Mostrar mensagens com a etiqueta Armando Silva Carvalho Poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Armando Silva Carvalho Poemas. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 29 de abril de 2026

A INUNDAÇÃO

O mar invade Lisboa mas por dentro
enquanto o vento enfeita
as filhas dos polícias
e há um vago frio nos olhos
mais dementes
destas tardes.

As crianças vestem
coloridamente
seu mórbido e inesperado
séquito.

Mas nas ruas da Raiva
nota-se uma abundância
palpável

um rio vagamente doloroso

um mar por dentro.

Nas lojas de fazendas
na menina da caixa
no fastio amarfanhado
dos porteiros.

Gotas marítimas notavam-se
no brilho das pulseiras
de uma amante
líquido miúdo mas brilhante
até nas varizes das peixeiras.

Há quem diga do sol
um sol insólito é bem certo
mas nota-se até na cauda dos insectos
piedosas solícitas gotas de humi ( l ) dade.

O mar invade tudo mas por dentro.


Armando Silva Carvalho em Lírica Consumível

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

AGRÁRIO E AGRESTE

                                        Ao António Rego Chaves

Sobre as árvores encolhidas que gastavam

a ternura de tudo; severo,

o céu desajeitado avolumou-se.

Na testa do silêncio ao pé dos montes

as pedras adoecem entre o sangue

derrota que se imprime por palavras

se imite diminuta nos alqueives.

Sob a capa da terra e no alcance

dos dedos de fora inesperados

a rotura simples dum soluço

ferindo o estrume em breves plantas novas.

Ao longe o grito do abraço em pé

com as vergonhas cobertas de papel

os prumos os cabos o pão um ovo

o vinho deitado, aqui ao pé do choro. 


Armando Silva Carvalho em Lírica Consumível

sexta-feira, 25 de julho de 2025

AGRICULTURA

Agrícola era o sonho dos antigos

menestréis criados lavradores

frenesi demente nos postigos

interessantes inentos pra doutores

 

houve ainda um fado de em criança

um boi domesticado nos seus urros

por dentro dos amanhos um choro repelente

que vinha das searas dos donos e dos burros

 

agrícola o modo por que canto

redondo poder que os meus avós legaram

com loucos sim palermas no seu sono

primos de tanta vida pelas enxadas

ancinhos arados abandono

 

agrícola é o vinho e seu prazer

o som funesto do suor pela barba

e todas as mulheres

de narinas refeitas

e seios de pinho antigo

mulheres de tanto azedo e xaile

e tanto filho

Armando Silva Carvalho em Lírica Consumível

segunda-feira, 2 de junho de 2025

O PESO DAS FRONTEIRAS

Aqui me tens. E o texto.
Partículas. Partes sensíveis, pequenas
vísceras onde ocultam vermes;
uma poeira doce;
depois uma ferida.
 
Repara bem nas frases.
Na lenta fusão das letras sob o estômago.
Feriste-me. E as sílabas de um mar
há tanto, tanto tempo desejado,
vais ouvi-las mais tarde
quando discutes Marx, ofendes os amigos
ou passeias de mão dada com os poderes do tédio.
 
Insisto apenas para que me descubras.
Mais ou menos absorto. Virado de costas
ou simplesmente lendo
sem fome as páginas do tempo.
Nunca pesei muito.
Aliás, repara, quando os textos explodem
e se notam no ar as mil paciências
sobre a paciência;
quando a solidão se escama
como um peixe dúbio,
tudo se torna leve, final, tenso, coeso,
e tu podes ouvir, uivando,
um cão banhado em lágrimas.
 
Eu sou eu. Um cão dentro do túnel.
Já de patas desfeitas. Mais frio. Ao frio.
Roubando, entre os antigos, ossos
roendo, entre os modernos, mitos.
 
Os poetas começam onde acaba isto.
Este penso infectado que me pões nos olhos.
Um país termina. Logo nasce um outro.
E o território és tu.,
população, governo.
Amor administrativo; viva pátria
dos cínicos.
 
Vamos: sacode as armas quietas
da mentira.
Alarga as fronteiras
com teu riso sinistro.
 
Eu, mar, ligadura dobrada
sobre o sol do amor,
ardo na terra. Vou e venho.
E, além do mais, sou isto.

Armando da Silva Carvalho em O Que Foi Passado a Limpo

terça-feira, 8 de abril de 2025

OS BANCOS

Era bom descolar dos bancos, erguer o olhar acima

das cantarias, deste peso rotundo,

desta massa de cifras, destes arranjos de papéis abstratos,

destes homens que sou obrigado a ler e ouvir

como tributo ao facto de ainda estar vivo.

Tudo isto e o futebol

e os seus comentadores de camisa aberta, 

deprime a minha idade, mata-me

mais cedo.

 

Eu descubro a febre antes dela me chegar aos membros, 

olho-me ao espelho e pareço um cientista ambulante

desses que ganham prémios

e só lhes falta fixamente o próximo

para alcançarem o cómodo lugar de santos laicos.

As doenças estendem-se nos mapas,

as pestes são como as mariposas, 

e tudo parece esvoaçar na febre programada. 

 

Mas melhor mesmo era descolar dos bancos, 

subir acima do mármore, adormecer sem idade nem estrela,

ou descer tão baixo que a água não consiga encontrar-me,

e os vermes duma beleza estranha, azul, tão movediça,

venham beijar-me os poemas, discípulos de morte.

Sim, descolar dos bancos, encher a boca de terra,

enfim, saber dormir. 

 

Armando Silva Carvalho

segunda-feira, 31 de março de 2025

LOJA DE ANTIGUIDADES

 

                           «Isto faz-me impressão» - desafio de Amália

                            Rodrigues ao verificar que estavam a gravar uma

                             actuação sua no Café Luso, há muitos anos.

                             que isto seja entendido como reconhecimento a

                             uma Voz que nunca me largou na vida.

 

Existe em ti e em mim

essa nostalgia que no faz andar

perdidos na poeira ambígua

dos recados do tempo.

O teu olhar demora-se nas lâmpadas

bordadas: Gallé, esse velho artesão,

sabia o que fazia.

E as unhas nacaradas da mulher

expõem o objecto carregado de beleza

sobre uma alma esteta

que tanto trabalho lhe deu a transformar.

Reparem nesta pela – e a sua garganta

ressoa a arte nova imperiosa.

Buscámos no vivido um óleo

Intransmissível

para os nossos corpos.

Silenciosamente andámos nessa gruta

dentro da cidade onde os ruídos caem

como lanças bárbaras

e a luz fria da noite

estilhaça a nossa vista.

É bom pousar assim tanta memória

nas mãos férteis e frágeis

das coisas esquecidas.

Mas à saída, justamente à porta,

as mãos de outra mulher, meticulosas,

rebuscavam no chão, entre outras peças,

outras coisas vividas, esquecidas,

enfim, outros destroços:

do fascínio da carne, os pedacinhos de ossos.

 

Armando Silva Carvalho de Sentimento de um Acidental em O Que foi Passado a Limpo

sexta-feira, 28 de março de 2025

AGRÁRIO E AGRESTE

                                                                ao António Rego Chaves

 
Sobre as árvores encolhidas que gastavam
a ternura de tudo; severo,
o céu desajeitado avolumou-se.
Na testa do silêncio ao pé dos montes
as pedras adoecem entre o sangue
derrota que se imprime por palavras
se imite diminuta nos alqueives.
Sob a capa da terra e no alcance
dos dedos de fora inesperados
a rotura simples dum soluço
ferindo o estrume em breves plantas novas.
Ao longe o grito do abraço em pé
com as vergonhas cobertas de papel
os prumos os cabos o pão um ovo
o vinho deitado, aqui ao pé do choro.

Armando Silva Carvalho em Lírica Consumível

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

AS GAZETAS

São muros de papel onde batemos

como insectos doidos

num campo já ceifado.

E vemos nelas os padres

correndo do interior

quase sempre após a sesta

(ainda que se esteja no Inverno)

a folhear Camilo  e a cantar vocábulos

colocando-os com baba às páginas da missa.

 

Sentados numa sala onde cheira a milho

envoltos em samarras onde passeia a traça

os velhos presidentes camarários

fustigam com sonetos e ruminam

seus futuros artigos de fundo.

 

Repórteres de domingos e feriados

os bruxos da província

lastimam o país lêem-lhe a sina

com o pingo no nariz fazem batota

como quem joga o loto

cordeiros nédios dum rebanho honrado.

Armando Silva Carvalho de Lírica Consumível em O Que Foi Passado a Limpo

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

LUAR

Quem me põe na pena palavras que não escrevi,

Na cabeça ideias que não tive

Na vida sensações que não provei?

Levantam-me do chão dos tempos e soltam-me num céu

Aborrecido a meus olhos,

Estrangeiro.

 

Sou eu e o outro, todos os palácios,

Fúteis transferências de sentido, aves de sangue, expostas,

Embalsamadas, duplas, cidades

Da memória.

Vozes modernas inventam-me a criação das odes,

Completam-me os sonetos.

 

Não sei por que me vão falando.

A minha boca calou-se quando eu quis.

E a minha cabeça, vazia, nem em filme animado

Se padece,

Transformou-se em pedra, apagada ao luar

Que eu próprio não usei.

 

Cento e dezoito anos não são tempo

Que faça arrefecer um corpo

Escrito.

Podem ser apenas uma noite, um sonho alucinante,

Ou um dia inteiro, de natureza desperta,

Um fruto, uma folha, uma raiz.

 

Oiço dizer Seattle, e essas mudanças de clima

Que nada tem a ver com o nascimento da alma

Projectam-se no globo etéreo que a minha

Consciência em expansão

Impede que enluteça. A ética também é irmã

Do efeito de estufa das ideias.

 

Dou uma luz indirecta como a lua

Às mãos que me ressuscitam nesta tarde de sol,

De calma, de pobreza de espanto,

E muitas, muitas cicatrizes na pele do pensamento.

Somos ilhas, altivas, mas somos arquipélago,

Ó mar carbónico de fumo, aqui, à nossa volta.

 

Armando Silva Carvalho em  Resumo: a poesia em 2010.

segunda-feira, 8 de julho de 2024

POEMA DOS MOTORISTAS OFICIAIS

Encontram-se um pouco por todos os lugares.

ora fumando,

Orando pelos filhos junto a um deus

Secretariado por magníficos

Patrões.

De fato azul e gravata preta

de anel cachucho e jornal da bola,

o rabo habituado aos bons cabedais

pousado no capot ultra-reluzente.

Trazem da província em cada bolso do corpo

e estendem olhos julgadores às mulheres solitárias

de cigarro na boca em plana rua.

Às vezes são quatro ou cinco à espera do final

de um conselho em pleno parto,

de uma portaria inacabada

ou de uma reunião de economia mística.

Derramam no passeio

o ócio inexplicável de rústicos fiéis

e contam anedotas num bocejo amarelo de melancolia.

Quem lhes dera a reforma, a courela da mãe,

ou num sonho longínquo

essa noite sem lua em que engravidaram

a prima por descuido.

Sinto por todos eles um sentimento soturno

e muito gostaria

que Cesário os conhecesse

ao passear  sozinho

pelas novas avenidas ao anoitecer.


Armando Silva Carvalho em Lisboas

quinta-feira, 27 de junho de 2024

W.C.

Neste país onde ninguém sabe
como obram as musas,
já dizia o outro,
fazer versos realmente versos,
que sigam o espasmo do ânus provecto
dessas criaturas fúteis, decantadas,
ainda é e será muito difícil.

Existe sempre um braço etéreo
que puxa o autoclismo
no momento exacto da defecação.
Ouve-se um ruído,
alguém pergunta ao outro o que se passa:
«É o som das águas que bate na garganta.»
Aliviados então os corações repousam
na sala de visitas da casa devassada
a que chamam d'alma.

Armando Silva Carvalho de Sentimento de um Acidental em O Que Foi Passado a Limpo

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

OS ANJOS VELHOS DO NATAL

Anjos nefastos

Encostados ao ócio

das colunas

 

Anjos desbragados

A urinar ao sol os rios

Da lua

 

Podemos comparar a beleza das ancas

A estúpida e imóvel

Contenção dos seus punhos

Sangrentos

 

Às telas de Caravaggio

 

A um filme de Tarantino

 

A uma reportagem de Belém

No seu fulgor cruel

E suicida

 

Corpos onde a natureza se expande

Sem pudor

 

São os anjos da inerte

Indiferença

 

Olham para o mal como um ofício

 

Não sabem nem acreditam

 

Vêem passar os dias infinitos

Na placidez do céu das suas bocas

Natalícias

Armando Silva Carvalho em Natal… Natais

quinta-feira, 6 de julho de 2023

OS LOUCOS

A profissão de deus, o discurso do mundo, os pilares do universo,

eis um princípio magnânimo para abrir um poema.

A sua vastidão sem nome foge aos nomes,

solta na cabeça uma animalidade, lirismos, novas criaturas.

 

Quer passear com deus, a pobre alminha gráfica,

e recruta os anjos nos olhos da malícia, diz-se que deus é pobre

que não sabe sorrir, que se dá com crianças, putas e publicanos,

que não tem afinal profissão definida.

 

Que ladainha triste e sem filosofia,

sem as cavernas do grego, as mónadas do alemão,

sem o deus sive natura do judeu herege,

sem a teimosia daquele lá porque pensa existe e deus é perfeição

e basta.

 

Olhai: apenas um passeio de trôpegas palavras,

por vezes inquietas, infantis, e logo velhas à nascença,

consoante os cantos em que se vão esconder.

Perdidas dos fenómenos e nómenos, tacteiam-se entre si e logo gritam

que tocaram deus.

 

Há uma cegueira diversa no olhar dos loucos

que os leva a puxar pelo mundo

em segurança.

Como se o mundo fosse uma simples pesca, uma companha,

daqui saltam os peixes corredios, a prata da casa,

tudo o que foi cardume e percorreu o mar,

ciente e cauteloso,

dali crescem moluscos, grossos anéis de coragem,

sem dúvidas, firmes, e poderosos

na morte.

 

Rodam o pescoço à volta do universo, os loucos,

e tudo é matemática, biliões de anos-luz, a imensidão do silêncio

à entrada de deus.

É sua profissão purificar a saliva,

dar maior brilho às almas, criar as labaredas que não ardem,

deixar a casa limpa e ordenar aos anjos

que não adormeçam.

 

Armando Silva Carvalho

segunda-feira, 17 de abril de 2023

O FRIO

Tocar com a língua
na cúpula do ar.

Acomodar os víveres
movimentar o vento.

Fazer deste poema
um frigorífico.

Nas prateleiras ácidas
o silêncio (duplo) dos peixes;
o choro terno e tenro
da hortaliça.

Tocar com as palavras
na cápsula do mar.

Incomodar os vivos.
Mexer na carne com dedos
subversivos.

Impor aos homens
esta abundância fria
colhida nos catálogos.

A elegância
dos ovos
em repouso.

Um mulher serena sonha
com o frio; corre-lhe
pelo corpo o leite desnatado
e fica nos anúncios
pensativa.

No íntimo do corpo
há fendas numeradas
onde o fresco se atreve
a conservar os nervos.

Está na hora
de refrescar a boca.

Donas de casa
e pensadores diários
eis aqui uma demonstração
gratuita do frio.

Armando Silva Carvalho de O Comércio dos Nervos em O Que Foi Passado a Limpo


sexta-feira, 27 de maio de 2022

O AMOR NAS ESCADAS DO METRO

De quem é o braço?
E os cabelos sujos, roídos pela caspa
e falta de água?
E a perna que enlanguesce sob o tecido ruço
que não retém memória?

Meu deus, dirão os velhos ao descer com vagares
as escadas do metro, a mocidade agora
é sexo só e sujo a rolar pelo chão.

Mas quem deita o olhar com mais ternura
e calma
sobre o novelo dos dois
descobre no ar em volta a tessitura tensa
do desejo, um halo amarrotado pela fugaz curvatura
do sonho.

E na lama pérfida que se sobrepõe aos beijos
a parábola fiel às gerações
da terra.

Forçoso será então que caia a chuva,
e cubra a carne sôfrega
exposta à multidão.
Os solitários amaldiçoam toda a inocência
exibida em degraus, caída de bocas tão imundas,
tão perto do inferno
e do êxtase.

O amor pode ser também dalguns que passam
de olhos feridos,
o coração apertado de sangue
e breve compaixão.

Mas só os dois, ali, enleados na energia da alma,
são um palco da alegria do mundo,
gratuito,
à distância da morte e da sua serpente
circular.

São jovens, e estão a soletrar
tão mansos, o horror apreendido pelas bocas
que despontam,
como a planta se eleva do chão endurecido,
como o animal à luz no limiar do medo.

Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.

 

Armando da Silva Carvalho

quarta-feira, 24 de junho de 2020

VELHO CARRO DE UM VELHO


Velho carro de um velho num país de velhos
Um gato a quem falta já a ousadia acrobata dos telhados
E as unhas de aço nas retraídas patas
De veludo puído.

Já foste um gato de muito foles sem contar
Com o da indiferença.
Contigo aprendi a lisonja no regaço e a redobrada vénia
Dos amantes de serviço.

Os dois sentimos as festas
No pêlo e na pele metafórica dos sentidos
Politicamente correctos.
Não houve fogo que nos queimasse o gozo de estar vivos.

Aqui é o sol do frio que nos faz sorrir
Aos pés da escada. Não te debruces em excesso
Nas rochas do Carvoeiro.
O gato e a água juntos não serão a melhor escolha de acabar.

Armando Silva Carvalho

domingo, 10 de maio de 2020

CESÁRIO VERDE

É cavar fundo
absorver
a terra
com os poros
da alma.

Saborear
o chão
e mastigar
de leve
como se fosse
açúcar.

Ouvir
os engenheiros
urinar do alto
dizendo sons obscenos
e fazendo contas.

E ver
e ver depois
o sol dos piqueniques.

A arte
delicada
de chupar os ossos.

A sede
de lamber nos
dedos a gordura.

O espanto
de trinchar
o peito das galinhas.

E afastar
as álgidas fibras
da memória.

E contornar
delicada-
mente
a infância.

E cheirar
os lugares
macios.

E pegar nos seixos
que a solidão
cristalizou.

E apalpar
as carnes
carcomidas do tempo.


Armando Silva Carvalho em Os Ovos D’Oiro

sábado, 18 de janeiro de 2020

ADOLESCENTE


A íntima cruzada da sua alma dispersa,
o sangue
insuportável, possuíam-no.
E era como um coro, rouco, gregoriano,
esse cavalgar perdido no deserto, esse amalgamar
de cruéis erros de cálculo, de posses
repetidas pela insónia.

Testava o tamanho do seu membro
como quem pretende contratar para si a morte,
ou temia esse glandular inflado do desejo
nas sevícias da infância,
no corpo que cresce só e se repete na noite
numa fala só, isolada do mundo.

Tornado que foi público
o seu acesso ao sexo, a sua forma de estar por entre
a gente e nesse estranho lume caldeado,
tornaram-se os testículos
em sinais de fogo que pouco a pouco
se cobriam de água, impura,
magoada.

E depois disso, diz-se, nunca mais sorriu.

Armando Silva Carvalho em Resumo: a poesia em 2012

quinta-feira, 18 de abril de 2019

VIVES


Vives sob o som de um telefone que tu deves
tocar. Mas quando?
Um telefone pode ser um barulho feliz
no silêncio da sala em que a esperança desceu
em busca de um coração adormecido.
Cabe-te a ti trazer a voz
da distância par dentro do teu peito
ou deixar que ela se perca no charco intransponível
Do mundo indefinido.

Armando Silva Carvalho em Três Vezes Deus

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

terça-feira, 26 de março de 2019

O MEL EM BRASA


Traçaram-lhe o perfil ao sair da água.
Não era nadador
Nem os seus pulmões conheciam o ar da clausura
Isso que está por baixo
E só o próprio sabe controlar tão bem
Como no sono.

Por vezes os seus gestos eram jactos
De fogo.
Houve quem dissesse
Que os seus poemas balavam os túmulos
Levedavam a vida
E sagravam o corpo numa ostentação
De jóias e artérias.

Tive a sorte de vê-lo
Quando se dirigia ao local prévio
Onde fundia a sede
E levava à boca um pequeno vaso
De limalha.
Não era o seu ofício, aquilo,
Não era ainda o fogo, a grata labareda
Que lhe saía do peito.

Assim se permitia mover os dedos
Com uma estranha timidez que não vem nos livros
Abafando os relâmpagos ao nível dos castiçais
Para que se ouvisse a voz primeiro
Que a dança.

Não trocámos palavras nem sedas de circunstância.
Olhámos os dois em frente.
E eu não sabia onde ocultar a pedra
De mim próprio.

Armando Silva Carvalho de Sol a Sol em O Que Foi Passado a Limpo