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sexta-feira, 6 de março de 2026

OLHAR AS CAPAS

Ler

Nº 37 – Inverno de 1997

Entrevista de António Lobo Antunes

Capa: fotografia de João Francisco Vilhena

Direcção gráfica: Henrique Cayatte

Círculo de Leitores, Lisboa s/d

Nunca li um livro meu.

domingo, 13 de julho de 2025

OLHAR AS CAPAS


Essa História

António Salvado

Capa: Henrique Cayatte sobre versão de João da Câmara Leme

Colecção Poetas de Hoje

Portugália Editora Junho de 2008

 

É Então

 

A vinda do crepúsculo

nunca sabe que a sombra

surgirá como seu véu

tecido pelos astros

a encurtarem    dóceis

a entre nós distância

e o ignoto infinito.

É Então que se vê

o que as estrelas dizem:

que o infinito tem

a extensão do amor.

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

OLHAR AS CAPAS


Dicionário Político de Mário Soares

Pedro Ramos de Almeida

Capa: Henrique Cayatte

Editorial Caminho, Lisboa, Setembro de 1985

1978: MS: «É preciso esclarecer que actualmente, no que se refere aos agentes da PIDE, foram todos soltos, excepto quatro ou cinco, implicados no assassínio de Delgado. Todos os demais foram postos em liberdade. Para um País que atravessa um período tão dramático, com tantos problemas  e confrontos, foi necessária uma grande doses de sabadoria e de sensatez para acalmar as águas e para que não se reabram as feridas.

La Stampa: «Significa isso, em última análise, que todos estes acusados vão ser amnistiados em vez de processados?»

MS – Para mim seria a solução ideal: cancelar todos estes problemas e seguir uma política de reconciliação.» ) Entrevista a La Stampa, 24.2.78).

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

OLHAR AS CAPAS


Piano Bar

José Viale Moutinho

Capa: Henrique Cayatte

Colecção Caminho da Poesia

Editorial Caminho, Lisboa, Maio de 1988


Fragmentos para Motim

acima do silêncio nascia março

e os dentes dispersos pelos medos

eram outras tantas voltas em vão

 

sempre os rostos trocados      os rostos

sem mais nada     à cidade deixada de lado

somava-se a cárie     às ruas as gangrenas

 

as suas mãos cerravam-se com força

 

em que romances de caranguejos se vivia

 

sempre os rostos voltados     os rostos

sem mais nada     o país ainda próximo

as suas mãos agarravam-se aos medos

dessa primavera de sonos ásperos

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

OLHAR AS CAPAS


A Conspiração Contra a América

Philip Roth

Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues

Capa: Henrique Cayatte

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 2008

O medo preside a estas memórias, um medo perpétuo. Embora infância alguma esteja isenta dos seus terrores, pergunto-me se teria sido um rapaz menos assustado se Lindbergh não tivesse sido presidente ou se eu não tivesse sido filho de judeus.

quinta-feira, 18 de março de 2021

OLHAR AS CAPAS


O Fantasma Sai de Cena

Philip Roth

Tradução: Francisco Agarez

Capa: Henrique Cayatte

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 2008

Tinha passado estes onze anos sozinho numa casinha à beira de uma estrada de terra batida do interior profundo, tendo decidido viver assim isolado de tudo uns dois anos antes de me ser diagnosticado o cancro. Vejo poucas pessoas. Desde a morte, há um ano, do meu vizinho e amigo Larry Hollis, podem passar-se dois, três dias em que não falo com ninguém além da mulher-a-dias que vem todas as semanas fazer a limpeza e do marido dela, que é o meu caseiro. Não vou a jantares, não vou ao cinema, não vejo televisão, não tenho telemóvel nem gravador de vídeo ne, leitor de DVD nem computador. Continuo a viver na Idade da Máquina de Escrever e não faço ideia do que seja a World Wide Web. Já não me dou ao trabalho de ir votar. Escrevo durante quase todo o dia e muitas vezes pela noite dentro. Leio, principalmente, os livros que descobri em estudante, as obras-primas da ficção cujo poder sobre mim não é menor, e em alguns casos é ainda maior, do que foi nos meus primeiros e exaltantes encontros com elas.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


20 Anos na Dom Quixote

António Lobo Antunes
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1999

Sempre que alguém afirma ter lido um livro meu fico decepcionado com o erro. É que os meus livros não são para serem lidos  no sentido em que usualmente se chama ler : a única forma
parece-me
de abordar os romances que escrevo é apanhá-los do mesmo modo que se apanha uma doença. Dizia-se de Bjorn Borg, comparando-o com outros tenistas, que estes jogavam ténis enquanto Borg jogava outra coisa. Aquilo a que por comodidade chamei romances, como poderia ter chamado poemas, visões, o que se quiser, apenas se entenderão se os tomarem por outra coisa. A pessoa  tem de renunciar à sua própria chave
aquela que todos temos para abrir a vida, a
nossa e a alheia
e utilizar a chave que o texto lhe oferece. De outra maneira torna-se incompreensível, dado que as palavras são apenas signos de sentimentos íntimos, e as personagens, situações e intriga os pretextos de superfície que utilizo para conduzir ao fundo avesso da alma. A verdadeira aventura que proponho é aquela que o narrador e o leitor fazem em conjunto ao negrume  do inconsciente, à raiz da natureza humana. Quem não entender isto aperceber-se-à apenas dos aspectos mais parcelares e menos importantes dos livros: o país , a rela homem-mulher, o problema da identidade  e da procura dela, África e a brutalidade da exploração colonial, etc., temas se calhar muito importantes do ponto de vista político, ou social, ou antropológico, mas que nada têm a ver com o meu trabalho. O mais que, em geral, recebemos da vida, é um conhecimento dela que chega bem tarde. Por isso não existem nas minhas obras sentidos exclusivos nem conclusões definidas: são, somente , símbolos materiais de ilusões fantásticas, a racionalidade truncada que é nossa. É preciso que se abandonem ao seu aparente desleixo, às suspensões, às longas elipses, ao assombrado vaivém das ondas que, a pouco e pouco, os levarão ao encontro da treva fatal, indispensável ao renascimento e à renovação do espírito. É necessário que a confiança nos valores comuns se dissolva página a página, que a nossa enganosa coesão interior vá perdendo gradualmente o sentido que não possui e todavia  lhe dávamos, para que outra ordem nasça desse choque,  pode ser que amargo mas inevitável. Gostaria que os meus romances não estivessem nas livrarias ao lado dos outros , mas afastados e numa caixa hermética,  para não contagiarem as narrativas alheias  ou os leitores  desprevenidos: é que sai caro buscar uma mentira e encontrar uma verdade. Caminhem pelas minhas páginas como num sonho porque é nesse sonho, nas suas claridades e nas suas sombras , que se irão achando os significados do romance, numa intensidade que corresponderá aos vossos instintos de claridade e às sombras da vossa pré-história. E, uma vez acabada a viagem
e fechado o livro
convalesça. Exijo que o leitor tenha uma voz entre as vozes do romance
ou poema, ou visão, ou outro nome que lhes apeteça dar
a fim de poder ter assento no meio dos demónios e dos anjos da terra. Outra abordagem de que escrevo é
limita-se a ser
uma leitura, não uma iniciação ao ermo onde o visitante terá a sua carne consumida na solidão e na alegria . Isto não se torna complicado se tomarem a obra como a tal doença que acima referi: verão que regressam de vocês mesmos carregados de despojos. Alguns
quase todos
os mal entendidos em relação ao que faço, derivam do facto de abordarem o que escrevo como nos ensinaram a abordar qualquer narrativa. E a surpresa vem de não existir narrativa no sentido comum do termo, mas apenas largos círculos concêntricos que se estreitam e aparentemente nos sufocam. E sufocam-nos aparentemente para melhor  respirarmos. Abandonem as vossas roupas de criaturas civilizadas, cheias de restrições, e permitam-se escutar a voz do corpo.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

OLHAR AS CAPAS


Breakfast At Tiffny’s
(Boneca de Luo)

Truman capote
Tradução: Margarida Vale de Gato
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Junho de 2009

-Deves pensar que sou uma desavergonhada. Ou três fou, Ou uma coisa qualquer.
-De modo nenhum.
Pareceu desiludida.
- Pensas, sim. Toda a gente pensa. Não me importo. Dá-me jeito.
Sentou-se com as pernas dobradas sob o corpo numa das cadeiras bambas de veludo vermelho e olhou em redor, os olhos semicerrando-se mais pronunciadamente.
- Como é que podes aguentar isto? É a câmara dos horrores!
- Oh, uma pessoa habitua-se a tudo – disse, contrafeito comigo próprio, pois orgulhava-me bastante daquele lugar.
- Eu não. Nunca me vou habituar a nada, e quem se habitua mais vale estar morto.
O seu olhar de censura perscrutou de novo o quarto.
- O que é que fazes aqui o dia todo?
Apontei para uma mesa atulhada de livros e papéis.
- Escrevo coisas.
- Pensava que os escritores eram bastante mais velhos. Claro, está que o Saropyan não é velho. Conheci-o numa festa e de facto não é mesmo nada velho. Com efeito – ponderou ela – se ele se barbeasse melhor… a propósito, o Hemingway é velho?
- Anda pelos quarenta, quer-me parecer.
- Não está nada mal. Não consigo excitar-me com um homem com menos de quarenta e dois. Conheço uma miúda idiota que está sempre a dizer para eu ir ao psiquiatra; diz que tenho um complexo de Édipo. O que não passa de uma grande merde. Simplesmente treinei-me a mim própria para gostar de homens mais velhos, e foi a coisa mais acertada que alguma vez fiz. Que idade tem o W. Somerset Maugham?
- Não sei ao certo. Sessenta e qualquer coisa.
- Não está mal. Nunca fui para a cama com nenhum escritor.

sexta-feira, 29 de março de 2019

OLHAR AS CAPAS



Letrinhas de Cantigas

António Lobo Antunes
Capa: Atelier Henrique Cayatte com Rita Múrias
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 2002

Todos os Homens São Maricas Quando Estão Com Gripe

Pachos na testa
terço na mão
uma botija
chá de limão
zaragatoas
vinho com mel
três aspirinas
creme na pele
grito de medo
chamo a mulher
ai Lurdes, Lurdes
que vou morrer
mede-me a febre
olha-me a goela
cala os miúdos
fecha a janela
não quero canja
nem a salada
ai Lurdes, Lurdes
não vales nada
se tu sonhasses
como me sinto
já vejo a morte
 nunca te minto
já vejo o inferno
chamas diabos
anjos estranhos
cornos e rabos
Vejo os demónios
nas suas danças
tigres sem listras
bodes de tranças
choros de coruja
 risos de grilo
ai Lurdes, Lurdes
que foi aquilo!
não é a chuva
no meu postigo
ai Lurdes, Lurdes
fica comigo
não é o vento
a cirandar
nem são as vozes
que vêm do mar
não é o pingo
de uma torneira
põe-me a santinha
à cabeceira
compõe-me a colcha
fala ao prior
pousa o Jesus,
no cobertor
chama o doutor
passa a chamada
ai Lurdes, Lurdes
nem dás por nada
faz-me tisanas
e pão-de-ló
não te levantes
que fico só
aqui sozinho
a apodrecer
ai Lurdes, Lurdes
que vou morrer.

segunda-feira, 18 de março de 2019

OLHAR AS CAPAS


Memória das Minhas Putas Tristes

Gabriel Garcia Márquez
Tradução: Maria do Carmo Abreu
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 2005

No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei-me de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar os seus bons clientes quando tinha uma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma das suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza dos meus princípios. A moral também é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, tu verás. Era um pouco mais nova do que eu e não sabia dela há tantos anos que bem podia já ter morrido. Mas ao primeiro toque reconheci a sua voz ao telefone e disparei sem preâmbulos:
- Hoje sim.
Ela suspirou: Ai, meu sábio triste, desapareces vinte anos e só voltas para pedir impossíveis. Recuperou de imediato o domínio da sua arte e ofereceu-me uma meia dúzia de opções deliciosas mas, isso sim, todas usadas. Insisti que não, que devia ser donzela e para essa mesma noite. Ela perguntou, alarmada: O que queres provar a ti mesmo? Nada, respondi-lhe, magoado no que mais me doía, sei muito bem o que posso e o que não posso. Ela disse impassível que os sábios sabem tudo, mas nem tudo: os únicos Virgens que vão restando no mundo são vocêss, os de Agosto. Porque não me encomendaste com mais tempo? A inspiração não avisa, disse eu. Mas talvez espere, disse ela, sempre mais sabida do que qualquer homem, e pediu-me nem que fossem dois dias para esquadrinhar a fundo o mercado. Repliquei-lhe muito a sério que num negócio como aquele, na minha idade, cada hora é uma ano. Então não se pode, disse ela sem a mínima hesitação, mas não importa, assim é mais emocionante, carago, telefono-te daqui a uma hora.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

OLHAR AS CAPAS




O Ano de 1393

José Saramago

Ilustrações: Graça Morais

Capa: Henrique Cayatte

Editorial Caminho, Lisboa Novembro de 1987

Nenhum lugar é suficientemente belo na terra para que doutro lugar nos desloquemos a ele.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

OLHAR AS CAPAS


Espingardas e Música Clássica

Alexandre Pinheiro Torres
Prefácio: Luís de Sousa Rebelo
Capa: Henrique Cayatte
Editorial Caminho, Lisboa, setembro de 1987

Perde, de repente, a sua capacidade de êxtase perante o divino da Natureza. A alma, para a amar, não precisará de razão? Para quê olhar o Tâmega? Todos os rios de Portugal, se não são ainda o Tâmega, não acabarão por ser o Tâmega? O rio da minha aldeia de Alberto Caeiro, no poema que Teresa tanto gostava de recitar, não seria o Tâmega? Pascoaes detestava o rio Tamisa porque Tamisa era uma tradução, em bárbaro, da palavra Tâmega. Do Tâmega, como muitas vezes previa a D. Maria da Graça no seu ataque às hidroeléctricas que planeavam não uma, como se dizia, mas nove barragens no rio, sairiam as caravelas do futuro.
As margens encher-se-iam de marinheiros ávidos de encontrar uma ilha que se tivesse salvo da catástrofe. Talvez a ilha dos Frades, se a água a não subvertesse. Se resistisse chamar-lhe-ia, para sempre, a Ilha dos Amores.
Odete, com a inconsciência da juventude, entra na sala a cantarolar alegre:
«Deseja alguma coisa senhor presidente da Câmara?»
«Não me chames presidente da câmara enquanto eu não tomar posse.»
Bebe rapidamente outro conhaque enquanto fita os olhos da rapariga.
«Chega-te aqui», ordena.
Odete aproxima-se curiosa. Que lhe quererá o senhor doutor juiz? Mas Tadeu de Albuquerque não tem que lhe responder. Agarra-a e beija-a avidamente na boca. Ali estava a sua ninfa. Não era precisos esperar pelo futuro.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

OLHAR AS CAPAS


Tubarões e Peixe Miúdo

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: Henrique Cayatte
Editorial Caminho, Lisboa Agosto de 1986

E havia dias em que a solidão era não um vinho embriagador, mas um veneno que o levava a bater, em pensamento só, com a cabeça nas paredes.
Quanto à Mitchell mesmo quando acompanhada procedia como se estivese só, Há pessoas que estão sempre sós. Uma multidão nunca foi uma companhia.
«Só encontramos na solidão aquilo que para lá levar-mos connosco, concluía Sacatrapo.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

OLHAR AS CAPAS


Laboratório de Cinzas
4º Volume dos Dias Comuns

José Gomes Ferreira
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Maio de 2004

14 de Abril de 1968

Chego a Lisboa de Albarraque e encontro um postal muito circunspecto (Ex.mo Senhor Dr. José Gomes Ferreira) do Luiz Pacheco a pedir-me 50 escudos.
«Encontro-me numa fase em que não me repugna pedir porque o meu caso é daqueles que, talvez, a tempo, um empurrãozinho me liberte da cadeia (outra vez), ou do hospício, ou da fome. Tenho outro livro ente mãos, Exercícios de Estilo, título larapiado ao Queneau.»
Notícias dum homem, com talento literário, que se suicidou – para agradar à lama própria.

terça-feira, 31 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


O Revólver do Repórter

Eduardo Guerra Carneiro
Capa: Henrique Cayatte
Editorial Teorema, Lisboa 1994

Por vezes o repórter está sentado, quase de mãos no regaço, à espera que as notícias lhe caiam no colo, já maduras. Mas, noutras alturas, busca e rebusca a cidade, por tabernas e bares, e os factos aí estão a saltar, fresquinhos, vivos da costa.
Personagens são às dúzias, histórias dão para encher muitos blocos de notas. Trata-se então de seleccionar, separar o trigo do joio, guardar na manga alguns recados para outro dia, outra ocasião.

domingo, 15 de março de 2015

OLHAR AS CAPAS


 Março Desavindo

Mário Ventura
Capa: Henrique Cayatte
Editorial Caminho, Lisboa, Novembro de 1987

- Claro, é evidente que existem as condições teóricas para que isso possa acontecer. Há uma burguesia que não é de esquerda, embora alguns pretendam absurdamente que está com a revolução, o que é um requinte de optimismo idiota se pensarmos que num dado momento ela apenas se afirmou democrata. E do outro lado há um processo revolucionário, melhor dizendo radical, que até hoje ninguém adoptou de forma coerente e até  às últimas consequências, chegando mesmo àquilo de que os jornalistas mais gostam: sangue e mortos. Não estou a brincar, admito apenas a possibilidade lógica de um processo que se pretende revolucionário. Mas se a esquerda não tem cojones ou inteligência para actuar com decisão e firmeza, também não vejo que a burguesia seja mais hábil ou voluntariosa. Se o fosse não teria perdido o seu lugar. Ainda que provisoriamente. A esquerda vai continuar a fazer a sua revolução verbal, assustando muito mas sem vontade e capacidade para fazer o que apregoa, ou seja, conquistar o Poder, e a burguesia, com a lógica habitual dos acossados, só actuará quando tiver a certeza de ganhar.
- Esqueceste-te dos comunistas – interrompeu Lozano.
- Os comunistas cumprem uma tarefa impossível: tentam arrumar uma casa constantemente sacudida por tremores de terra. Não conseguirão passar daí, embora também assustem muito.
- Diz-se que estão por detrás de tudo…
- Todos os partidos estão por detrás de tudo aquilo que fazem os militares, Cada um procura a sua marioneta.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

OLHAR AS CAPAS

Terceiro Livro de Crónicas

António Lobo Antunes
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Janeiro de 2006

E eu deixarei apenas, além de tudo, uns livros, e, espero, alguma saudade nas poucas que me conhecerem e fizeram o favor de gostar de mim. Nada mais. Em regra chegamos demasiado tarde a algum conhecimento da vida que de pouco nos serve.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

OLHAR AS CAPAS

Quarto Livro de Crónicas

António Lobo Antunes
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril de 2011

Um velhote a subir a rua com um saco de plástico, a horrível solidão dos seus olhos, o abandono da roupa. A solidão tem um cheiro próprio que se sente à distância. Vivem em bicos de pés, como que a pedir desculpa. Este passa o tempo a beber cerveja no cafezito e percebe-se o nível da espuma pela cor das pálpebras. Senhor João. Mora como um bicho qualquer num buraco qualquer, não se lamenta, não se queixa: dura. Uma destas semanas vem a morte.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


A Morte de Ivan Ilitch

Lev Tolstoi
Prefácio: António Lobo Antunes
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Janeiro de 2008

«E a dor? – perguntou a si mesmo. – Que é dela? Então, dor, onde estás tu?»
Ficou atento.
«Sim, cá está ela. Pois bem, deixá-la doer.»
«E a morte? Onde está ela?»
Procurava o seu habitual medo, o anterior medo da morte e não o encontrava. Onde está ela? Qual morte? Não tinha medo nenhum, porque também não havia morte.
Em lugar da morte havia uma luz.
-É então isto! – disse ele de súbito em voz alta. – Que alegria!
Para ele tudo aquilo aconteceu num único instante e o significado desse instante já não mudou. Mas para aqueles que estavam presentes a agonia dele prolongou-se ainda por duas horas. Qualquer coisa fervilhava no peito dele; o seu corpo extenuado estremeceu. Depois o fervilhar e os estertores tornaram-se menos frequentes.
- Acabou-se ! – disse alguém por cima dele.
Ele ouviu estas palavras e repetiu-as na sua alma. «Acabou-se a morte – disse a si mesmo. – Já não existe.»
Inspirou o ar, parou a meio de um suspiro, esticou-se e morreu.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

OLHAR AS CAPAS



Diário Remendado
(1971-1975)

Luiz Pacheco
Fixação de texto e Posfácio de João Pedro George
Capa: Henrique Cayatte
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Agosto de 2005

Tarefas Prioritárias para Novembro

 tradução do Rilke;
 caso da luz;
 artigo Diário de Notícias, falar primeiro ao Saramago e ao Facas;
 textos para o Boletim da Gulbenkian (pedir livros ao Forte, Granja, Seara Nova, Montijo);
Textos Malditos: arrumar o caso com o R. de Mello, de vez;
Diário Remendado, avançar;
desintoxicação;
sondar a transferência Tábua (ou Caldas);
comprar caderno decente;
comprar transístor;
 comprar livros indispensáveis (D.R., etc);
 limpar de casa a merda e os acessórios empatas;
 fazer recortes (?) perde-se muito tempo;
arranja da máquina suplente;
NÃO PAGAR DÍVIDAS;
 campanha de abonos, à escala nacional;
 livro do Manaças e do José Alberto Marques;
ver o que quer o Vítor Belém, o Abílio e o Vinicius;
escrever Ibarrola
 chegar a Dezembro. É d’homem!