ORFEU - STAT 003 - 1970
FACE 1
E De Súbito Um Sino (poema dito por Ruy Mendes) - Raiz (Manuel Alegre/Adriano
Correia de Oliveira) - E A Carne Se Fez Verbo (Manuel Alegre/Adriano Correia de
Oliveira) - E O Bosque Se Fez Barco (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira)
- Peregrinação (Adriano Correia de Oliveira) - A Batalha de Alcácer-Quibir
(Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - Regresso (Manuel Oliveira/Adriano
Correia de Oliveira)
FACE 2
Canção da Fronteira (António Cabral/Adriano Correia de Oliveira) - Por Aquele
Caminho (José Afonso/Adriano Correia de Oliveira) - Canto Da Nossa Tristeza
(Manuel Alegre/Luís Colaço) - Trova Do Vento Que Passa Nº 2 (Manuel
Alegre/Adriano Correia de Oliveira) - As Mãos (Manuel Alegre/Adriano Correia de
Oliveira) - Post-Scriptum (Manuel Alegre/Adriano Correia de Oliveira)
Capa de J. Bugalho, acompanhamento à viola de Rui Pato.
Foram dois militares que gravaram este LP num estúdio de Campolide, em Lisboa:
o aspirante a oficial miliciano de Cavalaria, Rui Pato, e o alferes miliciano
da Polícia Militar, Adriano Correia de Oliveira.
O LP foi gravado em duas noites de patrulha de Adriano. Com a cumplicidade dos
restantes militares, o jeep andava na ronda, enquanto o alferes pousava a
pistola em cima do piano: o canto e as armas.
Testemunho de Luís Colaço, autor da música de "Canto Da Nossa
Tristeza":
O poema "Canto da Nossa Tristeza" faz parte do livro do Manuel Alegre
"O Canto e As Armas", sendo o único poema deste disco que não foi
musicado pelo Adriano.
Musiquei-o em Lisboa, quando alguns dos meus camaradas nacionalistas angolanos
que estudavam em Coimbra, foram presos pela PIDE, após a Crise Académica de
1969, incluindo o meu irmão Joca Colaço (já falecido), estudante do 2º ano de
Medicina (colega do Rui Pato) e que também era um bom músico pop e tocava no
conjunto Os Pops.
Nessa altura tive plena consciência de que teria de rapidamente sair clandestinamente
de Portugal.
Tinha obtido o livro do Manuel Alegre e o poema que mais me sensibilizou, pela
tristeza combatente que transpirava e que era semelhante à que eu sentia ao ter
de abandonar tudo e todos - família, namorada, amigos, o último ano do curso de
engenharia civil no I.S.T, os Álamos, o Rádio Clube Português, a editora
Movieplay etc. - em prol das minhas opções ideológicas e nacionalistas, foi o
"Canto Da Nossa Tristeza".
Musiquei-o com esse sentimento, daí a sua harmonia nostálgica tão bem
interiorizada pelo Rui Pato no seu arranjo musical para o disco, com uma bela
introdução e um solo de viola sensacional.
Obrigado meu grande amigo Rui!
Soube pelo técnico de som Moreno Pinto, da Polysom, que me contactou na
Movieplay, onde eu era o Chefe do Departamento de Promoção, que o Adriano iria
gravar com o Rui Pato um disco baseado nos poemas do livro de Manuel Alegre.
Desloquei-me no dia anunciado para a gravação (em finais de Fevereiro de 1970,
se não estou em erro) aos estúdios da Polysom, em Campolide, disse ao Adriano
(que chegou ao Estúdio fardado e armado de pistola à cintura) que tinha uma
composição para o "Canto da Nossa Tristeza", poema que ele não havia
musicado e propus-lhe que a cantasse no disco.
O Rui emprestou-me a viola dele, cantei-lhe a música "em bruto", ele
gostou bastante e depois de ouvir a opinião do Rui Pato pediu-lhe para fazer
ali mesmo os arranjos musicais que eu achei óptimos, e depois das outras faixas
do disco terem sido gravadas a minha música foi finalmente gravada com o
acompanhamento do Rui Pato!
Só grandes músicos conseguiam fazer tal proeza, com tanta qualidade e em tão
pouco tempo!
Do que me recordo, todo o disco foi gravado em menos de 24 horas! Uma obra…
Começou de manhã e só acabou alta madrugada quando todas as faixas tinham sido
gravadas! E eram 13! Os arranjos musicais do Rui Pato iam sendo feitos música a
música, logo seguida da respectiva gravação. Assisti a todas as gravações e no
final ouvimos tudo seguido, bem cansados! Só voltei a ouvi-las 2 anos depois!
Já nem me lembrava delas.
Esta gravação foi em Março de 1970 e por isso situo a gravação de "O Canto
E As Armas" no final de Fevereiro de 1970. Mas, como já disse, já lá vão
muitos anos…Uma coisa é certa: o disco não foi gravado em 1969 como por lapso
aparece no disco.
Só ouvi pela primeira vez o disco já editado, em 1972, em Argel, nos estúdios
da Radiotelevisão Argelina, onde era gravado o programa do Manuel Alegre “A Voz
da Liberdade”.
Era um Long Play (LP) com a capa da “manifestação estudantil de 1969” e um
pequeno texto “muito cuidadoso” do Adriano, sem falar nunca do Manuel Alegre,
para não alertar a PIDE (DGS) e o disco ser confiscado.
Acompanhei pessoalmente o Adriano nessa música, pela primeira e única vez, em
Luanda, em 1976, logo após a Independência de Angola, quando ele cá veio com o
Zeca Afonso, por proposta minha, a convite do Governo angolano, acompanhado do
Fausto.
Saí clandestinamente de Portugal em Abril de 1970, logo após ter chegado de
Londres, onde acompanhei com o Bóris (Carlos Correia), o Zeca Afonso na
gravação do disco "Traz
Outro Amigo Também", depois de várias peripécias com a PIDE, inclusivé
ter sido preso dentro do avião, minutos antes do embarque para Londres.
Consegui apesar de tudo embarcar uma semana depois do Zeca e do Bóris partirem!
Já agora, um último detalhe: já fora de Portugal soube que o disco "O
Canto E As Armas" ia ser corajosamente editado e pedi, a partir de França,
em Agosto de 1970, ao meu amigo Magalhães Pereira, Chefe do Departamento
ZIP-Música das Organizações ZIP-ZIP Publicidade, Lda, que salvaguardasse por
contrato os meus direitos de autor da música.
Infelizmente nunca recebi o Contrato de Edição que me foi enviado para França,
provavelmente por o correio enviado ter sido confiscado pela PIDE (DGS).
Rui Pato
Copiado de «IÉ-IÉ», blogue de Luís Pinheiro de Almeida

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