, segundo nós, é o que quer que soe, e a ti encontro-te na rua.

sábado, 7 de dezembro de 2024

100 ANOS DO NASCIMENTO DE MÁRIO SOARES


 Os políticos não são gente consensual.

Não o foi Mário Soares, nem Álvaro Cunhal, nem Sá Carneiro, nem Freitas do Amaral.

Foram apenas políticos, algo em vias de completo desaparecimento e que tanta falta nos vai faltando.

Veja-se Cavaco Silva, presente na cerimónia do 25 de Novembro na Assembleia da República, ausente na homenagem que a mesma Assembleia prestou nos 100 anos do nascimento de Mário Soares.

 Legenda: Mário Soares e Maria Barroso, no 25 de Abril de 74, a chegarem, de comboio, vindos de Paris, à Estação de comboios  de Santa Apolónia.

terça-feira, 30 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


 30 de Abril de 1974

 Sim, amanhã é mesmo dia de festa.

Com ironia, Mário Viegas dirá que o 25 de Abril dele acabou no dia 2 de Maio.

Alguém, que não recordo agora o nome, disse que do 25 de Abril até ao 1º de Maio devo ter dormido, mas não me lembro. Na verdade, o dia mais longo da minha vida não foi bem um dia: começou naquelas horas vertiginosas do dia 25, até ao 1º de Maio, e que continuaram a sê-lo durante uns meses.

Por fim, uma outra citação anónima:

Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exacto perfume das flores.

Em todas os jornais podem ler-se chamadas de atenção para que, nas manifestações do 1º de Maio, o povo e os trabalhadores, tivessem cuidado com eventuais provocadores.

Esta veio publicada no Diário Popular:


Na véspera, na RTP, Sá Carneiro deu uma entrevista com um blá-blá-blá de que Mário Castrim não gostou muito, e escreveu:

O Diário de Lisboa lembrava que, no 1º de Maio, as padarias e os depósitos de pão estavam encerrados: e colocava em título:

Constante das notícias deste dia, o regresso a Lisboa, vindo do exílio, de Álvaro Cunhal.

Nas páginas interiores do República podia ler-se que certa gente começava a deixar as garras de fora.

A Junta de Salvação Nacional veio publicamente salientar que os trabalhadores dos CTT eram alheios a quaisquer diligências, actividades ou intervenção na violação da correspondência. Essa  violação era feita directamente pela PIDE-DGS, que requisitava aos CTT, a correspondência de suspeitos de actividades contra a ditadura.

Por decreto, a Junta de Salvação Nacional, dissolvia a Acção Nacional Popular e destituía o Chefe de Estado Américo Tomás e o Chefe do Governo Marcelo Caetano.

O almirante Henrique Tenreiro apresentou-se voluntariamente da Cova da Moura e ficou detido.

Na 1ª página de A Capital, uma fotografia mostrava a ex-comissária da Mocidade Portuguesa Feminina a entregar a José Manuel Tengarrinha a chave das instalações onde passaria a ficar sediado o M.D.P:


Na última página do Diário de Lisboa ficava a saber-se que o ex-pide Sachetti foi preso quando tentava passar a fronteira em Valença.

No Porto, um ex-pide suicidava-se.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ANTES DE MAIO


30 de Abril de 1974 

Amanhã será o primeiro 1º de Maio em liberdade.

Durante a ditadura, o 1º de Maio era um dia que trabalhadores e estudantes estavam impedidos de comemorar.

Mas com coragem e determinação, aqui e ali, sempre encontraram forma de o assinalar, se bem que sujeitos a brutal repressão: pedras e palavras de ordem contra bastões, espingardas, carros-de-combate-lanças-tinta-azul.

A mudança ia acontecendo, lenta, lenta, lenta, mas éramos tão poucos.

E onde estava aquele gente que, no amanhã de há 47 anos, encherá as ruas transformando-as num imenso oceano.

Os jornais de 30 de Abril de 1974, nas suas primeiras páginas, apelavam à serenidade do povo português nas comemorações do 1º de Maio, Dia do Trabalhador.

Na 1ª página do República podia ler-se: Só a disciplina dos Homens Livres destrói a “disciplina” do medo!». Nas páginas centrais uma outra frase: 

«A disciplina é a arma do Povo contra a opressão.»

Na 1ª página do Diário Popular: «O 1º de Maio é teu: conquistaste-o. Não deixes que possíveis provocadores alterem o dia que será uma festa de todos!»

O Diário de Lisboa lembrava que, no 1º de Maio, as padarias e os depósitos de pão estavam encerrados: e colocava em título:

COMPRE HOJE O PÃO DE AMANHÃ

Diversas empresas faziam publicar anúncios de que iriam estar encerradas no 1º de Maio.



2.

A Junta de Salvação Nacional veio publicamente salientar que os trabalhadores dos CTT eram alheios a quaisquer diligências, actividades ou intervenção na violação da correspondência. Essa  violação era feita directamente pela PIDE-DGS, que requisitava aos CTT, a correspondência de suspeitos de actividades contra a ditadura.

 3. 

Concretamente em Lisboa, populares continuam a perseguir os pides.

 Aparecem os primeiros desmentidos de quem estava a ser acusado de pertencer à Legião, à PIDE/DGS, ou tinham sido informadores da polícia política.

 Alguns eram acusados, por vizinhos, conhecidos, como mera vingança pessoal.

Começavam, por isso, os desmentidos.

 Este podia ler-se em A Capital:

 «O antigo “boxeur” Licinio Sena deslocou-se à nossa redacção, acompanhado do capitão Nuno Santos Silva do Movimento das Forças Armadas, do seu chefe no Tribunal de Contas, onde trabalha, e do seu filho, para nos declarar que não era agente da Pide.»

 Outros optavam pela publicação, como publicidade paga, de anúncios deste teor:




Sobre este tipo de incidentes, o Diário de Notícias, publicava, na 3ª página, uma local que titulou como: Enganos lamentáveis:

No clima de justa euforia em que actualmente se vive na nossa cidade, um dos principais alvos da população – o que, por vezes, gera alguma violência – tem sido a descoberta de elementos da extinta DGS e ainda não detidos.

Mas, se em muitos casos, se verificou que os indivíduos apanhados eram realmente daquela corporação policial, noutros ocorreram enganos que poderiam tornar-se lamentáveis, se não fosse a intervenção das forças militares.»

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

SOU O GAJO DAS CALÇAS CURTAS



Pontas soltas de perguntas e respostas na entrevista que Mário Santos fez a Luiz Pacheco, antologiada em O Crocodilo Que Voa:

Aliás, parece que a necessidade é que desde sempre o estimula a escrever…

Claro. Mas eu vou fazer umas merdas duns artigos para uns jornais de merda, ou uns editores de merda, fazer artigalhadas para ganhar uma trampa? Não preciso! Tenho dinheiro que chegue para o quarto, a roupa é dada! E de repente considerei-me morto! Durante os últimos dez ou oito anos lia policiais e livros de cowboys… Quando vim para aqui disse: agora tenho que me defender! E trabalhei mais agora aqui, desde Abril do ano passado do que em dez anos.

Deixou os policiais e os cowboys. Tem lido o que se publica por aí»

Tudo! Aí é que está a gaita. Não há nenhum gajo que tenha agora publicado que eu não tenha comprado… Comprei Estrela de Seis Pontas, do meu camarada Álvaro Cunhal, e gostei muito. Cinco Noites… é uma merda, mas este é muito bem feito.

Mas você próprio não «exibiu» essa imagem?

Repare nas minhas calças: sou o gajo das calças curtas. Porquê?
Porque não mando fazer um fato desde 1957 ou 1958! E por caso tinha um bom alfaiate, mas o último fato não o paguei e nunca mais lá fui… «O gajo anda de calças assim para provocar, para se mostrar original.» Não é! Eu vejo aí é calças a três e quatro contos, e eu ia dar três contos por um par de calças? Jamais de ma vie, porra! Se me dão calças compridas, visto-as, dão-me curtas, eu visto-as! Quero lá saber… São dadas! Essa carneirada acha de mim uma coisa, eu acho deles, outra! Agora, isto não tem nada a ver com a obra que fiz!

A ideia da morte perturba-o?

Estou sempre à espera de não acordar no dia seguinte! Aliás, tenho um problema de que não se vai rir: como é que eu vou avisar que estou morto? Já me perguntaram porque é que eu não ponho o telefone ao pé da cama… Olha que ideia fantástica! O meu filho do Pinhal Novo agora vem cá muitas vezes, o meu filho do Montijo nunca aqui veio… E está no Montijo, tem carro, estava aqui em meia hora! Morro e ao fim de oito dias está aqui um fedor que não se pode… Quero lá saber! Mas eu tenho uma vida tão doente, que sou é um moribundo alegre, tenho espírito de convalescente… Mas já estou a ficar chateado disto… Fui criado numa casa com muita gente e aqui estou muito sozinho…

Legenda: pormenor da capa do livro Mano Forte

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

OLHAR AS CAPAS

Viagens

Mário Castrim
Capa: pormenor de um dos Desenhos da Prisão de Álvaro Cunhal
Edição da célula dos Trabalhadores Gráficos da Renascença Gráfica, Lisboa 1977

Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.
Eram quase duas horas da manhã
e eu perguntei-lhe
se queria comer alguma coisa.
Disse que sim. Mas que
estava com muita pressa.

Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe
uma sanduíche de fiambre
um copo de vinho
uma fatia de bolo-rei.
Estava de pé
comia como se fosse a primeira vez
desde a infância.

- Há quantos anos
deixa cá ver
há quantos anos é que eu não comia
bolo-rei?
Este é bom, sabe a erva-doce
e a ovos.
(Caíam-lhe migalhas
aparava-as com a outra mão
em concha)

- Comes outra fatia, camarada?

- Isso não.
Estou atrasado já.
Mas se ma embrulhasses...

Através da janela
do quarto às escuras
fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche
seguir pela Rua dos Lusíadas.

Nenhum de nós sabia
que estava já erguida a pirâmide do silêncio
à espera dele
num breve prazo.

Quando talvez o gosto do bolo-rei
mais forte do que nunca
tivesse ainda na boca.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Passageiro Clandestino
Catálogo da Exposição Mário Dionísio 100 Anos

Organização: António Pedro Pita e Fátima Faria Roque
Capa: Dulce Munhoz
Edição Museu do Neo-Realismo e Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Maio de 2016

A qualquer uma destas circunstâncias sobreleva, todavia, um aspeto: a vinculação política era então profundamente existencial, era uma questão de vida, uma vez que o comunismo e o partido que dele se reclamava dava à vida aos seus militantes, como disse um deles, um destino. A transformação da vida em destino e a inscrição individual na transcendência da história tronam a rutura dolorosa até ao limite – sobretudo, como é o caso de Mário Dionísio, quando é expulso depois de se ter demitido.
Essa mágoa não teve cura. Por isso, quando Álvaro Cunhal ensaia uma reaproximação, logo a seguir à fuga de Peniche, Mário Dionísio refere que todod esse passo o levou a um estado de amargura (…) e de falta de desconfiança talvez definitivo. Nunca mais poderei voltar a ter em ninguém a confiança que tive em pessoas que se mostraram indignas dela. Sem esta confiança não há acção possível”.
Este conjunto de cartas documenta a deceção e a dor. E a esperança difícil de um homem para quem a arte foi sempre um modo sublime de a vida conduzir-se, sempre, a um limiar.

(Do texto de António Pedro Pita tirado do capítulo do catálogo «Correspondência com o PCP»)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

MARIA EUGÉNIA CUNHAL (1927-2015)


Morreu Maria Eugénia Cunhal, militante do PCP, jornalista e escritora.
Tinha 88 anos e era a irmã mais nova de Álvaro Cunhal.
A última vez que tinha aparecido em público foi no lançamento da candidatura de Edgar Silva à Presidência da República.

Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o seu cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações.

Pois quando vieres,
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.

Poema escrito por Maria Eugénia, após a fuga de Álvaro Cunhal da cadeia de Peniche.