Tudo –
palavra atrevida e enfunada de soberba.
Deveria escrever-se entre aspas.
Aparenta nada omitir,
tudo reunir, abarcar, conter e ter.
Porém, não é mais
do que um farrapo do caos
Wislawa Szymborka em Instante
Uma gente em fuga de outra gente,
num país debaixo do sol
e de algumas nuvens.
Deixam para trás um tal seu tudo,
campos semeados, umas galinhas, cães,
espelhos, justamente nos quais o fogo se mira.
Levam às costas os cântaros e as trouxas,
quanto mais vazios mais pesados com o passar dos dias.
É em silêncio que alguém desfalece,
é na algazarra que alguém arranca o pão de alguém
e alguém sacode o filho morto.
Nunca é pela estrada que têm à frente,
nem é esta ponte
sob a qual passa um rio estranhamente avermelhado.
Em redor, disparos, ora longínquos ora próximos,
ao alto, um avião errante rodopia.
Oportuna seria a invisibilidade,
uma parda rochosidade,
ou ainda melhor a inexistência
durante um pouquinho ou por mais tempo.
Mais ainda está por acontecer, apenas onde e o quê.
Alguém lhes sairá ao caminho, apenas quando e quem,
de que forma e com que intenções.
Se puder escolher,
talvez não queira ser inimigo
e os deixe com alguma vida.
Wislawa Szymborska em Instante
Nada acontece duas vezes, nem acontecerá. Eis a nossa sina. Nascemos sem prática e morremos sem rotina.
Wislawa
Szymborska
Imagem cedida
por Aida Santos
Em cem pessoas,
sabedoras de tudo melhor —
cinquenta e duas;
inseguras de cada passo —
quase todo o resto;
prontas para ajudar,
desde que não demore muito —
quarenta e nove;
sempre boas,
porque não conseguem de outra forma —
quatro, talvez cinco;
dispostas a admirar sem inveja —
dezoito;
constantemente receosas
de algo ou alguém —
setenta e sete;
aptas para a felicidade —
vinte e tal, quando muito;
individualmente inofensivas,
em grupo ameaçadoras —
mais de metade, com certeza;
cruéis,
por força das circunstâncias —
é melhor não sabê-lo,
nem aproximadamente;
com trancas na porta depois da casa
roubada —
quase tantas como
aquelas que as têm, antes da casa
roubada;
não levando nada da vida a não ser
coisas —
quarenta,
embora preferisse estar enganada;
agachadas, doloridas
e sem lanterna no escuro —
oitenta e três,
mais tarde ou mais cedo;
dignas de compaixão —
noventa e nove;
mortais —
cem em cem.
Número,
até agora, não sujeito a alterações.
Wislawa Szymborska em Instante
Voltou. Não disse nada.
Mas era claro que tivera algum azar.
Deitou-se vestido.
Pôs a cabeça debaixo do cobertor.
As pernas encolhidas.
Anda pelos quarenta mas não neste momento.
Está mas apenas tanto quanto no ventre da mãe,
para lá de sete peles, na protecção do escuro.
Amanhã dará uma conferência sobre homeostase
na cosmo náutica metagaláctica.
Por agora, enrolou-se, adormeceu.
Wislawa Szymborska
Atiraram-se dos andares em chamas.
Um, dois, ainda alguns,
mais acima, mais abaixo.
A fotografia deteve-os na vida
e agora preserva-os
sobre a terra rumo à terra.
Cada um ainda na íntegra
com rosto individual
e sangue bem guardado.
Ainda há tempo
Para os cabelos esvoaçarem
e do bolso caírem
chaves e alguns trocos.
Ainda estão ao alcance do ar,
no âmbito dos lugares
que acabaram de se abrir.
Só duas coisas posso por eles fazer:
descrever este voo
e não acrescentar a última frase.
Wistawa Szymborka em Instante
Há mais de um ano neste mundo
e neste mundo ainda nem tudo pesquisou
nem submeteu a controlo.
Agora estão a ser testadas coisas
que não podem mexer-se sozinhas.
É preciso ajudá-las,
deslocá-las, empurrá-las,
tirá-las do sítio e transferi-las.
Nem todas o desejam, por exemplo, o armário,
a aparador, as paredes intransigentes, a mesa.
Mas já a toalha sobre a mesa obstinada,
se bem agarrada pelas pontas,
mostra-se disposta a viajar.
E sobre a toalha: os copos, os pires,
o jarro de leite, as colherinhas e a tigela
até tremem de desejo.
Interessante,
que movimento vão escolher
depois de vacilarem na beirinha:
um passeio pelo tecto?
um voo em torno do candeeiro?
um salto para o parapeito da janela e de lá até à árvore?
O Senhor Newton ainda não meteu aqui a colherada.
Que olhe lá do céu e agite os braços.
Este teste tem de ser efectuado
e será.
Wislawa Szymborska em Instante
Legenda: pintura de François-Emile Barraud
Os pescadores tiraram uma garrafa das profundezas. Havia nela um papel que
continha as seguintes palavras: "Acudam! Estou aqui. O oceano atirou-me
para uma ilha deserta. Estou junto à água à espera de ajuda. Estou aqui!"
- Não traz data. Por certo já é tarde. A garrafa poderia ter andado à deriva
por muito tempo — disse o primeiro pescador.
- E não indicou o lugar. O oceano, pode ser um qualquer — disse o segundo
pescador.
- Não é por ser tarde nem longe. A ilha Aqui pode estar em qualquer parte —
disse o terceiro pescador.
Sentiram embaraço, fez-se silêncio. Com as verdades universais, é sempre assim.
Wislawa Szymborska
Prefiro cinema.