No 1º volume
dos Cadernos de Lanzarote, ano de 1993, Carmélia telefonou a Saramago, aos
gritos de 25 se Abril sempre!, mas o entusiasmo de Carmélia deixou-o «lamentavelmente
frio».
Neste Dia, estamos com o 2º volume dos Cadernos de Lanzarote, ano de 1994, 5 de Abril:
«Mal
refeito ainda da viagem de regresso, tive de decidir-me a responder, enfim, aos
inquéritos do Público e do Expresso, ambos sobre o vigésimo aniversário do 25
de Abril. A Vicente Jorge Silva, que convidou «vinte personalidades
representativas dos mais variados sectores e quadrantes da vida nacional» a
escolherem «os dez melhores e os dez piores acontecimentos, situações e
fenómenos registados» desde a revolução, respondi brevissimamente: que o pior
do 25 de Abril foi o 25 de Novembro; que o pior de ateio foi Saraiva de
Carvalho; que o pior de Vasco Gonçalves foi Vasco Lourenço; que o pior do
Primeiro de Maio foi o Dois de Maio; que o pior da Reforma Agrária foi António
Barreto; que o pior da Descolonização foi Agora Amanhem-se; que o pior das
Nacionalizações foi Salve-se Quem Puder; que o pior da Reforma do Ensino foi
Não Haver Ensino; que o pior da Liberdade de Expressão foi ser Liberdade Sem
Expressão; que o pior da Democracia (até agora) foi Cavaco Silva. E a Joaquim
Vieira, que me pedira 125 palavras sobre as circunstâncias em que recebi «a
notícia de que estava em curso o derrube do Estado Novo» e «as recordações mais
marcantes do período que se seguiu, até [mais de 1975», dei-lhe rigorosamente
as palavras pedidas, que assim rezam: «Nesse mês dormi algumas noites em casas
de amigos não marcados pelo regime. Vários camaradas meus haviam sido presos, a
minha vez podia não tardar. Passei uns dias em Madrid, mas, como a polícia não
se "manifestou", regressei a Lisboa. Vim a saber depois que a minha
prisão estava marcada para o dia 29... Numa reunião na Seara (ouviam-se ainda
tiros nas ruas) fui encarregado de escrever o editorial para o primeiro número
"livre" da revista.» E rematei: «Não esquecerei o Primeiro de Maio,
nem o 26 de Setembro, nem o 11 de Março, nem a Assembleia do MF A em Tancos,
nem os meses em que fui director-adjunto do Diário de Notícias. Não esquecerei
o Alentejo nem a Cintura Industrial. Não esquecerei o que então chamámos
Esperança.
Suspeito que não terão apreciado as respostas nem o tom em que foram dadas. O caso é que inquéritos destes me irritam pela sua inutilidade. Servem para encher papel.»

Sem comentários:
Enviar um comentário