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terça-feira, 4 de agosto de 2026

RETRATOS


«Há pessoas que gostam de livros. Há pessoas que vendem livros. Conheço uma única pessoa que, por amor deles, os vende, os edita, os coleciona, os lê e, coisa ainda mais incomum, não sendo rico os oferece àqueles que considera partilharem da sua paixão: chama-se José Ribeiro, José Antunes Ribeiro e tem a inocência generosa de um menino por baixo dos caracóis grisalhos, do sorriso largo, dos óculos quase tão transparentes como os olhos, do dedinho minucioso a inventariar lombadas. Fez a Assírio & Alvim, fez a Ulmeiro e tirando os momentos em que surge por acaso à superfície da terra, alegre de uma timidez enternecida, habita uma cavezinha de Benfica, três ou quatro compartimentos pequenos semelhantes a corredores, a copas, a casulos, a nichozitos de abelha onde o seu grande corpo se move numa agilidade insuspeitada entre páginas e páginas e páginas impressas, mostrando, procurando dando

- Tens isto?

- Conheces?

- Já leste?

no orgulho humilde, fraternal, de que a sua amizade é feita. Se não fosse o José Ribeiro detestava a Avenida do Uruguai.»

António Lobo Antunes em Livro de Crónicas, 1º volume, «Homenagem a José Ribeiro», página 357.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

RETRATOS


«Nunca me engano e raramente tenho dúvidas»

Cavaco Silva

Legenda: fotografia de Daniel Blaufuks

terça-feira, 21 de julho de 2026

RETRATOS


«O meu António é o génio que os grandes homens de bem têm»

Foi o que disse a um amigo, a mãe de António Ramos Rosa.

domingo, 14 de junho de 2026

RETRATOS


 Texto de Catarina Carvalho, revista Única do Expresso, 18 de Abril de 2003.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

RETRATOS


 Relvas é um subproduto de telenovela.

Clara Pinto Correia, Expresso s/d

quarta-feira, 13 de maio de 2026

RETRATOS


Tiveste jeito, como qualquer de nós,
e foste campeão, como qualquer de nós.

Que é a poesia mais que o boxe, não me dizes?
Também na poesia não se janta nada,
mas nem por isso somos infelizes.

Campeões com jeito
é nossa vocação, nosso trejeito.

Esperam de 1 a 10 que a gente, oxalá, não se levante
– e a gente levanta-se, pois pudera, sempre.

Mas do miudame levámos cada soco!
Achas que foi pouco?

Belarmino:
quando ao tapete nos levar
a mofina,
tu ficarás sem murro,
eu ficarei sem rima,
pugilista e poeta, campeões com jeito
e amadores da má vida.

 Alexandre O’ Neill em Feira Cabisbaixa

terça-feira, 28 de abril de 2026

RETRATOS


«Luiz Pacheco envia-me um artigo que publicou em O Inimigo de 29 de Abril sobre o primeiro volume des­tes Cadernos. Melhor do que outros encartados críticos e observadores de olho de falcão, mostra ter compreen­dido porquê e para quem ando eu a escrever estas sin­ceridades. Ao postal e aos livros que também enviou, teve a delicadeza de juntar uma colecção de reproduções do Retábulo da Igreja de Jesus, de Setúbal. Só quem não conheça o Pacheco o julgará incapaz de atenções assim. Relendo O Teodolito, repassando os Textos Sadinos (o título é pouco feliz, o que ali está não tem nada que ver com o Sado), pensei: «Por que bulas infernais não está este homem traduzido em Espanha e outras partes?» Na verdade, andam aí uns quantos espertos a fingir de li­teratos marginais e de escritores malditos que nem che­gam aos calcanhares do Pacheco, e prosperam, e são aplaudidos - enquanto uma das mais fortes expressões que conheço de uma vida e uma obra ao lado perma­nece desconhecida fora das fronteiras.»

José Saramago em Cadernos de Lanzarote, 2º volume

«Talvez seja o maior prosador da língua portuguesa, talvez seja o mais corrosivo, aquele que maior número de inimigos tem, contudo aqueles que o atacam talvez porque por ele foram mordiscados, não são certamente os amadores transformados na coisa amada. Ser mordido  por Luís Pacheco é ser vacinado contra o grande mal da nossa literatura, a mediocridade a escrita piegas, a escrita a metro para os prémios e outros afins.

Libertino, maldito, marginal, tudo do pior para uns e do melhor para outros, mas sobretudo um Anjo sobrevoando galáxias, rindo muito sendo muito feliz.»

João Carlos Raposos Nunes, contra capa de Textos Sadinos

«Eu não sou um marginal, porra. Sou um senhor.»

Luiz Pacheco numa entrevista a Pedro Castro em A Capital, Julho de 2005   

sábado, 25 de abril de 2026

RETRATOS


«A minha ria é a do Douro do vinho e também a dos muitos cursos de água do Alvão, serra que avisto desde casa e em cujos lameiros verdejantes esvoaçam borboletas de todas as cores, como a muito ameaçada borboleta-azul-das-turfeiras. No último domingo, segui-lhes o rasto, desfrutando da sua beleza efémera e dos mistérios de outras espécies que habitam o mesmo espaço, como a minúscula orvalhinha-redonda (Drosera rotundifolia L.), uma plantinha carnívora com lindas folhas em roseta que segregam uma substância viscosa para capturar insectos. Mesmo ao lado, a aldeia de Lamas de Olo seguia na sua pacatez bucólica, já sem casas de colmo. É pena. Deviam ter preservado, bem à vista, pelo menos uma ou duas como testemunho histórico, para se perceber melhor a paisagem da miséria daquele outro tempo.

A ria de David Lopes Ramos, saudoso colega e amigo, era a de Aveiro e na sua criação os barcos coloridos ainda não transportavam turistas, só moliço para adubar as terras de areia. Era a mesma exótica pobreza de Lamas de Olo e do resto do país, sobretudo do interior, vivida com medo e sem esperança. Num caso como no outro, emigrar era o grande desígnio.

No dia 24 de Abril de 1974, tal como Vasco Lourenço e Melo Antunes, duas figuras centrais do golpe e da posterior democratização do país, David Lopes Ramos estava em S. Miguel, Açores, a cumprir o serviço militar, como aspirante a oficial miliciano. Era ajudante de Vasco Lourenço e, de algum modo, também lhe somos credores de podermos viver hoje em liberdade, sem medo de regedores, de bufos da PIDE e da própria; e até de podermos dizer mal de quem nos devolveu a dignidade e o sonho, como faz frequentemente o falso cristão e proto fascista André Ventura, um filho ingrato da democracia.

Mal recebeu de Melo Antunes o célebre telegrama enviado por Otelo — “Tia Aurora segue Estados Unidos da América 25, 3 da manhã. Um abraço primo António.” —, Vasco Lourenço chamou alguns colaboradores, entre os quais David Lopes Ramos, a quem, depois do jantar, perguntou: “Ó Ramos, você sabe rezar?”. “Porquê? Porque me pergunta isso?”, respondeu-lhe David. “Porque, se soubesse, mandava-o rezar!”, acrescentou o capitão. “Não me diga! Não me diga que é hoje!”, exultou David, a tremer. “Sim, sim, é esta noite. Vamos embora preparar tudo…”, confirmou-lhe Vasco Lourenço. Em memória de David, o aspirante Ramos da Revolução de Abril

A partir das 3 da manhã, David Lopes Ramos foi para o quartel e, contou Vasco Lourenço, “ficou agarrado à rádio, a ouvir tudo o que era possível e a fazer-me relatórios da BBC, das rádios portuguesas, etc.”. Nessa noite, o aspirante Ramos teve uma outra tarefa: acordar Melo Antunes, que fora dormir para o casarão da sogra. “Eu fartei-me de telefonar toda a noite, e nada. A certa altura, disse ao David: ‘Vá lá a ver se o consegue acordar e se o traz’. Bem, atirou-lhe pedras contra a janela, acordou a vizinhança toda, mas o Melo Antunes só me apareceu pelas sete ou oito da manhã, finalmente acordado pelo telefone, que tocou toda a santa noite!”, recordou Vasco Lourenço.

Todos sabemos o que se passou em Lisboa e o que veio a seguir. Por intervenção de Melo Antunes e Vasco Lourenço, David Lopes Ramos viria a integrar o Movimento das Forças Armadas, tendo sido o adido de imprensa de Vasco Gonçalves nos quatro governos provisórios que este general liderou, entre Julho de 1974 e Setembro de 1975. Nesse tempo, era a David que todos os jornalistas recorriam e “por quem tinham uma grande consideração e respeito”, como recordou ao PÚBLICO o jornalista António Borga.

Após a queda do V Governo, David Lopes Ramos ingressou no Diário de Notícias (DN). Por pouco tempo: ele e outros jornalistas foram afastados logo a seguir ao 25 de Novembro de 1975. Saiu do DN, mas nunca mais abandonou o jornalismo. Esteve ligado à fundação do jornal Diário e viria, mais tarde, a integrar a equipa inicial do PÚBLICO, primeiro como subeditor de secção Cultura, depois como editor da Sociedade e finalmente como crítico de gastronomia e vinhos, primeiro na revista de domingo e a seguir no suplemento Fugas, onde se consagrou como um dos mais respeitados e reputados críticos de gastronomia e de vinhos do país.

David Lopes Ramos morreu no dia 29 de Abril de 2011 e já não viveu para assistir à tentativa de reescrita da História por parte da direita extremista, e não só. Imagino o que teria dito e pensado se tivesse assistido ao debate televisivo entre Pacheco Pereira e o líder do Chega e à tentativa deste de colocar no mesmo patamar os 48 anos da ditadura com os excessos e desvios dos 19 meses que separaram o 25 de Abril de 1974 do 25 de Novembro de 1975 — e até dos anos seguintes. Excessos e desvios próprios de qualquer revolução e que a consolidação do processo democrático foi corrigindo. Com uma irónica excepção: os únicos crimes violentos, com mortes, que ficaram sem castigo até hoje, é bom lembrá-lo, foram cometidos por grupos ou movimento de direita, como o MDLP, a que pertencia um dos ideólogos do Chega, Pacheco Amorim.

André Ventura também deve colocar David Lopes Ramos no mesmo saco dos “criminosos” da Revolução de Abril. Mas o líder do Chega teria de nascer três vezes ou mais para poder equiparar-se-lhe em honestidade, correcção e bondade. Mais do que um grandíssimo jornalista e crítico gastronómico, David era um homem intrinsecamente bom. Tê-lo conhecido e ter sido seu amigo foi uma das grandes dádivas que o jornalismo me deu.

A seu pedido, David Lopes Ramos foi cremado e parte das suas cinzas foram depositadas no cemitério de Pardilhó, Estarreja, a sua terra natal, e onde na próximo sexta, dia 1 de Maio, alguns amigos e a família irão fazer uma romagem. “O meu irmão faz-me muita falta”, suspira Arménio, o seu único irmão, 70 anos, cara chapada de David no que este tinha de mais virtuoso. A outra parte das cinzas foi espalhada na sua adorada ria de Aveiro, a que sempre voltava, para recordar os seus mortos e partilhar com os vivos o prazer simples de uma caldeirada de enguias, um peixe grelhado acabado pescar pelos artesãos da arte Xávega ou um galo caseiro assado no forno.

Um brinde à sua memória! E viva o 25 de Abril!»

Pedro Garcias no Público

sexta-feira, 24 de abril de 2026

RETRATOS


«Permito-me reproduzir aqui (plagiando-me a mim próprio) o prefácio que tive o gosto e a honra de escrever para um recente livro de poemas de José Luís Tinoco, editado pela Câmara Municipal de Leiria.

Para além das belíssimas letras de canções que compôs, José Luís Tinoco trazia ainda dentro de si um exigente e poderoso poeta, mais noturno talvez do que o resto da sua obra, mas mais perto também da autenticidade de quem considera, de olhos enxutos, o balanço de uma vida.

A poesia de José Luís Tinoco, de firme apuro formal e sábio desenvolvimento, isenta de quaisquer fragilidades ou facilidades, apresenta-nos um mundo distópico e carregado do seu próprio vazio, um mundo cinzento onde perseguimos em vão as brasas cintilantes das memórias. Elas apagam-se, as brasas, tão logo as alcançamos, mas conseguimos entrever, por detrás da cinza, o intenso mundo perdido para que nos chama esta poesia.

E são muitas as memórias que se deixam entrever. Mesmo no meio da mais cinzenta paisagem, é impossível perder-se o apelo da vida. Porque escrever é triunfar do vazio e afirmar as cores que resistem para além do cinzento e da perda.

"E assim nos promete o poeta:

amanhã vou encontrar-te entre as raízes

e o que sobrar da respiração da noite

junto às nascentes

onde bebem os sobreviventes do sol e dos temporais

descobrir-te nesse vago rumor de vidros e de estrelas

que se move sobre as pedras

e só agora começo a entender

nítido azul que há-de cobrir o resto dos teus dias”

E a poesia torna-se nessa intensa e concentrada procura do azul, que nos faz continuar a poder acreditar na vida.

Assim, a poesia de José Luís Tinoco só a uma primeira e menos atenta leitura nos parecerá cinzenta e disfórica. Toda a sua obra poética, ainda que filha da melancolia e da bílis negra que, segundo Aristóteles, carateriza o génio, constitui um forte apelo à vida, que faz com o seu canto regressar as cores à paisagem mais mortiça e seca que o poeta possa evocar. E esta alternância da melancolia da perda com a maravilha da criação é o motor que alimenta a poesia e é por isso que podemos aqui dizer, com o poeta Manuel Gusmão:

“Contra todas as evidências em contrário, a alegria.”

É que, se não há vertigem para quem conhece os abismos, como nos ensina o nosso poeta, ele tem presente também a advertência de Nietzsche: “Quem ama o abismo precisa de ter asas.”

E não faltaram a José Luís Tinoco as asas da poesia, como ele bem sabe. Por isso este livro de amadurecida e escorreita poesia, em que vemos emergir uma nova e original voz poética, na sua plena capacidade, nos agarra de surpresa para não mais nos largar.

Nesta dolorosa despedida, são estas as palavras que deixo à memória do arquiteto, músico, poeta e grande homem da nossa cultura José Luís Tinoco.»

Luís Filipe Castro Mendes no Diário de Notícias

terça-feira, 21 de abril de 2026

RETRATOS


               O humor é uma coisa muito séria.

                Penso que é uma das maiores e mais antigas riquezas nacionais

                que devem .ser preservadas a todo o custo.

                                                    James Thurber

A coisa mais negligente, para não dizer a mais feia, que podemos fazer, é descobrirmos um tesouro e não badalarmos logo esta descoberta a amigos e conhecidos, para que dela também possam beneficiar. É tão criminoso como descobrir o chocolate e ficar calado. Não se faz! O que é bom é para repartir.

Dei com a Ana Cristina Leonardo, quando o meu filho João Luís me ofereceu o seu pícaro e fabuloso romance O CENTRO DO MUNDO, que desafia a imaginação do mais pintado. Depois, apareceram as suas crónicas no suplemento ´IPSILON, do PÚBLICO, de tal modo cintilantes de inteligência, verdadeira cultura e humor sonso, fininho e manhoso (os ingleses chamam-lhe humor “sly”, que talvez se possa também traduzir por sacaninha), que achei francamente ranhosa a periodicidade com que eram publicadas. Resmunguei com os meus botões: “Se o PÚBLICO desse conta do valor destas crónicas, publicava-as semanalmente.” Acontece que o PÚBLICO ou deu conta ou ouviu o meu resmungo enviado para o éter.

E passámos a ter, todas as semanas, à sexta feira, o prazer e o privilégio de ler as crónicas de Ana Cristina Leonardo, que são sérias, da maneira mais séria e competente que há de o ser: recheadas daquele humor que os lusíadas cultivam tão pouco, com excepção de gente (pouca) com o talento de um José Sesinando.

Dos humoristas tem-se dito muita coisa, mas o mais frequente – e tem um fundo de verdade – é dizer-se que não são, em geral, uma tribo feliz. O notável crítico e ensaísta literário britânico, Cyril Connolly, autor do muito conhecido ENEMIES OF PROMISE, punha a coisa nestes termos: ” Os humoristas não são homens felizes. Como Beachcomber e Saki e Thurber, eles ardem enquanto Roma toca violino.” 

Ser humorista é uma profissão de alto risco, sobretudo se exercida num milieu de gente com pouca vocação para o humor e que mais depressa afina do que ri. É precisa uma grande arte, para gozar fininho, todo o tempo, com o parceiro, e sair incólume desse exercício. Era isso mesmo que avisava George Bernard Shaw, quando dizia: “Mark Twain e eu estamos muito na mesma posição. Temos de pôr as coisas de tal maneira, que levem as pessoas que, normalmente, nos teriam enforcado, a acharem que estamos só a brincar.”

Ana Cristina Leonardo exercita-se, da maneira mais culta e atrevida, nesta arte de ensinar, divertindo-nos com o seu finíssimo senso de humor e pisando galhardamente a fronteira do risco. E quem não gosta de arriscar-se é melhor não se meter nestas andanças.

Se, como sugere Connolly, ela também pertence à tribo dos infelizes, não sei, porque não tenho o privilégio de a conhecer pessoalmente. Mas sempre direi que, quando leio o seu discurso recheado de ensinamentos e humor sacaninha, prefiro pensar que talvez ela desminta o aforismo do autor de ENEMIES OF PROMISE.

 

Eugénio Lisboa, Novembro de 2022

quarta-feira, 8 de abril de 2026

RETRATOS


Tinha 47 anos, quando morreu a 1 de Abril de 1996.

Por isso, a denominada morte de Mário Viegas, é uma redonda mentira.

Porque ele ainda anda por aí, a beber gin-tónico, a sair do «João Sebastião Bar», cigarro ao canto da boca, abraçado a um rapaz.

No meio de um gin, dizia poemas e palavras.

 Como estas:

« O Humor é a coisa mais séria do mundo.

Esta frase já toda agente conhece… mas tem muita graça! E a mais triste e solitária do Mundo, digo eu. É muito triste e angustiante fazer rir.»

Ou estas:

«Quem não aguenta o silêncio não aguenta a vida».

No tal dia da mentirosa morte de Mário Viegas, José Saramago estava em Lanzarote, e escreveu:

«Mário Viegas morreu. Era um cómico que levava dentro de si uma tragédia. Não me refiro à implacável doença que o matou, mas um sentimento dramático da existência que só os distraídos e superficiais não eram capazes de perceber, embora ele o deixasse subir à tona da expressão às vezes angustiada do olhar e ao ricto sempre sardónico e amargão da boca. Fazia rir, mas não ria. Pouca gente em Portugal tem valido tanto.» 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

RETRATOS


A Constituição de Abril faz hoje 50 anos.

Por tudo e por nada foram dias gloriosos.

Os dias da nossa Esperança.

Para sempre!


POEMA CONSTITUINTE

 

A Constituição constitui-se de homens e mulheres

cidadãos com a mesma

dignidade social

iguais perante a lei

 

A Constituição constitui-se de homens e mulheres

antes de se estruturar

em Títulos

Capítulos

Artigos

Alíneas

 

A Constituição constitui-se pela vontade popular

empenhada livremente

na transformação da sociedade portuguesa

numa sociedade sem classes

 

A Constituição constitui-se por dentro dos braços

e das cabeças

dos homens e das mulheres livres

que constroem o socialismo

dia a dia

antes de ele ser o Artigo 2.° da Constituição

pela via democrática

 

A Constituição constitui-se de avanços projectos e lutas

no coração

que não admite recuos

nem abdica

do futuro

 

A Constituição constitui-se da força organizativa

dos que acordam

todos os dias

com um novo intento de vive

porque possuem em si próprios

a soberania

una

indivisível

 

A Constituição constitui-se dos direitos dos trabalhadores

não distinguindo

idade raça religião

ideologia

com direito ao trabalho

e à retribuição

sem aviltamento

sem exploração

com direito

à existência condigna

à realização pessoal

à higiene e à saúde

à organização

à segurança

 à educação e à cultura

ao repouso

às comissões suas

de trabalhadores

defendendo esses seus interesses

e outros

 

A Constituição constitui-se de consciências livres

antes de se cristalizar

nas palavras e nas frases

num documento lei

 

A Constituição constitui-se da liberdade de escrever

essas palavras

da obrigatoriedade de cumpri-las

porque por longos anos circularam

interditas

no sangue livre

do povo soberano

 

Constituição constitui-se das palavras

com que se escrevem os poemas

(como este)

que todos têm direito

de produzir

exprimir

divulgar

já que pela palavra

são a criação do pensamento

pela imagem

são a materialização da comunicação

por todos os meios

são a circulação da informação

a que todos os homens e mulheres

têm direito

sem impedimentos

nem discriminações

 

E porque

todos esses direitos

não podem ser impedidos

por qualquer tipo

de censura

 

a voz soberana do povo

digno e verdadeiro

far-se-á ouvir

defendendo

e

constituindo a Constituição!

 

Poema escrito por E. M. de Melo e Castro, em 1979, por ocasião do 3º aniversário da Constituição da República Portuguesa.

Legenda: Deputados da Constituinte, no final da Sessão Solene dos 50 anos da Constituição realizada na Assembleia da República.

A fotografia é de Daniel Rocha e foi tirada do Público.

segunda-feira, 23 de março de 2026

RETRATOS


A JOÃO BÈNARD DA COSTA, NA SUA MORTE

 

Perdeu-se o timbre de uma voz:

quando alguém desaparece, é isso que me ocorre,

mesmo que o registo dessa voz tenha ficado em filmes

ou entrevistas gravadas, há uma modulação precisa,

uma articulação a que até chamamos música

que se desprende para sempre do universo!

 

Luís Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos

terça-feira, 17 de março de 2026

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Quando o antigo dono do British Bar passou a casa aos empregados, levou o relógio que mostrava as horas ao contrário.

As tentativas do Silva para ficar com o relógio, não resultaram.

Mas não descansou enquanto não pediu a um marinheiro dinamarquês que lhe trouxesse um relógio, que há-de aparecer em A Cidade Branca do Alain Tanner.

A actriz Teresa Madruga, é o escritor Eduardo Lourenço que recorda, diz ao actor Bruno Ganz “que andar ao contrário é uma forma como outras de medir o tempo”.

E não é? O relógio do British Bar enganou-nos outra vez. E, como sempre, é ele que está certo. 

domingo, 15 de março de 2026

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«Agustina Bessa-Luís.

Era uma mulher fascinante. A primeira vez que fui ao Porto, ela estava à entrada de uma livraria qualquer e disse-me: “Venho dar-lhe as boas-vindas em nome do Porto.” O Porto era ela!

Tinha Imensas coisas em comum... Quer dizer, ela tinha uma alegria de viver que eu não tinha: um imenso sentido de humor. Ela dizia: “Sou tão feliz com o meu marido que nos deviam chamar Casal Garcia.” Tinha muita graça. O Eduardo Lourenço, de quem sou muito amigo, dizia que lhe chamava rainha Vitória. Não era uma mulher fácil. Quando não gostava podia ser arrasadora. Para ela, havia muito pouca gente com talento. Nem sei como é que ela escrevia. Não fazia emendas. Deitava as folhas para o chão, que o marido, que era um santo, apanhava. Ela tinha qualquer coisa, muito bebida no Camilo, e o Camilo andou a beber nas fraldas do Filinto Elísio. Mas ela tem qualquer coisa que os outros não tinham.»

António Lobo Antunes

sexta-feira, 13 de março de 2026

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«Penso que não se poderá de forma alguma contar com o Dr. Gachet.

Para começar está mais doente do que eu, ao que me pareceu, ou então estaremos muito iguais.

Ora, quando um cego conduz outro cego, não será que ambos cairão no fosso?

Hoje voltei a ver o Dr. Gachet e vou pintar na sua casa na terça-feira de manhã, depois jantarei com ele e, então ele virá ver a minha pintura. Ele parece-me ser bastante sensato. Mas está também muito desmotivado no seu ofício de médico rural, tanto quanto eu na minha pintura.

Então, disse-lhe que de bom grado trocaria ofício por ofício.

Enfim, quero crer que acabarei por ser seu amigo.»

Van Gogh em Últimas Cartas

 

terça-feira, 10 de março de 2026

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«Há mais de quinze anos que sou testemunha de um labor apaixonante de Marie José Paz  tem um labor apaixonante e secreto. Marie José recolhe todo o género de pequenos objectos e coisas atiradas fora, papéis de diferentes cores e texturas, fotografias (às vezes tiradas por ela própria: um centímetro de asfalto, um charco e o seu arquipélago de bolhas, um papel enrugado como a Serra Madre), ilustrações de livros e revistas, recados e bilhetes de transporte, programas de teatro, fósforos, etiquetas, maços de tabaco vazios – os resíduos e os despojos que cada dia abandona à vaga do tempo. A espuma das horas…»

Octavio Paz

domingo, 8 de março de 2026

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 «A melhor definição de Saramago é de Juan Marsé: “Não é um escritor, é um pregador”.

 Não, eu não sou malcriado. Conheci-o numa viagem ao Brasil. Apareceu aí uma brasileira que andou com um poeta e levou ao Brasil uma série de escritores, o Zé, o Fernando Assis Pacheco, o Saramago, o Egito Gonçalves, o Alexandre O’Neill, de quem fiquei amigo. Eu era o mais novo de todos. Eles estavam todos publicados no Brasil e eu não. No dia seguinte, aqueles velhos recebiam dez ou 15 cartas e eu zero. Nada. Com o Saramago nunca tive uma conversa. Nesse ano, era também o primeiro ano daquele grande prémio da Associação Portuguesa de Escritores, e que o Zé ganhou com “Balada da Praia dos Cães”, contra o “Memorial do Convento”, e o Saramago ficou numa fúria. O Saramago achava-se mesmo um grande escritor. Eu sempre achei aquilo uma merda, ainda não o conhecia. Sempre teve mulheres de direita enquanto se afirmava comunista. Nunca correu riscos. Nunca foi preso. Nunca tive uma conversa com ele sobre livros.»

António Lobo Antunes

sábado, 7 de março de 2026

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«A atriz norte-americana Susan Sarandon está em Barcelona para receber o Prémio Internacional Goya 2026. Na conferência de imprensa que antecedeu a cerimónia, criticou as políticas anti-imigração do presidente dos EUA, Donald Trump, ao mesmo tempo que elogiou a posição de Espanha em relação à Palestina.

Sobre o primeiro-ministro espanhol disse:

«Bonito, alto... Bem, não sei muito sobre ele, exceto que está do lado certo da história.

Venho de um país onde existe censura e repressão; por isso, ver a posição de Espanha é tão significativo para o povo americano. Faz-nos sentir menos sozinhos.

O silêncio é muito perigoso. Devemos poder dizer o que pensamos sem sermos ameaçados de nunca mais trabalhar.»

Dos jornais

sexta-feira, 6 de março de 2026

RETRATOS


Não relia os livros. Não gostava de falar sobre eles. Não sabia como escolhia os títulos das suas obras. Não se achava vaidoso. Não gostava de crónicas. Não lia notícias. Não quis ser nada mais do que escritor, apesar de ter sido também psiquiatra. Não se interessava pelas elites. Não foi consensual. Não chegou a receber o Nobel da Literatura. Não fugiu aos próprios traumas. Foi pelo “não” que tantas e tantas vezes António Lobo Antunes se definiu em entrevistas ao longo da vida, porque nunca estava satisfeito com nada.

Sónia Sapage no editorial do Público de hoje.