sexta-feira, 28 de março de 2025

OLHAR AS CAPAS


Cinco Dias, Cinco Noites

Manuel Tiago

Colecção Resistência nº 6

Edições Avante, Novembro de 1975

André resolveu aceitar e foi apresentado ao homem.

O encontro teve lugar nas proximidades da estação de Campanhã, distante do centro da cidade, a horas mortas e num sítio deserto. Estava uma noite baça, húmida, morna e sem cento. Depois de se esgueirarem ao longo da vedação, para lá da qual se ouviu, no silêncio, o chocar metálico de dois vagões em manobras, André e o camarada que o ia apresentar desembocaram na via. Seguiram uns cem metros e pararam atentos. No escuro e no silêncio, luziu a alguns passos e fogo de um cigarro.

- O comboio já passou – disse o camarada a despropósito.

Como em resposta, por tês vezes, o pequeno clarão do cigarro piscou no escuro. Aproximaram-se. O vulto do fumador precisou-se melhor. Aproximando-se também.

- É este o amigo – Disse o camarada.

Não se sabia se falava deste, do fumador ou dos dois.

André apertou na sua mão seca, ossuda e brusca. Agora próximo, de novo se abriu o clarão do cigarro. André mais adivinhou que viu um bigode negro e um rosto angulosos e moreno.

 Os três vultos desceram o talude junto à via férrea e seguiram por uma azinhaga sombria, enfeixada entre renques de árvores de forma confusa. Um vago e adocicado cheiro a óleos colava-se no ar. De novo se ouviu, súbito e insólito, agora mais distante, o chocar dos vagões em manobras.

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