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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

OLHAR AS CAPAS

Fado

José Régio

Ilustrações de Stuart Carvalhais

Capa: João da Câmara Leme

Portugália Editora, Lisboa, Janeiro de 1969

 

Fado Alentejano

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão , ai Alentejo,

Pátria que à força escolhi!

Quando cheguei quis-te mal,

Alentejo –ai- solidão...

Julguei eu que te quis mal,

Chegava do vendaval,

Tão cego que nem te vi!

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão , ai Alentejo,

Adro de melancolia!

Tua tristeza me pesa,

Alentejo –ai- solidão...

Quanto às vezes me não pesa,

Mas fora dessa tristeza,

Pesa-me toda a alegria!

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão , ai Alentejo,

Meu Norte-Sul- Este Oeste!

Voltei ferido da guerra,

Alentejo –ai- solidão...

Faminto voltei da guerra,

Mendiguei de terra em terra,

Esmola só tu ma deste!

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão, ai Alentejo,

Oceano de ondas de oiro!

Tinhas um tesouro perdido,

Alentejo –ai- solidão...

Que eu já dera por perdido,

Nos teus ermos escondidos,

Vim achar o meu tesoiro!

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão , ai Alentejo,

Convento de céu aberto!

Nos teus claustros me fiz monge,

Alentejo –ai- solidão...

Em ti por ti me fiz monge,

Perdeu-se a terra ao longe,

Chegou-se –me o céu mais perto!

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão , ai Alentejo,

Padre nosso dos infelizes!

Vim coberto de cadeias,

Alentejo –ai- solidão...

Coberto de vis cadeias,

Mas com estas com que me enleias,

Deram-me asas e raízes!

terça-feira, 12 de novembro de 2024

OLHAR AS CAPAS


Davam Grandes Passeios aos Domingos

José Régio

Capa: Francisco Providência

Colecção Brevíssima Portuguesa nº 6

Contexto Editora, Lisboa s/d

O comboio parara finalmente na estação de Portalegre. De novo o cavalheiro amável se dirigiu a Rosa Maria:

- Chegou. Faça favor de descer que eu passo-lhe os pertences.

- Muito obrigada! – disse Rosa Maria descendo.

O cavalheiro amável estendeu-lhe a caixa do chapéu, o embrulho do presente da velha Leocádia para a menina Lá-Lá, e a pequena mala de couro em que Rosa Maria trazia o indispensável para o primeiro dia. A mala grande vinha despachada.

- Muito obrigada! Repetiu Rosa Maria – Tenha boa viagem. Boa noite!

sexta-feira, 5 de março de 2021

OLHAR AS CAPAS


Uma Gota de Sangue

1º volume de A Velha Casa

José Régio

Editorial Inquérito, Lisboa, Agosto de 1945

-Não torno para o colégio, mãe! Fugi. Não me deixa tornar, não?

- Não, filho, não tornas. Não penses agora nisso.

- Promete? mas a mãe promete? – volveu êle com uma súbita exaltação, soerguendo-se no leito e arregalando para a porta os olhos apavorados. Parecera-lhe ver assomar à porta, hirto, com a sua cabeça de frade e uma expressão de irrevogável censura na face morena como a de um pescador, o homem que saíra a procurar o médico para êle.

- Prometo, valha-me Deus! Já te disse que não penses agora nisso. Precisas estar sossegado…

Então, incapaz de qualquer outro esforço, Lèlito recaíu entre as almofadas, no colchão fofo. Tinha como um incêndio na cara, um pesadume na cabeça, um frio que lhe percorria o corpo de arrepios…, e tremia tão violentamente que chegava isso a dar-lhe vontade de rir. Sentia-se, porém tão feliz, que, se a morte era essa inconsciência em que se estava afundando, morreria sem custo. Só quereria ainda dizer umas palavras para desculpar a sua fuga, explicar o seu caso… Mas as palavras que dificilmente lhe saíam da garganta não lhe pareceram pronunciadas por êle, (não reconhecia a sua voz) além de que pareciam dizer coisas muito diferentes, desvairadas, alheias ao que procurava exprimir. E ainda pôde ouvir a voz aflita da mãe, falando para quem quere que entrava:

- Começou agora a delirar…

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS



Poemas de Deus e do Diabo

José Régio
Portugália Editora, Lisboa, Maio de 1955

Ícaro

                    Ao Fernando Lopes Graça

A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.