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segunda-feira, 25 de abril de 2022

NO IMPONDERÁVEL AZUL CELESTE


 É, andei por aí.

 Com gente, procurando gente, pontes e vales, tem sido assim esta vida. E houve aquele dia, 25 de Abril de 1974.

 Dizem que por um Abril houve uma revolução, outros dizem que houve um golpe de estado, outros ainda que houve uma abrilada, sucederam coisas gritadas nas ruas, outras soavam nas sombras clandestinas.

 Na escola disseram aos miúdos que tinham que ir para casa, estava a acontecer qualquer coisa em Lisboa.

 Que comemoramos hoje? Que resta daquele dia?

 O chefe de redacção telefonou ao repórter, gritou-lhe: Salta da cama. A Revolução está na rua e é precisos escrevê-la!

 Isso é passado, é tão passado que eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que hoje não posso ver nenhum sinal, daquilo que o 25 de Abril trouxe.

 Podemos saudar o desespero que nos invadiu perante algo que falhou?

 Estragaram a tua festa pá!, cantaram no outro lado do Atlântico.

 Houve quem dissesse que as revoluções são sonhadas por idealistas e realizadas por fanáticos, e quem delas se aproveita são os oportunistas de todas as espécies.

 O 25 de Abril é um dia e são dias. É daquelas datas que se constelam que estão antes de hoje, que hoje ecoam ainda, e que tremeluzirão no depois de hoje.

 Quase sem darmos por isso, milhares de pessoas invadiram as ruas, ofereceram pão e cravos aos soldados, deram as mãos, sorriram, dos olhos saltavam sonhos e esperanças.

 Alguém perguntou como era possível tanta e tanta gente quando meses antes, semanas antes, dias antes, eram tão poucos aqueles que apareciam para escrever palavras de ordem nas paredes da cidade, colar cartazes, distribuir uns panfletos impressos a stencil…

 Será a memória curta? Apaga-se com facilidade?

 O apagamento de memória é chocante.

 Deste dia até ao 1º de Maio, é provável que muitos devem ter dormido, mas não se lembram bem. Uma semana de loucura já ninguém me tira, posso não ser feliz mas poucos chegaram tão perto disso a que chamam felicidade.

 É preciso ter vivido os anos terríveis, o tempo do desprezo, um tempo de ratazanas, para que aquele dia tivesse sido o que foi, um navio de sonho, uma nave de loucos, protagonistas duma enorme esperança, depois figurantes de um grande desencanto.

 Terá sido assim há tanto tempo?

 A ditadura acabou por ser derrubada por militares que antes desprezávamos.

 Dezassete horas e 45 minutos bastaram para abater um regime que oprimiu o povo português durante 47 anos, 10 meses, 34 dias e algumas horas.

 Teremos feito tudo para que as novas gerações fossem mais felizes?

 Vale a pena assinalar a data quando nos esquecemos de ensinar a importância que aquele dia nos trouxe? Olham-se as pessoas de hoje, os jovens de hoje, formam um grupo largo e variado mas, olhando bem, estamos todos muito mal no retrato de conjunto…

 Algures, numa dobra da história, alguma coisa falhou. O cantor, de viola às costas, acabou por dizer que houve alguém que se enganou.

 A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém.

 Naqueles dias, quase poderíamos dizer que a paisagem mudara para sempre.

 As paisagens até podem mudar, o resto… o resto… o resto… é uma chatice… um busílis de questão…

 O escritor perguntava e respondia: para que serve a utopia? Serve para que eu não deixe de caminhar.

 Um dia voltaremos a encontrar-nos todos no imponderável azul celeste.

 E recomeçamos a busca dum país liberto, duma vida limpa e dum tempo justo.

 Mas será que ainda verei alguém desenhar os nomes daqueles que, na sombra, nos lixaram a festa?

 

Montagem concedida com textos de:

 Jorge Silva Melo, Virgílio Martinho, Baptista-Bastos, José Saramago, Rui Cardoso Martins, Chico Buarque, Manuel António Pina, Manuel Gusmão, Rodrigues da Silva, João Gobern, José Mário Branco, Eduardo Galeano, Mário Dionísio, Cristina Carvalho, Sophia de Mello Breyner Andresen.

 

Legenda: pintura de Vieira da Silva

terça-feira, 11 de outubro de 2016

CONTRACAPA



Contracapa de O Grande Cidadão de Virgílio Martinho.
A 1ª edição do livro é de Fevereiro de 1963.

sábado, 26 de setembro de 2015

V.S.T. & ETC


A Colecção &etc não está numerada.
Mas Coisas, um volume colectivo, é o primeiro livro editado.
Vi o anúncio da sua publicação na folheca nº 18, Dezembro de 1973.
Fiquei atento.
Mas à cautela pedi ao Carlos Porto, um dos autores antologiados, por esse tempo colaborador do República e um dos donos da Livraria Opinião, que me reservasse, logo que desse à luz, um exemplar.
Foi assim que o livro chegou às minhas mãos.
Tanto quanto me lembro, o livro não teve distribuição pelas livrarias.
Ainda existia a censura e a PIDE e era necessário tomar cautelas e caldos de galinha.
Os textos são da autoria de Adelino Tavares da Silva, António Manaças
Baptista-Bastos, Carlos Porto, José Martins, Nelson de Matos, Paulo da Costa Domingos, Pedro Oom, Virgílio Martinho e de Vitor Silva António Manaças.
Cada texto é antecedido de um desenho.
Os desenhos são da autoria de Ferreiro, Eurico, Lud, com dois desenhos, Figueiredo Sobral, João Rodrigues, Ana Machado, Gonçalo, Aurélia e Aldina.
Ao tempo da publicação de Coisas a &etc situava-se na Rua da Mãe d’Água nº 13-2º.Dtº.
A dedicatória do Vitor Sila Tavares, é colocada no livro, mais mês menos mês, quarenta anos depois da sua publicação.


O texto do Vitor Silva Tavares, publicado em Coisas, termina assim:

Que tal um lar saudável com espaços verdes à volta (na famosa costa do sol)? Nos subúrbios, tanto ranho nas ventas da criançada! Maria, vaza o penico. Morre-se confortado pela Santa Madre Igreja. Os mortos têm todo o tempo a seu favor. Que excitação para os pequeninos espectadores! BIB BIC BIC, a minha terceira escrita. Sofro de cancro na bic. E na tola. E enfim. E mais um automóvel: o Marine é de facto um carro a sério, um fora de série, e por isso dizemos que é tudo quanto se pode desejar num automóvel. Pois pois. Quem sabe comprar, sabe pagar! Segue-se um programa de variedades. Poetas doidos rebentam de sonho e fel nas noitadas a bagaço e cervejame. Como é triste Veneza ll n’y a plus rien. Para o mês que vem veremos. Cá vamos chorando e rindo. Tanta conversa fiada dá-me cabo da molécula. Assim como assim. Tive uma ideia maluca para pôr aqui. Esqueci. Bebi. Cichi. (…)

                 «Imoderato chorabile» é um excerto (ex certo) do texto
                 «Falar desta castração», escrito no Verão de 1972 e con-
                  servado (ainda bem!) inédito.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Coisas

Adelino Tavares da Silva – António Manaças – Baptista-Bastos – Carlos Porto – José Martins – Nelson de Matos – Paulo da Costa Domingos – Pedro Oom – Virgílio Martinho – Vitor Silva Tavares
Capa: João Vieira
&etc, Lisboa, Março de 1974

Num pequeno país atrasado e pobre o Primeiro-Ministro preocupava-se muito com a ignorância do seu povo.
 A percentagem de iletrados era tal que não se descortinava maneira de arrancar do estado de subdesenvolvimento para a fase industrial a que o país necessitava chegar.
O Primeiro-Ministro reuniu os melhores pedagogos do país que elaboraram um pequeno livro de bolso, a que chamaram a “Cartilha Paternal”, onde se resumia em frases simples toda a Ciência existente.
A “Cartilha Paternal” foi distribuída gratuitamente a todo o Povo, o qual lhe deu a serventia que estava habituado a dar a tudo o que fosse papel, liso ou impresso.

Moral: a instrução não custa um tostão…


(Pedro Oom)

sábado, 15 de fevereiro de 2014

LUIZ PACHECO, EDITOR

E ficas já a saber, meu bom Silveira, que sendo ele Luís de nome próprio como tu, este Pacheco de quem se torna inevitável que dele fale nesta narrativa teve uma vida de sete e mais fôlegos, padeceu o que nem ao diabo lembra, mas fez a sua travessia na coerência e justa pretensão de publicar alguns bons livros que fez chegar às mãos de muita gente através de um ficheiro bem organizado e em trabalho artesanal de largos anos. Editou os livros que mais lhe agradaram, alguns assinalaram mesmo a estreia literária dos seus autores (Herberto Helder, Manuel de Lima, António Tavares Manaças ou carlos Wallenstein), e devo dizer-te que foi ainda companheiro e amigo de poetas e pintores ligados ao surrealismo português.

Serafim Ferreira em  Olhar de Editor, Editorial  Escritor, Lisboa Outubro de 1999.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

OLHAR AS CAPAS



Grifo

Antologia de Inéditos Organizada e Editada pelos Autores:
António Barahona da Fonseca, António José Forte, Eduardo Valente da Fonseca, Ernesto Sampaio, João Rodrigues, Manuel de Castro, Maria Helena Barreiro, Pedro Oom, Ricarte-Dácio, Virgílio Martinho.
Realização Gráfica de Vitor Silva Tavares.
Lisboa, Abril 1970

Poesia não é uma medalha para por no peito dos tiranos mas uma imensa solidão feita de pedras, onde o despotismo pode encomendar o ataúde. Cada um de nós odeia o que ama. Por isso o poeta não ama a poesia que é só desespero e solidão mas acalenta ao peito as formigas da revolta e da rebeldia, que todos os déspotas querem submissas e procriadoras. Só os voluntários da miséria e da submissão patriarcal querem a poesia na arca da aliança com a tradição pacóvia e regionalista dos pretéritos dias, glórias patrioteiras, heroicidades frustres, pirataria ignara. Todo o verdadeiro poeta despreza o pequeno monte de esterco onde o dejectaram no planeta e a que os outros chamam pátria, e só ama os grandes continentes mares e oceanos da liberdade e do amor. Só nos vastos espaços incriados a poesia serve o seu destino – catapultar o homem nos abismos do desejo incontrolado onde o próprio assassinato é um acto de poesia e de amor. Este assassinato de que falo é o grande amplexo de homem para homem a solidariedade e a ternura, não a caridade hipócrita ou a cama de família, com todo o seu pequeno cortejo de horrores, onde a exploração do filho pelo pai dita a sua lei.