Filha de peixes sabe nadar.
É
o que acontece com Cristina Carvalho, filha de Natália Nunes e António Gedeão.
Ultimamente
tem-se dedicado a escrever sobre gente de que muito gosta: António Gedeão, Selma
Lagerlöf, Strindberg, Ingmar Bergman, W.B.Yeats e Paula Rego e agora MargueriteYourcenar.
Conhece-lhes
a obra, visita os locais onde nasceram, viveram as suas vidas, percorre as
dúvidas e angústias, bem como a percepção desse mistério insondável que é o
ímpeto de escrever como fuga à morte.
Correndo
atrás de Marguerite Yourcenar, Cristina Carvalho elucida-nos: «Eu não devoro
livros. Saboreio-os, apalpo-os, sublinho-os, dobro as pontas das páginas que me
interessam e quando começo a apaixonar-me por essa leitura, leio-os ainda mais
devagar. Quando acabo, muitas vezes volto ao princípio e isto pela minha
eternidade fora, que é um assunto desinteressante e incompreensível: a
eternidade de cada um de nós».
Liberdade e Paixão começa assim:
«Faz com que escreva ou não escreva. Pretendo invocar um qualquer tom de cinzas ou a ruga permanente desse olhar. Ou ainda sobre a aspereza ou a maciez, a rugosidade da pele das mãos. Faz com que escreva e descreva o lenço a cobrir o cabelo, a cabeça. A proteger-te de algum frio que possa existir. Ou sobre as roupas que usas, o comprimento da saia ou o desbotado da gabardine, a ausência de quase tudo. Também posso escrever sobre os passeios que vais dando ao longo do lago. Conheço os passos que dás sobre as pedrinhas e sobre as folhas caídas nos caminhos».
Marguerite
Yourcenar sabe, e di-lo claramente, que os seus livros não são de leitura
fácil, muito menos de compreensão fácil, tão pouco não é uma pessoa acessível.
«Não lhe interessam os
aplausos literários. Esquiva-se. Foge. Não deseja milhares de leitores ávidos,
ignorantes.»
«Aí está! Morrerei cheia de conhecimento antigo, daquele imutável, que os meus antepassados gregos, romanos, japoneses, orientais me ofereceram desde muito jovem. E também me ensinaram que não valho quase nada.»
Das
dificuldades da escrita de Yourcenar, dos seus medos, das suas angústias,
Cristina ajuda-nos a perceber algo mais.
Yourcenar
conta que herdou alguma fortuna: «Derreti-a em poucos anos com passeios
extravagantes, com mulheres, com homens e muita bebida. E brinquei e amei muito
nas noites da Europa: não conheci os dias, pois a luz servia-me para dormir.
Muitas vezes me perguntei quem era eu, afinal. Mas eu sabia que essa resposta
teria o seu tempo para aparecer. Sabia perfeitamente»
Há
gentes assim, repletas de loucas magias.
Lembro
o futebolista George Best: «Na minha vida gastei montanhas de dinheiro em
mulheres, vinhos e carros rápidos. O resto desperdicei…».
Um
dia, Best sintetizou exemplarmente a sua vida:
«Na América vivia numa
casa perto da praia. No caminho para lá, havia um bar, por isso nunca chegava à
água.»
Tempo
de fechar este O Outro Lado das Capas e voltar a Yourcenar:
«A partir de certa
idade comecei a ler profundamente e, sim, amei os livros, amei-os
apaixonadamente. E toda a vida viajei. E toda a vida li. E toda a vida escrevi.»
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