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segunda-feira, 6 de outubro de 2025

CARTA AO FILHO

Não vivas sobre a terra como um estranho

Um turista no meio da natureza.

Habita o mundo como a casa do teu pai.

Crê na semente, na terra, no mar.

Mas acima de tudo crê nas pessoas.

Ama as nuvens,

as máquinas,

os livros,

mas acima de tudo ama o homem.

Sente a tristeza do ramo que murcha,

do astro que se extingue,

do animal ferido que agoniza,

mas acima de tudo

sente a tristeza e a dor das pessoas.

Alegra-te com todos os bens da terra,

com a sombra e a luz,

com as quatro estações.

Mas acima de tudo e a mãos cheias,

alegra-te com as pessoas.

 

Nazim Hikmet

sábado, 20 de fevereiro de 2021

RELACIONADOS


ACCiÓN  - AC – 4LP (edição espanhola) 

Lado A

Y Nace El Sol – Los Jinetes – El Hambre – La Ciudadede Goma – El Niño Muerto – La Guerra – La Guerra Que Vendra – Quando Mi Hijo Nacio

Lado B

La Muerte – Me Queda La Palabra – No Nos Dejan Cantar – La Peste – La Niña de Hirosima – Masa – Himno

Três são os poemas de Nazim Hikmet que Manolo Diaz musicou para este disco dos Aguaviva. Um desses poemas é Eles Não Nos Deixam Cantar, Robeson.

Apocalipsis é uma ideia de Jose Antonio Muñoz, com os diversos capítulos pontuados  com poemas de Alfredo Mañas, Gabriel Celaya, um africano anónimo, Bertold Brecht, Nazim Hikmet, Blas de Otero, Cesar Vallego,  para músicas de Manolo Diaz.

«Desde que o mundo é mundo, todas as tardes o dia expira e a morte faz um pacto com a noite.»

ELES NÃO NOS DEIXAM CANTAR


Eles não nos deixam cantar, Robeson,
Meu canário de asas de águia,
Meu irmão negro de dentes de pérola.
Não nos deixam gritar as nossas canções.
Eles têm medo, Robeson,
Medo da aurora, medo de ver,
Medo de ouvir, medo de tocar.
Eles têm medo de amar,
Medo de amar como Ferhat amou, apaixonadamente.
(Decerto também vocês, irmãos negros,
têm um Ferhat, como lhe chamas, Robeson?)
Eles têm medo da semente e da terra,
Medo da água que corre,
Medo de se lembrarem.
A mão de um amigo
Que não queira desconto, nem comissão, nem moratória,
Nunca virá apertar-lhes a mão
Como um pássaro quente.
Eles têm medo da esperança, Robeson, medo da esperança!
Eles têm medo, meu canário de asas de águia,
Têm medo das nossas canções, Robeson...

Nazim Hikmet

(Tradução encontrada no Avante de 24 de Janeiro de 2002)

Legenda: pormenor da capa do LP Apocalipsis dos Agua Viva

domingo, 1 de fevereiro de 2015

DANIEL FILIPE


Há 90 anos, na Ilha da Boavista em Cabo Verde, nascia Daniel Filipe.

Em todas as esquinas da cidade, nas paredes dos bares um cartaz denuncia o nosso amor.

É assim que começa o belíssimo poema a Invenção do Amor.

Um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel, numa tarde de chuva, e inventaram o amor com caracter de urgência.

Apenas em alfarrabistas – e é necessário ter um grão de sorte – é que é possível os livros deste poeta de quotidianos de homens e mulheres que tinham olhos, coração e fome de ternura.

Foi tudo calculado com rigores matemáticos. Já não podem escapar.

Escaparam.

Com dificuldades múltiplas até que chegou aquele dia inicial inteiro e limpo em que olhámos a cidade prometida e esperámos por ela tanto tempo.


Pátria, Lugar de Exílio

Neste ano de 1962
não como Nazim Hikmet no avião de pedra
mas na minha cidade
livre de ir onde quiser
e no entanto prisioneiro
neste ano de 1962
exactamerite
em Lisboa
Avenida de Roma número noventa e três
às três horas da tarde

Neste ano de 1962
encostado a urna esquina da estação do Rossio
 esperando talvez a carta que não chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo

aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura

Aqui mesmo a não sei quantos graus de latitude
e de enjoo crescente
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro de contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária de fábrica com três filhos famintos

Aqui mesmo envolto na placidez burguesa
higienicamente limpo e com os papéis em ordem
vestido de nylon dralon leacril
com acabamentos sanitized
e lugar marcado junto do aparelho de TV
eu
enjoado de tudo e contemporizando com tudo
eu
peça oleada do mecanismo de trituração
eu
incapaz de suicídio descerrando um sorriso-gelosia
eu
apesar de tudo vivo apesar de tudo inquieto
apesar de tudo farto
eu
neste ano de 1 962
exactamente
não ontem mas precisamente às três horas da tarde
pela hora oficial
exilado na pátria

Daniel Filipe em Pátria, Lugar de Exílio