Mostrar mensagens com a etiqueta José Luís Peixoto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Luís Peixoto. Mostrar todas as mensagens

domingo, 1 de novembro de 2026

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

OLHAR AS CAPAS


O Caminho Imperfeito

José Luís Peixoto

Ilustrações: Hugo Makarov

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Setembro de 2017

O distante perde distância quando se vai lá. Os lugares mais longínquos são aqueles onde nunca se esteve. Quando já se foi a um lugar, mesmo que seja preciso atravessar o planeta, fica a saber-se que é possível fazer esse caminho. Deixa de pertencer ao desconhecido sem detalhes, ganha formas imprevistas. Há vida lá como há vida aqui.

Colaboração de Aida Santos

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

REGRESSO A CASA

Olho para o livro que me emprestaste

e que nunca devolvi. Também ele olha para mim.

Tem as marcas da tua leitura, certos vincos

no branco das páginas, manchas subtis e difusas

como nuvens, restos das tuas mãos ou do teu olhar.

Espero que não penses sobre mim o que penso

sobre as pessoas que nunca me devolveram

os livros que emprestei. O que pensarás tu

sobre mim? Nunca li o livro que me emprestaste,

preferi sempre imaginá-lo. Suponho que ainda

se sinta estrangeiro entre os meus livros,

mas agora é demasiado tarde para devolvê-lo,

há tanto tempo que não falamos, não sei

se ainda guardo o teu número de telefone.

O que pensarias se agora,  a despropósito,

te quisesse devolver o livro? Havias de pensar

que queria alguma coisa. Sabes, fico com o teu

livro porque não quero nada. Provavelmente,

nunca te devolverei este livro, fará parte do

meu espólio, é a última ligação que temos.

José Luís Peixoto

domingo, 19 de março de 2023

A VIDA COMO FRONTEIRA


 «As gerações são como fronteiras, são como linhas, marcam uma estrema que divide. As gerações só se dão verdadeiramente definidas no fim do último elemento que as compõe. É esse que transporta a derradeira ponta do fio e, por mais aparente eternidade, chegará o seu momento. As fronteiras não podem escapar à sua natureza profunda: marcam o fim do que nos pertence e o início de tudo o que existe para além de nós, tudo o que nos ignora. As gerações são como fronteiras. Podemos considerar qualquer geração: acontece aos mais velhos, aos mais novos, acontecerá aos que são agora crianças e aos que são agora adolescentes, apesar da sua inocente arrogância. Chegará o tempo em que desaparecerão um a um. Entre eles, quem serão os primeiros? Quem morrerá antes do tempo? E quem será o último? Quem terá de assistir à morte de todos os outros? Esse aprenderá esta lição pela experiência, a sua vida será a fronteira.»

José Luís Peixoto em Almoço de Domingo

terça-feira, 4 de maio de 2021

OLHAR AS CAPAS


Almoço de Domingo

José Luís Peixoto

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Março de 2021

Acordou sem idade. Lembrou-se do corpo, mas não mexeu um dedo. Sentiu a roupa da cama, indistinta daquela hora da madrugada, mas não abriu os olhos. Coberto pelo agasalho, preferia a escuridão à penumbra ou, pior ainda, aos números modernos e implicantes do despertador electrónico. As pálpebras eram-lhe leves, da mesma maneira que era leve o mundo naquele instante, o silêncio lá fora sobre a vila, o ar limpo que inspirava e que o desimpedia por dentro. Não mexeu um dedo ou qualquer músculo, tinha certezas. Sabia que envelhecer é acumular dores: começam por doer certos gestos, certos jeitos, virar-se de repente, agachar-se para atar o sapato: depois doem as ações mais comuns, sentar-se, levantar-se, caminhar; até que, por fim, dói tudo, dói estar, dói ser.

Essas eram as dores que não sentia ali.

domingo, 2 de maio de 2021

ASSIM SOMOS NÓS, MÃE


Por hoje ser Dia da Mãe, a Junta de Freguesia da Penha de França colocou nas caixas de correio, uma rosa e este poema de José Luís Peixoto.

Nunca aceitei, nunca entendi, as razões que assistiram à Igreja para mudar o Dia da Mãe de 8 de Dezembro para o primeiro domingo de Maio, daí que, enquanto a minha mãe esteve comigo, o Dia da Mãe sempre foi a 8 de Dezembro.

Há tanta coisa que a Igreja necessita de mudar...

Colaboração de Aida Santos

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

SARAMAGUEANDO


José Luís Peixoto começa alguns capítulos de Autobiografia com palavras de José Saramago:

Um dia escrevi que tudo é autobiografia, que a vida de cada um de nós a estamos contando em tudo quanto fazemos e dizemos, nos gestos, na maneira como nos sentamos, como andamos e olhamos, como viramos a cabeça ou apanhamos um objeto no chão. Queria eu dizer então que, vivendo rodeados de sinais, nós próprios somos um sistema de sinais. Seja como for, que os leitores se tranquilizem: este Narciso que hoje se contempla na água desfará, amanhã, com sua própria mão, a imagem que o contempla.
José Saramago, Cadernos de Lanzarote, 1997

Não me escondo por trás do narrador.
José Saramago, 1994

Somos as palavras que usamos. A nossa vida é isso.
José Saramago, 2008

Há que escolher. Memórias ou romance? Confissão ou ficção?
José Saramago, 1951

Damos voltas e voltas. Mas, na realidade, só há duas coisas: ou você escolhe a vida, ou se afasta dela.
José Saramago, 1987

A linha que parece uma linha recta, não o é.
José Saramago, 1997

O leitor lê o romance para chegar ao romancista.
José Saramago, 2009

O leitor deve ter um papel que vai mais além de interpretar o sentido das palavras.
José Saramago, 2008

Que este romance (Todos os Nomes) possa ser entendido como mum ensaio sobre a existência – talvez. Julgo que todos os livros o são, que escrevemos para saber o que significa viver.
José Saramago, 1997

Toda a obra literária leva uma pessoa dentro, que é o autor. O autor é um pequeno mundo entre outros pequenos mundos. A sua experiência existencial, os seus pensamentos, os seus sentimentos estão ali.
José Saramago, 2001

Somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não.
José Saramago, 1997

A literatura não é um compromisso. Nunca. Se o compromisso existe, será o dessa pessoa que é o escritor. A literatura não pode ser instrumentalizada.
José Saramago, 1998

José Saramago disse-me muitas vezes: o José tem de pensar na sua obra. O José era eu.
José Luís Peixoto, 2010

A literatura é o resultado de um diálogo de alguém consigo mesmo.
José Saramago, 2008

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

RELACIONADOS



O que se lê na contracapa do livro é a sua sinopse:

«Na Lisboa de finais dos anos noventa, um jovem escritor em crise vê o seu caminho cruzar-se com o de um grande escritor. Dessa relação, nasce uma história que mescla realidade e ficção, um jogo de espelhos que coloca em evidência alguns dos desafios maiores da literatura.
A ousadia de transformar José Saramago em personagem e de chamar Autobiografia a um romance é apenas o começo de uma surpreendente proposta narrativa que, a partir de certo ponto, não se imagina como poderá terminar. José Luís Peixoto explora novos temas e cenários e, ao mesmo tempo, aprofunda obsessões, numa obra marcante, uma referência futura.»

Maria do Rosário Pedreira, no seu blogue Horas Extraordinárias, aborda, deste modo, o livro:

«Para começar, é bastante intrigante chamar a um romance Autobiografia; e talvez seja ainda um maior atrevimento meter dentro de uma Autobiografia o autor de romances José Saramago (sim, o nosso Nobel da Literatura) e um autor mais jovem que tem com ele uma relação formal e reverente, a quem é encomendada uma biografia do grande escritor (biografia que ele tentará transformar numa obra de cariz ficcional, como, de resto, é o próprio romance que estamos a ler). Podíamos também pensar, já agora, que o romance que estamos a ler é autobiográfico (afinal, José Luís Peixoto recebeu o Prémio Literário José Saramago das mãos do próprio Saramago) e que o protagonista, que devia escrever a biografia de Saramago, mas nunca o faz, é o próprio autor desta Autobiografia (que, por acaso, é um romance).»

Não desgostei da leitura da Autobiografia, é uma muito interessante proposta, mas perdi-me por ali. E detesto perder-me na leitura dos livros.

Acontece, meus caros.

Mas Miguel Real, na crítica que publicou no JL, qualifica Autobiografia como o melhor romance português publicado até ao Verão de 2019 e deixara aviso:

«A estrutura temporal de Autobiografia é, assim, um tempo de acumulação de acontecimentos cuja presumível unidade ou fil rouge só pode ser conferido pelo leitor. É a grande participação do leitor, prestar unidade ao que é mostrado multiplamente, detectar o todo onde só se vê partes. Autobiografia exige, assim, um leitor nada preguiçoso, aliás, convidado pelo narrador a participar, já que em certos momentos, fundem-se narração da realidade exterior e a própria realidade exterior, narrador e leitor.»

Falhei.

Onde e como?

É por isso que, lá mais para a frente, terei que regressar à sua leitura, pois então!

OLHAR AS CAPAS



Autobiografia

José Luís Peixoto
Capa: Rui Rodrigues
Quetzal Editores, Lisboa, Julho de 2019

Se alguém lhe tivesse contado que o filho se perdera em Lisboa, a mãe demoraria a acreditar. Por um lado, José estava sozinho na cidade havia dez anos, tempo de conhecer todas as vielas; por outro lado, não era capaz de imaginar que a escrita de um livro fosse razão para problemas de tal ordem. Para sua própria expiação, o filho alimentava essa influência cega, os livros.Antes tivesse apanhado meningite como o rapaz da vizinha, perdeu alguma audição, mas tornou-se mecânico gabado por todos. Em julhos da puberdade, enquanto os outros rapazes acertavam em pardais com os tiros de pressão de ar, saudável treino de pontaria, José passava horas oculto e silenciosos, lia deitado na cama ou escrevia doidices, inclinado sobre um caderno, No princípio a mãe rezou, pediu a Santa Cecília, protectora dos poetas, que lhe poupasse o filho, que o libertasse dessas ideias. Não alcançando resposta, conformou-se e baixou os olhos perante Deus aceitando os seus mistérios. A partir daí, passou a rezar pelo filho a Santo Aleixo, protector dos mendigos.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

NO TEMPO EM QUE ÉRAMOS FELIZES NÃO CHOVIA


no tempo em que éramos felizes não chovia.
levantávamo-nos juntos, abraçados ao sol.
as manhãs eram um céu infinito. o nosso amor
era as manhãs. no tempo em que éramos felizes
o horizonte tocava-se com a ponta dos dedos.
as marés traziam o fim da tarde e não víamos
mais do que o olhar um do outro. brincávamos
e éramos crianças felizes. às vezes ainda
te espero como te esperava quando chegavas
com o uniforme lindo da tua inocência. há muito
tempo que te espero. há muito tempo que não vens.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

NA HORA DE PÔR A MESA, ÉRAMOS CINCO


na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva, cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

José Luis Peixoto em A Criança em Ruínas