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quarta-feira, 8 de abril de 2026

OLHAR AS CAPAS


Alfred Eisenstaedt

Direcão: Henrique Monteiro

Colecção Mestres da Fotografia

Edição: Expresso, Lisboa 2008

Sonho que algum dia não seja necessário a passagem da mente para o meu dedo.

E em que poderei tirar fotografais com um simples pestanejar.

sábado, 14 de agosto de 2021

O TORCIONÁRIO DO BEIJO ROUBADO


Uma noite, já longínqua e em lugar público, eu agarrei-me a um polícia, e ele a mim, aos pulos e abraços. Éramos adultos e a coisa completamente consensual mas, há que dizê-lo, estávamos a celebrar um crime. Então, não havia ainda o VAR e o crime ficou impune. Apesar disso, eu próprio me tenho encarregado de auto-denunciar a minha participação na tal prevaricação.

Isso foi, portanto, numa quarta-feira, 18 de abril de 1990. O meu conterrâneo Vata tinha acabado de cometer um golo com a mão, no jogo da Taça dos Campeões que levou o nosso Benfica a uma final europeia. Trago para aqui essa memória e não é por estar aguilhoado pelos remorsos. Não me penitencio. Assumo e explico-me: há momentos de júbilo em que os pecadilhos são perdoáveis.

Entre os abraços ao senhor agente (atenção, nunca houve beijo), vi mais gente nos mesmos preparos jubilatórios. Políticos de várias cores, cunhados que não se falavam nem no Natal (ali reunidos porque o sogro tinha lugares cativos), o pobre que se desunhou para comprar o bilhete na candonga e o administrador que fez o favor de só aceitar uma borla na bancada porque os camarotes estavam cheios... - quase todos em abraços apertados. Quero eu dizer, o meu crime de bancada era socialmente aceitável.

Assim, não o quero comparar com o crime hediondo ocorrido no dia 14 de agosto de 1945, na Times Square, Nova Iorque. Mas vou contar este por dever de atualidade. Ia Greta, com o seu vestido imaculado de enfermeira, sapatinhos e meias brancas também, e por ali andava Alfred, um fotógrafo com sua pequena Leica sem flash, como então tão pouco se usava. Havia um multidão, pois o Japão anunciou que ia render-se. Era o fim da II Guerra Mundial, 80 milhões de mortos, campos de concentração nazis e duas bombas atómicas - desculpem-me esses pormenores irrelevantes, quando estamos perante a coincidência de se encontrarem numa praça nova-iorquina a pureza da alva Greta e o Alfred tão sincero que não usava flash.

Eis que o marinheiro George assaltou esse momento diáfano! No meio da multidão, o marinheiro atacou violentamente a enfermeira Greta. Isto é, enlaçou-a (desculpem a brutalidade do termo) e beijou-a (desculpem, outra vez). O fotógrafo Alfred clicou e deixou para a eternidade o testemunho do horror. Veem-se na foto, à volta, homens e mulheres sorridentes - apesar da evidência do supremo mal tão próximo - parecendo mais interessados na minudência do fim da II Guerra, do que no crime ignóbil que assistiam. Ah, género humano, sempre tão distraído!

A foto, embora nunca exibida em nenhum museu do Mal (de Dachau ao Camboja), tornou-se famosa. Recentemente, procurou-se o marinheiro George e soube-se, para nossa vergonha nacional, que ele se chamava Mendonsa, filho de um Mendonça que emigrou. O marinheiro disse que tinha ido para a Times Square celebrar fim da guerra, até ia com a namorada, bebeu uns copitos, viu a enfermeira e pespegou-lhe um beijo à Hollywood.

 Logo no ano seguinte, Frank Sinatra e Gene Kelly, em Paixão de Marinheiro, iriam dar beijos iguais a raparigas, mas isso era Hollywood. Na vida real, em Times Square, na foto, vê-se o braço esquerdo da enfermeira, lânguido, sem estar agarrado, rendido, mas também o King Kong levou a rapariga para a Estátua da Liberdade e ela ia constrangida. Talvez a enfermeira Greta tivesse desmaiado pela violência do ataque inopinado. Quando também foi encontrada pelos jornalistas, muitas décadas depois, a enfermeira disse que o beijo não foi consensual, fora surpreendida pelo marinheiro.

Mas também contou que se chamava Greta Zimmer, fugida do seu país natal, Áustria, e refugiada nos Estados Unidos, em 1939. Quer dizer, naquele dia do fim de guerra, ela tinha motivos de júbilo. Mas não nos desviemos do essencial: a enfermeira foi atacada. O fotógrafo que publicou a foto na capa da revista Life chamava-se Alfred Eisenstaedt, era um judeu alemão, desde meados dos anos 30 refugiado na América. Naquele dia, na Times Square, também ele celebrava.

Mas porque insisto eu em falar de júbilo, quando 14 de agosto de 1945 foi o dia do horror?! Esta semana, aos 92 anos, morreu George Mendonsa, o torcionário do beijo, infelizmente sem nunca ter sido um daqueles velhos julgados como qualquer kapo de um campo de concentração nazi.

Ferreira Fernandes no Diário de Notícias.

segunda-feira, 1 de março de 2021

POSTAIS SEM SELO


A impaciência dos passageiros não pode acelerar o comboio.

Gonçalo M. Tavares

Fotografia de Alfred Einsentaedt

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O TORCIONÁRIO DO BEIJO ROUBADO


Uma noite, já longínqua e em lugar público, eu agarrei-me a um polícia, e ele a mim, aos pulos e abraços. Éramos adultos e a coisa completamente consensual mas, há que dizê-lo, estávamos a celebrar um crime. Então, não havia ainda o VAR e o crime ficou impune. Apesar disso, eu próprio me tenho encarregado de auto-denunciar a minha participação na tal prevaricação.
Isso foi, portanto, numa quarta-feira, 18 de abril de 1990. O meu conterrâneo Vata tinha acabado de cometer um golo com a mão, no jogo da Taça dos Campeões que levou o nosso Benfica a uma final europeia. Trago para aqui essa memória e não é por estar aguilhoado pelos remorsos. Não me penitencio. Assumo e explico-me: há momentos de júbilo em que os pecadilhos são perdoáveis.
Entre os abraços ao senhor agente (atenção, nunca houve beijo), vi mais gente nos mesmos preparos jubilatórios. Políticos de várias cores, cunhados que não se falavam nem no Natal (ali reunidos porque o sogro tinha lugares cativos), o pobre que se desunhou para comprar o bilhete na candonga e o administrador que fez o favor de só aceitar uma borla na bancada porque os camarotes estavam cheios... - quase todos em abraços apertados. Quero eu dizer, o meu crime de bancada era socialmente aceitável.
Assim, não o quero comparar com o crime hediondo ocorrido no dia 14 de agosto de 1945, na Times Square, Nova Iorque. Mas vou contar este por dever de atualidade. Ia Greta, com o seu vestido imaculado de enfermeira, sapatinhos e meias brancas também, e por ali andava Alfred, um fotógrafo com sua pequena Leica sem flash, como então tão pouco se usava. Havia um multidão, pois o Japão anunciou que ia render-se. Era o fim da II Guerra Mundial, 80 milhões de mortos, campos de concentração nazis e duas bombas atómicas - desculpem-me esses pormenores irrelevantes, quando estamos perante a coincidência de se encontrarem numa praça nova-iorquina a pureza da alva Greta e o Alfred tão sincero que não usava flash.
Eis que o marinheiro George assaltou esse momento diáfano! No meio da multidão, o marinheiro atacou violentamente a enfermeira Greta. Isto é, enlaçou-a (desculpem a brutalidade do termo) e beijou-a (desculpem, outra vez). O fotógrafo Alfred clicou e deixou para a eternidade o testemunho do horror. Veem-se na foto, à volta, homens e mulheres sorridentes - apesar da evidência do supremo mal tão próximo - parecendo mais interessados na minudência do fim da II Guerra, do que no crime ignóbil que assistiam. Ah, género humano, sempre tão distraído!
A foto, embora nunca exibida em nenhum museu do Mal (de Dachau ao Camboja), tornou-se famosa. Recentemente, procurou-se o marinheiro George e soube-se, para nossa vergonha nacional, que ele se chamava Mendonsa, filho de um Mendonça que emigrou. O marinheiro disse que tinha ido para a Times Square celebrar fim da guerra, até ia com a namorada, bebeu uns copitos, viu a enfermeira e pespegou-lhe um beijo à Hollywood.
 Logo no ano seguinte, Frank Sinatra e Gene Kelly, em Paixão de Marinheiro, iriam dar beijos iguais a raparigas, mas isso era Hollywood. Na vida real, em Times Square, na foto, vê-se o braço esquerdo da enfermeira, lânguido, sem estar agarrado, rendido, mas também o King Kong levou a rapariga para a Estátua da Liberdade e ela ia constrangida. Talvez a enfermeira Greta tivesse desmaiado pela violência do ataque inopinado. Quando também foi encontrada pelos jornalistas, muitas décadas depois, a enfermeira disse que o beijo não foi consensual, fora surpreendida pelo marinheiro.
Mas também contou que se chamava Greta Zimmer, fugida do seu país natal, Áustria, e refugiada nos Estados Unidos, em 1939. Quer dizer, naquele dia do fim de guerra, ela tinha motivos de júbilo. Mas não nos desviemos do essencial: a enfermeira foi atacada. O fotógrafo que publicou a foto na capa da revista Life chamava-se Alfred Eisenstaedt, era um judeu alemão, desde meados dos anos 30 refugiado na América. Naquele dia, na Times Square, também ele celebrava.
Mas porque insisto eu em falar de júbilo, quando 14 de agosto de 1945 foi o dia do horror?! Esta semana, aos 92 anos, morreu George Mendonsa, o torcionário do beijo, infelizmente sem nunca ter sido um daqueles velhos julgados como qualquer kapo de um campo de concentração nazi.

Ferreira Fernandes no Diário de Notícias on-line

sábado, 14 de agosto de 2010

UM BEIJO PARA A ETERNIDADE

A 14 de Agosto de 1945, o fotógrafo Alfred Eisenstaedt, com a sua “Leica” captou, na Times Square, em Nova Iorque, o arrebatado beijo de um marinheiro a uma enfermeira.

Uma multidão festejava a rendição dos japoneses, que determinaria o fim da 2ª Guerra Mundial.

A fotografia foi publicada na capa da revista “Life”, correu mundo e consta da lista dos beijos mais famosos do Século XX.

Eisendstaedt não anotou o nome dos dois protagonistas e durante mais de 60 anos as identidades foram matéria de disputa.

Não se conheciam, beijaram-se e cada um seguiu o seu caminho.

A enfermeira foi identificada, anos depois, como Edith Shain. Em 1980,então com 62 anos, enviou uma carta a Eisenstaedt:

"Sou eu. Nunca o assumi publicamente porque podia colocar-me numa posição pouco digna. Mas agora os tempos mudaram"

Edith Stain morreu no dia 23 de Junho de 2010. Tinha 91 anos.


A “Life” lançou o desafio para identificar o marinheiro, mas encontrar a sua identidade foi mais difícil.

Só após prolongados estudos, Lois Gibson, especialista forense, acabou por identificar o marinheiro como sendo Glenn McDuffe, que sempre reclamara ser ele o marinheiro da fotografia.

McDuffe, agora com 85 anos, luta contra um cancro, mas mostrou-se feliz com a revelação:

"Pensei que ia morrer antes de resolver esta questão. Era o meu maior medo. Estava no metropolitano quando soube da notícia. Fiquei tão feliz que saí para a rua. Quando vi a enfermeira, corri para ela e beijei-a. Depois do beijo, voltei para o metropolitano e segui para Brooklyn."

Histórias simples.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

6 DE AGOSTO DE 1945



Maio de 1945.

Um estranho silêncio caiu sobre a Europa. Os canhões tinham cessado de disparar e as bombas deixaram de cair sobre as cidades.

Hiroxima., 6 de Agosto de 1945.

O Japão em guerra, acumula desastres em todas as frentes. Apesar de tudo, era mais um dia para viver: nas escolas, nos escritórios, nas fábricas, nos templos.

McArthur, comandante -chefe das forças do Pacífico, informara o governo dos Estados Unidos, de que o Japão atingira o limite da sua resistência e que, em poucas semanas, o golpe de misericórdia podia ser vibrado pelas armas convencionais.

E de súbito, foi aquele clarão imenso, mais brilhante que cem mil sóis. Não houve tempo sequer para formular uma interrogação e Hiroxima ficou reduzida a escombros, milhares e milhares de mortos, feridos, desaparecidos.

O repórter do “Chugoku Shinibum” saiu para a rua. Poucas vezes disparou a máquina.
“Tive vergonha de fixar aquilo que os meus olhos viam”, disse mais tarde.

A poetisa Yukio Ohta descreverá a situação:

“Vimos um clarão e ficámos assim.
Cada um de nós, durante algum tempo, fez inconscientemente um número infinito de coisas sem saber o que fazia. Depois acordámos e perdemos a vontade de pronunciar palavra. Até os cães, que por ali vagueavam, deixaram de ladrar. Hiroxima não parecia uma cidade destruída pela guerra, mas uma antevisão do fim do mundo”.


Ao menos, o lançamento da bomba sobre Hiroxima correspondia a uma necessidade?

Quer dizer: era indispensável, como medida extrema para pôr fim à guerra e, assim, impedir o derramamento de mais sangue no campo aliado?

Não!

Os Estados Unidos quiseram dar a conhecer ao mundo que, a partir daquele momento, contavam com uma arma de destruição excepcional e urgia que o mundo soubesse quem passaria a “impor o respeito”.

Como se lia no “Daily Mail: “ A diferença em potencial bélico entre nós e o resto do mundo é como se eles não tivessem descoberto a electricidade, ou a energia a vapor…”


Ainda hoje continua a morrer gente por via do trágico bombardeamento: de cancro, leucemia , de desespero, de loucura…


A 9 de Agosto de 1945, os Estados Unidos fariam rebentar uma outra bomba atómica sobre Nagasaqui.

Mais um acto vergonhoso.


Como alguém um dia disse: nenhum povo tem o direito de humilhar, de uma forma tão brutal e desumana, outro povo.

“Voltaremos a encontrar-nos. Não sei onde, nem quando, mas voltaremos a encontrar-nos num dia de sol”, tal como se ouve no final de “Dr. Strange Love” de Stanley Kubrik


Legenda: Fotografia de Alfred Eisenstaedt