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sexta-feira, 15 de maio de 2026

OLHAR AS CAPAS


Adeus, Princesa

Clara Pinto Correia

Capa: Jorge Colombo

Relógio d’ Água Editores, Lisboa 1987

Não quis acreditar, mas ela sorria-lhe na escada sem lux. Tinha emagrecido, muito pouco, não lhe ficava mal. Tão bonita, tão escura. Tão redonda, gritou-lhe Sbastião Curto de um canto qualquer da memória.

- Posso entrar?

- Bárbara Emília, tu tem cuidado com o que fazes. Tu entra se tu quiseres, mas eu aviso-te, eu aviso-te, Bárbara Emília, se entras já não sais. Eu aviso-te, Bárbara Emília, vê o que estás a fazer. A carne é fraca.

Ela sorria, vitoriosa.

- Eu sei. Eu sei que a carne é fraca.

Sem se voltar, fechou a porta da rua atrás de si. Tinha uns dentes magníficos.

- Mas o molho é óptimo, Joaquim Peixoto.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

MAL E PORCAMENTE


Uma das primeiras pessoas que me tratou bem em jovem foi o Vitor Silva Tavares, o editor da & etc. A etc era um projecto com uma integridade, uma coerência e uma disciplina que nem sempre se encontra. Faziam exactamente aquilo que queriam e não o que o resto do mundo queriam que fizessem. Escolhiam quem queriam ter e quem não queriam ter, Não faziam coisas demais, não se faziam ao tacho, não faziam nenhum esforço para serem populares ou conhecidos ou publicitados.

Fiz a capa para um livro do Mário Carvalho quando tinha 20 anos e fiz mal e porcamente. O Vitor Silva Tavares deveria ter esperado dois anos. Quando o conheci tinha para aí 17 anos, Fui visitá-lo num furo das aulas do liceu. Tinha visto aquelas plaquetas que ele fazia e queria saber como é que aquilo se fazia. Então fui bater à porta, na Rua da Emenda. E lá estava aquele senhor de barba, que me atendeu. É o género de disciplina ética que se encontra em certos cineastas, em certas editoras de música.

Jorge Colombo, de uma entrevista ao Expresso.