Se eu voltar algum dia será pelo canto dos pássaros.
Eugenio
Montejo
Se eu voltar algum dia
será pelo canto dos pássaros.
Não pelas árvores que hão-de partir
comigo
ou irão depois visitar-me no Outono,
não pelos rios que, por baixo da
terra,
continuarão a falar-nos com suas
vozes mais nítidas.
Se no fim regressar, corpóreo ou
incorpóreo,
levitando em mim mesmo,
embora nada possa já ouvir na
ausência,
sei que minha voz estará ao lado de
seus coros,
e voltarei, se hei-de voltar, por
eles;
o que foi vida em mim não deixará de
celebrar-se,
e eu habitarei o mais inocente dos
seus cantos.
Eugenio Montejo
Em vão me demoro a soletrar
o
alfabeto do mundo.
Leio
nas pedras um escuro soluço,
ecos
afogados em torres e edifícios,
indago
a terra com o tacto
cheia
de rios, de pausagens e cores,
mas
engano-me sempre ao copiá-los.
Preciso
de escrever cingindo-me a um risco
sobre
o livro do horizonte.
Desenhar
o milagre desses dias
que
flutuam envoltos na luz
e
se desprendem em cantos de pássaros.
Quando
na rua os homens que vagueiam
do
seu rancor à sua fadiga, matutando,
se
me revelam inocentes mais que nunca.
Quando
o batoteiro, a adúltera, o malandro,
os
mártires do ouro ou do amor
são
só signos que nunca li bem,
que
ainda não consigo anotar em meu caderno.
Quanto
eu queria ao menos um instante
que
esta página febril de poesia
gravasse
em sua transparência cada letra:
o
o do ladrão, o t do santo,
o
gótico ditongo do corpo e seu desejo,
com
a mesma escrita do mar nos areais,
a
mesma cósmica piedade
que
a vida desdobra aos meus olhos.
Eugenio
Montejo em Rosa do Mundo
Tradução
de José Bento