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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ALI ONDE SEM NOME A PÁTRIA

Ali onde sem nome a pátria escura

me repete onde nasce a Primavera,

ao silêncio do dia que não espera

eu dou a voz subitamente pura.

 

Horror que foge sempre e que perdura,

muro imortal amando a própria hera,

assim eu oiço o anjo além da fera,

suave luz queimando a noite dura.

 

Surge um fogo sem espanto, negro e alvo.

Dissolve‑se a montanha. Totalmente.

Alguém que me seguia já está salvo.

 

E fico só. E canto. E sigo em frente.

Ao fim da minha voz encontro o alvo

onde os deuses a ferem mortalmente.

 

20.2.1954

 

Alberto de Lacerda

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

POEMAS AUTOGRAFADOS

Alberto de Lacerda e Exílio veio naquela vaga  em que pedi ao meu pai que me ajudasse a encontrar os novos poetas portugueses. O meu pai não era um conhecedor dessa poesia, mas tentou encontrar quem o ajudasse. Disseram-lhe que o melhor caminho era a Colecção Poetas de Hoje, editada pela Portugália Editora.

A vantagem desta colecção única, para além da qualidade dos poetas, residia no facto de a Portugália convidar um poeta para fazer a apresentação do autor.

A Alberto Lacerda calhou o grande poeta e amigo António Ramos Rosa.

Exílio é o nº 13 da Colecção Poetas de Hoje.

Lembro que a poesia de Alberto Lacerda trouxe-me dificuldades, só muito mais tarde debeladas. Nem todas.

Nascido na Ilha de Moçambique, passou pelo Brasil, pelos Estados Unidos e viveu mais de 50 anos em Londres.

O poeta, crítico, e seu grande amigo, Eduardo Pitta, escreveu que Alberto de Lacerda «nunca acertou contas com Portugal que não passou de um intervalo na sua vida.»

Alberto de Lacerda é uma das grandes vozes da poesia portuguesa da segunda metade do século XX.

Poucos repararam. Muitos, oh! tantos, tantos, continuam sem reparar.

Morreu em Londres, tinha 78 anos, a 26 de Agosto de 2007. 

John McEwen, o crítico de arte com quem tinha combinado almoçar nesse domingo, estranhou o atraso e acabou por arrombar a porta.

Escreveu Eduardo Pitta:

«Alberto de Lacerda ainda estava vivo, porém em coma. Morreria horas depois. Conhecendo-o como conheci, sei que teria apreciado o detalhe final.»

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

ANO NOVO

Virás de manto realmente novo

Entre searas ardentes e mãos puras?

Poderemos enfim chamar-te novo,

Ano novo entre as tuas criaturas?



Deceparás enfim as mãos tiranas?

Será feita, enfim, nossa vontade?

Eu queria acreditar, vozes humanas,

Acreditar em ti, deus da verdade!



Como eu queria trazer-te a este mundo

(Mas onde te escondeste? Desde quando?)

Ó deus livre, sem espinhos, ó fecundo

Senhor do fogo alegre e não do pranto!



Ó ano novo, a minha esperança é cega.

Transforma em luz a nossa própria treva.

 

Alberto de Lacerda em Exílio

quarta-feira, 10 de abril de 2024

SUBMETI-ME

Submeti-me

A algo de mais insidiosamente forte ainda do que a brisa

 

Naveguei na casca de sumaúma rio heraclitiano acima

 

O pajem formidável dos indícios

Respondeu

                    De nenhures

Sem que eu jamais ousasse

Sequer murmurar

A pergunta fatal


Alberto de Lacerda em Resumo: a poesia em 2010

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

LONDRES REENCONTRADA

O passeio do outro lado da rua

Gente
Que não conhecerei nunca

Ninguém mais nesta mesa
De um café milenário –
Raras vezes
Terei estado menos só

A nave espacial chamada terra
Singra comigo tarde adiante

Tudo volve milenário
As pedras da rua
O cimento gasto do passeio
As recordações

Alberto de Lacerda de O Pagem Formidável dos Indícios em Resumo: a poesia em 2010.

terça-feira, 8 de junho de 2021

MANDIMBA METÓNIA VILA CABRAL


Infância triste mas encantada
Em casas grandes muito sombrias
Outras crianças não as havia
Os meus amigos? Dois grandes gatos
A luz o vento a água a água

Se alguém tocava velho e roufenho
O gramofone de manivela
Eu perturbava-me e a quem me via
Com lágrimas que não entendia

Havia festas de vez em quando
Eram janelas do paraíso
Lembro os adultos. Como eram estranhos
Como eram estranhos e imprevistos

Como eu sentia que não sei onde
Um outro reino de festa e luz
Inteiramente me pertencia
E só de longe naquelas casas
Naquela gente que me era fria
Muito por alto se reflectia

 

Alberto de Lacerda em Exílio

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

POSTAIS SEM SELO

Agora há só abismos não há rostos.

Alberto Lacerda em Exílio

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

A FESTA RECUSADA

E nasce entre clarins amachucados

O desejo de nunca mais ouvir

O som de bosques puros deslumbrados

Que os deuses não nos deixam descobrir

 

E nasce aquele som viril e brando

Da minha voz estranha que te despe

Da minha voz ardente imaginando

O amor que passou e que não deste

 

E nasce entre cilícios da orquestra

No soluço mais puro e mais oculto

A presença abolida de outra festa

Que fora prometida no teu vulto

 

A festa recusada que tornara

Os dois um rosto só medalha rara

 

Alberto Lacerda em Exílio 

quarta-feira, 10 de junho de 2020

CAFÉ


Bebida forte apaixonada
Hierática violenta
Traz-nos o estímulo da treva
Que a luz sustenta

Traz-nos a noite ao paladar
Onde as estrelas brilham mais
É um aperto de mão viril
Que nos desperta para as coisas reais

Alberto de Lacerda em Exílio

segunda-feira, 1 de abril de 2019

O TEU NOME


Não poder eu dizer como suprema
Festa da existência o constelado
Perfume do teu nome

Não poder eu dizer no mais subido
Terraço deste mundo e das estrelas
O brilho imperecível do teu nome

Não poder confundir na voz do vento
Ouvindo-as toda a gente
As sílabas cantantes do teu nome

Não poder habitar tudo o que és
De visível e invisível
Ai
Não poder eu
Ser o teu nome

Alberto de Lacerda em Exílio

quarta-feira, 13 de junho de 2018

BAIRRO ALTO


Era uma rua que ria
Sùbitamente
Não era sorriso era um riso
Em que a rua se abria até morrer
Numa rua perpendicular
Eram roupas dançando
De janela pra janela
- Saias lençóis calças de operário –
Frente a frente e os prédios rindo
Como cabeças que quase se tocassem
De tanto rir àquela hora da manhã
No Bairro Alto

Alberto Lacerda em Exílio

domingo, 25 de março de 2018

LOURENÇO MARQUES REVISITED


A água que murmura espectros lentos
O que houve e não houve e não volta nunca mais
Os quartos sem esperança que os guardasse
As casas sem anjo da guarda

A luz intensa bela e dolorosa
A adolescência dilacerada
A ternura dezoito anos recusada
Na casa dos Átridas
O crime horroroso que não houve
Mas as feridas abriram manaram um sangue

Que penetra implacável as fendas do sono
E me deixa acordado à beira da estrada
Com lágrimas que percorrem
Trinta e quatro anos

Lourenço Marques, 11 de Fevereiro de 1963

Alberto Lacerda em Exílio

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

NATAL


A festa do deus alheio
A mim e a tantos homens
Passou.
Mas é profundo o grito
- É cada vez mais fundo –
Da festa que alguém, algures,
Nos negou.

Alberto de Lacerda  poema tirado da Antologia Natal….Natais  

Legenda: Postal pintado com a boca por J. Borek Unikowska

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

NEW YORK 1970


Vi o Hudson
E a sua pele de pantera escura

Vi o Hudson
E a sua pele de pantera escura

Atravessei Harlem às onze da noite
Vi rostos e rostos e rostos negros
E não ouvi «jazz»
E não ouvi ninguém
Cantar ~blues»

Atravessei Harlem
Por entre uma multidão imensa
Sentada às portas

Atravessei Harlem
Noite fechada
E não ter ouvido ninguém tocar «jazz»
Não ter ouvido ninguém percorrer lentamente
O rio interminável de um «blue»
Foi como ter ouvido

Um silêncio de morte

No tumulto das vozes

Alberto de Lacerda

Publicado no Diário Popular de 13 de Agosto de 1970

segunda-feira, 24 de março de 2014

À CIDADE DE LISBOA


Apesar do horror em que vives mergulhada
Apesar do horror em que vivemos mergulhados
Hei-de sentir saudades quando partir de novo
Quando partir de novo sem saudades nenhumas

Alberto de Lacerda em Exílio, Portugália Editora, Lisboa, Dezembro de 1963

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

OLHAR AS CAPAS


Exílio

Alberto de Lacerda
Prefácio de António Ramos Rosa
Colecção Poetas de Hoje nº 13
Portugália Editora, Lisboa Dezembro de 1963


REGRESSO

Não vim à procura de nada
Nem de saudades que não tenho
Nem de carga do tempo perdido
Nem de conflitos sobrenaturais
Do tempo e do espaço

Amei desde criança
Certas coisas que não choro
Fui a pureza deslumbrada que não volta jamais
O vidro sem ranhura que o sol atravessa
A pureza
Que me deixou feridas imortais

Vim para ver
Para ver de novo
Para contemplar sem perguntas
Não vim à procura de nada
Não me perguntem por nada
Um rio não se interroga
O vento não se arrepende.