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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO


Há dias, neste Cais, poderia encontrar-se o lamento de que as livrarias vão desaparecendo por Lisboa, também a ideia de fazer um roteiro de algumas livrarias, quando as havia.

Porém na Internet podemos ir encontrando sites que vendem livros.

Um bem interessante e de confiança é a Frenesi Loja:

Mais de 5.500 obras disponíveis no catálogo.

Vou lá regularmente e hoje copio as referências que a Frenesi faz ao livro que reúne as peças de teatro A Guerra Santa e A Estátua:

«Livro apreendido pela polícia política do Estado Novo em circunstâncias particularmente vergonhosas, dando origem ao encerramento da casa editora, que, depois de ver as instalações seladas, acabou com as caves-armazém criminosamente inundadas. Sttau Monteiro será preso, paga do regime pela sátira à ditadura e à guerra colonial. A imprensa, a 7 de Dezembro de 1966, transcreveu o comunicado do governo com a versão oficial para o referido “encerramento”:

«Do S. N. I. recebemos a seguinte informação:

“Foi mandada aplicar á Editorial Minotauro a pena de encerramento definitivo, prevista no art.º 3.º do Decreto-Lei n.º 33015, de 30 de Agosto de 1943.

Esta pena foi aplicada àquela empresa por ter editado um volume com graves implicações prejudiciais á defesa dos fins superiores do Estado e nomeadamente ofensivo do prestígio das Forças Armadas, que neste momento se batem, numa guerra que nos é imposta, em defesa da integridade nacional.”».

1.

«Resumindo e concluindo: Portugal é mesmo um país especial e indescritível, dos poucos onde dois partidos gémeos, o PS e o PSD, governam à vez e fingem odiar-se, apesar de frequentarem os mesmos restaurantes, as mesmas igrejas, as mesmas organizações secretas, as mesmas praias, e terem entre os seus quadros todo o tipo de gente, desde corruptos a ladrões, malucos, pervertidos, bêbados, esotéricos e desavergonhados. E imagino que seja assim na Iniciativa Liberal, no Livre, no PAN, no PCP… No jornalismo é a mesma coisa: há de tudo, como na farmácia.»

Pedro Garcias de uma crónica no «Público» de 14 de Fevereiro de 2025

2.

No final de Janeiro deste ano, mais de 1,5 milhões de utentes continuavam sem ter um médico de família atribuído. Um número em linha com os valores registados no final do ano passado e com os de final de Março desse ano - o Governo tomou posse a 2 de Abril. Na altura, o objectivo enunciado pelo executivo é dar uma resposta de saúde familiar a todos os portugueses até ao final deste ano.

3.

No dia em que Carlos Paredes nasceu há 100 anos, o Público publicou um excelente trabalho sobre o príncipe da guitarra portuguesa designado por Três Músicos escrevem sobre Carlos Paredes:

Um leitor deixou este comentário:

«Parabéns ao jornal Público, pelo serviço cívico, cultural e artístico, que presta, ao dedicar espaço, tempo e esforço a divulgar o legado de Carlos Paredes. Permito-me, com a devida vénia, complementar o testemunho de Manuel Fúria, com algumas ideias, que espero serem úteis para o debate, que se pretende plural e tudo menos unânime, consensual e, por isso, vazio de substância. Vinte anos depois da morte de Paredes (em 2004), num mundo em que a política dita um rosário de casos de corrupção, de escândalos éticos, económicos, de guerra selvagem e de gente desiquilibrada e megalómana (Trump e Musk são apenas os mais evidentes), relembrar o legado, a simples existência, de um homem simples, humilde, generoso e elegante como Paredes constitui um bálsamo para a alma. Haja esperança e alegria.»

4.

59% dos professores já se sentiram vítimas de bullying e 10% dos professores dizem já ter sofrido agressões físicas, principalmente de alunos, mas também de pais.

 5.

Nas empresas de restauração e similares os imigrantes são já mais de 30% do total de trabalhadores.

6.

Um em cada cinco portugueses reforma-se antecipadamente e em 2024 verificaram-se cinco despedimentos de grávidas por dia, um significativo aumento face a anos anteriores.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

O PAI NATAL

«Tretas tretas tretas a mim é que não me levam mais era o que faltava ou um ou outro é um aldrabão disseram-me que o pai natal descia pela chaminé e eu acendi o fogão para lhe queimar o rabo para ele dar um grito para eu o ver e nicles quem ficou com o rabo a arder fui eu que levei bumba no toutiço por ter gasto gás é só para ver como as coisas são disseram-me que ele trazia presentes do céu e o que ele me trouxe foi uma camisola que eu vi numa montra duma loja em saldo com o preço e tudo isto quer dizer que o Céu fica na Rua dos Fanqueiros ou que me aldrabaram por eu ser criança é o que eu digo mentem à gente mal a gente nasce e depois queixam-se de que a gente em grande queira ir para a política outra coisa que o pai natal me deu foi um compêndio de Ciências Naturais aprovado para o primeiro ano ora abóbora que se eu fosse má até ficava a pensar que o pai natal é o meu pai o que vale é que eu sou boa até ver sim até ver que se me pregam outra partida como esta vão ver como é que eu sou por dentro porque lá por dentro sou má como as cobras se julgam que eu saio à minha Mãe enganam-se lá no fundo eu saio ao meu pai mas não quero que se saiba para salvar o toutiço que se ele adivinha isso é bumba no toutiço até mais não outra malandrice que me fizeram foi darem-me um cavalinho de madeira que o meu avô comprou para levar à maternidade quando eu nasci a pensar que eu era menino mas o diabo do velho quando viu a enfermeira mudar-me a fralda meteu o cavalinho no bolso e foi a correr comprar uma roca de prata porque nesse tempo o plástico ainda era caro e levou o cavalinho para casa para quando viesse um menino e como nunca veio porque em Paris deixaram-se de fazer coisas dessas e agora fazem outras o tal cavalinho foi escondido numa mala muito velha onde eu o encontrei há mais de cinco anos estou farta de brincar com ele sem ninguém saber e vai este ano bumba apareceu-me no sapato como se fosse um presente do pai natal assim não vale abóbora que ou a gente é séria ou não é isto até faz com que se perca o respeito pela família terrestre e pela família celeste que o meu pai queira enganar o pai natal vendendo-lhe cavalinhos velhos e Compêndios de Liceu ainda eu entendo agora que ele os compre se calhar pelo dobro do preço é que não entendo nem à bala são estas coisas que fazem a gente perder a fé e depois espantam-se outra porcaria que me fez o pai natal foi dizer ao meu pai que este ano os presentes eram fracotes por causa da crise que há no Céu mas então se aquilo é igual à Terra para que é que lhe chamam Céu anda a gente a privar-se de coisas para ir para o Céu e chega lá e bumba aquilo é como a Graça ou como o Areeiro eu é que não vou nisso e se as coisas não mudam para o ano faço de conta que não sei da crise e mando uma reclamação para o deputado que me representa na assembleia e o pai natal vai ver como é que as moscas picam para aprender a ser profissional a valer que isto dum pai natal amador não interessa a ninguém e muito menos a esta vossa GUIDINHA que não está cá por ver andar os outros.»

Luís de Sttau Monteiro em Redacções da Guidinha


quarta-feira, 13 de novembro de 2024

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


A Frenesi Loja tem à venda «Redações da Guidinha» de Luís de Sttau Monteiro.

É este o anúncio:

 

[LUÍS DE STTAU MONTEIRO]

ilust. Luís Osório

 

Lisboa, 1971

Edições Ática, S. A. R. L.

1.ª edição (em livro)

195 mm x 181 mm

136 págs.

ilustrado

exemplar estimado, pequeno restauro na contracapa; miolo limpo

35,00 eur (IVA e portes incluídos)

Entre 1969 e 1980, primeiro no suplemento «A Mosca» (Diário de Lisboa) e, depois do 25 de Abril, n’O Jornal, este alterego traquina e desbocado de Sttau Monteiro não deu tréguas ao Portugal sensaborão e reaccionário, em crónicas fingidamente pueris, curtas e demolidoras dos poderes vigentes. Aqui reunidas, temos apenas uma amostra dentre elas, publicadas durante os anos 1969-1970; uma segunda série virá a lume, nas edições em livro do semanário O Independente, por mão de Vasco Rosa / Helena de Gubernatis, somente em 2004.

pedidos para:
pcd.frenesi@gmail.com
telemóvel: 919 746 089   [chamada para rede móvel nacional]


Um livro interessante que colocou, na mais que cinzenta primavera de Marcelo Caetano, um toque de humor e crítica aos quotidianos que nos assistiam, em redor de redações escolares de uma moça moradora no Largo da Graça. 

Ou como se lê na contracapa: «A condição humana vista através do incisivo humor duma pequena personagem encantadoramente maliciosa e irreverente que observa, comenta, vibra – e faz vibrar quantos a conhecem.»

Começa assim:

«Ora cá estou eu Guidinha em tudo menos nos papéis porque nos papéis sou Margarida Peixoto para falar dos homens pais que são os homens piores que eu conheço são tão ruins que eu tenho pena de ter Mãe e Pai antes queria ter duas Mães eles são tão ruins que até fingem que a gente não existe quando eu ando na escola a escrever os nomes dos namorados das vizinhas nas paredes sim que não segredo nenhum toda a gente sabe que a D. Mécia do segundo anda embeiçada pelo careca da sapataria aparece sempre alguém que pergunta «pst ó menina quem são os seus pais?» o que eu queria dizer é que ninguém me pergunta «pst ó menina quem são as suas Mães»?

As redacções da Guidinha foram publicadas por Luís de Sttau Monteiro no suplemento A Mosca no Diário de Lisboa. de 1969 a 1970.

Legenda: pormenor da capa das Redacções da Guidinha, ilustrada por Luís Osório.

segunda-feira, 20 de maio de 2024

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

LISBOA AO VOO DO PÁSSARO

Quando há dias Mr. Ié-Ié colocou por aqui a fotografia da placa, que num edifício em Lisboa, nos diz que ali viveu Luis de Sttau Monteiro, ficou à conversa com JC a lembrar um escritor que caiu no completo esquecimento.

Contou então que fora na “Livraria Anglo-Americana,” ali no Cais do Sodré, Rua Bernardino Costa, 32, Lisboa 2 – Telefone 327703, que comprara a edição-fora-do-mercado de “Terra Santa”, que valeu a Sttau Monteiro uns tempos passados em Caxias.

7 de Abril de 1967

O Magalhães Godinho, esta tarde:

O Supremo Tribunal de Justiça negou, por unanimidade o “Habeas Corpus” ao Sttau Monteiro.

E com voz nítida e articulada, para o futuro ouvir bem, repetiu:

- POR UNANIMIDADE.

A palavra “unanimidade” ainda conseguiu assombrar o grupinho…

Nem um, ao menos? Nem um juiz, ao menos?

José Gomes Ferreira em “Dias Comuns”, Vol. II

Eduardo Olímpio, alentejano de Santiago do Cacém, não teve lições de livros doirados, nasceu entre as dobras de ventos e trigos mas nunca traiu os amigos, como diz numa canção de que é autor, ou “um cavalo de perder corridas” como gostava de se chamar, foi, até ao seu encerramento, empregado da “Livraria Anglo-Americana”.

Com ele estabeleceu laços de amizade e cumplicidade. Quando certos livros chegavam à livraria, e ele sabia que não tardaria muito que a PIDE por lá passasse para os apreender, guardava um exemplar. Sabia o que esta casa gastava.

Gratas recordações. Conversas sem fim. 

Pena a “Zarzuela” não ter um bagaço decente para acompanhar a bica enquanto se olham as raparigas, dizia o Eduardo já com a cara a avermelhar.

Ao Lado da “Anglo-Americana” havia a Pastelaria “Caneças”. Tempos depois do 25 de Abril, a “Caneças” transformou-se em Boutique do Pão e mais tarde amplia as suas instalações comprando a “Anglo-Americana", onde se vendia um outro tipo de pão.

Um pão vale mais que um Shakespeare?

Alguém a murmurar: words words, words…

Em redor da “Anglo-Americana” havia todo um mundo daquilo que todos chamavam porta-aviões.

A barra mansa do “British-Bar”, o velho “English-Bar”, quase um clube inglês daqueles dos romances policiais, hoje está lá uma cervejaria, do outro lado da rua o “Bar Americano” onde o José Cardoso Pires se sentava em silêncio, copo de whisky sobre a mesa e, ao lado, o “Califórnia”, café, restaurante, bilhares na cave, também barbeiro e manicure, kioske de jornais e revistas e o António, ao findar-da-tarde-quase-noite, a fritar uns “pregos”, carregados de alhos, ovo a cavalo, fininhos com dois dedos de espuma.

E se ele um dia perde a memória de tudo isto?

Não quer pensar nisso, chega à janela das traseiras e grita: – “Oh Incas, oh incas, oh sol d’Asía!”.

PS - O título do “post” é roubado ao Mário-Henrique Leiria, a fotografia é tirada, num dia cinzento, por um incrível caixote Kodak, máquina que deixou numa qualquer mesa, num qualquer balcão. A “Anglo-Americana” é naquela esquina onde se pode ver um reclame aos cigarros “Chesterfield”.

sexta-feira, 1 de março de 2019

OLHEM!


Moisés Levi: Olhem! A primeira andorinha da Primavera! O Inverno acabou.
Max Cohen: É mentira! O Inverno não acabou! O que tu viste foi um milhafre, dos que andam a voar aos círculos em cima da fogueira.

Luís de Sttau Monteiro em As Mãos de Abraão Zacut

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Sorte! Na vida só o nascer é que é sorte. Uns nascem com a vida feita e outros com tudo por fazer. Uns nascem donos da terra e outros… donos da pobreza.

Luís de Sttau Monteiro em E Se For Rapariga Chama-se Custódia

Legenda: fotografia de Henry Foy

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

POSTAIS SEM SELO


Aprender a ouvir é mais difícil do que aprender a ler.

Luís de Sttau Monteiro em Angústia Para o Jantar

segunda-feira, 17 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


O que custa ma literatura é que só tarde demais se sabe se valeu a pena.

 Luís de Sttau Monteiro.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

QUOTIDIANOS


- Coitada! Para o fim tinha ideias fixas. Morreu com as mãos enlaçadas, rezando pela conversão da Rússia. Ainda bem que morreu naquele momento e não cinco minutos mais tarde. É que, cinco minutos depois, chegou o homem da Companhia para cortar a luz… Tinha-se gasto tudo nos médicos e na farmácia… não havia um tostão em casa!
- Vocês não tinham um amigo, um parente, alguém que ao ajudasse?
- Tínhamos dezenas de amigos: S. João, S. José, Santo António, o beato João de Brito… mas nenhum deles era estabelecido e nenhum tinha conta no banco.

Luís de Sttau Monteiro em Angústia para o Jantar

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Ficaram só dois homens, dentre milhões, com as mãos atrás das costas. Um homem não vive só como um chaparro velho num montado: basta-lhe estender a mão.

Luís de Sttau Monteiro em E Se For Rapariga Chama-se Custódia.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

PROCURA-SE!


Num tempo, em que a censura da ditadura marcelista perseguia Mário Castrim, chegou mesmo a suspender, durante semanas,  o seu Canal de Crítica no Diário de Lisboa, A Mosca, suplemento dos sábados do Diário de Lisboa, fez publicar este aviso.
Aliás, a qualidade jornalística e satírica de A Mosca, mereceria um estudo e que, ao mesmo tempo, se fizesse uma recolha de alguns dos textos que poderiam ser publicados em livro.
Os textos, por norma, não eram assinados, mas conhece-se colaboração, entre outros, de Fernando Assis Pacheco, José Cardoso Pires, João Paulo Guerra, Mário Zambujal, Luís de Sttau Monteiro com as célebres redações da Guidinha.

Hoje, tenho uma imensa pena de não ter coleccionado esse suplemento, como fiz em relação a outros, como seja o Jornal de Crítica que, mais tarde, também aos sábados, se publicava no República.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


Não podiam continuar mais tempo à janela. Impunha-se o regresso imediato ao mundo interior. As janelas são os grandes inimigos dos presos. Ninguém pode viver a dez centímetros da liberdade – antes morrer, fugir para a noite, cair a um poço e ficar lá no fundo a contara s estrelas do céu.

Luís de Sttau Monteiro em E Se For Rapariga Chama-se Custódia.

domingo, 21 de dezembro de 2014

OS SLOGANS PUBLICITÁRIOS DO O'NEILL


Nos tempos da ditadura salazarista, nomes consagrados da intelectualidade, fizeram da publicidade um modo de arredondar os escassos ordenados que usufruíam.

Por lá andaram, entre outros, Alves Redol, Orlando da Costa, Carlos Eurico da Costa, Mário Henrique Leiria, Luís Sttau Monteiro, José Cardoso Pires, Bernardo Santareno, José Carlos Ary dos Santos e Alexandre O’Neill.

Ary dos Santos e O’ Neill terão sido dos mais imaginativos.

Numa entrevista, O’Neill explicou-se:

Ser «copy-writer» é uma actividade engraçada pelo lado da invenção de «slogans», por exemplo. Só é chata quando o cliente não percebe as nossas intenções e acha que está tudo mal. O jeito para o jogo de palavras, trocadilhos, etc., vive comigo há muito tempo e tem-me prejudicado razoavelmente na poesia, embora agora já esteja melhorzinho. Eu descobri a publicidade através do cinema publicitário. Propus uma vez a alguém (por brincadeira, claro) que oferecesse um «slogan» ao Metropolitano de Lisboa. O «slogan» era: «Vá de metro, Satanás!» Esta brincadeira ia-me custando o emprego. Mas também fiz um, a sério, que foi muito conhecido e ainda hoje é usado (que pena não o ter registado!): «Há mar e mar / há ir e voltar.» Os bêbados pegaram logo nele, o que é uma verdadeira consagração: «Há bar e bar / Há ir e voltar…»

Mas naquele tempo, muito poucos estavam preparados para as ousadias, quer de Ary, quer de O’Neill e alguns dos slogans acabaram por ficar no papel.

Alguns slogans de Alexandre O’Neill:

Há mar e mar, há ir e voltar (Para o Instituto de Socorros a Náufragos).

Com colchões Lusospuma não se dá só uma (censurado, aparentemente pelo proprietário da fábrica.)

Bosh é Brom  acabou por ficar Bosh é Bom.

Gazcidla na cozinha é um descanso, virou Gazcidla, o gás da cidade.

Parker preenche em silêncio o seu papel

A Segurança Volta Sempre (Para a Rodoviária Nacional).

Ruy Belo no seu livro de ensaios Na Senda da Poesia destaca um outro slogan de O’Neil:

Estruturalistas de todo o mundo, congregai-vos.

António Alçada Baptista em Pesca à Linha conta que o Há mar há ir e voltar tinha uma outra versão que não foi utilizada: Passe um Verão desafogado.

Alexandre O’Neill votava no Partido Socialista e inventou um slogan, também não utilizado:

Ele não merece, mas vota no PS.

Um poema que pode ser um slogan:

Se acha que a vida não é boa
utilize gás da companhia
o combustível de Lisboa.

Legenda: pintura de Claude Monet

sábado, 20 de outubro de 2012

FELIZMENTE HÁ LUAR EM NANCY


Recorte do Diário de Lisboa de 20 de Outubro de 1968, dando conta de que a peça Felizmente Há Luar de Luís de Sttau Monteiro iria ser representada, em Maio de 1969, no Festival Mundial de Teatro Universitário de Nancy.

(Para uma mais fácil leitura clicar sobre a imagem do texto.)

sábado, 21 de abril de 2012

POSTAIS SEM SELO


Julguei que isto era o fim e afinal é o princípio, Aquela fogueira, há-de incendiar esta terra!
Olhem bem! Limpem os olhos no clarão daquela fogueira e abram as almas ao que ela vos ensina!
Até a noite foi feita para que vísseis até ao fim…
Felizmente – felizmente há luar!

Luís Sttau Monteiro em Felizmente Há Luar, Edições Ática, Lisboa, Abril 1963

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

POSTAIS SEM SELO


Não podiam continuar mais tempo à janela. Impunha-se o regresso imediato ao mundo interior. As janelas são os grandes inimigos dos presos. Ninguém pode viver a dez centímetros da liberdade – antes morrer, fugir para a noite, cair a um poço e ficar lá no fundo a contar as estrelas do céu.

Luís de Sttau Monteiro em E Se For Rapariga Chama-se Custódia, Edição do autor, Lisboa, Abril 1966

Legenda: foto do Museum Haus An Checkpoint Charlie, Berlim, Agosto 1961

sábado, 3 de setembro de 2011

CAÇAR COMUNISTAS



Ficámos naquele ponto do Verão Quente de 75 a que José Saramago chamou o joga-da-cabra ou dos quatro-cantinhos.

Face ao impasse da discussão dos militares em redor do documento dos Nove e do COPCON, a 25 de Agosto, a esquerda  partidária tenta uma saída para a crise e  cria a FUR ,constituída por partidos e organizações políticas: FSP, LCI, LUAR, MES, MDP/CDE, PCP, PCP-BR e 1º de Maio.

A UDP recusou participar na Frente ao saber que esta englobaria o P.C.P.

No ponto 4 do comunicado que divulga a criação da FUR lê-se:

“A criação de uma frente que englobe os partidos políticos e outras organizações políticas revolucionárias, o MFA e os órgãos autónomos de poder popular referidos no documento guia da aliança MFA/Povo, constitui a saída para o processo revolucionário.”

Os trabalhadores de “O Século”, que elaboraram a 2ª edição do jornal, fazem publicar na 1ª página  um  comunicado a que chamaram “UNIDADE”:

“É debaixo da mais profunda emoção que aprontamos esta segunda tiragem de “O SÉCULO”. Hoje, 25 de Agosto, uma etapa histórica cumpre-se pela libertação de Portugal e pela construção do socialismo.

O acordo a que chegaram os oito partidos e organizações da classe operária – que souberam ultrapassar divergências para se unirem no essencial – marca o advento de uma nova época para o nosso País e constitui o primeiro passo para a unificação da classe operária e das classes trabalhadoras portuguesas.

Viva o Socialismo!
Viva a Revolução!
Viva Portugal independente!”

Na madrugada de 25 de Agosto centenas de indivíduos tentaram assaltar a sede do Partido Comunista em Leiria. As forças militares do  R.A.L. 4 tiveram de intervir  e verificou-se uma morte e vários feridos.

Luís Sttau Monteiro, enviado especial do “Diário de Lisboa” escrevia:

“Seriam 22 horas quando ontem entrei, pela segunda vez em 48 horas, nesta cidade de Leiria, que parece ter esquecido as regras mais elementares do comportamento humano para se dedicar a uma autêntica caça às bruxas comunistas num afã que se esqueceu de revelar contra as bruxas fascistas durante os cinquenta nos que antecederam o 25 de Abril. Que este desabafo não seja interpretado num sentido partidário: é-nos indiferente que as bruxas sejam deste ou daquele partido ou que a caça seja levada a cabo em nome destes ou daqueles princípios, como nos é indiferente que os ateadores de fogueiras actuem em nome desta ou daquela ideologia política.
O que nos revolta, o que nos leva, por vezes quase a desesperar, é isto de alguém se sentir no direito de defender o seu semelhante em nome de uma ideologia – seja ela qual for – e de saquear à vontade em nome de conceitos e de princípios.”

A 26 de Agosto de 1975, cumprindo ordens de Otelo Saraiva de Carvalho, os comandos de Jaime Neves calam a 5ª Divisão.

Segundo o depoimento de Varela Gomes em  “A Contra-Revolução de Fachada Socialista”, 
Jaime Neves terá dito aos soldados-comandos:

“Vocês vão daqui a pouco realizar uma missão igual às que faziam em Luanda; em lugar de irem caçar os comunistas do MPLA, vamos hoje caçar os comunistas da 5ª Divisão”.

Do “Diário de Notícias”:

“O problema da ocupação da 5ª Divisão do Estado-Maior das Forças Armadas por elementos militares às ordens do COPCON veio introduzir uma situação inédita e grave na crise política que o País está a atravessar há cerca de dois meses. Esta parece ser, com efeito, a primeira conclusão a extrair da análise dos acontecimentos da manhã do dia 27, e com ela estão de acordo as análises feitas até este momento por diversos oficias daquele órgão revolucionário.”

Na noite de 27 de Agosto a FUR organiza uma manifestação que reúne um mar de gente frente ao Palácio de Belém. O “Diário de Lisboa” classifica-a como a maior manifestação unitária depois do 1º de Maio.

No discurso que, nessa noite, Vasco Gonçalves afirmou “a nossa revolução corre graves perigos mas a unidade é a nossa defesa.”

O presidente Costa Gomes também discursou. Referindo-se à Frente Unitária.afirmou que ela “é um primeiro passo importante, mas só tomará dimensão nacional numa plataforma em que se incluam todas as outras forças políticas.”

Os manifestantes gritaram:

“Abaixo a social-democracia”

O presidente acabou por dizer: “ninguém quer sociais democratas mas o socialismo.”

Marcelo Rebelo de Sousa na edição do “Expresso” de 30 de Agosto, perguntando “Para onde vai Portugal?”, elabora 5 cenários a acontecerem até Dezembro de 1976.

“Os cenários necessariamente abstractos, que visualizamos são os seguintes:
a)      triunfo da “leitura da esquerda revolucionária do processo político em curdo;
b)      acesso e controle do poder, a título exclusivo ou dominante do PCP
c)      adopção de uma linha de pendor socialista, mantendo os mecanismos da democracia política dita pluralista;
d)      advento de de um regime político neocapitalista, aceitando um certo grau de “liberalismo” político;
e)      instauração de uma autocracia de extrema-direita.”

Legenda: título da lª página de "A Capital" de 27 de Agosto de 1975.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

IDÍLIO EM BICICLETA


Dois quilómetros de estrada… O que um homem não pensa em dois quilómetros! Às vezes vê-se a vida inteira… Trinta e um anos de trabalho para se chegar ao fim com uma bicicleta e as mãos vazias. Se eu tiver um bocado de sorte, ainda posso trabalhar mais uns anos… talvez dez, talvez quinze… para comer todos os dias, para ter sempre fome e para chegar ao fim como estou agora. Dois quilómetros a pe4nsar nisto e chega-se a casa perdido… Um homem vive mais só que um chaparro velho num montado. É nessas alturas que me apetece meter-me na cama e agarrar-me à mulher com toda a força. Era isto o que eu queria dizer. Um homem precisa de se aquecer numa coisa que seja sua…

Luís de Sttau Monteiro em  E Se For Rapariga Chama-se Custódia

Imagem de Idílio Freire

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A GUERRA SANTA



Muitos esqueceram, outros não querem ouvir falar, a maioria não sabe.

Antes do 25 de Abril havia livros, discos, filmes proibidos.

Uma feroz censura abatia-se sobre a cultura, o livre pensamento.

Os jornalistas tiveram que aprender e escrever nas entrelinhas, os leitores nas entrelinhas aprenderam a ler.

Em Setembro de 2001 o “Notícias da Amadora”, publicou 30 cadernos onde foram reproduzidos os cortes parciais, os cortes totais que a censura infligiu ao jornal:

“Alguns dos artigos eram enviados à censura, deliberadamente, sem assinatura. Havia autores proibidos e o seu nome era bastante para que a peça fosse cortada”.

César Príncipe, no seu livro “Os Segredos da Censura” escreve:

“A Censura foi a parra, o tapa-sexo de um regime, cujo pudor ocultava as insaciáveis aberrações das suas partes baixas”.

Em Março de 1967 o escritor Luís de Sttau Monteiro foi preso pela PIDE.

Motivo?

A publicação da peça de teatro “Guerra Santa”.

.José Gomes Ferreira em “Os Dias Comuns” Vol. II:

“7 de Abril

O Magalhães Godinho esta tarde:
-O Supremo Tribunal de Justiça negou, por unanimidade, o “Habeas Corpus” ao Sttau Monteiro.
E com voz nítida e articulada, para o futuro ouvir bem, repetiu:-POR UNANIMIDADE.
A palavra “unanimidade” ainda conseguiu assombrar o grupinho…
Nem um, ao menos? Nem um juiz, ao menos?”


10 de Abril


Garantiram-me que o Sttau Monteiro mandou uma carta ao chefe da PIDE, nos seguintes termos: constando-lhe que a Mãe e outros familiares faziam diligências no sentido de o libertarem, em troca duma declaração de repúdio da peça, vinha preveni-lo de que nunca entraria em compromissos desse género, visto orgulhar-se muito de ter escrito “A Guerra Santa”
.