Cinco Dias, Cinco Noites
Manuel Tiago
Colecção
Resistência nº 6
Edições Avante, Novembro de 1975
André resolveu
aceitar e foi apresentado ao homem.
O encontro teve
lugar nas proximidades da estação de Campanhã, distante do centro da cidade, a
horas mortas e num sítio deserto. Estava uma noite baça, húmida, morna e sem
cento. Depois de se esgueirarem ao longo da vedação, para lá da qual se ouviu,
no silêncio, o chocar metálico de dois vagões em manobras, André e o camarada
que o ia apresentar desembocaram na via. Seguiram uns cem metros e pararam
atentos. No escuro e no silêncio, luziu a alguns passos e fogo de um cigarro.
- O comboio já
passou – disse o camarada a despropósito.
Como em
resposta, por tês vezes, o pequeno clarão do cigarro piscou no escuro. Aproximaram-se.
O vulto do fumador precisou-se melhor. Aproximando-se também.
- É este o amigo
– Disse o camarada.
Não se sabia se
falava deste, do fumador ou dos dois.
André apertou na
sua mão seca, ossuda e brusca. Agora próximo, de novo se abriu o clarão do
cigarro. André mais adivinhou que viu um bigode negro e um rosto angulosos e
moreno.
Os três vultos desceram o talude junto à via férrea e seguiram por uma azinhaga sombria, enfeixada entre renques de árvores de forma confusa. Um vago e adocicado cheiro a óleos colava-se no ar. De novo se ouviu, súbito e insólito, agora mais distante, o chocar dos vagões em manobras.
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