Mais livros de Viagens.
Colaboração de Aida Santos.
O Caminho Imperfeito
José Luís Peixoto
Ilustrações: Hugo
Makarov
Capa: Rui Rodrigues
Quetzal Editores, Lisboa, Setembro de 2017
O distante perde distância quando se vai lá. Os lugares mais longínquos são aqueles onde nunca se esteve. Quando já se foi a um lugar, mesmo que seja preciso atravessar o planeta, fica a saber-se que é possível fazer esse caminho. Deixa de pertencer ao desconhecido sem detalhes, ganha formas imprevistas. Há vida lá como há vida aqui.
Colaboração de Aida
Santos
Olho para o livro que me emprestaste
e que nunca
devolvi. Também ele olha para mim.
Tem as marcas
da tua leitura, certos vincos
no branco das
páginas, manchas subtis e difusas
como nuvens,
restos das tuas mãos ou do teu olhar.
Espero que
não penses sobre mim o que penso
sobre as pessoas
que nunca me devolveram
os livros que
emprestei. O que pensarás tu
sobre mim?
Nunca li o livro que me emprestaste,
preferi
sempre imaginá-lo. Suponho que ainda
se sinta
estrangeiro entre os meus livros,
mas agora é
demasiado tarde para devolvê-lo,
há tanto
tempo que não falamos, não sei
se ainda
guardo o teu número de telefone.
O que pensarias
se agora, a despropósito,
te quisesse
devolver o livro? Havias de pensar
que queria
alguma coisa. Sabes, fico com o teu
livro porque
não quero nada. Provavelmente,
nunca te
devolverei este livro, fará parte do
meu espólio,
é a última ligação que temos.
José Luís Peixoto
José Luís Peixoto em Almoço de Domingo
Almoço de Domingo
José Luís Peixoto
Capa: Rui Rodrigues
Quetzal Editores,
Lisboa, Março de 2021
Acordou sem idade. Lembrou-se do corpo, mas não mexeu um dedo. Sentiu a
roupa da cama, indistinta daquela hora da madrugada, mas não abriu os olhos.
Coberto pelo agasalho, preferia a escuridão à penumbra ou, pior ainda, aos
números modernos e implicantes do despertador electrónico. As pálpebras
eram-lhe leves, da mesma maneira que era leve o mundo naquele instante, o
silêncio lá fora sobre a vila, o ar limpo que inspirava e que o desimpedia por
dentro. Não mexeu um dedo ou qualquer músculo, tinha certezas. Sabia que envelhecer
é acumular dores: começam por doer certos gestos, certos jeitos, virar-se de
repente, agachar-se para atar o sapato: depois doem as ações mais comuns, sentar-se,
levantar-se, caminhar; até que, por fim, dói tudo, dói estar, dói ser.
Essas eram as dores que não sentia ali.
Nunca aceitei, nunca entendi, as razões que assistiram à Igreja para mudar o Dia da Mãe de 8 de Dezembro para o primeiro domingo de Maio, daí que, enquanto a minha mãe esteve comigo, o Dia da Mãe sempre foi a 8 de Dezembro.
Há tanta coisa que a Igreja necessita de mudar...
Colaboração de Aida Santos