quarta-feira, 12 de agosto de 2026

DE UMA PARAGEM A OUTRA

Quando me sentei na mesma mesa de café

em que o pessoa tomava café, no martinho da arcada,

e o eléctrico que passava era oi mesmo

que ele apanhava para ir trabalhar, tinha

uma dúvida se não tivesse com ele algum papel

para escrever o poema que tinha na cabeça,

conseguiria escrevê-lo no bilhete, parindo

do princípio de que se consegue meter num bilhete

de eléctrico, uma ode, mesmo que não seja

tão triunfal como a outra? E apanhei o mesmo

eléctrico que ele, embora não tivesse

a certeza de que me estava a sentar

no mesmo banco em que ele se sentava,

e comecei a escrever nas costas do bilhete

uma ode inteira:

Um poema não precisa

de caber num bilhete, se um bilhete

nos levar para o poema.

Na realidade,

a ode coube no bilhete, só não sei

se o bilhete chegou para me levar

onde eu queria.


Nuno Júdice em Primeiro Poema

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