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sábado, 21 de setembro de 2024

MORTES NOS FILMES

«Não gos­tava de muitas mor­tes nos fil­mes – “os cadá­ve­res não sabem representar”, explicou ele, achando que era um desperdí­cio e uma san­gria desa­tada cortar-se sim­ples­mente a cabeça à vítima.»

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

CONVERSANDO


Há algum tempo, numa modificação descabelada aos seus cronistas, o Expresso mandou bugiar dois, que eu muito apreciava: Ana Cristina Leonardo e Manuel S. Fonseca. Ficaram por lá encomendas como a Clara Ferreira Alves, o Pedro Mexia, o Henrique Monteiro, um tal de Luís Pedro Nunes, etc.

No caso de Cristina Leonardo tive sorte porque a reencontei, às sextas-feiras no suplemento Ipsilon do Público. Quanto ao Manuel S. Fonseca voou para o Correio da Manhã, e aí nada feito porque não leio o pasquim.

Acontece, porém que Manuel S. Fonseca tem um blogue, a sua Página Negra, e nem tudo está perdido.

Vai agora publicar um livro na sua editora Guerra & Paz. Chama-se Crónica de África.

«Livro narcisista com foto minha, quase de bibe, na capa. É um livrinho em três actos, infância, adolescência e independência. Livro de fim de império, aqui se contam, com espanto e reverência, as coisas que desfilaram pelos meus olhos míopes: chimpanzés a beber coca-colas, indolentes caranguejos em fuga, idealistas a correr desenfreados para assistir a tiroteios». 

 Deverá ser interessante, mas o que gostava mesmo, é que publicasse, em livro, as crónicas do Expresso e outras que andam por aí espalhadas.

Mas por hoje pego num texto da sua Página em que fala de Alfred Hitchcock e da actriz Tallulah Bankhead:.

 «“Lifeboat” é um filme à deriva no mar da II Guerra. Filmou-o Hitchcock num bote onde meteu nove vidas sem destino. O caos tomou conta do oceano e no salva-vidas, no início, só está uma mulher madura e bela, cabelo, maquilhagem e jóias irrepreensíveis, casaco de arminho, esplêndidas meias de vidro. Tão certo como ser um filme de Hitchcock, uma delicada cinta de ligas mantém essas meias esticadas para que, sem dobras nem refegos, bem torneiem a bela perna.

A mulher é a mais libertina das actrizes, Tallulah Bankhead, e posso jurar que não traz cuecas.

 Também a secreta britânica, o MI5, lhe quis escrutinar o frondoso jardim. Descobriu lá, de uma vez, cinco jovens de Eton, colégio que agora formou os dois príncipes britânicos. O rendez-vous foi no selecto Hotel Café de Paris e o espião alega que ela se terá regalado, em prática imorais e antinaturais, com os cinco, como nunca Enid Blyton imaginaria.

O agente do MI5 jurou que numa só noite pararam 100 limusinas à porta do hotel e também a acusou de lésbica. Tallulah, que sempre lamentou não ter chegado a esse impertinente toque de delicadeza com Greta Garbo, foi peremptória: “Jamais me tornaria lésbica, tanta é a falta de humor que têm!”

sábado, 16 de maio de 2020

POSTAIS SEM SELO


A mãe é sempre a melhor amiga de um rapaz.

Do Psico de Alfred Hitchtock

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O título, em português, deste livro de Erle Stanley Gardner fez-me lembrar um filme de Alfreed Hitchcock The Trouble with  Harry que em português se chamou O Terceiro Tiro.

É um filme delicioso de graça e em que o humor negro de Hitchcock anda completamente à solta.

Nas suas conversas com François Truffaut, Hitchcock disse:

«Trata-se de um filme que rodei muito livremente a partir de um assunto escolhido por mim e, quando o terminei, ninguém sabia o que fazer dele, como explorá-lo. Era muito especial, mas, para mim, não era absolutamente nada especial.».

Na sinopse do filme pode ler-se:

«Nesta comédia de humor negro, há um morto e vários possíveis assassinos. Na floresta de Vermont, um pequeno rapaz brinca com uma espingarda de plástico quando o silêncio de uma manhã de Outono é interrompido por três tiros. No chão, encontra-se o corpo de Harry, que em breve vai ser “descoberto” por alguns transeuntes suspeitos. O primeiro é o capitão Albert Wiles (Edmund Gwenn), que julga ser o assassino porque estava a caçar e disparou a caçadeira na direcção de Harry pensando ser um animal. Aparecem ainda uma simpática solteirona (Mildred Natwick), uma jovem mulher (Shirley MacLaine) e Sam um pintor (John Forsythe). Todos se tornam cúmplices do presumível crime, mas qual deles matou Harry?».

As meias do morto Harry são um achado de produção: azuis com as pontas em vermelho.

E, perto do final, quando a morte de Mr. Harry, está quase a ser deslindada e em que uma bem humorada e mimosa Shirley  Mac Laine – é o seu primeiro filme – responde assim  a uma  anterior proposta   de casamento de  Sam:

«Jennifer – Já resolvi.
Sam – O quê?
Jennifer – Caso contigo. Se já não te esqueceste que me pediste. Gosto muito de ti, acho que serás um bom pai para o meu filho e mais outras razões que é melhor não dizer.
Capitão Wiles – O casamento é uma maneira agradável de passar o Inverno.
Sam – Acreditas que eu quase me esquecera da proposta?
Jennifer – Eu tenho testemunhas.
Sam – Está bem. Arranjaste marido. Creio que vou dar-te um beijo para o demonstrar.

Jennifer – Mas com calma. Eu ardo com muita felicidade».

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Psycho

Assassinada no duche
como Marat
mas sem revolução
nem razão
e o sangue aguado dela
vai-se pelo ralo
da banheira
no sentido
dos ponteiros do relógio
nos antípodas
seria ao contrário
porquê?

Adília Lopes em Poemas Com Cinema

Legenda: Janet Leigh em Psycho de Alfred Hitchcock

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

POSTAIS SEM SELO


A televisão é como as torradeiras: carrega-se no botão e sai sempre a mesma coisa.

Alfred Hitchcock

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

AS PALAVRAS INTERDITAS


Os navios existem, e existe o teu rosto 
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.


Eugénio de Andrade em Poemas

Legenda: fotograma de Marnie de Alfred Hitchcock

sexta-feira, 24 de julho de 2015

OS PÁSSAROS




Como não lembrar os estranhos acontecimentos em Bodega Bay , contados por Alfred Hitchcock  em  Os Pássaros?

Podemos saber de muita coisa mas, por vezes, algo nos escapa.

Ninguém sabe por que inofensivos pássaros atacam os habitantes de uma pacata vila.

Tão pouco se fica a saber se voltarão a atacar.


Fez bem em não fornecer o motivo da acção agressiva das aves. O filme é nitidamente uma especulação, uma fantasia.

Será mesmo?

Talvez seja por isso que o filme de Alfred Hitchcock não termina com o clássico The End.

Algures na Cornualha, em Aberdeen, em qualquer lugar, algo pode acontecer com pássaros.


segunda-feira, 11 de maio de 2015

OS IDOS DE MAIO DE 1975



11 de Maio de 1975

ENCERRAMENTO do 1º Congresso de Escritores.
Presente o Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves.
Falou do prazer de estar ali, pediu desculpa de os seus afazeres não lhe terem permitido preparar uma intervenção com o mínimo de cuidado e do que irá dizer, entre tantos ilustres intelectuais, vai sair muita «bota».
Em primeiro lugar eu queria saudar a Associação dos Escritores Portugueses como uma Associação de resistentes anti-fascistas.
O fascismo nunca contou com os intelectuais portugueses. Terá havido uns transfugas, mas o carácter, nem se diz já o carácter dominante, foi quase um carácter absoluto o de eles nunca contarem com os intelectuais portugueses.
Disse ainda:
Alguns oficiais que vêm de campanhas de dinamização dizem que «levaram uma lavagem ao cérebro».
Tem-se falado da Revolução Cultural e nós precisamos de uma revolução cultural. Mas revolução cultural não é meter ideias à força na cabeça das pessoas, atenção. A experiência deste século tem demonstrado que isto não é possível. Não podemos meter as ideias à força. Isto está condenado ao malogro.
E acabou por exortar os escritores:
Venham para o pé de nós contribuir para a revolução do povo português. Os escritores podem fazer o nosso povo galgar anos e anos de atraso cultural. No Conselho da Revolução já provámos à saciedade que não desejamos implantar uma ditadura em Portugal. O dirigismo e os papões sobre o dirigismo são um meio de vos dividir.
Na qualidade de presidente da Associação Portuguesa de Escritores já José Gomes dissera no discurso de abertura que a liberdade não constitui monopólio de ninguém, assim como nenhuma corrente ou escola literária pode julgar-se detentora da verdade suprema e terminou com um
Viva o futuro. Livre.

FACE AOS INCIDENTES que se continuam a verificar em Angola, o Ministério da Coordenação Internacional admite o eventual regresso de muitos portugueses a Lisboa.

O BENFICA venceu o Campeonato Nacional de Futebol da I Divisão.

 Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

domingo, 31 de março de 2013

POSTAIS SEM SELO


A minha mulher cozinha todas as noites e eu ajudo-a a lavar a loiça.

Alfred Hitchcock

Legenda: Hitchcock e Alma Reville, sua mulher e luminosa colaboradora.

sábado, 30 de março de 2013

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Não vi todos os filmes de Alfred hitccock.

O ciclo sobre Hitchcock que, durante o mês de Março, a Cinemateca esteve a exibir, serviu para recticar algumas lacunas.

Levei algum tempo a perceber, e a gostar, de Hitchcock.

Cada um tem os seus gostos, os seus olhares, mas se tivesse que mencionar os meus cinco filmes preferidos de Httchcock, a lista ficava assim:

A Janela Indiscreta
Vertigo
39 Degraus
O Homem Que Sabia Demais
Os Pássaros.

Quando François Truffaut esteve largamente, muito largamente, à conversa com Alfred Hitchcock, disse-lhe que de todos os seus filmes, os preferidos eram Difamação e Janela Indiscreta.


Devido a um acidente, um repórter fotógrafo L. B. Jeffries (James Stewart) ficou imobilizado no seu apartamento, com uma perna engessada. Como entretenimento para as horas que passam, observa os comportamentos dos vizinhos do prédio em frente: uma solteira desesperada por companhia, um músico que tenta encontrar a inspiração nas bebidas alcoólicas, um casal que mima o cão como se fosse um filho… isto até ao momento em que a observação de Jeff o leva a suspeitar que um crime foi cometido no prédio e o fotógrafo decide envolver a sua noiva (Grace Kelly) e um detective amigo (Wendell Corey) numa perigosa investigação. A evolução dos acontecimentos dá-lhe razão e, por fim, o assassino (Raymond Burr) atravessa o pátio e atira pela janela o nosso repórter que escapa… com a outra perna partida.

O filme é um apanhado de pequenas histórias que se desenrolam no pequeno mundo das traseiras de um prédio.

James Stewart  era um voyerur.  Lembro-me (Hitchcock a falar com Truffaut) de uma crítica a propósito. A menina Lejeune escreveu no London Observer que Rear Window era um filme «horrível» porque havia um tipo a olhar constantemente pela janela. Penso que ela não deveria ter escrito que era horrível. Sim, o homem era um voyeur, mas não seremos todos voyeurs?


Garanto-lhe que nove em cada dez pessoas, se virem do lado de lá do pátio uma mulher a despir-se antes de se deitar ou simplesmente um homem a arrumar o quarto, não conseguem evitar o olhar. Poderiam desviar o olhar, dizendo: »Isto não é não me diz respeito»; poderiam fechar as persianas, mas, ora! Não fazem nada disso, ficam a olhar.


O cinema está repleto de brilhantes e comovedoras cenas de beijos. 

As cenas finais do Cinema Paraíso, de Giuseppe Tornatore, são uma montagem feita a partir dos cortes de cenas de beijos, e outras, que o padre, censor-mor-da-comunidade, determinava, depois de, sem sombra de pecado, se ter regalado a ver tudo.

Há quem diga que os beijos que Grace Kelly, o vulcão debaixo de gelo, como lhe chamava Hitchcock, troca com James Stewart neste filme,  são dos mais belos  da história do cinema. François Truffaut, se não o afirma categoricamente, está perto disso. João Bénard da Costa pensa que o mais belo será entre John Wayne e Maureen O´Hara em O Homem Tranquilo. 

Estas coisas valem o que valem… pelo que, sem qualquer classificação beijocal, apenas direi que são grandes momentos de cinema.

 A primeira aparição de Grace Kelly, no apartamento de James Stewart ,dá-se sem nós a vermos, apenas a sua sombra vai-se desenhando na face de James Stewart que está sentado, a dormitar, na cadeira de rodas.

 Entretanto acorda e beijam-se. 


A outra cena é quase no final do filme. 


James Stewart, para fugir ao criminoso estatela-se no pátio e parte a outra perna. Deitado no chão vê o rosto de Grace Kelly aproximar-se do seu.seu. Ela não o beija, mas uma madeixa de cabelo vai caindo lenta e suavemente sobre o rosto de Stewart.


É agora o tempo de vos apresentar dois diálogos do filme.


Logo a abrir, o longo diálogo entre a enfermeira e James Stewart, é um primor de graça.  Na troca de palavras, vindo a talhe de foice a inteligência, a enfermeira diz-lhe: 

Inteligência: Nada tem causado tanto sarilho à raça humana!

O outro diálogo ocorre durante uma das conversas entre Jeff e Lisa, quando esta faz desesperadas tentativas para provocar o casamento com Jeff, que não  está muito virado para isso:

Lisa – Gostava de ser criativa!

Jeff – Mas tu és minha querida! Tens um grande talento para criar situações difíceis!

Lisa – Achas?

Jeff – Claro! Como passar a noite aqui sem seres convidada.

Lisa – A surpresa é o mais importante elemento do ataque.

Do texto da Cinemateca:

Pode chamar-se-lhe um «filme de câmara». A notável articulação entre os espaços do interior do apartamento de Stewart e o pátio e as traseiras dos vizinhos é o resultado de
Um dos mais fabulosos trabalhos de designing da história do cinema. 

terça-feira, 5 de março de 2013

OLHAR AS CAPAS


Hitchcock Diálogo com Truffaut

François Truffaut, com a colaboração de Helen Scott
Tradução: Regina Louro
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote, Fevereiro de 1987

O MacGuffin é um expediente, um truque, uma senha, chamamos a isso um ginmick.
Sabe que Kipling escrevia frequentemente sobre as Índias e sobre a luta dos Britânicos contra os indígenas nas fronteiras do Afeganistão. Em todas as histórias de espionagem que evocam esse ambiente havia, invariavelmente, roubo dos planos da fortaleza. Era o MacGuffin. MacGuffin é, portanto. O nome que se dá a este género de acção… os papéis, roubar… os documentos, roubar… um segredo. Na realidade isto não tem importância e os lógicos fazem mal em procurar a verdade no MacGuffin. No meu trabalho, sempre pensei que os «papéis», ou os «documentos», ou os «segredos» da fortaleza devem ser extremamente importantes para as personagens do filme mas sem qualquer importância para mim, narrador.
Agora, de onde é que vem o termo MacGuffin? Lembra um nome escocês e podemos imaginar uma conversa entre dois homens num comboio. Um diz ao outro: «Que embrulho é aquele que você pôs na rede?» O outro: «Ora! É um MacGuffin.» E o primeiro «O que é isso, um MacGuffin?» O outro: «Olhe, é um aparelho para apanhar leões nas montanhas Adirondak!» O primeiro: «Mas não há leões nas Adirondak!» Então o outro conclui: «Nesse caso não é um MacGuffin.» Esta anedota mostra-lhe o vazio do MacGuffin… o nada do MacGuffin.

segunda-feira, 4 de março de 2013

O VERTIGINOSO SR. HITCHCOCK


Sem saber bem quem era Alfred Hitchcock, gozei à parva com as histórias que a televisão, a preto e branco da ditadura, transmitia semanalmente.

Ainda hoje sorrio com aquele velho Good evening.

Mais tarde, o meu pai conduziu-me pelos seus filmes, um cineasta de peso como ele dizia ou ouviu dizer.

Durante o mês de Março, a Cinemateca proporciona a exibição de vinte e cinco filmes de Mr, Hitch.

Chamaram ao ciclo O Vertiginoso Sr. Hitchcock, e a programação pode ser consultada no site da Cinemateca:

Uma sucessão de acontecimentos reavivou, nos últimos tempos, o interesse público pela figura e obra de Alfred Hitchcock. A eleição de VERTIGO como “melhor filme de todos os tempos” na célebre sondagem da revista Sight & Sound; as reposições no circuito comercial português desse filme e, depois, de PSYCHO; a estreia em sala de HITCHCOCK, de Sacha Gervasi, retrato do realizador durante a rodagem de, justamente, PSYCHO; ou ainda a exibição, nos Estados Unidos, de um telefilme, THE GIRL, sobre a relação entre Hitch e Tippi Hedren, protagonista de THE BIRDS e MARNIE.
Sob o efeito combinado de tudo isto, Hitchcock voltou à berlinda, e por certo despertou o interesse e a curiosidade pela sua obra nas mais jovens gerações de espectadores e cinéfilos. Foi sobretudo a pensar neles – como se precisássemos de pretexto para voltar a Hitchcock – que concebemos este programa, constituído quase exclusivamente pelos títulos hitchcockianos da nossa coleção. Não é a retrospetiva integral que a Cinemateca já por duas vezes realizou; mas é um passeio por uma das mais obras mais ricas e complexas que o cinema gerou, e um mergulho em cheio na vertigem de Alfred Hitchcock. Modesta e francamente, parece-nos proposta irrecusável.
Alfred

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

AS FOTOS DOS LUGARES DE VERTIGO


847 Montgomery Street, o local onde se encontrava o antigo Ernie’s Restaurant, que era um restaurante de sucesso na San Francisco daqueles tempos, onde Hitchcock também costumava ir. Já não existe nos dias de hoje. Num filme tão marcado pelo número dois (duas mulheres, duas subidas à torre, duas mortes, dois julgamentos…), decorrem aqui duas cenas: uma logo no início, quando Scottie vê Madeleine pela primeira vez; outra no final, quando Scottie pensa que transformou Judy em Madeleine e a leva a jantar ao mesmo sítio.
 
 1000 Mansion Street, esquina com a Sacramento Street. Era a residência de Madeleine. No filme Scottie espera por ela no passeio em frente (duas vezes…), para a seguir quando a vê sair no seu Jaguar Mark VIII verde. O edifício, que é a sede do “The Brooklebank”, está impressionantemente intacto nos dias de hoje. E eu não deixei de entrar e de dar uma voltinha lá por dentro… 


Claude Lane, transversal a Sutter Street. Madeleine vem comprar um “bouquet” de flores à florista “Podesta Baldocchi", entrando pelas traseiras  


Madeleine vem recolher-se junto da campa de Carlota Valdez.
"Mission Dolores" em Dolores Street. 

                          


 Madeleine vem recolher-se junto da campa de Carlota Valdez.
"Mission Dolores" em Dolores Street. 



 Vemos o carro de Scottie subir esta a rampa e dirigir-se a casa da sua amiga Midge (Barbara Bel Geddes), que fica no 296 Union Street.Também há duas cenas nesta casa. 


Após nova perseguição pelas ruas de San Francisco, o Jaguar verde dirige-se a Fort Point, junto à baia. Madeleine dá uns passos junto à amurada antes de se atirar à água neste local, sendo salva por Scottie. O local exacto da queda está em obras à superfície, pelo que vou poupar-vos à fotografia dos tapumes… Mas desci às rochas para fotografar melhor as águas, na secreta esperança de sentir o perfume da Kim Novak! E senti mesmo… 


 Recuperada das águas inconsciente, Madeleine é conduzida por Scottie até à sua casa, em 900 Lombard Street, e metida na caminha. 



 No dia seguinte Scottie volta a seguir Madeleine pelas ruas de San Francisco e repara que esta se dirige à sua própria casa. É quando ela lhe diz que fixou o local devido à Coit Tower, e ele lhe responde que foi a única vez que a proximidade da Coit Tower lhe serviu de alguma coisa. Vão dar uma volta a um parque fora da cidade. Toda a gente (Trufaut incluído…) pensou, durante muito tempo, que a cena teria sido rodada em “Muir Woods”, a norte de San Francisco. Mas parece que na realidade o foi no Big Basin Redwoods State Park, a sul de San Francisco e perto de Scotts’s Valleu, onde Hitchcock tinha a sua casa de camp. 




 É mais uma batota, porque o parque natural não fica perto do mar…
O inesquecível beijo que Scottie e Madeleine dão nessa ocasião (um dos mais belos da história do Cinema, garanto-vos…), com a enorme onda a rebentar ao fundo, foi filmado em Pine Cleefs, na zona onde tirei esta fotografia. 



 Madeleine contou a Scottie que um dos seus pesadelos recorrentes se desenrolava numa torre perto de uma igreja, e Scottie identificou o local como sendo a “Mission San Juan Bautista”, que fica a uns 100 km a sul de San Francisco. Quando se dirigem para lá passam numa estrada, com grandes árvores que são filmadas em contre-plongé.Tudo se passa na chamada “Avenue of the Tall Trees”, em plena Highway 101. Mas, não fosse o Cinema o mentiroso que é, estas árvores nunca poderiam ter sido encontradas nesse trajecto porque ficam a sul, e não a norte da “Missão”. 



A “Mission San Juan Bautista”, com o Plaza Hall e os estábulos. 


 Foi junto a esta charette e a este cavalinho branco que Scottie e Madeleine deram o último beijo, antes dela subir à torre e "morrer”. 


 No Plaza Hall foi onde Scottie foi julgado pelo homicídio involuntário de Madeleine. Mas certamente que me irão fazer uma pergunta oportuna: onde está então a célebre torre, onde morrem duas mulheres…? Resposta: não existe!!! Trata-se de um mero “efeito especial”, tal como eu já sabia antes de cá ter vindo. 


Hotel Commodore, onde vivia Judy, a reencarnação de Madeleine. 



Jardins do “Palace of Fine Arts”, em San Francisco, onde Scottie e Judy se passearam. É claro que não fui exaustivo e falta muita coisa. Muitas delas já não existem, como é o caso do Mckittrich Hotel, onde Madeleine entra e sai sem deixar qualquer rasto ao pobre Scottie, ou a St. Pauls Lutheran Church, que se vê bem nessa mesma sequência e que ardeu completamente poucos anos após a rodagem do filme. Ou a “Argosy Book Shop”, onde Scottie e Midge vão à procura de informações sobre Carlota Valdez, que, na verdade, nunca existiu e era uma alusão à “Argonaut Book Shop” da época. As sequências que mais gosto no filme são aquelas que se passam em silêncio, durante longuíssimos minutos (16 minutos numa delas, cronometrados por mim…), enquanto Scottie segue Madeleine pelas colinas de San Francisco. 




OS LUGARES DE VERTIGO


No seu livro, Crónicas da América, Luís Miguel Mira, dedica todo um capítulo à revisitação que fez aos lugares de Vertigo.

No post seguinte publicam-se as fotografais dos lugares e as respectivas legendas:

Eu já tinha percebido que, cada vez que penso ter uma grande “pancada” por qualquer coisa (um livro, um filme, uma música, ….), aparece sempre alguém que tem exactamente a mesma “pancada” que eu tenho, mas elevada à décima potência. E isso aconteceu-me de novo agora, com a história que vos vou contar. “Vertigo”, que Alfred Hitchcock realizou em 1958, é um dos filmes da minha vida, daqueles que levaria, sem pestanejar, para a tal ilha deserta. Razões há muitas, objectivas e subjectivas, mas não é isso que me trás hoje aqui. Acontece que, neste meu regresso a San Francisco, tinha decidido fazer uma peregrinação mais ou menos exemplar aos lugares onde “Vertigo” foi filmado. Não me perguntem porquê. Apeteceu-me… Podia ter-me dado para outra coisa, mas deu-me para isso…! Ainda em Lisboa, revi pela enésima vez o filme com muito cuidado, tomei as anotações que me pareceram necessárias e, ao chegar a Frisco, meti mãos à obra.
Quanto já estava no Palace of the Legion of Honor, um dos lugares de “Vertigo”, reparei que estava anunciado um ciclo de Cinema exclusivamente com filmes rodados em SF, e vi que esse ciclo se iniciava, precisamente, com o “Vertigo”. Reparei, também, que a sessão de abertura incluía uma palestra de Jef Kraft, um dos autores do livro “Footspeps in the Fog – Alfred Hitchcocks’s San Francisco”. A milésima obra sobre Hitchcock, disse cá para mim, e segui caminho porque, já que tinha vindo ao museu, aproveitaria para ver uma exposição sobre “Women Impressionists” que me pareceu interessante, e era mesmo. No final segui o meu velho hábito de passar pela livraria do museu comprar um catálogo da exposição e reparei numa enorme pilha de livros que lá estavam, que não eram mais do que o tal “Footsteps in the Fog” sobre o Hitchcok de que vos falei. Folheei-o, por curiosidade, e nem queria acreditar no que os meus olhos viam.
O que os malucos dos dois autores (Aaron Leventhal é o co-autor) faziam no seu livro não era mais do que aquilo que eu me preparava para fazer com o “Vertigo”! Eles estavam-se nas tintas para os aspectos éticos, estéticos e técnicos da obra de Hitchcock, e a única coisa que lhes interessava eram os aspectos, digamos, paisagísticos. Propunham-se inventariar todas as cenas de exteriores que aparecem nos filmes do autor de “Os Pássaros” que tivessem sido filmadas na Califórnia, mesmo que o enredo situasse a acção noutro local ou noutro país, como era o caso de “Rebecca”, de que já aqui vos falei. E o objectivo do livro era colocar, a par, um fotograma do filme com uma fotografia do local onde a cena tivesse sido filmada, tal como está nos dias de hoje. Levaram esse propósito até às últimas consequências: se as cenas se passassem em telhados, eles iam à procura dos telhados…; tratando-se de uma cena de interiores, mas com uma determinada vista que se apercebia ao fundo, de uma janela, eles iam à procura dessa vista…; e por aí fora…
É claro que comprei logo o livro e é também óbvio que ele me foi de grande utilidade na minha pesquisa, fazendo-me ganhar tempo e dando-me certezas absolutas em aspectos onde, até então, só tinha dúvidas. A brincadeira que agora vos proponho é essa: passar aqui as minhas fotografias dos lugares de “Vertigo” que seleccionei, e comentá-las. Espero que se lembrem razoavelmente bem do enredo do filme, porque não lhes irei contar a história toda… Mas, como “pontapé de saída”, sempre vos recordarei que Scottie Fergunson (James Stewart) era um detective da polícia de San Francisco que, juntamente com outro colega, perseguia um ladrão pelos telhados de um edifício da cidade quando, ao dar um salto entre telhados, escorregou e ficou agarrado a um parapeito. O colega deitou-lhe uma mão para o ajudar mas Scottie sofria de vertigens e descontrolou-se.
Acabou por sair ileso da situação, mas pior sorte teve o colega que se despenhou no vazio. Estava Scottie a preparar-se para entrar em pré-reforma quando um antigo colega da Universidade, Gavin Elster, foi ter com ele e lhe pediu ajuda num trabalho. A sua mulher, Madeleine (Kim Novak) estava com comportamentos estranhos e ele queria que Scottie a seguisse. Scottie começou por recusar, mas Gavin assegurou-lhe que não se tratava de nenhum problema passional… Era coisa mais grave que lhe fazia temer pela própria vida da mulher. Combinaram, então, que se encontrariam num restaurante para que Scottie visse a mulher, e depois logo decidiria se aceitaria o trabalho, ou não, … E é claro que Scottie, depois de ver a Madeleine/Kim Novak, aceitou…!

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Estas coisas valem o que têm de valer ou o que cada um quer que valham.

Para uns muito, para outros assim assado, para outros nada.

Soube-se agora que Vertigo, de Alfred Hitchcock, foi eleito o melhor filme de todos os tempos pela revista Sight and Sound, publicação do British Film Institute, deixando para trás Citizen Kane de Orson Welles, que estava há 50 anos no top.

A revista, que de dez em dez anos, convida um painel de jurados especializados na área para nomear os melhores filmes de sempre, publicou nesta quarta-feira os novos resultados. Desta vez, ao contrário das últimas cinco décadas, os 846 distribuidores, críticos e académicos votaram na sua maioria no filme de Hitchcock.

Aos poucos, Vertigo, interpretado por James Stewart e Kim Novak,tem vindo a ocupar o lugar que, muito injustamente, durante anos não lhe foi reconhecido.

Scottie (James Stewart, antigo inspector da polícia demitido por causa da sua tendência para as vertigens, é encarregado por um velho amigo de lhe vigiara a mulher, Madeeleine (Kim Novak, muito bela e cujo estranho comportamento leva a recear um suicídio. Ele vigia a mulher, segue-a, salva-a de um afogamento voluntário, apaixona-se por ela, mas não consegue, devido às vertigens, impedi-la de se precipitar do alto de um campanário.

Sentindo-se responsável pela sua morte, é acometido por uma depressão nervosa, depois retoma uma vida normal até ao dia em que encontra na rua a sósia de Madeleine. Não era a mulher, mas sim a amante do amigo de Scottie, e foi a mulher deste que foi lançada, depois de morta, do alto do campanário.

Os amantes diabólicos tinham montado esta maquinação para fazer desaparecer a importuna, contando tirara partido da doença de Scottie, que o impediria de subir Madeleine atá ao alto do campanário.

Quando, no fim, Scottie compreende que Judy era Madeleine, arrasta-a à força até ao campanário, supera a vertigem, vê a jovem aterrorizada cair no vazio com ao abalo e vai-se embora. Se não feliz, pelo menos liberto.

Esta é a sinopse feita por François Truffaut para o livro que reine as muitas conversas que manteve com Alfred Hitchcock. (1).

Este filme de Hitchcock provoca sempre acaloradas discussões. Porque cada espectador que o vê, interpreta-o à sua maneira, consoante sentimentos secretos do seu gosto e, nunca se chega a um consenso, o que apenas, para além resto, serve para valorizar o filme.

Curiosamente, nas citadas conversas de Truffaut com Hitchcock, Truffaut nunca revela um grande entusiasmo pelo filme, os seus favoritos são Janela Indiscreta, em que o acompanho, e Difamação.

O próprio Hitchcock considera que o filme não foi um êxito nem um fracasso, deu para cobrir as despesas, o que na visão de Hitchcock é um fracasso.

Por fim, e para que se veja o quão discutível são estas listas dos melhores-seja-do-que fôr, são estes, para quem votou no inquérito da Sight and Sound os dez melhores filmes de sempre:

1. Vertigo – A Mulher que Viveu Duas Vezes (Hitchcock, 1958)

2. Citizen Kane - O Mundo a seus Pés (Welles, 1941)

3. Viagem a Tóquio (Ozu, 1953)

4. A Regra do Jogo (Renoir, 1939)

5. Aurora (Murnau, 1927)

6. 2001- Odisseia no Espaço (Kubrick, 1968)

7. A Desaparecida (Ford, 1956)

8. O Homem da Câmara de Filmar (Dziga Vertov, 1929)

9. A Paixão de Joana d'Arc (Dreyer, 1927)

10. (Fellini, 1963)


(1)   Hitchcock Diálogo com Truffaut, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 1967.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Não sabia os nomes de todos  pássaros mas gostava de  lhes olhar o voo e ouvir o canto.
Pelo menos aqui na cidade, é cada vez mais difícil ver e ouvir os pássaros.
Esta Primavera voltei a não ver andorinhas.
Os pássaros passavam do sul para o norte e vice-versa.
As estações do ano estavam definidas no tempo.
Dizem-me que as diferenças climatéricas são uma das causas das mudanças que se verificam.
Dessas coisas, e outras, falava esse estranho e belo filme de Alfred Hitchcock a que lhe chamou “Os Pássaros”.
Mas há dias li no “Público” uma frase de Roger Tory Peterson, ornitólogo norte-americano:
“As aves são indicadoras do estado do ambiente. Se estiverem em dificuldades, então saberemos que também nós em breve o estaremos.”