terça-feira, 28 de abril de 2026

HÍFEN DE CRISTAL


 «Depois de o primeiro-ministro israelita ter pedido desculpas publicamente e garantir que se tratava de um comportamento indigno para um militar de Israel, o soldado que, no Líbano, destruiu uma estátua de Jesus Cristo à marretada e o outro que fotografou o acontecimento, foram condenados a 30 dias de prisão e “excluídos de operações de combate”.

Segundo a  BBC, Benjamin Netanyahu mostrou-se “chocado e triste” pelo incidente, enquanto o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Gideon Saar, pediu desculpas a “todos os cristãos que se sentiram ofendidos”.

Com tantos milhares de crianças mortas em Gaza, no Líbano e no Irão, atingidas pelas bombas e balas de Israel, cujas forças armadas se arrogam o direito de atingir escolas, hospitais, ambulâncias, jornalistas, de matar e matar civis desarmados como se fossem alvos de prática de tiro, “a indignação e a tristeza” de Israel está reservada a uma estátua de Jesus Cristo?

Não é porque ao Governo mais extremista de Israel lhe importe muito os sentimentos dos cristãos – em 2023, Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional israelita, dizia que cuspir em cristãos era uma velha tradição judaica. O que importa ao Estado de Israel é não alienar o apoio do seu melhor amigo nas relações internacionais, a superpotência que lhe vende armas e lhe empresta a sua sombrinha política internacional para fazer o que quiser.

Num tempo de falta de memória e de passado reescrito ou esquecido, o Governo de Israel e os judeus que o apoiam estão sempre a cometer o pecado da arrogância de se olvidarem das lições da História. Porque se é longa a tradição judaico-cristã, base da civilização ocidental, como tanto dizem, os judeus esquecem-se que, quando é preciso um bode expiatório, o hífen se quebra como um cristal e os judeus terminam pendurados de uma árvore como Leo Frank, enforcado por uma turba muito americana que o foi buscar à cela.

Mesmo com a II Guerra Mundial e o nazismo, entre 1940 e 1946, várias sondagens mostravam que os judeus eram considerados a maior ameaça para os Estados Unidos, mais do que qualquer outra religião, raça, etnia, nacionalidade

António Rodrigues no Público de 24 de Abril de 2026

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