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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

O DIA INCOMUM DE UM EXILADO VIVENDO ENTÃO EM VANCOUVER

Era muito longe, ou seja

no Pacífico

Notícias de jornal, confusas:

tanques ocupam a praça central

de Lisboa

Digo-me: mal eles sabem que se chama

Rossio

mas digo também: se é a revolução

daquele do monóculo

pouco tenho a esperar

Depois espanto-me: como é possível

que libertem assim

sem mais nem menos

os presos políticos

e prometam a autodeterminação

de colónias

economicamente tão preciosas?

O povo saiu à rua e foi isso

que mudou tudo, explicam-me então

pelo telefone

 

No dia que abalei

para aqui ficar

deixei sem remorsos:

a minha horta

cujos legumes tantas vezes protegi

um trabalho que tanto suspeitava amar

e os amigos que, querendo ser generosos

me disseram:

«Vai, vais ver que não te arrependes»

 

Esquece-se muita coisa…

à força de ver caras novas

não sei se me lembro das antigas

embora as veja tão bonitas

e disponíveis

na memória

e por vezes em fotografia.

 

Sérgio Godinho

sexta-feira, 25 de abril de 2025

EI-LA A CIDADE


 Quarenta e sete anos, dez meses e vinte e quatro dias, durou a barbárie salazarenta/marcelista, o tempo do desprezo, como lhe chamou Mário Dionísio.

Éramos um país que vivia debaixo de um atraso sem medida, tempos terríveis que só quem neles viveu tem a justa medida – quem passa por elas é que sabe!

O avô senta o neto nos joelhos e conta: foi assim.

Acreditávamos.

Tão só.

«Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exacto perfume das flores.»

A festa foi bonita, pá.

Manuel António Pina:

«Durou, o sonho, só uma semana, mas esse é um património que ninguém nos tirará. Na tarde do 1º de maio, já nos confrontávamos uns com os outros.

De então para cá, tem sido o que se sabe. Carlyle escreveu que as revoluções são sonhadas por idealistas, realizadas por radicais, e que quem delas se aproveita são os oportunistas de todas as espécies.»

Cinquenta e um anos sobre a madrugada, lembrando Sophia, que esperávamos, quando emergimos da noite e do silêncio.

Também escreveu José Saramago:

«Nenhum dia é festivo por ter já nascido assim: seria igualzinho aos outros se não fossemos nós a «fazê-lo» diferente.»

Ao longo destes anos, tenho vindo a ouvir os que, a partir de um certo tempo, sempre anunciarem que o 25 de Abril se tornaria num 5 de Outubro.

Nunca acreditei e ainda não vi a possibilidade de isso vir a acontecer.

Gente que pensa que a memória do 25 de Abril é algo difuso, que com o tempo se tornará insignificante, gente que advoga o silêncio como um argumento.

Serenamente vos digo:

Não há nenhum 25 de Abril em que não me venha à memória, o 1º poema de Canto e Lamentação na Cidade Ocupada, incluído em  A Invenção do Amor e Outros Poemas, de Daniel Filipe lido, relido vezes sem conta, nos tais tempos difíceis:

Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma

em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria

e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Ei-la a cidade prometida

esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor

Legenda: Desenho da Prisão de Álvaro Cunhal

quinta-feira, 24 de abril de 2025

A PARTIR DESSE DIA

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a crescer
e a desafiar os enigmas puríssimos da palavra liberdade - no auge da paisagem
a ave indócil a que não renunciámos
é um símbolo fortíssimo contra os símbolos precários, os malogros
antigos,
a fome a que nos querem condenados
sempre que a morte ronda e o exílio
dói
como um cravo recentemente apunhalado.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a enfrentar o medo
que durante tanto tempo nos manteve separados
sem que soubéssemos como e quando acabaria – na terra e no amor
brilham profundamente as lágrimas dos pobres
e o sangue é uma flor misteriosa
que floresce de súbito
quando um grito se ouve no deserto
e uma gaivota volta
para nos contactar.

A partir desse dia poderíamos ter começado a distribuir o coração
e a partir nesse barco em busca de límpidas aventuras
onde enfeitássemos a vida com sonhos realizáveis
e a solidão fosse completamente impossível – o silêncio abria-se
num manancial de palavras profundamente comovidas
[que nos enchiam de ternura
e nos aproximavam
dos incontáveis registos da fraternidade, a noite
era expulsa para sempre
e os braços davam-se e ardiam.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender que a felicidade
é algo muito mais tangível do que o que nós pensávamos
se se constrói pedra a pedra e palmo e a palmo se conquista
quando uma vontade solar e a solidariedade
não deixam ninguém ficar desprevenido – o assombro
principia a exercer o seu poder admirável, chega como
uma chuva benigna com o perfil da paz, tem o odor
interminável
da alegria.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a conjugar um futuro
um pouco mais perfeito, a erguer
a cabeça, a defendermo-nos
das múltiplas armadilhas que o ódio arma –
[entrávamos pela manhã
ainda com maior vitalidade
e com um pouco do azul da primavera progredíamos
como um par de namorados:
a proliferante espontaneidade dos seus beijos
transformaria o mundo…

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender que a frescura
é um bem vertiginoso que é necessário preservar cada vez mais
e que não basta a um homem
o benefício das mãos limpas perante a enternecedora figura de esperança
quando os lobos são os mais acérrimos inimigos da exclusiva claridade que há nas praias
e com falsos dentes de oiro esperam um mínimo descuido
para que possam destruir de um só golpe os sonhos e a beleza
de quem abre as portas de par em par a bens muito
[maiores
para que a volúpia entre e alvorece o ar.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a agir conclusivamente
sobre o passado, a prevenir
o mal do desencanto.

Amadeu Baptista em Poemabril 

quinta-feira, 25 de abril de 2024

EI-LA A CIDADE


Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma

em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria

e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Ei-la a cidade prometida

esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor

Daniel Filipe em  A Invenção do Amor e Outros Poemas

Legenda: fotografia de Filipe Jorge em Lisboa Vista do Céu

sexta-feira, 30 de abril de 2021

SONETO DE ABRIL


 

Evoé! de pâmpano os soldados
rompem do tempo em que Evoé! a terra
salvé rainha descruzando os braços
com seu pé de papiro pisa a fera.

Na écloga dos rostos despontados
onde dos corvos se retira a treva,
de beijo em beijo as ruas são bailados
mudam-se as casas para a primavera.

Evoé! o povo abre o touril
e sai o Sol perfeitamente Abril
maravilha da Pátria ressurrecta.

Evoé! evoé! Tágides minhas
outra vez prateadas campainhas
sois na cabeça em fogo do poeta.

Natália Correia em Poemabril

quinta-feira, 29 de abril de 2021

PUS O MEU IRMÃO DEBAIXO DA TERRA


Pus o meu irmão debaixo da Terra
Porque desde ontem o meu irmão não falava mais
E não queria comer, não queria limpar a Kalashnikoff
Com os olhos muito abertos e leves de sono.

Este meu irmão ficou ontem muito diferente
Quando uma pequena ave imperialista
Um simples assobio cego e sem penas
Que vinha voando do outro lado da Alegria
Resolveu estupidamente ninhar naquele coração
Quando meu irmão estava mesmo na metade mesmo
De um passo, Camarada Comandante.

Está aqui tudo o que não era meu irmão
O cinturão, o camuflado, dois carregadores, a arma boa
O bornal, o cantil, o facão, esta pequena moeda estrangeira.

Está tudo em muito perfeito estado de conservação.
Faz favor dá Ordem para pôr dentro outro Irmão
Camarada Comandante.

 

João Pedro Grabato Dias ver Frenesi Loja

quarta-feira, 28 de abril de 2021

OS RICOS NUNCA PERDEM A JOGADA


Os ricos nunca perdem a jogada

Nunca fazem um erro. Espiam

E esperam os erros dos outros

Administram os erros dos outros

São hábeis e sábios

Têm uma larga experiência do poder

E quando não podem usar a própria força

Usam a fraqueza dos outros

Apostam na fraqueza dos outros

E ganham

Tecem uma grande rede de estratagemas

Uma grande armadilha invisível

E devagar desviam o inimigo para o seu terreno

Para o sacrificar como um toiro na arena.

 

Sophia de Mello Breyner Andersen em Os Gracos I Acto II Cena

terça-feira, 27 de abril de 2021

DE OUTROS REZA A HISTÓRIA


De outros reza a história.

Dos que não se adaptaram.

Dos que lutaram.

Dos que sacrificaram tudo.

Dos que morreram e foram mutilados no combate.

Pela liberdade contra o fascismo.

Eles que não foram a maioria dos portugueses.

 

Eles não foram a maioria dos portugueses.

Fascistas fomos quase todos.

Ou ainda menos.

Como os alemães durante Hitler.

Como os italianos durante Mussolini.

Fascistas fomos quase todos.

Ou ainda menos.

 

António Rego Chaves

Legenda: tempos da «outra senhora», reunião no Coliseu de sindicatos apoiantes da ditadura.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

25 DE ABRIL DE 1974


A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a crescer
e a desafiar os enigmas puríssimos da palavra liberdade - no auge da paisagem
a ave indócil a que não renunciámos
é um símbolo fortíssimo contra os símbolos precários, os malogros
antigos,
a fome a que nos querem condenados
sempre que a morte ronda e o exílio
dói
como um cravo recentemente apunhalado.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a enfrentar o medo
que durante tanto tempo nos manteve separados
sem que soubéssemos como e quando acabaria – na terra e no amor
brilham profundamente as lágrimas dos pobres
e o sangue é uma flor misteriosa
que floresce de súbito
quando um grito se ouve no deserto
e uma gaivota volta
para nos contactar.

A partir desse dia poderíamos ter começado a distribuir o coração
e a partir nesse barco em busca de límpidas aventuras
onde enfeitássemos a vida com sonhos realizáveis
e a solidão fosse completamente impossível – o silêncio abria-se
num manancial de palavras profundamente comovidas
[que nos enchiam de ternura
e nos aproximavam
dos incontáveis registos da fraternidade, a noite
era expulsa para sempre
e os braços davam-se e ardiam.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender que a felicidade
é algo muito mais tangível do que o que nós pensávamos
se se constrói pedra a pedra e palmo e a palmo se conquista
quando uma vontade solar e a solidariedade
não deixam ninguém ficar desprevenido – o assombro
principia a exercer o seu poder admirável, chega como
uma chuva benigna com o perfil da paz, tem o odor
interminável
da alegria.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a conjugar um futuro
um pouco mais perfeito, a erguer
a cabeça, a defendermo-nos
das múltiplas armadilhas que o ódio arma –
[entrávamos pela manhã
ainda com maior vitalidade
e com um pouco do azul da primavera progredíamos
como um par de namorados:
a proliferante espontaneidade dos seus beijos
transformaria o mundo…

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender que a frescura
é um bem vertiginoso que é necessário preservar cada vez mais
e que não basta a um homem
o benefício das mãos limpas perante a enternecedora figura de esperança
quando os lobos são os mais acérrimos inimigos da exclusiva claridade que há nas praias
e com falsos dentes de oiro esperam um mínimo descuido
para que possam destruir de um só golpe os sonhos e a beleza
de quem abre as portas de par em par a bens muito
[maiores
para que a volúpia entre e alvorece o ar.

A partir desse dia poderíamos ter começado a aprender a agir conclusivamente
sobre o passado, a prevenir
o mal do desencanto.

Amadeu Baptista em Poemabril 

domingo, 25 de abril de 2021

EI-LA A CIDADE


Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma

em praças ruas becos boîtes e monumentos

Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote

Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria

e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone

Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Ei-la a cidade prometida

esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor

Daniel Filipe em  A Invenção do Amor e Outros Poemas

Legenda: fotografia de Filipe Jorge em Lisboa Vista do Céu

sábado, 24 de abril de 2021

É A MEDO


É a medo que escrevo. A medo penso,
a medo sofro e empreendo e calo.
A medo peso os termos quando falo
A medo me renego, me convenço

A medo amo. A medo me pertenço.
A medo repouso no intervalo
de outros medos. A medo é que resvalo
o corpo escrutador, inquieto, tenso.

A medo durmo. A medo acordo. A medo
invento. A medo passo, a medo fico.
A medo meço o pobre, meço o rico.

A medo guardo confissão, segredo.
Dúvida, fé. A medo. A medo tudo.
Que já me querem cego, surdo, mudo.


José Cutileiro 

sexta-feira, 23 de abril de 2021

INSISTO


 Postal de uma Colecção da Associação José Afonso.

JUIZES


E vós    juízes nossos

que sem pestanejar obedeceis

a leis iniquas

deste injusto e sujo tempo

e por vezes as ultrapassais

que direis

no dia do vosso julgamento

                                         Plenário, Abril 73

José Carlos Vasconcelos   

quinta-feira, 22 de abril de 2021

OS OLHOS DO POETA

O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,
e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gestos dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando com contos-de-fada à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando a tempestade:
- todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

Legenda: fotografia de Yves Bottineau

terça-feira, 20 de abril de 2021

MARGEM SUL



Ó Alentejo dos pobres,
reino da desolação,
não sirvas quem te despreza,
é tua a tua nação.

Não vás a terras alheias
lançar sementes de morte.
É na terra do teu pão
que se joga a tua sorte.

Terra sangrenta de Serpa,
terra morena de Moura,
vilas de angústia em botão,
doce raiva em Baleizão.

Ó margem esquerda do Verão
mais quente de Portugal,
margem esquerda deste amor
feito de fome e de sal.

A foice dos teus ceifeiros
trago no peito gravada,
ó minha terra morena
como bandeira sonhada.

Terra sangrenta de Serpa,
terra morena de Moura,
vilas de angústia em botão,
doce raiva em Baleizão.

Urbano Tavares Rodrigues

segunda-feira, 19 de abril de 2021

ERGUEM-SE MUROS


Erguem-se muros em volta

do corpo quando nos damos

amor semeia a revolta

que nesse instante calamos

 

Semeia a revolta e o dia

cobrir-se-ão de navios

há que fazer-nos ao mar

antes que sequem os rios

 

Secos os rios a noite

tem os caminhos fechados

há que fazer-nos ao mar

ou ficaremos cercados

 

Amor semeia a revolta

antes que sequem os rios... 

 

António Ferreira Guedes

domingo, 18 de abril de 2021

MEU PAÍS DESGRAÇADO


E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!…
Porque fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!


Sebastião da Gama em Cabo da Boa Esperança

sábado, 17 de abril de 2021

ATÉ LOGO

                                                                       À Isaura

 

Há oito meses dissemos:

- Até logo!

Era uma tarde fria de Novembro

uma tarde como qualquer outra

gente regressando a casa do trabalho

lancheiras malas rugas profundas no rosto.

 

Se houvesse malas de mão

para a saudade a desventura

não havia malas no mundo que chegassem…

 

Era uma tarde fria de Novembro.

Não sei se alguém sorriu

do beijo que trocámos.

- Até logo - disseste.

 

Depois passaram oito meses (1)

os meses mais compridos que tenho encontrado.

Que pensamentos levava comigo?

Sei que disseste «até logo»

E era como se levasse as tuas mãos

Abertas sobre o meu peito.

 

Pensava

que só nas despedidas breves

por horas

se dizia «até logo»

como a alguém que parte

«boa viagem»

ou ao nosso companheiro

«bom trabalho».

 

Mas já passaram oito meses

duzentos e quarenta dias

cinco mil e setecentas horas.

Porque disseste

«Até logo»?

 

Se eu não soubesse

aprenderia que na minha pátria

os namorados dizem «até logo»

e estão meses anos

por vezes não voltam mais.

 

Fecham-nos

atrás de grades de ferro

espancam-nos

matam-nos devagar

e não permitem que apareçam

«logo».

 

Amiga

o ódio que trago armazenado

destas noite de insónia e abandono

dou-o à luta.

Mas temos que sofrer

sofrer deveras.

Até que um dia

Os homens cantarão livres como os pássaros

os namorados beijarão sem pressa

e as palavras «até logo»

quererão dizer simplesmente

«até logo»


(1) Os oito meses transformaram-se em dez anos. Noutros casos, quinze, vinte anos e mais.

António Borges Coelho em Fortaleza

Legenda: Isaura Borges Coelho

sexta-feira, 16 de abril de 2021

RECUSO-ME




Recuso-me a ficar amolecido
Tragicamente cilindrado
E muito antes de lutar – vencido
E muito antes de morrer – violado.

Recuso-me ao silêncio e à mordaça
Serei independente, livre e exacto
A verdade é uma força que ultrapassa
A própria dimensão em que combato.

Recuso-me a servir a violência
Embora a minha voz de nada valha
Mas que me fique ao menos a consciência
De que tentei romper esta muralha.

Recuso-me a ter medo e a estiolar
Na concha dos poetas sem mensagem
Que me levem o corpo e a coragem
Mas que fique esta voz para cantar.

 João Apolinário

Legenda: fotografia de Maria Calisto

quinta-feira, 15 de abril de 2021

MEU PAÍS


Meu país meu pais

Do céu límpido calmo

De campos cultivados

De praias e montanhas.

 

É para ti meu canto

A minha esperança.

 

Ouço a tua voz triste

Oh, meu país sem culpa

Ouço-a nos dias mornos

No amanhecer cinzento.

 

E é para ti meu canto

A minha esperança.

 

Meu país onde a traição domina

E o medo assoma nas encruzilhadas

Meu país de prisões e covardias

E de ladrões de estradas.

 

Meu país de operários

Cavadores, marinheiros

Meu país de mãos grossas

Plebeu, sensual, resistente.

 

É para ti meu canto

A minha esperança.

 

Para ti meu país

Levanto a minha voz sobre o silêncio

Desta noite de angústias

E de medos.

 

Nada pode calar

O nosso riso aberto

Ei-lo que invade

A terra portuguesa

E vozes juvenis

formam o coro.

 

Por isso é para ti meu canto

A minha esperança.

 

Já ouço passos,

Vêm na distância

Desfraldando bandeiras e cantando

E é para ti ó meu país liberto

O seu canto de esperança e claridade.

Daniel Filipe