segunda-feira, 31 de março de 2025

OLHAR AS CAPAS


Cão Como Nós

Manuel Alegre

Capa: Maria Esther

Planeta de Agostini, Lisboa, 2002

Houve um poeta que me disse que o mundo, tal como está, pode matar. Não vou deixar que isso aconteça, sei bem que tenho uns ferros no coração e que de repente posso começar a escorregar para dentro de mim mesmo. Então não se consegue parar. Foi isso mesmo que o Zeca Afonso disse ao ouvido da mulher quando estava a morrer: Não consigo parar. Sei perfeitamente o que ele queria dizer. Mas não vou deixar que o mundo, tal como está, dê cabo de mim. Tenho as minhas canas de pesca e as minhas espingardas, É sempre possível ir aos robalos, dar uns tiros. Ou então pegar na caneta e vir para aqui falar contigo. Um cão nunca abandona o dono. Mesmo que não te veja, sei que estás aí: é quanto me chega. As minhas armas e eu. O meu cão e eu.

Colaboração de Aida Santos

2 comentários:

Rosa dos Ventos disse...

Li-o há muito e gostei bastante.
Além de poeta, Manuel Alegre é também um bom narrador de memórias.

Aida Santos disse...

Lembro-me da minha avó Brígida, junto aos seus canteiros de sardinheiras de várias cores, a dizer-me que devíamos, enquanto as olhamos, falar com as flores.