Cão Como Nós
Manuel Alegre
Capa: Maria
Esther
Planeta de
Agostini, Lisboa, 2002
Houve um poeta que me disse que o mundo, tal como
está, pode matar. Não vou deixar que isso aconteça, sei bem que tenho uns
ferros no coração e que de repente posso começar a escorregar para dentro de
mim mesmo. Então não se consegue parar. Foi isso mesmo que o Zeca Afonso disse
ao ouvido da mulher quando estava a morrer: Não consigo parar. Sei
perfeitamente o que ele queria dizer. Mas não vou deixar que o mundo, tal como
está, dê cabo de mim. Tenho as minhas canas de pesca e as minhas espingardas, É
sempre possível ir aos robalos, dar uns tiros. Ou então pegar na caneta e vir
para aqui falar contigo. Um cão nunca abandona o dono. Mesmo que não te veja,
sei que estás aí: é quanto me chega. As minhas armas e eu. O meu cão e eu.
Colaboração de
Aida Santos
2 comentários:
Li-o há muito e gostei bastante.
Além de poeta, Manuel Alegre é também um bom narrador de memórias.
Lembro-me da minha avó Brígida, junto aos seus canteiros de sardinheiras de várias cores, a dizer-me que devíamos, enquanto as olhamos, falar com as flores.
Enviar um comentário