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sábado, 9 de março de 2024

CRONICANDO POR AÍ


A crónica de Manuel S. Fonseca, lida na sua Página Negra, tem o título de «Dry Martini ou o Concorrente do Cavaco.

Toda a crónica é um belo naco de prosa, como habitualmente, e copio estes parágrafos:


«Faulkner, o romancista de “Palmeiras Bravas”, era apreciador de um rigoroso dry martini – como eu, quando tinha férias, antes de ser editor de livros –, só o geladíssimo gin, límpido oceano oleado por uma impura azeitona e pelo não mais do que aroma de uma gota de martini.  Dizia Faulkner: «Quando bebo um dry martini sinto-me gigante, sapientíssimo, elevado. Tomo o segundo e sinto-me superlativo. Depois disso, não há quem me segure.» O professor Cavaco que me perdoe, mas tem no dry martini o seu maior concorrente: o dry martini abre auto-estradas sem precisar de PRRs ou subsídios europeus. Como disse o superlativo Faulkner e eu mesmo, na minha modéstia, experimentei, bebe-se e o veludo do gin cria no interior do ser humano uma larga e esplêndida via de comunicação, um vácuo que precisa de metafísica e transcendência para ser preenchido, caso de Faulkner, ou para espíritos mais prosaicos, como é o meu caso, de picanha, churrasco, dantescas doses de queijo da serra.

Dorothy Parker não me desmente: “Adoro beber um ou dois dry-martinis. Com três, atiro-me para baixo da mesa. Com quatro para o colo do meu parceiro.” Não admira, por isso, que se diga que muitos escritores americanos que se conheceram e incendiadamente discutiram noite fora, se se vissem à luz do dia não se reconheceriam, já que nunca tiveram a infelicidade de se verem sóbrios.

O álcool mata e é duvidoso que os 15 graus de um bom tinto ou os fulminantes 42,4 de um Laphroaig de 1960, vintage reserve, venham acompanhados por camonianas “Ninfas amorosas, de amor feridas”, essas que olhos marinheiros logo cobiçam. Mas também é verdade, o que o actor e cronista Robert Benchley disse a um amigo que lhe censurava o dilúvio que o via emborcar, avisando-o de que o álcool era “um veneno lento”: “Pois sim – respondeu Benchley – e quem é que aqui tem pressa?”

Quem tinha pressa era Marguerite Duras. Levantava-se e esqueçam lá o cafezinho matinal, Duras ao primeiro contacto com a luz solar precisava de vinho ou whisky. Tenho de contar isto ao Pedro Nabinho, meu sócio na Guerra e Paz e com culpas no cartório: ele, nos tempos do Festival de Cinema da Figueira da Foz, batia-lhe à porta, em Paris, para lhe levar vinhos portugueses. Volto às ninfas. Raymond Chandler, e bastava a leitura de “The Long Goodbye”, o mais belo dos mais belos dos seus livros, para que tirássemos a camisa e a rojássemos pelo chão para que ele nela limpasse os sapatos, confessou: “O álcool é como o amor. O primeiro beijo é mágico. O segundo é íntimo, o terceiro rotina. Depois disso, já é só arrancar à amada a roupa toda.” Ou, como um poeta francês, quase ignorado, escreveu: “Quando o meu copo está cheio, esvazio-o/ Quando o meu copo está vazio, encho-o.” Copo erguido, à vossa!»

sábado, 22 de abril de 2023

POSTAIS SEM SELO

O problema é mesmo do país e, sendo assim, está em todos nós. Quem nunca pediu um favor ou meteu uma cunha, ou se calou perante um abuso, que levante o braço!

Vou beber um copo, para a realidade não ser tão dolorosa.

Pedro Garcias 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

AH! SIM, AS LOJAS COM HISTÓRIA...


 Tive sempre o pressentimento de que as Lojas com História era apenas uma ideia, talvez se possa dizer uma ideia interessante. mas apenas isso ou histórias para camelos como diria o Fernando Assis Pacheco

Quando chegasse a especulação do imobiliário, adeus lojas, adeus história, adeus ideias interessantes, adeus Lisboa.

Chegou agora a vez do Bar Americano, ali ao Cais do Sodré.

Do site das Lojas com História, retiro este paleio:

 «O Bar Americano foi inaugurado em 1920 no coração de uma zona ribeirinha conhecida pelos seus bares. Rapidamente assimilou o ambiente multilíngue e multiétnico - marinheiros de todas as partes do mundo, turistas (mas menos do que hoje), diversos artistas e gente da noite, seja por profissão ou profissão. Dos muitos milhares de convidados que já recebeu, a memória tende a ficar naqueles nomes atemporais, como os dos escritores José Cardoso Pires e Alexandre O'Neill, que aqui sentavam e escreviam, festejavam ou apenas passavam o tempo /noite.

O Bar Americano é um dos três bares de influência anglo-saxônica da região - entre Corpo Santo e Cais do Sodré. Cardoso Pires, frequentador destes bares, escreveu numa crónica intitulada De bar em bar.»

 Não ponho mais paleio porque o resto até refere que o Bar Americano tem uma enorme tela de televisão que atrai numerosos espectadores em dias de jogo de futebol.

 O Americano era um bar de silêncios, cuja única música que se ouvia, era o tilitar do gelo nos copos.

Foi aí que ouvi que, em conversa pacata e feliz, a descrição do que é um barman: «o que ouve é como não tivesse ouvido, o que vê é como não tivesse visto.»

 Fechou um dos bares mais antigos de Lisboa e que, neste ano prestes a findar, completou 100 anos.

Naquele enorme quarteirão nascerá mais um Hotel.

Deixo-vos a seguir umas memórias de tempos que já foram, notáveis tempos.

 São lúgubres estes tempos de crise pandémica.

Estamos a tentar sairmos vivos, mas o galho está difícil!

terça-feira, 2 de julho de 2019

POSTAIS SEM SELO


E que aborrecimento não beber. O mundo, em si mesmo, é muitas vezes entediante e carece de verdadeira emoção. Sem álcool uma pessoa está perdida.

Enrique Vila-Matas

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Ano de 1964, anúncio ao Vinho Lagosta que penso que já não se produz.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

OLHARES


O licor começa a ser feito em Março, quando aparecem os morangos.

Num frasco de boca larga colocam-se 100 gramas de morangos, 100 gramas de açúcar e cobrem-se com aguardente.

No decorrer dos meses seguintes, coloca-se a mesma quantidade de açúcar e de aguardaente.
À medida que os frutos vão surgindo passam a entrar: framboesas, cerejas, ginjas, alperces, pêssegos, amoras, ameixas.
O último fruto são as uvas.

No último dia do mês de Outubro rectifica-se o açúcar e a aguardente.

quarta-feira, 17 de março de 2010

BEM A SINTO, BEM A SINTO

Mais importante que a Primavera, é estarmos à espera dela.

Assim como quem espera a mais improvável das primaveras.

O gosto de nascer que a Primavera tem, todos os anos, quando Março chega.

Donde vem a Primavera que todos a esperam febrilmente?

As palavras dos outros as palavras que escolho porque dizem, sempre, as coisas melhor do que eu digo.

Catarina Portas:

“Vislumbrar a primeira andorinha do ano é uma alegria inexplicável, como o deslumbre de um dia sair à rua e descobrir os jacarandás em flor ou aquele prazer raro de trincar as primeiras cerejas do calor. Agora cerejas já as há todo o ano, vindas daqui e dali, mas como as andorinhas ainda não se dão em estufa e só arribam quando muito bem lhes parece, esta é ainda uma das felicidades inteiras que o ciclo anual das estações nos traz.”

José Luis Peixoto:

“A minha dor é esta primavera que nasce e me mostra
Que o Inverno se instalou definitivamente em mim”


António Lobo Antunes:

“Não sei se as pessoas a partir de certa altura deixam de esperar seja o que for.”

Legenda: a imagem é retirada da imaginativa colecção de reclames da "Absolut Vodka"
Nota do editor: o título do texto é retirado de uma crónica de Fialho d'Almeida em "Os Gatos" Vol. I