quinta-feira, 30 de abril de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Filha de peixes sabe nadar.

É o que acontece com Cristina Carvalho, filha de Natália Nunes e António Gedeão.

Ultimamente tem-se dedicado a escrever sobre gente de que muito gosta: António Gedeão, Selma Lagerlöf, Strindberg, Ingmar Bergman, W.B.Yeats e Paula Rego e agora MargueriteYourcenar.

Conhece-lhes a obra, visita os locais onde nasceram, viveram as suas vidas, percorre as dúvidas e angústias, bem como a percepção desse mistério insondável que é o ímpeto de escrever como fuga à morte.

Correndo atrás de Marguerite Yourcenar, Cristina Carvalho elucida-nos: «Eu não devoro livros. Saboreio-os, apalpo-os, sublinho-os, dobro as pontas das páginas que me interessam e quando começo a apaixonar-me por essa leitura, leio-os ainda mais devagar. Quando acabo, muitas vezes volto ao princípio e isto pela minha eternidade fora, que é um assunto desinteressante e incompreensível: a eternidade de cada um de nós».

Liberdade e Paixão começa assim:

«Faz com que escreva ou não escreva. Pretendo invocar um qualquer tom de cinzas ou a ruga permanente desse olhar. Ou ainda sobre a aspereza ou a maciez, a rugosidade da pele das mãos. Faz com que escreva e descreva o lenço a cobrir o cabelo, a cabeça. A proteger-te de algum frio que possa existir. Ou sobre as roupas que usas, o comprimento da saia ou o desbotado da gabardine, a ausência de quase tudo. Também posso escrever sobre os passeios que vais dando ao longo do lago. Conheço os passos que dás sobre as pedrinhas e sobre as folhas caídas nos caminhos».

Marguerite Yourcenar sabe, e di-lo claramente, que os seus livros não são de leitura fácil, muito menos de compreensão fácil, tão pouco não é uma pessoa acessível.

«Não lhe interessam os aplausos literários. Esquiva-se. Foge. Não deseja milhares de leitores ávidos, ignorantes.»

«Aí está! Morrerei cheia de conhecimento antigo, daquele imutável, que os meus antepassados gregos, romanos, japoneses, orientais me ofereceram desde muito jovem. E também me ensinaram que não valho quase nada.»

Das dificuldades da escrita de Yourcenar, dos seus medos, das suas angústias, Cristina ajuda-nos a perceber algo mais.

Yourcenar conta que herdou alguma fortuna: «Derreti-a em poucos anos com passeios extravagantes, com mulheres, com homens e muita bebida. E brinquei e amei muito nas noites da Europa: não conheci os dias, pois a luz servia-me para dormir. Muitas vezes me perguntei quem era eu, afinal. Mas eu sabia que essa resposta teria o seu tempo para aparecer. Sabia perfeitamente»

Há gentes assim, repletas de loucas magias.

Lembro o futebolista George Best: «Na minha vida gastei montanhas de dinheiro em mulheres, vinhos e carros rápidos. O resto desperdicei…».

Um dia, Best sintetizou exemplarmente a sua vida:

«Na América vivia numa casa perto da praia. No caminho para lá, havia um bar, por isso nunca chegava à água.»

Tempo de fechar este O Outro Lado das Capas e voltar a Yourcenar:

«A partir de certa idade comecei a ler profundamente e, sim, amei os livros, amei-os apaixonadamente. E toda a vida viajei. E toda a vida li. E toda a vida escrevi.»

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