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sexta-feira, 29 de outubro de 2021

POSTAIS SEM SELO


 Se eu voltar algum dia será pelo canto dos pássaros.

Eugenio Montejo

terça-feira, 26 de outubro de 2021

SE EU VOLTAR ALGUM DIA

Se eu voltar algum dia

será pelo canto dos pássaros.

Não pelas árvores que hão-de partir comigo

ou irão depois visitar-me no Outono,

não pelos rios que, por baixo da terra,

continuarão a falar-nos com suas vozes mais nítidas.

Se no fim regressar, corpóreo ou incorpóreo,

levitando em mim mesmo,

embora nada possa já ouvir na ausência,

sei que minha voz estará ao lado de seus coros,

e voltarei, se hei-de voltar, por eles;

o que foi vida em mim não deixará de celebrar-se,

e eu habitarei o mais inocente dos seus cantos.

 

Eugenio Montejo

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

ALFABETO DO MUNDO

Em vão me demoro a soletrar

o alfabeto do mundo.

Leio nas pedras um escuro soluço,

ecos afogados em torres e edifícios,

indago a terra com o tacto

cheia de rios, de pausagens e cores,

mas engano-me sempre ao copiá-los.

Preciso de escrever cingindo-me a um risco

sobre o livro do horizonte.

Desenhar o milagre desses dias

que flutuam envoltos na luz

e se desprendem em cantos de pássaros.

Quando na rua os homens que vagueiam

do seu rancor à sua fadiga, matutando,

se me revelam inocentes mais que nunca.

Quando o batoteiro, a adúltera, o malandro,

os mártires do ouro ou do amor

são só signos que nunca li bem,

que ainda não consigo anotar em meu caderno.

Quanto eu queria ao menos um instante

que esta página febril de poesia

gravasse em sua transparência cada letra:

o o do ladrão, o t do santo,

o gótico ditongo do corpo e seu desejo,

com a mesma escrita do mar nos areais,

a mesma cósmica piedade

que a vida desdobra aos meus olhos.

Eugenio Montejo em Rosa do Mundo

Tradução de José Bento