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quarta-feira, 8 de abril de 2026

RETRATOS


Tinha 47 anos, quando morreu a 1 de Abril de 1996.

Por isso, a denominada morte de Mário Viegas, é uma redonda mentira.

Porque ele ainda anda por aí, a beber gin-tónico, a sair do «João Sebastião Bar», cigarro ao canto da boca, abraçado a um rapaz.

No meio de um gin, dizia poemas e palavras.

 Como estas:

« O Humor é a coisa mais séria do mundo.

Esta frase já toda agente conhece… mas tem muita graça! E a mais triste e solitária do Mundo, digo eu. É muito triste e angustiante fazer rir.»

Ou estas:

«Quem não aguenta o silêncio não aguenta a vida».

No tal dia da mentirosa morte de Mário Viegas, José Saramago estava em Lanzarote, e escreveu:

«Mário Viegas morreu. Era um cómico que levava dentro de si uma tragédia. Não me refiro à implacável doença que o matou, mas um sentimento dramático da existência que só os distraídos e superficiais não eram capazes de perceber, embora ele o deixasse subir à tona da expressão às vezes angustiada do olhar e ao ricto sempre sardónico e amargão da boca. Fazia rir, mas não ria. Pouca gente em Portugal tem valido tanto.» 

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

OLHAR AS CAPAS


Bater Sempre Também Cansa… Mas às Vezes até é Pouco: Como Um Jornal de Economia Salvou Luiz Pacheco

Luiz Pacheco e Nicolau Santos

Capa: Ilídio J.B.Vasco

Guerra E Paz Editores, Lisboa, Agosto de 2025

Setúbal, 24 de Julho de 1995

Meu Caro Nicolau Santos,

Vai mais uma artigalhada. O calor não apoquenta só o Mário Viegas, que foi às gavetas buscar retalhos do Mário-Henrique Leiria para compor (?) a crónica dele. Também me lixa a mim; estou a escrever às sete da matina. Daqui para mais tarde a minha capoeira transforma-se num micro-ondas e eu, sem ar condicionado e as duas ventoinhas, era um Pacheco de Churrasco.

Atenção, isto não é uma reclamação. Apenas um esclarecimento.

Um forte abraço

Luiz Pacheco

sábado, 14 de setembro de 2024

AINDA, E SEMPRE, MÁRIO VIEGAS

Os CDs 3 e 4 «Mário Viegas em Casa» são reproduções de cassettes encontradas por Maria Hélia Viegas, irmã do Mário.


«Eram gravações feitas por ele, em casa, a treinar a leitura dos poemas. Deitado no chão, de barriga para baixo, para controlar o diafragma – isto soube mais tarde pela irmã, porque ela assistia. As gravações estavam com muitos problemas, mas a recuperação foi feita de uma maneira incrível. Há uma bobina que tinha a festa de aniversário da Maria Hélia de um lado e a dele do outro. E a certa altura, o pai vira-se para ele e pergunta: ‘Ó António, não quer contar uma das suas historinhas aos seus amigos?’ Então ele conta O Dente Furado e A Bruxa da Montanha, que dura quase 13 minutos; ele lê e faz as vozes das personagens todas. Com nove anos!»

Para a nova edição da «Auto-Photo Biogrfia (não autorizada), José Moças quis investigar se haveria mais alguma coisa a juntar aos materiais que já tinha entre mãos. “Pus uma publicação no Facebook e aparece-me um homem do Porto a dizer que tinha uma coisa que gravara do Mário Viegas num café-concerto. Fui logo ter com ele, que já me trazia aquilo num CD, e contou-me a história [chama-se José Martins e tem um texto no livro a explicá-la]. Tinha sido num sábado e num domingo, num espaço chamado Rez do Chão, do grupo de teatro Realejo. Aquilo só ouvido: as pessoas riem do princípio ao fim. Ele diz na gravação: ‘Atenção, que este vai ser o meu primeiro disco ao vivo, portanto batam palmas quando é para bater palmas, estejam calados quando é para estar calados.’”

Entendeu-se  que seria interessante, útil, reproduzir os poemas ditos pelo Mário Viegas. 

Aqui ficam:

 

Café Concerto no espaço “Rez do Chão”, 1986


CD 1


O desespero da piedade – Vinicius de Moraes

As educações burguesas – José Cutileiro

Tratados como cães – Raul de Carvalho

Poema pial – Fernando Pessoa

Problemas, problemas & Cª – Armindo Mendes de Carvalho

Cantiga dos Ais – Armindo Mendes de Carvalho

O sapo e o prato – Tóssan

O valor do vento – Ruy Belo

Separata gratuita – Mário-Henrique Leiria

Conto Infantil – Mário-Henrique Leiria

História Habitual – Mário-Henrique Leiria

Receita de gin tónico – Mário-Henrique Leiria

Bisturi – Mário-Henrique Leiria

Cegarrega para Crianças – Mário-Henrique Leiria

Carreirismo – Mário-Henrique Leiria

Exageros –Mário-Henrique Leiria


Café Concerto no espaço “Rez do Chão”, 1986


CD 2

 

Telefonema – Mário-Henrique Leiria

Casamento – Mário-Henrique Leiria

Uma pequena luz – Jorge de Sena

Hino ao 1º de Abril – Jorge de Sena

Ditosa pátria minha amada Jorge de Sena

Carta a Portugal – Jorge de Sousa Braga

A um Papa – Pier Paolo Pasolini

Carta a Otelo – Gastão Cruz

Poema do alegre desespero – António Gedeão

A Catedral de Burgos – António Gedeão

Cortejo – Alexandre O’Neil

O Dia da Criação – Vinicius de Moraes

10 mandamentos do espectáculo de cabaret – Karl Valentim

Década de Salomé – José Afonso

Oração por Marilyn Monroe – Ernesto Cardenal

Ode ao Pão – Pablo Neruda

 

Mário Viegas em Casa


CD 3


Cantar não é talvez suficiente – Manuel Alegre

Arma virumque cano – Virgíli

O Canto e as Armas – Manuel Alegre

Canto I – Luíz Vaz de Camões

Peregrinação – Luís Vaz de Camões

Explicação de Alcácer Quibir – Manuel Alegre

Raiz – Manuel Alegre

A Batalha de Alcácer Quibir – Manuel Alegre

O longo sono – Manuel Alegre

As colunas partiam de madrugada – Manuel Alegre

Às onze da manhã de mil novecentos e sessenta e dois – Manuel Alegre

A ceia dos cardeais – Júlio Dantas

O Judeu – Bernardo Santareno

- Frei Luís de Sousa , acto primeiro – Almeida Garrett

Homem, abre os olhos e verás – Armindo Rodrigues

Dia de Natal – António Gedeão

São proibidas as flores – Autor desconhecido

A primeira canção com lágrimas – Manuel Alegre

A segunda canção com lágrimas – Manuel Alegre


CD 4 Mário Viegas em Casa


CD 4


Dente furado – Autor desconhecido

A Bruxa da Montanha – Autor desconhecido

Minhas Irmãs no Mal – Autor desconhecido

Nambuangongo meu Amor -  Manuel Alegre

Explicação ao País de Abril – Manuel Alegre

País de Abril – Manuel Alegre

Metralhadoras cantam a canção da guerra – Manuel Alegre

Regresso – Manuel Alegre

É preciso um País – Manuel Alegre

Abaixo El-Rei Sebastião – Manuel Alegre

Bodas de Sangue – Federico Garcia Lorca

Paris não rima com meu país – Manuel Alegre

Emigração – Mário Viegas

Correio – Manuel Alegre

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


Não há estante que aguente.

O maior livro da biblioteca da casa, tem a altura de 42 cm e a largura de 29,5 cm.

O livro é da autoria de Mário Viegas que, para além da sua discografia, deixou escrita, e largamente ilustrada, a sua Auto-Photo Biografia (não autorizada).

Logo na capa Mário Viegas diz ao que vem:

«Rir, Chorar, Denúncias, Teatradas, Poesia, Amor, Ódio, Acção, Mistério, Escândalos, Surpresas!!!

Revelações sensacionais!! Segredos político-teatrais nunca divulgados!!!

Mais de 200 páginas com textos e fotografias inéditas».

A páginas 132 Mário Viegas fala de Eugénio de Andrade e cita: 

«Um Poeta, que sempre me respeitou! Não é como o merdas do Alegre,,,»

Lembrar que a pedido do médico Jorge Ginja, mobilizado para a Guerra Colonial, em 1969 Mário Viegas gravou 40 poemas.

A gravação foi encontrada, no meio de diversa papelada e cassettes, pela filha de Jorge Ginja, falecido em Maio de 2020 e está editada num áudio livro onde cabem poetas como José Carlos Ary dos Santos, José Gomes Ferreira, António Gedeão, Manuel Alegre, Alexandre O’ Neill, Joaquim Namorado, Pablo Neruda, Sebastião da Gama, entre outros.

Curiosamente este audio livro tem prefácio de Manuel Alegre por quem Mário Viegas não nutria a melhor das ideias...

Diga-se, por fim, que dado o tamanho do livro do Mário Viegas, ele encontra-se deitado numa parte da estante, juntamente com outros livros que, por motivos vários, não respeitam os tamanhos normais.

REVISÃO DE TEXTOS E NOTÍCIAS LIDAS

Revisitamos um artigo de Nuno Pacheco publicado no Público de 13 de Dezembro de 2023.

Tratava a notícia do lançamento, no Centro Cultural de Belém, da nova edição de
Auto-Photo Biografia (não autorizada), da autoria de Mário Viegas.

Em relação ao mesmo livro que faz parte da Biblioteca da Casa, esta edição  que estabelece a vida de Mário Viegas, contada por ele próprio, tem a enriquece-la quatro CDs inéditos de poesias ditas pelo actor.

«São apontamentos escritos à mão, desenhos, fotografias, recortes de jornais e de banda desenhada, que Mário Viegas foi juntando em folhas de grande formato (A3) até perfazer o que considerou a sua verdadeira história. “Sobre mim está aí tudo, o resto não tem interesse nenhum”, sentenciou, com a sua habitual ironia. Esse trabalho, a que Mário Viegas meteu ombros quando já adivinhava o desfecho da doença que havia de lhe tirar a vida, e que constitui um legado fascinante, está agora disponível num álbum que reproduz na íntegra as 250 folhas avulsas que criou.»

Nuno Pacheco conta ainda como aconteceu a descoberta por Maria Hélia Viegas, irmã do actor, dos 4 CDs que completam esta nova edição.

«No dia em que a conheci, conta José Moças, a certa altura ela leva-me ao quarto do irmão, que estava tal qual ele o deixou, e pediu-me para abrir uma gaveta”. Lá dentro estavam oito bobinas. “Pediu-me para as levar, porque nem ela sabia o que estava ali.” Assim fez.
Ao ouvi-las, percebi do que se tratava. Eram gravações feitas por ele, em casa, a treinar a leitura dos poemas. Deitado no chão, de barriga para baixo, para controlar o diafragma – isto soube mais tarde pela irmã, porque ela assistia. As gravações estavam com muitos problemas, mas a recuperação foi feita de uma maneira incrível. Há uma bobina que tinha a festa de aniversário da Maria Hélia de um lado e a dele do outro. E a certa altura, o pai vira-se para ele e pergunta: ‘Ó António, não quer contar uma das suas historinhas aos seus amigos?’ Então ele conta O Dente Furado e A Bruxa da Montanha, que dura quase 13 minutos; ele lê e faz as vozes das personagens todas. Com nove anos!»

No texto seguinte recordamos «O Outro Lado das Estantes» onde referimos a  1ª edição desta Photo-Biografia Não Autorizada do Mário Viegas.

OLHAR AS CAPAS


Mário Viegas

Auto-Photo Biografia (não autorizada)

Mário Viegas

Capa: Rodrigo Madeira

Edição: Tradisom Produções Culturais, Lisboa, Novembro de 2023

Dedico este livro de Memórias aos meus Pais, Antepassados, à Chinha, à Ana, à Catarina, ao Juvenal Garcês (Juju), Célinha, Carlitos e ao Público do Teatro. Está tudo, (mas tudo!!) nas entrelinhas das entrevistas, títulos, piadas, na selecção das fotografias, tamanho, côr e sobretudo nas ausências, que são muitas... Para ler aos poucos, ‘distraídamente’... Mas não há nada por acaso... Para bons entendedores, meias palavras bastam... E vale sobretudo pelos inéditos dos Poetas. Não é cabotino: é cabotiníssimo!!!

quinta-feira, 2 de maio de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


Relembremos o calendário do Mário Viegas quando disse que no dia 2 de Maio de 1974 acabou o seu 25 de Abril.

Ou como, passados alguns poucos anos, ironicamente, Mário Castrim escreveu:

«Cá por mim já foi tempo. Estivemos todos em estado de graça durante a infância da democracia. Era quando os polícias mandavam parar o trânsito para passar o carrinho do bebé. Era quando os responsáveis da GNR vinham à televisão e garantiam que se tinham tornado vegetarianos. Era quando as bandas fardadas abrilhantavam as festas do povo em Belém. Dá quase vontade de dizer que era no tempo em que os animais falavam.»

Ou ainda o sempre jovem poeta José Gomes Ferreira:

«De repente, recordo-me de que, durante a opressão salazarista, sempre festejei o 1º de Maio à minha maneira. Decretava feriado a mim próprio, punha uma gravata vermelha e marchava em cortejo sozinho por essas ruas empunhando uma encarniçada bandeira mental.»

Quando houver oportunidade, sem caracter diário, voltaremos aqui para recordar outras passagens dos dias que fizeram o tempo da nossa esperança.

sexta-feira, 28 de abril de 2023

MALTRATAR O 25 DE ABRIL

Em 1994, vi duas vezes o espetáculo Europa Não! Portugal Nunca!, no qual Mário Viegas encenava a conferência de imprensa de anúncio da sua pré-pré-candidatura à Presidência da República. Encontrei uns excertos no YouTube,  graças a um certo Francisco Grave a quem agradeço o serviço público. Há uma parte do espetáculo que recordo bem, porque se dirigia a mim e às outras pessoas da minha idade, os que no 25 de abril de 1974, aquele que acontecera há 20 anos, éramos “crianças pequeninas, que não sabiam o que se passava”. Eu ainda nem tinha nascido, mas foi coisa de alguns meses.

Segundo o pré-pré candidato: “Está claro que andavam às costas dos pais nas manifestações” que, quando erguiam os braços para gritar palavras de ordem (“Venceremos!”), nos deixavam cair ao chão. A nossa geração teria assim batido demasiadas vezes com a cabeça, devido aos ímpetos revolucionários dos nossos pais. Tudo isto era feito com o talento único de Mário Viegas, acompanhado de leituras de uns livros sobre o 25 de Abril explicado aos jovens que nos tornariam ainda mais tolos do que as quedas de cabeça no chão. A audiência ria, e passávamos a outra coisa, não sem antes o pré-pré-candidato prometer: “Sendo eu Presidente da República, queira o povo português, usarei outro tipo de linguagem com a juventude (...) não considero os jovens atrasados mentais.”

Susana Peralta, hoje, no Público

sábado, 16 de abril de 2022

POSTAIS SEM SELO

Quem não aguenta o silêncio não aguenta a vida.

Mário Viegas

OLHAR AS CAPAS

Mário Viegas

Catálogo do Ciclo de Cinema

Coordenação. Rita Azevedo Gomes, Francisco Grave

Capa: Rita Azevedo Gomes

Edição Cinemateca Portuguesa/Museu do Cinema, Lisboa 1997

A cidade desertificou-se. As pessoas vão para outros sítio, sítios de moda, mas não conversam, não ouvem, não se interessam pela cultura, Não querem ter emória. Não querem saber dos conhecimentos dos que as antecederam, das pessoas, por exemplo, da minha idade, entre os quarenta e os cinquenta, com experiência, com trabalho feito, ninguém quer saber de nada. Não há respeito nenhum. Faltam figuras que dêem exemplos de civismo, de sabedoria, de loucura. Eu tive várias referências dessas: O Zeca Afonso, o Cesariny, o Raul de carvalho, o Ary dos Santos, o Mário-Henrique Leiria, o Tóssan, o José Gomes Ferreira. Hoje querem apagar a memória, querem esvaziar a cultura. Silenciar é pior que dizer mal, é matar em vida.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


Não há estante que aguente.

O maior livro da biblioteca da casa, tem a altura de 42 cm e a largura de 29,5 cm.

O livro é da autoria de Mário Viegas que, para além da sua discografia, deixou escrita, e largamente ilustrada, a sua Auto-Photo Biografia (não autorizada).

Logo na capa Mário Viegas diz ao que vem:

«Rir, Chorar, Denúncias, Teatradas, Poesia, Amor, Ódio, Acção, Mistério, Escândalos, Surpresas!!!

Revelações sensacionais!! Segredos político-teatrais nunca divulgados!!!

Mais de 200 páginas com textos e fotografias inéditas».

A páginas 132 Mário Viegas fala de Eugénio de Andrade e cita: 


«Um Poeta, que sempre me respeitou! Não é como o merdas do Alegre,,,»

Lembrar que a pedido do médico Jorge Ginja, mobilizado para a Guerra Colonial, em 1969 Mário Viegas gravou 40 poemas.

A gravação foi encontrada, no meio de diversa papelada e cassettes, pela filha de Jorge Ginja, falecido em Maio de 2020 e está editada num áudio livro onde cabem poetas como José Carlos Ary dos Santos, José Gomes Ferreira, António Gedeão, Manuel Alegre, Alexandre O’ Neill, Joaquim Namorado, Pablo Neruda, Sebastião da Gama, entre outros.

Curiosamente este audio livro tem prefácio de Manuel Alegre por quem Mário Viegas não nutria a melhor das ideias...

Diga-se, por fim, que dado o tamanho do livro do Mário Viegas, ele encontra-se deitado numa parte da estante, juntamente com outros livros que, por motivos vários, não respeitam os tamanhos normais.

domingo, 2 de maio de 2021

OLHAR AS CAPAS


Auto-photo Biografia (não autorizada) de (António) Mário Viegas

Mário Viegas

Capa: António Carvalho

Edição (fac-similada): Câmara Municipal de Cascais segundo original cedido pela

Família

Cascais, Maio de 2003

«Conheci Carlos Paredes no Pólo Norte … Exactamente! Numa viagem “Mágica” de avião que atravessou esta bola imensa em que vivemos, a caminho do Japão, em 1970, com a Companhia do Teatro Experimental de Cascais.

Lembra-se Carlos, da nossa noite perdida no “bas-fond” de Osaka? O que nos divertimos!!!

É que Carlos Paredes é não só um músico genial como um conversador imparávelel, um homem cultíssimo, um namoradeiro incorrigível, um eterno apaixonado, o maior distraído do Globo terrestre, que atravessou sempre a vida de gravata, máscara de uma enorme humildade e violenta coragem física e crítica.

Se a “Cantiga é uma Arma”, as suas guitarras são e foram um dos maiores canhões contra o fascismo e a indignidade!

Tive a honra de viver com ele espectáculos e convívios que não me esqueço. Mas sem os querer maçar, gostava só de recordar um dos momentos mais comoventes da minha vida. O primeiro espectáculo que se fez dentro dum quartel depois do 25 de Abril, na noite de todos os nossos Primeiros de Maio. No quartel do Campo Grande, onde durante dois anos me embebedava com o horror da estupidez da tropa, como pseudo-oficial miliciano…

Sem hesitar, o Paredes aceitou ir tocar no refeitório e eu a dizer poemas, pela lª vez em Liberdade. E ao ver aquelas centenas de trabalhadores-fardados a aplaudir de pé, a chorarem, a inutilidade da Poesia e das notas de uma guitarra, tive a certeza que ainda podemos servir para alguma coisa como artistas.

Beijinhos Paredes e copiando o seu inimitável estilo, só lhe resta dizer entre o surpreendido e o desajeitado

“Oh amigo!!!»

13/11/93

(Mensagem lida pelo actor João Vasco, numa homenagem em 1993, no TEL, ao Carlos Paredes)

quinta-feira, 1 de abril de 2021

SEMPRE A MESMA MENTIRA!


Todos os anos, a mentira do costume.

Os calendários dizem que o Mário Viegas deixou-nos há 25 anos.

Quem organiza os calendários são uns tretas.

Ele anda para aí, nas baldas do costume, abraçado a um copo de gin-tónico. Estou mesmo agora a vê-lo a sair do João Sebastião Bar…

Por hábito velho, somos conduzidos para o lugar-comum de que não morrem aqueles de quem gostamos, mas sabemos todos que isso não passa de mera literatura. Ao certo sabemos, apenas, que o lugar continua vazio, também porque sabemos o quanto é difícil encontrar gente como o Mário Viegas.

Mário Viegas, para além da sua discografia, deixou escrita e ilustrada uma Auto-Photo Biografia (não autorizada).

Trata-se de uma edição fac-similada pela Câmara Municipal de Cascais (Maio de 2003), segundo original do autor, cedido pela família.

Logo na capa Mário Viegas diz ao que vem:

«Rir, chorar, Denúncias, Teatradas, Poesia, Amor, Ódio, Acção, Mistério, Escândalos, Surpresas!!!

Revelações sensacionais!! Segredos político-teatrais nunca divulgados!!!

Mais de 200 páginas com textos e fotografias inéditas»

Em tamanho, é o maior livro que existe na biblioteca da família.

Exactamente 42 cm de altura por 30 cm. A reprodução da capa do livro, com uma fotografia inédita de Eduardo Gageiro, é a possível.

Abre-se o livro e deparamos com uma fotografia de Mário Viegas, enquanto moço, e o poema E tudo era possível de Ruy Belo:

«Na minha juventude antes de ter saído

da casa de meus pais disposto a viajar

eu conhecia já o rebentar do mar

das páginas dos livros que já tinha lido

 

Chegava o mês de maio era tudo florido

o rolo das manhãs punha-se a circular

e era só ouvir o sonhador falar

da vida como se ela houvesse acontecido

 

E tudo se passava numa outra vida

e havia para as coisas sempre uma saída

Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

 

Só sei que tinha o poder duma criança

entre as coisas e mim havia vizinhança

e tudo era possível era só querer»

Da contracapa:

«Está tudo (mas tudo!!) nas entrelinhas das entrevistas, títulos, piadas, na selecção das fotografias, tamanho, cor e sobretudo nas ausências, que são muitas…

Para ler aos poucos, “distraidamente”… Mas não há nada por acaso… Para bons entendedores, meias palavras bastam… E vale sobretudo pelos inéditos dos Poetas. Não é cabotino: é cabotiníssimo!!!

Mário Viegas»

Antes, há uma citação de Samuel Beckett: «O que eu quero dizer é exactamente o que eu disse».

domingo, 19 de abril de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

E ENTÃO O QUE SE HÁ-DE FAZER?


A fotografia e o respectivo texto fazem parte da Auto-PhotoBiografia (não autorizada), escrita e montada pelo próprio Mário Viegas.

Seguimos a cronologia do Mário e terminamos hoje a evocação do 25 de Abril, nos dias de há 45 anos, para essa evocação utilizámos uma série de recortes de um dossier caseiro.

Mas não queremos findar a evocação sem ir buscar um texto, já aqui publicado, e que evoca um importante documento que regista as horas do começo da revolução, numa brilhante reportagem de Adelino Gomes.

Sobre as patentes militares e os muitos capachos que serviam a ditadura, os tenreiros, os cazais-ribeiro, existe este texto publicado, há 45 anos,  e de que desconheço o autor:

 «Massacravam-nos os ouvidos com afirmações de coragem.
Diziam que, se alguma vez o chamado estado Novo corresse perigo. Iriam dar tiros para a rua.
«Afirmavam-se prontos a morrer.
Juravam, rejuravam e trejuravam que o Povo só chegaria ao poder passando por cima dos seus cadáveres.
Gritavam aos quatro ventos que iriam vender cara a vida.
Consideravam-se soldados de uma guerra gloriosa.
Não perdiam uma ocasião de proclamar o desejo que tinham de provar a sua fidelidade vertendo, para tal o seu próprio sangue.
Arrotavam postas de valentia.
As suas permanentes gabarolices, infantis e monocórdicas, tinha-nos levado a crer que, no dia da mudança, iriam fazer qualquer coisa.
Dar um grito, por exemplo – um grito, um suspiro, um soluço.
Mas nem isso.
No dia vinte e cinco de Abril, os heróis do palavreado não cumpriram uma única das promessas que tinham feito.
Perderam o pio.»

Os militares, apoiantes do regime, mostraram a sua incompetência e desorientação.

No disco, existe um qualquer oficial a sugerir ao posto de comando a utilização de meios aéreos.


GUIDA DA MÚSICA DP 050/2
Edição conjunta Seara Nova e Sassetti
Reportagem: Adelino Gomes, Paulo Coelho, Pedro Laranjeira
Narração: João Paulo Guerra
Montagem: Pedro Laranjeira
Capa: Acácio Santos

Este disco é um documento histórico.

O pano de fundo, desde duplo álbum, é a reportagem que Adelino Gomes, Paulo Coelho e Pedro Laranjeira realizaram, no dia 25 de Abril de 1974, enquanto decorria o cerco, pelas tropas do capitão Salgueiro Maia, ao quartel do Carmo.

Um tempo em que não havia telemóveis nem directos televisivos.

Uma reportagem registada directamente para um gravador, ao sabor dos múltiplos e constantes acontecimentos, que marcaram aquele dia.

Adelino Gomes refere, várias vezes, a falta de informação com que se debate, mas regista tudo o que vê e ouve, e fá-lo com a emoção de ver arredados para o lado quarenta e oito anos de ditadura, se bem que no momento em que ele faz a reportagem nada fosse assim tão claro.

As pessoas vão entrando pelo Terreiro do Paço. Vê-se que as pessoas aderem a esta situação como uma festa, assim como uma pedra que sai de cima das pessoas, sentem-se aliviadas. Tudo isto é um pouco surrealista, à maneira portuguesa, as pessoas participam, assim como assistissem a uma peça de teatro, ou a um filme.

Ouve-se um popular dizer: isto é só o início. Um outro: porreiro, pá!, algo que muitos anos depois, um tal de José Sócrates, por ocasião da assinatura do Tratado de Lisboa, dirá a Durão Barroso.

Diariamente enchiam-nos os ouvidos com palavreado e grandes frases.

Diziam que, se alguma vez, o regime corresse perigo, iriam para a rua dar tiros, prontificavam-se a morrer, se necessário.

Soube-se, então, que não era a ditadura que era forte, a oposição é que era fraca.

Naquele dia 25 de Abril, não apareceram.

Fugiram para onde lhes foi possível.

Perderam a gabarolice, cagaram-se todos.

E os que apareceram estavam completamente desorientados.

É isso que ressalta das comunicações entre o Quartel-General e as poucas tropas, afectas à ditadura, que estavam nas ruas.

O repórter aborda dois soldados, fiéis ao regime.

Um diz: praticamente não sei o que estou aqui a fazer, praticamente não sei de nada.

O alarme tinha soado às 04,30 horas.

As ordens eram para disparar sobre qualquer acção inimiga que nos apareça.

Ninguém deu essas ordens, tão pouco sabiam quem  era o inimigo.

- Urgente. Escuto!

- O Chiado está fechado por viaturas saídas do Terreiro do Paço. O Largo do Carmo está cheio de viaturas, canhões apontados para o quartel. A situação é esta: só tenho aqui com viaturas, dois pelotões da Guarda e o resto da tropa apeada, Infantaria 1 foi para o Rossio e levaram os carros e não tenho contacto com eles.

- E então o que é que se há-de fazer?


- Não sei. Escuto. Não vejo solução… talvez aguardar…

- A nossa  posição é um tanto ou quanto ridícula. Estamos todos juntos aqui no Largo da Misericórdia aparentemente divorciados do resto da guerra. Tenho a impressão, salvo melhor opinião, que seria conveniente regressar a quartéis.

- Creio que há um ultimato até às 2 horas para entregar o Presidente do Conselho. Não sei se é verdade. Escuto.


- Que possibilidade vê de prosseguir a acção, com que meios, porventura, pôr à sua disposição.


- Não vejo possibilidade porque está tudo atravancado. Consegui limpar aqui o largo mas há muita população aqui metida no meio que não nos hostiliza porque julga que estamos do outro lado. Situação um bocado delicada de forma que não vejo bem maneira, a não ser com meios aéreos que possa limpar um bocado aquilo, porque a infiltração não me perece viável. Escuto!


Completamente perdidos.

A revolução avançava. Em pleno clímax, Adelino Gomes pergunta a um tenente-coronel: não houve rendição por parte das forças que estão sitiadas. O oficial rápido: “Porra! Vocês são uns chatos, não deixam de fazer perguntas. Uma senhora está a dar à luz e vão perguntar à senhora se ela está com dores?

Assim mesmo, um repórter no meio de uma revolução a fazer o seu trabalho.

A reportagem regista ainda as palavras de Francisco Sousa Tavares, empoleirado numa árvore, no Largo do Carmo, megafone na mão:

Começamos hoje uma vida nova, uma vida de liberdade.

Seria o primeiro comício dos novos  tempos que despontavam.

Texto publicado no dia 2 de Maio de 2019

domingo, 12 de abril de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DiFÍCEIS



Já vos disse, do arrepio dos dias que vão correndo deste isolamento que nos impuseram.

Não quero discutir se, este isolamento, foi excessivo, ou se podia ter sido algo diferente.

Pela manhã, começo por olhar a nesga de rua que vejo na frente do prédio em que vivemos há quase 50 anos.

Passa uma ou duas pessoas, carros quase nenhuns, volta e meia o «30» Picheleira/Picoas e volta, quase vazio, faz a sua passagem.

Depois vou até à varanda das traseiras. Aqui o caso muda largamente de figura.

Mas neste domingo, não quero que olhem a cidade, antes a nespereira que vêem quase em primeiro olhar.

Ali é o quintal do Orlando.

Se há um tempo de cerejas, também há um tempo de morangos e de nêsperas.

Aliás há um tempo de tudo, dispensávamos era este tempo de Covi-19.

A fotografia não é muito feliz e talvez não consigam perceber que as nêsperas já estão gordas, bem amarelecidas, prontas para serem apanhadas, antes que os pássaros, com aqueles seus olhos de lente as biquem, finórios que são, sabem o que é bom.

Talvez mais uns dias e o Orlando há-de aparecer com um cestinho com nêsperas bem rijas e a desfazerem-se em mel e não faltar´~ao para compor o cenário, algumas folhas da respectiva árvore
.
São nêsperas terrivelmente biológicas porque o Orlando não lhe põe um grama que seja de qualquer químico.

Daí não aguentarem mais que um dia ou dois, mas tanto não é necessário para que o cestinho seja devolvido vazio até à próxima apanha.

Por nêsperas, se dirá que hoje não haverá música.

Será o tempo de o Senhor Mário Viegas dizer um poema, de outro senhor: o Mário-Henrique Leiria.


Rifão quotidiano

«Uma nêspera
estava na cama
Deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece»


Sim, foi Domingo de Páscoa.

Se alguém nos chamou, não respondemos.

Dizer o quê?

1.

Marcelo Rebelo de Sousa, há uns meses atrás, muito antes do Covid-19, dizia que colocava uma sua recandidatura à presidência da república, nas mãos de Deus.

2.

João Lopes no seu Covid-20:

«O cancelamento de tudo o que seja espectáculo (com) público constitui uma catástrofe para o mercado de trabalho. Mais do que isso: é um sintoma civilizacional. Abre uma ferida cruel, porventura insanável, que, sendo de natureza económica, é acima de tudo visceralmente cultural. E só ficaremos surpreendidos se nos esquecermos que o cultural é a instância em que mais directamente se exprime, edifica e transfigura o económico. Perversamente, tudo isto tende a favorecer a consolidação de uma sociedade em streaming, esse paraíso prometido, promovido e comercializado pelos GAFA (Google + Amazon + Facebook + Apple). Não foram eles que criaram o vírus, claro — evitemos a paranóia das conspirações. O certo é que já tinham inventado a paisagem viral que passámos a encarar como se fôssemos os primeiros habitantes de uma nova ideia de Natureza.»

3.

A presidente da Comissão Europeia diz que os idosos podem ter de isolar-se até ao fim do ano.

4.

«Somos todos uns sentimentais e por isso demoramos no que nos dói.»

Nuno Camarneiro em Debaixo de Algum Céu

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

POSTAIS SEM SELO


O Humor é a coisa mais séria do mundo.
Esta frase já toda agente conhece… mas tem muita graça! E a mais triste e solitária do Mundo, digo eu. É muito triste e angustiante fazer rir.

Mário Viegas

O OUTRO LADO DAS CAPAS



Mário-Henrique Leiria está bem representado na Biblioteca da Casa, veja-se a etiqueta Mário-Henrique Livros.

Acontece que a editora E-Primatur iniciou, em Maio de 2017, a publicação das Obras Completas de Mário-Henrique Leiria constituída por três volumes.

O terceiro, e último volume, foi publicado em Junho deste ano e nele constam manifestos, textos críticos e afins, bem como cartas e postais.

A obra completa de Mário-Henrique Leiria tem como responsável Tânia Martuscelli, crítica de literatura e de arte, professora da Universidade do Colorado/Boulder nos Estados Unidos.

Desconhecia que houvesse alguém tão especializado na obra de Mário-Henrique Leiria e o quanto isso o divertiria. Tania Martucelli tem a ideia de que conseguiu reunir todos os textos constantes do espólio do autor.e vários outros materiais dispersos.

Mário-Henrique Leiria não se considerava um escritor mas um tipo que escrevia umas coisas quando a veia, aliada a um grande gin-tonic, resolve ser boa companheira.

Depois de 1951 começou a andar de um lado para o outro.

«Teve vários empregos, marinha mercante, caixeiro de praça, operário metalúrgico, construção civil (não, não era arquitecto, carregava tijolo), etc., pelas terras onde andou: a Europa cristã e ocidental, o Mediterrâneo norte-africano, o Oriente Médio e até, dizem, os países socialistas. Não ia aos Balcãs porque tinha medo, todos lhe diziam que lá os bigodes eram enormes e as bombas estoiravam até no bolso. Um dia teve de passar por lá. Os bigodes eram realmente grandes, mas toda a gente sabia rir. Tirou o casaco e bebeu que se fartou. Em 1958 meteram-se-lhe ideias na cabeça e foi até Inglaterra, para aprender coisas. Não aprendeu e voltou. Entre 1959 e 1961 foi casado e não fez mais nada. Em 1961 foi para a América Latina donde voltou nove anos depois. Por lá conseguiu ser, entre outras actividades menos respeitáveis, planejador de stands para exposições, encenador de teatro e até director literário de uma editora. Fizera progressos»

Quantos papéis, quantos textos, quantos projectos Mário-Henrique Leiria perdeu nestas suas novas-velhas-andanças?

Mas este é o trabalho possível e louve-se a iniciativa.

Claro que o autor já mandou descer mais um gin e está ainda a gargalhar porque ele sempre foi um campeão de perder textos, e textinhos, divertia-se a escrever e a esconder o que escrevia.

Mas repito: Quantos papéis, quantos textos, quantos projectos Mário-Henrique Leiria perdeu por esse mundo fora?

Nova repetição: mas pronto! É o trabalho possível, um trabalho dignificante para a literatura portuguesa e para esse futuro que se não ler o Mário-Henrique não sabe o que perde e tão pouco merce ser futuro.

Acredito que Mário-Henrique Leiria sentirá uma lágrima rebelde aflorar-lhe aos olhos, pedirá mais um gin e agradecerá do fundo do coração.

O 1º Volume reúne Fragmentos da Minha Vida Real, os Contos do Gin-Tonic, os Novos Conto do Gin, Fábulas do Próximo Futuro, Contos Extraídos de Depoimentos Escritos, Contos Inéditos e Dispersos, Casos de Direito Galático, o Mundo Inquietante  de Josela,  a banda desenhada Mário e Isabel, a novela Diapasão , Teatro e Guiões.

O 2º volume é dedicado à poesia e reúne toda a sua obra poética incluindo inéditos e textos nunca antes compilados em livro

Comprei o 1º volume da Obra Completa do Mário-Henrique Leiria na Feira do Livro deste ano e, oportunamente, irei comprar os outros dois volumes. É que há um bom número de textos escritos que não fazem parte das obras publicadas.

No programa de Mário Gin Tónico Volta a Atacar, Mário Viegas escreve:

«Quantos textos inéditos (?), perdidos, semi-publicados (?) não andam por aí??
Onde estão os grandes amigos deste Mário??? É urgente reuni-los num livro. Este espectáculo e este programa aqui estão para o provar e dar uma ajuda!»

Passaram 30 anos sobre estas palavras.

Muito tempo? Tempo demasiado?

Mais vale tarde que nunca, diria a minha avó materna.

A Obra Completa do Mário Gin-Tónico está aí, Mário Viegas.

O quanto gostaria que esta E-Imprinatur, outras editoras, seguissem esta reunião de obras completas de autores que deixaram um espólio que andará por aí  ao abandono, por aí perdido.

Tantos e tantos autores nessas condições e, assim de repente, lembro-me do Eduardo Guerra Carneiro.

A Obra Completa de  Mário-Henrique Leiria foi publicada com o apoio dos leitores através de um funcionamento colectivo.

Em cada volume pode ler-se este avisos:

«De acordo com a legislação autoral em vigor, a E-Imptimatur tentou localizar os herdeiros de  Mário-Henrique Leiria, sem sucesso. Os representantes legais devidamente identificados poderão entrar em contacto com a editora para se elaborar contrato de direitos.»

De uma carta de Mário-Henrique Leiria, Carcavelos 25 de Novembro de 1973, para Isabel, ou Maruska, ou o grande amor da sua vida:

«Quanto ao meu livro (Novos Contos do Gin), já está em primeiras provas. Talvez esteja na rua lá para meados de Dezembro. Achei que tinha historietas demais e tirei um monte delas, não gosto de chatear demais os leitores.
Sabes que o Gaspar Simões botou elogio grosso aos CONTOS DO GIN-TÓNICO na página literária do "Diário de Notícias"? Pois foi: Só tenho coisas que me ralem; só me faltava o Gaspar Simões a dizer bem de mim. Ele há cada coisa!»


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


Mário Gin-Tónico Volta a Atacar

Mário-Henrique Leiria e Mário Viegas
Textos inéditos, semi-inéditos, desconhecidos, esquecidos e muito divertidos
Capa do programa do Teatro Estúdio no S. Luiz, Março de 1987
Único actor e irresponsável: Mário Viegas

«A minha cumplicidade com Mário em 1978 e com o seu Humor foi fulminante!!
Estreei Mário Gin-Tónico no Porto em Junho de 1986 e durante dois anos foi das experiências maiores da minha vida: milhares de gargalhadas e espectadores.
Quando o espectáculo chegou às 3 horas… decidi parar. Aqui está de volta e com novos textos.
Vai um copo?

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

SARAMAGUEANDO


«Em Lisboa, para votar. Encontro alguns amigos preocupados com o resultado das eleições de amanhã. Tudo aponta para uma vitória folgada de Jorge Sampaio, mas eles duvidam, parece-lhes ser bom de mais para poder ser verdade. Apresento um argumento para o qual não há resposta. «É impossível que este país tenha como presidente da República um homem chamado Aníbal Cavaco Silva. Não porque não  fizesse sentido, mas porque o faria de mais…»

José Saramago em Cadernos de Lanzarote IV Volume

O 4º Volume dos Cadernos de Lanzarote cobre o ano de 1996.

A 1 de Abril regista a morte de Mário Viegas:

«Mário Viegas morreu. Era um cómico que levava dentro de si uma tragédia. Não me refiro à implacável doença que o matou, mas um sentimento dramático da existência que só os distraídos e superficiais não eram capazes de perceber, embora ele o deixasse subir à tona da expressão às vezes angustiada do olhar e ao ricto sempre sardónico e amargão da boca. Fazia rir, mas não ria. Pouca gente em Portugal tem valido tanto.»

A 17 de Junho a «morte anunciada» de David Mourão-Ferreira:

«…não era só literariamente que tínhamos ficado mais pobres, que também ficávamos reduzidos espiritualmente. Ainda que a alguns possa parecer o mesmo, não o é.»

A 27 de Setembro dá notícia de que pediu a «Rui Godinho, vereador da Câmara Municipal de Lisboa, velho amigo e camarada», se conseguia descobrir a data do falecimento do seu irmão Francisco de Sousa dado não constar o averbamento do óbito no registo de nascimento e explica: «o que me leva a pedir a tua ajuda tem que ver com O Livro das Tentações, onde inevitavelmente falar desse Francisco de Sousa de quem não me lembro tal como estão as coisas agora, é como se eu tivesse um irmão imortal…»

Este Livro das Tentações será publicado no ano de Outubro de 2006 mas com o título de Pequenas Memórias.

A página final é para nos dizer que o ano entrou em Lanzarote com o acompanhamento de «uma trovoada gigantesca que parecia querer deitar abaixo o céu e afogar a terra num dilúvio.» e para nos fazer ver que «se entra na velhice quando se tem a impressão de ocupar cada vez menos lugar no mundo. Durante a infância e a adolescência cremos que ele é nosso e que para ser nosso existe, na idade madura começamos a suspeitar que afinal não é tanto assim e lutamos por que o pareça, começa-se a ser velho quando percebemos que a nossa existência é indiferente ao mundo. Claro que sempre o tinha sido, mas nós não o sabíamos.»

Legenda: capa de Cadernos de Lanzarote, Volume IV publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria da escritora Nélida Piñon.