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quarta-feira, 18 de março de 2026

TUDO

Tudo –
palavra atrevida e enfunada de soberba.
Deveria escrever-se entre aspas.
Aparenta nada omitir,
tudo reunir, abarcar, conter e ter.
Porém, não é mais
do que um farrapo do caos

Wislawa Szymborka em Instante

sexta-feira, 7 de junho de 2024

UMA GENTE

 
Uma gente em fuga de outra gente,
num país debaixo do sol
e de algumas nuvens.
 
Deixam para trás um tal seu tudo,
campos semeados, umas galinhas, cães,
espelhos, justamente nos quais o fogo se mira.
 
Levam às costas os cântaros e as trouxas,
quanto mais vazios mais pesados com o passar dos dias.
 
É em silêncio que alguém desfalece,
é na algazarra que alguém arranca o pão de alguém
e alguém sacode o filho morto.
 
Nunca é pela estrada que têm à frente,
nem é esta ponte
sob a qual passa um rio estranhamente avermelhado.
Em redor, disparos, ora longínquos ora próximos,
ao alto, um avião errante rodopia.
 
Oportuna seria a invisibilidade,
uma parda rochosidade,
ou ainda melhor a inexistência
durante um pouquinho ou por mais tempo.
 
Mais ainda está por acontecer, apenas onde e o quê.
Alguém lhes sairá ao caminho, apenas quando e quem,
de que forma e com que intenções.
Se puder escolher,
talvez não queira ser inimigo
e os deixe com alguma vida.
 

Wislawa Szymborska em Instante 

segunda-feira, 15 de abril de 2024

POSTAIS SEM SELO


Nada acontece duas vezes, nem acontecerá. Eis a nossa sina. Nascemos sem prática e morremos sem rotina.

 Wislawa Szymborska

Imagem cedida por Aida Santos

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

CONTRIBUTO PARA AS ESTATÍSTICAS

Em cem pessoas,


sabedoras de tudo melhor —

cinquenta e duas;

 

inseguras de cada passo —

quase todo o resto;

 

prontas para ajudar,

desde que não demore muito —

quarenta e nove;

 

sempre boas,

porque não conseguem de outra forma —

quatro, talvez cinco;

 

dispostas a admirar sem inveja —

dezoito;

 

constantemente receosas

de algo ou alguém —

setenta e sete;

 

aptas para a felicidade —

vinte e tal, quando muito;

 

individualmente inofensivas,

em grupo ameaçadoras —

mais de metade, com certeza;

 

cruéis,

por força das circunstâncias —

é melhor não sabê-lo,

nem aproximadamente;

 

com trancas na porta depois da casa roubada —

quase tantas como

aquelas que as têm, antes da casa roubada;

 

não levando nada da vida a não ser coisas —

quarenta,

embora preferisse estar enganada;

 

agachadas, doloridas

e sem lanterna no escuro —

oitenta e três,

mais tarde ou mais cedo;

 

dignas de compaixão —

noventa e nove;

 

mortais —

cem em cem.

Número, até agora, não sujeito a alterações.

Wislawa Szymborska em Instante

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

REGRESSOS

Voltou. Não disse nada.

Mas era claro que tivera algum azar.

Deitou-se vestido.

Pôs a cabeça debaixo do cobertor.

As pernas encolhidas.

Anda pelos quarenta mas não neste momento.

Está mas apenas tanto quanto no ventre da mãe,

para lá de sete peles, na protecção do escuro.

Amanhã dará uma conferência sobre homeostase

na cosmo náutica metagaláctica.

Por agora, enrolou-se, adormeceu.

 

Wislawa Szymborska

sábado, 11 de setembro de 2021

FOTOGRAFIA DE 11 DE SETEMBRO


Atiraram-se dos andares em chamas.
Um, dois, ainda alguns,
mais acima, mais abaixo.

A fotografia deteve-os na vida
e agora preserva-os
sobre a terra rumo à terra.

Cada um ainda na íntegra
com rosto individual
e sangue bem guardado.

Ainda há tempo
Para os cabelos esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.

Ainda estão ao alcance do ar,
no âmbito dos lugares
que acabaram de se abrir.

Só duas coisas posso por eles fazer:
descrever este voo
e não acrescentar a última frase.

 Wistawa Szymborka em Instante

sábado, 15 de maio de 2021

A MIÚDA QUE PUXA A TOALHA


Há mais de um ano neste mundo
e neste mundo ainda nem tudo pesquisou
nem submeteu a controlo.

Agora estão a ser testadas coisas
que não podem mexer-se sozinhas.

É preciso ajudá-las,
deslocá-las, empurrá-las,
tirá-las do sítio e transferi-las.

Nem todas o desejam, por exemplo, o armário,
a aparador, as paredes intransigentes, a mesa.

Mas já a toalha sobre a mesa obstinada,
se bem agarrada pelas pontas,
mostra-se disposta a viajar.

E sobre a toalha: os copos, os pires,
o jarro de leite, as colherinhas e a tigela
até tremem de desejo.

Interessante,
que movimento vão escolher
depois de vacilarem na beirinha:
um passeio pelo tecto?
um voo em torno do candeeiro?
um salto para o parapeito da janela e de lá até à árvore?

O Senhor Newton ainda não meteu aqui a colherada.
Que olhe lá do céu e agite os braços.

Este teste tem de ser efectuado
e será.

Wislawa Szymborska em Instante

Legenda: pintura de François-Emile Barraud

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

PARÁBOLA


Os pescadores tiraram uma garrafa das profundezas. Havia nela um papel que continha as seguintes palavras: "Acudam! Estou aqui. O oceano atirou-me para uma ilha deserta. Estou junto à água à espera de ajuda. Estou aqui!"
- Não traz data. Por certo já é tarde. A garrafa poderia ter andado à deriva por muito tempo — disse o primeiro pescador.
- E não indicou o lugar. O oceano, pode ser um qualquer — disse o segundo pescador.
- Não é por ser tarde nem longe. A ilha Aqui pode estar em qualquer parte — disse o terceiro pescador.
Sentiram embaraço, fez-se silêncio. Com as verdades universais, é sempre assim.

Wislawa Szymborska

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

OLHAR AS CAPAS


Instante

Wistawa Szymborska
Tradução: Elzbieta Milewska e Sérgio Neves
Relógio d’Água Editores, Lisboa, Janeiro de 2006

Fotografia de 11 de Setembro

Atiraram-se dos andares em chamas.
Um, dois, ainda alguns,
mais acima, mais abaixo.

A fotografia deteve-os na vida
e agora preserva-os
sobre a terra rumo à terra.

Cada um ainda na íntegra
com rosto individual
e sangue bem guardado.

Ainda há tempo
Para os cabelos esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.

Ainda estão ao alcance do ar,
no âmbito dos lugares
que acabaram de se abrir.

Só duas coisas posso por eles fazer:
descrever este voo
e não acrescentar a última frase.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

POSSIBILIDADES


Prefiro cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.
Prefiro Dickens a Doistoievski.
Prefiro-me gostando dos homens
em vez de estar amando a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados cada dia.
Prefiro os moralistas,
que não prometem nada.
Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter abjecções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
e outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.

Wislawa Szymborska

Legenda: pintura de Claude Monet

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS


Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

Wislawa Szymborska

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

WISLAWA SZYMBORSKA (1923-2012)


Morreu ontem, tranquilamente durante o sono, a poetisa polaca  Wislawa Szymborska, Nobel da Literatura de 1996.

Tinha 88 anos e a Academia Sueca valorizou-a como representante de um olhar poético de uma pureza e de uma força raras.
Aqui publiquei um poema de Wislawa Szymborska e, hoje, no dia da sua morte, um outro que copiei do Cadeirão Voltaire, e que está publicado em Paisagem Com Grão de Areia, editado pela Relógio d’Água em 1998 e traduzido por Júlio Sousa Gomes).

O poema chama-se O Terrorista Olha:

A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
São neste momento treze e dezasseis.
Alguns conseguem ainda entrar,
alguns sair.
O terrorista passou já para o outro lado da rua.
A esta distância ficará livre de perigo
e, quanto a vista, é como no cinema:
Uma mulher de casaco amarelo… entra.
Um homem de óculos escuros… sai.
Rapazes de jeans… conversam.
Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos.
Aquele baixinho tem sorte e senta-se na vespa,
mais um tipo alto que entra.
Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos.
Passa uma moça de fita verde nos cabelos.
Só que o autocarro oculta-a.
Treze e dezoito.
A rapariga desapareceu.
Se foi bastante estúpida para entrar ou não,
isso se saberá pelas notícias.
Treze e dezanove.
Parece que ninguém entra.
Há porém um careca gordo que sai.
Mas olha, parece que procura algo nos bolsos,
faltam treze segundos para as treze e vinte,
e ele volta a entrar em busca das luvas que perdeu.
São treze e vinte.
Como o tempo voa.
Deve ser agora.
Ainda não.
Sim, é agora.
A bomba…. explode.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

POSSIBILIDADES

Prefiro cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me gostando dos homens
em vez de estar amando a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
No amor, prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados cada dia.
Prefiro os moralistas,
que não me prometem nada.
Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter objecções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
a outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo dos insectos ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.

Wislawa Szymborska, poetisa polaca, Prémio Nobel da Literatura em 1996.

Em Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro, Assírio e Alvim, Tradução de Aleksandar Jovanovic e Henry Siewierski