sábado, 25 de abril de 2026

RETRATOS


«A minha ria é a do Douro do vinho e também a dos muitos cursos de água do Alvão, serra que avisto desde casa e em cujos lameiros verdejantes esvoaçam borboletas de todas as cores, como a muito ameaçada borboleta-azul-das-turfeiras. No último domingo, segui-lhes o rasto, desfrutando da sua beleza efémera e dos mistérios de outras espécies que habitam o mesmo espaço, como a minúscula orvalhinha-redonda (Drosera rotundifolia L.), uma plantinha carnívora com lindas folhas em roseta que segregam uma substância viscosa para capturar insectos. Mesmo ao lado, a aldeia de Lamas de Olo seguia na sua pacatez bucólica, já sem casas de colmo. É pena. Deviam ter preservado, bem à vista, pelo menos uma ou duas como testemunho histórico, para se perceber melhor a paisagem da miséria daquele outro tempo.

A ria de David Lopes Ramos, saudoso colega e amigo, era a de Aveiro e na sua criação os barcos coloridos ainda não transportavam turistas, só moliço para adubar as terras de areia. Era a mesma exótica pobreza de Lamas de Olo e do resto do país, sobretudo do interior, vivida com medo e sem esperança. Num caso como no outro, emigrar era o grande desígnio.

No dia 24 de Abril de 1974, tal como Vasco Lourenço e Melo Antunes, duas figuras centrais do golpe e da posterior democratização do país, David Lopes Ramos estava em S. Miguel, Açores, a cumprir o serviço militar, como aspirante a oficial miliciano. Era ajudante de Vasco Lourenço e, de algum modo, também lhe somos credores de podermos viver hoje em liberdade, sem medo de regedores, de bufos da PIDE e da própria; e até de podermos dizer mal de quem nos devolveu a dignidade e o sonho, como faz frequentemente o falso cristão e proto fascista André Ventura, um filho ingrato da democracia.

Mal recebeu de Melo Antunes o célebre telegrama enviado por Otelo — “Tia Aurora segue Estados Unidos da América 25, 3 da manhã. Um abraço primo António.” —, Vasco Lourenço chamou alguns colaboradores, entre os quais David Lopes Ramos, a quem, depois do jantar, perguntou: “Ó Ramos, você sabe rezar?”. “Porquê? Porque me pergunta isso?”, respondeu-lhe David. “Porque, se soubesse, mandava-o rezar!”, acrescentou o capitão. “Não me diga! Não me diga que é hoje!”, exultou David, a tremer. “Sim, sim, é esta noite. Vamos embora preparar tudo…”, confirmou-lhe Vasco Lourenço. Em memória de David, o aspirante Ramos da Revolução de Abril

A partir das 3 da manhã, David Lopes Ramos foi para o quartel e, contou Vasco Lourenço, “ficou agarrado à rádio, a ouvir tudo o que era possível e a fazer-me relatórios da BBC, das rádios portuguesas, etc.”. Nessa noite, o aspirante Ramos teve uma outra tarefa: acordar Melo Antunes, que fora dormir para o casarão da sogra. “Eu fartei-me de telefonar toda a noite, e nada. A certa altura, disse ao David: ‘Vá lá a ver se o consegue acordar e se o traz’. Bem, atirou-lhe pedras contra a janela, acordou a vizinhança toda, mas o Melo Antunes só me apareceu pelas sete ou oito da manhã, finalmente acordado pelo telefone, que tocou toda a santa noite!”, recordou Vasco Lourenço.

Todos sabemos o que se passou em Lisboa e o que veio a seguir. Por intervenção de Melo Antunes e Vasco Lourenço, David Lopes Ramos viria a integrar o Movimento das Forças Armadas, tendo sido o adido de imprensa de Vasco Gonçalves nos quatro governos provisórios que este general liderou, entre Julho de 1974 e Setembro de 1975. Nesse tempo, era a David que todos os jornalistas recorriam e “por quem tinham uma grande consideração e respeito”, como recordou ao PÚBLICO o jornalista António Borga.

Após a queda do V Governo, David Lopes Ramos ingressou no Diário de Notícias (DN). Por pouco tempo: ele e outros jornalistas foram afastados logo a seguir ao 25 de Novembro de 1975. Saiu do DN, mas nunca mais abandonou o jornalismo. Esteve ligado à fundação do jornal Diário e viria, mais tarde, a integrar a equipa inicial do PÚBLICO, primeiro como subeditor de secção Cultura, depois como editor da Sociedade e finalmente como crítico de gastronomia e vinhos, primeiro na revista de domingo e a seguir no suplemento Fugas, onde se consagrou como um dos mais respeitados e reputados críticos de gastronomia e de vinhos do país.

David Lopes Ramos morreu no dia 29 de Abril de 2011 e já não viveu para assistir à tentativa de reescrita da História por parte da direita extremista, e não só. Imagino o que teria dito e pensado se tivesse assistido ao debate televisivo entre Pacheco Pereira e o líder do Chega e à tentativa deste de colocar no mesmo patamar os 48 anos da ditadura com os excessos e desvios dos 19 meses que separaram o 25 de Abril de 1974 do 25 de Novembro de 1975 — e até dos anos seguintes. Excessos e desvios próprios de qualquer revolução e que a consolidação do processo democrático foi corrigindo. Com uma irónica excepção: os únicos crimes violentos, com mortes, que ficaram sem castigo até hoje, é bom lembrá-lo, foram cometidos por grupos ou movimento de direita, como o MDLP, a que pertencia um dos ideólogos do Chega, Pacheco Amorim.

André Ventura também deve colocar David Lopes Ramos no mesmo saco dos “criminosos” da Revolução de Abril. Mas o líder do Chega teria de nascer três vezes ou mais para poder equiparar-se-lhe em honestidade, correcção e bondade. Mais do que um grandíssimo jornalista e crítico gastronómico, David era um homem intrinsecamente bom. Tê-lo conhecido e ter sido seu amigo foi uma das grandes dádivas que o jornalismo me deu.

A seu pedido, David Lopes Ramos foi cremado e parte das suas cinzas foram depositadas no cemitério de Pardilhó, Estarreja, a sua terra natal, e onde na próximo sexta, dia 1 de Maio, alguns amigos e a família irão fazer uma romagem. “O meu irmão faz-me muita falta”, suspira Arménio, o seu único irmão, 70 anos, cara chapada de David no que este tinha de mais virtuoso. A outra parte das cinzas foi espalhada na sua adorada ria de Aveiro, a que sempre voltava, para recordar os seus mortos e partilhar com os vivos o prazer simples de uma caldeirada de enguias, um peixe grelhado acabado pescar pelos artesãos da arte Xávega ou um galo caseiro assado no forno.

Um brinde à sua memória! E viva o 25 de Abril!»

Pedro Garcias no Público

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