Quando me sentei na mesma mesa de café
em que o pessoa tomava café, no martinho
da arcada,
e o eléctrico que passava era oi mesmo
que ele apanhava para ir trabalhar,
tinha
uma dúvida se não tivesse com ele algum papel
para escrever o poema que tinha na
cabeça,
conseguiria escrevê-lo no bilhete,
parindo
do princípio de que se consegue meter
num bilhete
de eléctrico, uma ode, mesmo que não
seja
tão triunfal como a outra? E apanhei o
mesmo
eléctrico que ele, embora não tivesse
a certeza de que me estava a sentar
no mesmo banco em que ele se sentava,
e comecei a escrever nas costas do
bilhete
uma ode inteira:
Um poema não precisa
de caber num bilhete, se um bilhete
nos levar para o poema.
Na realidade,
a ode coube no bilhete, só não sei
se o bilhete chegou para me levar
onde eu queria.
Nuno Júdice
em Primeiro Poema
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