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quinta-feira, 16 de julho de 2026

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Um texto de José António Barreiros sobre a Seara Nova:

Não sei se é uma tristeza ou uma vergonha. Aqui fica o aviso, avisei-me a mim próprio esta tarde. Daqui a pouco começa a quietude do entardecer. Naquele tempo, aos sábados, talvez por ser a hora da tristeza, eu lia. Hoje, que escrevo, não sei se o meu mundo estará melhor.

Apesar da negritude cultural em que a ditadura de Salazar mergulhou o país, apesar do cinzetismo que foi a ditadura de Marcelo Caetano, esse estranho equivoco que deu pelo nome de primavera marcelista, existiam pequeninos faróis que serviam de porta-aviões onde fomos descortinando algo, principalmente nas entrelinhas. Apesar de tudo havia uma oferta cultural que fez algumas diferenças, só possíveis à teimosia e coragem de alguns intelectuais. Jornais e revistas conseguiram furar o cerco da ignorância, da solidão, do despotismo, do medo, sobretudo do medo.

Do Sótão tirou algumas dessas revistas que lhe acompanharam os dias daqueles tempos. Começa pela “Seara Nova”, uma revista fundada em Lisboa em 1921. O primeiro número saiu em 15 de Outubro desse ano, por iniciativa de Raul Proença a que se juntou um naipe de intelectuais portugueses onde, entre outros, pontificavam António Sérgio,, Câmara Reys, Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão. Na sua origem era uma publicação essencialmente doutrinária e crítica, assumidamente com fins pedagógicos e políticos. Recusaram ser partido político apenas pretendiam contribuir para quebrar o isolamento da elite intelectual portuguesa, aproximando-a da realidade social.

Apesar das vicissitudes resultantes da censura e das dificuldades financeiras que o projecto atravessou, publicou-se regularmente até 1989. O seu último número corresponde aos meses de Outubro/Novembro desse ano e tem o número 1596/1597. Custava 30$00 e o seu director era Ulpiano do Nascimento.

No editorial deste último número regular da Seara Nova, já se dava conta que a revista abandonara a sus periodicidade e vivia as dificuldades sentidas por milhares de pequenas e médias empresas ao mesmo tempo que se estudavam medidas tendentes a sanear financeiramente a empresa, de forma a poder viabilizar-se o projecto patriótico e humanista que a Seara Nova se impôs.
Não foi possível. A ditadura nunca conseguiu calar a voz à “Será Nova”, os novos tempos democráticos permitiram-no.

Este é o número mais antigo da “Seara Nova “ que possui, referente aos meses de Novembro/Dezembro de 1957 e com os números 1345/1346. Era director Câmara Reys e custava 5$00. A meio da primeira página pode ler-se “VISADO PELA COMISSÃO DE CENSURA” e, entre outros, regista colaboração de Fernando Piteira Santos, João de Barros, Victor de Sá, Mário Sacramento, Lilia da Fonseca, José-Augusto França. aso números 1345/1346
Porque é um documento histórico transcreve-se a Declaração de Princípios, publicada no primeiro número da revista:

“O GRUPO SEARA NOVA:
- não lisonjeará nenhuma classe da sociedade
- não dará a nenhum dos seus aderentes qualquer beneficio de ordem pessoal
- não pretende o poder, mas preparar as condições necessárias de todo o verdadeiro poder
- quer a Revolução mas não aplaude as revoluções
- quer semear em proveito colectivo, e não colher em proveito próprio
- não se limita a prosternar-se perante as glórias passadas da Pátria: quer criara para a Pátria uma nova glória
- não olha o passado, marcha resolutamente para o Futuro.
- não se limita a glorificar os mortos heróis: quer que apareçam os heróis vivos.
- não fará festas, nem lançará morteiros. Dirige todos os esforços para a acção, e para a preocupação do dia de hoje e de amanhã.”

Legenda: 1º número da Seara Nova , imagem tirada da Internet.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

VELHOS RECORTES

Recorte do Diário de Lisboa-Juvenil que mostra que Nuno Júdice ganhou o prémio de poesia, 2ª Semana do Concurso Fósforo Ferrero.

O poema Introspecção com que Nuno Júdice venceu o Prémio de Poesia Fósforo Ferrero.

O anúncio da Fósforo Ferrero que patrocinava os Prémios do Diário de Lisboa-Juvenil.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

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Indo ao Outro Lado das Estantes deu para encontrar as Selectas Literárias em que estudei  nos meus anos de liceu.

Folheando fui parar a um poeta, Gonçalves Crespo, de que a Biblioteca da Casa não tem qualquer livro.

O  poema A Sesta, tem, anotado a lápis, a palavra «musicalidade». Terá sido uma observação do professor que eu terei apanhado e colocado ao lado do poema que hoje se publica no https://caisdoolhar.blogspot.com/2024/02/a-sesta.html

Os elementos biográficos do autor, publicados na Selecta, e que acima de reproduz, falam também da sensibilidade quase feminina e o langor tropical de Gonçalves Crespo.

Pego na História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes, e reproduzo:

«Quase todos os principais poetas portugueses de 1870 a 1890 aderem à mística progressiva e humanitária e lançam o seu protesto contra as mais flagrantes injustiças sociais, as prepotências das autocracias europeias, ou contra os acontecimentos, atitudes políticas, os casos do dia mesmo, em que se denunciavam certas hipocrisias e deficiências do regime monárquico constitucional. Como veremos, até num parnasiano como Gonçalves Crespo e num lírico realista como Cesário Verde se encontram expressões de protesto ou aspirações humanistas que, por enraizarem nesta ou naquela fibra mais íntima da sua respectiva personalidade, mantêm hoje profunda comunicalidade»

António Cândido Gonçalves Crespo (1864-83) foi, cronologicamente, o primeiro e também o mais destacado parnasiano português. Nascido no Rio, de mãe negra, formou-se em Direito,  e a sua delicadeza insinuante, o seu talento de poeta e recitador de um estilo mais discreto granjearam-lhe um círculi de admiradores, entre os quais a escritora Maria Amália Vaz de Carvalho, com quem casou e que, por seu turno, o pôs em contacto, no seu salão, com a roda dos consagrados, e lhe possibilitou uma carreira de deputado».

Não foi em vão o olhar sobre as Selectas onde estudei.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

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Por uma questão de curiosidade, socorremo-nos da Wikipédia para lembrar os resultados das Eleições Autárquicas de  12 Dezembro de 1982:

«As eleições autárquicas portuguesas de 1982 foram realizadas a 12 de Dezembro de 1982 e foram as terceiras eleições realizadas para o poder local, após a Revolução dos Cravos.

Estas eleições serviram para eleger os membros do poder local de Portugal, que eram compostos por 305 presidentes de Câmaras Municipais, 1913 vereadores, 9897 mandatos para as Assembleias Municipais e cerca de 42000 mandatos para as assembleias de juntas de freguesias.

Quanto aos resultados, o PS foi o partido mais votado, obtendo cerca de 31 % dos votos, um aumento de 4% em relação ás autárquicas de 1979, e conquistando 83 presidentes de Câmaras Municipais, um aumento de 23 comparando com as anteriores eleições.

Importa referir que apesar do PS ter sido a força mais votada, os partidos de centro-direita obtiveram, somando os resultados obtidos pela AD, PSD, CDS e PPM, cerca de 42% dos votos. Este resultado, apesar de tudo, implica uma queda de 7% dos votos e uma perda de 30 presidências de Câmaras Municipais em comparação com as anteriores autárquicas de 1979.

Por fim, de realçar o forte resultado obtido pela APU, liderada pelo PCP, que foi a segunda força mais votada, ultrapassando a barreira de 1 milhão de votos e conquistando cerca de 21% dos votos e 55 presidências de Câmaras.»

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 A Colecção Vampiro começou a publicar-se em Abril de 1947, cujo 1º número é Poirot Desvenda o Passado de Agatha Christie.

Em Março de 1989 publica-se este nº 500.

Esta edição comemorativa também inclui a lista das obras publicadas na Colecção Vampiro por ordem alfabética.

São mais de 700 os volumes publicados na Colecção Vampiro.

Grande parte das traduções deixam muito a desejar.

Mas convém recordar que Mário-Henrique Leiria traduziu O Imenso Adeus de Raymond Chandler nº  da colecção e Alexandre O'Neill traduziu  A Sombra Chinesa de Georges Simenon, nº 71 da colecção E estas são mesmo traduções de qualidade.

FernandoPessoa também traduziu, se bem que parcialamente, O Caso da 5ª Avenida de Anna Katherine Green.

No caso das capas da Colecção Vampiro também há que slientar que nem todas são famosas, mas não se podem deixar de referir as da autoria de Cândido Costa Pinto e Lima de Freitas.

Em Maio de 2022 começou a ser publicada uma Nova Série da Vampiro.

O 1º volume desta nova série é Os Crimes do Bispo de S.S. Van Dine.

Reedição de volumes já publicados anteriormente mas com novas capas e novas traduções.

sábado, 15 de outubro de 2022

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 Lembro-me de ver a Gelu a cantar «La Novia» na televusão a preto e branco.

Colaboração de Aida Santos


sábado, 8 de outubro de 2022

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E aqui fica a versão original de «Can't Take My Eyes Off You».
Gostava da canção, ouvi-a depois no filme O Caçador e andei à procura de quem a cantava, como se chamava e que originou as tais cenas únicas na Discoteca Roma.



Colaboração de Aida Santos

terça-feira, 22 de março de 2022

ESTENDI NA AREIA MULHERES DE TODAS AS CORES

Este livro tem o subtítulo: «Os Filhos Que Os Militares Portugueses Deixaram Na Guerra Colonial». 

A imagem é a reprodução da contra capa do livro.

O livro é da autoria de Catarina Gomes, ex-jornalista do Público.

«Tudo começou com uma viagem à Guiné, em 2013, com o objetivo de revelar, no Público, estas histórias da História que ficam por contar. Seguiram-se quatro anos em que os contactos com estes filhos e filhas, de identidade truncada, se foram multiplicando. A maioria tem como única herança dos pais uma vida inteira de discriminação: eram “filhos de tuga”; eram filhos do “inimigo”. Pelo meio, também há (re)encontros felizes. Catarina Gomes escreve que “todos os dias morrem metades desta história” – os pais portugueses estão na fase final das suas vidas (os filhos têm entre 40 e 50 anos). As relações entre militares portugueses e mulheres africanas são, muitas vezes, romantizadas – todos os filhos gostam de se imaginar fruto de um grande amor. Contudo, estas crianças também foram fruto de casos de prostituição, de agressões sexuais ou de violações. Catarina Gomes chama-lhe um livro de pós-reportagem, no qual conta o que aconteceu, depois da publicação das histórias no jornal, e se assume como participante no enredo, em busca destes pais desaparecidos. Sem alarido, numa comoção sublime.»

Fernando Hedgar da Silva depositava grandes esperanças no encontro com um ex-militar português, que tinha optado por permanecer na Guiné após o fim da Guerra Colonial (1961-1975). Quando o homem lhe perguntou como se chamava o pai, Fernando respondeu o único nome que a mãe, timidamente, lhe havia dito: “Furriel. O meu pai chama-se Furriel.” O ex-militar ficou incrédulo e explicou-lhe que Furriel não era um nome; antes uma patente. Afinal, Fernando sabia menos de nada sobre o seu pai. E era esse vazio que o preenchia quase por inteiro.

António Gedeão é autor de Poema da Malta das Naus, um lindíssimo poema que deu uma muito bonita canção de Manuel Freire:

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das prais
arreneguei, roguei pragas,
mordi pelouros e zagaias.

Chamusquei o pelo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

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 Na Biblioteca do meu Pai não existia nenhuma Enciclopédia.

Também nunca adquiri nenhuma.

Mas existia uma série de volumes de Cadernos e Colecções que abrangiam uma série de gente qualificada a escrever sobre  autores e assuntos diversos.

Muitos desses volumes pertenciam à Biblioteca Cosmos que foi um projecto excepcional criado e orientado por Bento de Jesus Caraça.

Rómulode Carvalho, mais conhecido como o poeta António Gedeão, conta nas suas Memórias que colaborou com obras suas nesta excelente Biblioteca Cosmos.

Publicarei nos próximos dias outros volumes (Cadernos da Seara Nova, Cadernos da Editorial Inquérito) que me ajudaram na formação de um certo sentido de Cultura Geral que, possivelmente, qualquer enciclopédia não daria.

Ramiro da Fonseca, médico e escritor, manteve, nos anos 70, na RTP o programa «Vida Sã em Corpo São».  

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

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 O avô era um tipo assaz curioso, patusco mesmo. Por chalaça, por um certo gosto anarquista, apresentava-se às pessoas como: «Mário Santos – benfiquista, republicano histórico e anticlerical».

 Ficava depois a gozar o efeito das palavras.

Tinha um béguin pelo Johnny Guitar de Nicholas Ray, aquele diálogo fabuloso em que Vienna pede a Johnny para lhe contar mentiras, que ainda a ama como ela o ama e o velho vaqueiro, a filosofar sobre Johnny: tal como ele disse, só precisa de um café e de uma boa cigarrada.

Este disco existe porque pediu ao filho que lhe arranjasse a canção tema do filme.

Naqueles tempos a oferta de bandas sonoras era quase nula, o filho não encontrou a interpretação da Peggy Lee e comprou esta versão, em espanhol, cantada pela Juanita Cuenca, uma soberba capa amarela, uma fotografia como mandavam as regras.

O avô morreu com 85 anos e nunca conseguiu entender-se com o “pick-up”. Quando lhe dava a saudade dizia: «eh pá! Põe a tocar o Johnny Guitar».

Na estante onde estão os LPs, puxados ligeiramente 5 ou 6 para fora,  está lá pendurado o boné – Donegal Tweed Woven in Ireland – que foi o último que o pai usou.

Tem dias, mas principalmente noites, que sente que o pai anda por aí, a solicitar um whisquinho e a dizer: «Eh! 
Pá põe lá o «Johnyy Guitar” para o teu e eu avô ouvirmos»

«Play the guitar, play it again, my Johnny, maybe you're cold, but you're so warm inside.»

E uma nostalgia do tamanho do mundo apodera-se da prosa.

Johnny Guitar é cantado em espanhol e está identificado como sendo um «bolero afrocubano». O disco tem ainda: Mis Manos, que é a versão espanhola de uma velha canção do Gilbert Bécaud, um fado fox, Lejana Lisboa, assinado por A. Angel e Garcia Cote, e Faustina, um baião que, no antigamente, muito no antigamente, era tocado, dezenas de vezes, na mesma noite, nos bailes lá de casa.


segunda-feira, 15 de novembro de 2021

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Aqui no Cais, nunca nos preocupámos com números redondos do nascimento e morte seja de quem for.

Mas por mero pormenor de andar com o Diário de Miguel Torga em releituras, deu para ver que Torga escreveu um poema escrito a 15 de Novembro de  1946, um dia depois da morte de Manuel de Falla.

O poema fez-me lembrar um velho texto dos «Clássicos do meu Pai» em que se fala do gosto que o meu tinha pelo compositor espanhol e também por Borodin:

Na Lisboa do principio dos anos 60, a oferta de Música Clássica deixava muito a desejar e, naturalmente, a Amazon era algo que ainda não tinha nascido na cabeça de um qualquer galáctico.

O meu pai tinha um gosto muito especial pelas Danças Guerreiras do Príncipe Igor.

As Danças Polovetsianas, fazem parte da ópera Principe Igor, abertura e quatro actos, de Borodin, que a não chegou a completar, tendo sido Rimsky-Korsakov que se dedicou a esse trabalho.

O interesse do meu pai não residia na ópera em si, o que, realmente o empolgava eram as Danças Guerreiras.

A única versão que, então, conseguiu encontrar foi da Deutsche Grammophon, pela Orquestra Filarmónica de Berlim dirigida por Ferenc Fricsay.

Mas tinha um óbice: era apenas tocada.

E durante mais uns anos o meu pai prosseguiu a procura das danças com coros.

Num cair de tarde de Outono, lembro-me como se fosse hoje, entrou triunfante pela casa dentro: já cá cantam! 

E num ápice, eu e o meu avô, estávamos a ouvir as Danças Guerreiras, com coros.

Simplesmente empolgante!

Com este disco passa-se uma outra história deliciosa: no lado B está El Amor Brujo”de Manuel deFalla. 

Uma noite, no cabaret Olimpia, ao lado do cinema com o mesmo nome, viu uma streapper espanhola dançar a Dança Ritual do Fogo e ficou encantado. 

Pela música e pela bailarina.

 A música adquiriu-a, a bailarina foi à vida dela.

O chamado 2 em 1: Borodin e Falla.

O disco tem esta lindíssima capa.

Trata-se de uma gravação da Decca, com a Orquestra Filarmónica de Londres, dirigida por Anthony Collins e os coros dirigidos por Frederic Jackson.

Este disco marca, também a primeira peça de Música Clássica que entrou lá em casa sem ser da Deutsche Gramophon.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

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 O bocadinho que aqui vos coloquei, tirado do livro Ao Sabor da Música de António Cartaxo, dá-nos uma bonita história à volta de uma Sonata de Franz Schubert.

Quais os dons de pessoas, como António Cartaxo, de chegarem à boca do palco e falarem de música como eles falam.

Emoções, seduções, sensibilidades, ternuras.

Será preciso estudar?

Como é que se estuda?

Ainda procuro o lugar onde guardei o livro de capa verde que o avô me deu.


sexta-feira, 15 de outubro de 2021

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Luís Miguel Queiroz que escreveu o obituário de Fernando Echevarria no Público de 6 de Outubro, colocou em título: «Morreu o mais filosófico dos poetas portugueses.»

Outras palavras:

Ao longo de seis décadas ergueu uma das mais sólidas e singulares obras da poesia portuguesa contemporânea; na dedicação missionária à poesia, talvez só o possamos aproximar de António Ramos Rosa; no seminário de Astorga, em Espanha, estudou teologia e filosofia e estava destinado ao sacerdócio mas desistiu  da vocação religiosa ou talvez a tenha cumprido de outro modo; em 1967 é um dos fundadores da LUAR de Palma Inácio e acerca dessa actividade política manteve sempre uma grande discrição.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

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Estas narrativas de naufrágios da época das conquistas, escolhidas e adaptadas por António Sérgio, bem como alguns destes livros apresentados na contra  capa de «História Trágico-Marítima», terão sido as minhas primeiras leituras. 

Teria então uns 8/10 anos. 

Daqui passaria para o Emílio Salgari, Júlio Verne, Walter Scott.

Havia o futebol na rua, outras brincadeiras e estas leituras.

Hoje, as vivências dos miúdos de 8/10, são bem diferentes.

Já não olharei o futuro destes miúdos e não consigo - ou não quero? - imaginar como será.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

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Uns trastes voltarão a bolsar:

«Ela fez dele, que era um labrego, um senhor. Se não fosse a Isabel, quem seria o Saramago, que nem sabia comer à mesa?»

Deixá-los ladrar!

Recorde-se dois textos por aqui publicados:

Um no dia 27 de Junho de 2015:

«As paixões acontecem, não se explicam.

Jorge Amado no seu livro memorialista, Navegação de Cabotagem:

«As reedições de meus livros saem iguais às primeiras, apenas as gralhas vão em constante aumento, Paloma, que os andou relendo para saber o que os personagens comem, me informa que os erros gráficos se contam aos milhares. Tampouco jamais buli nas dedicatórias, também elas datadas – mesmo em se tratando de pessoas a quem deixei de estimar nem assim lhes retirei o nome da oferenda mesmo se retirei o indivíduo do meu bem-querer. Refiro-me, é claro, às edições brasileiras, as traduções fogem ao meu controlo. Lá estão os nomes todos, um a um – quando escrevi o livro estimava os admirava fulano a quem o dediquei, se depois ele se revelou calhorda, o nome permanece na dedicatória datando a escrita e a ingenuidade do autor.»

José Saramago não teve este entendimento.

Desde que conheceu Pilar, as novas edições dos livros, antes dedicados a Isabel da Nóbrega, passam a não ter essa indicação.

Num lamento, Isabel da Nóbrega disse que foi uma atitude que não era preciso tomar.

Segundo o jornalista Luís Leal Miranda (jornal I  de 26 de Junho de 2010), Saramago pronunciou-se por várias vezes sobre o assunto, garantindo que as dedicatórias fizeram sentido na altura em que essas edições foram publicadas. E essas edições, já esgotadas, permanecem em sintonia com as inclinações amorosas da altura.

Num outro registo, Saramago salientou que as dedicatórias permanecem nas edições correspondentes ao tempo em que os livros foram escritos.

A história é conhecida.

Depois de ler livros de José Saramago, principalmente O Ano da Morte de Ricardo Reis, a jornalista espanhola Maria del Pilar ficou como que encantada.

«Senti que tinha de agradecer ao autor os livros que me tinha dado a ler. E sobretudo dizer que tinha tratado os seus leitores como seres inteligentes. Tinha-me sentido respeitada como leitora e quis agradecer-lhe.»

Veio até Lisboa e conseguiu uma conversa com Saramago.

Tal como na sinfonia de Beethoven, ambos terão sentido o destino a bater-lhes à porta.

Sabe-se o que aconteceu.

Desde então, os livros de José Saramago deixaram de ser dedicados à Isabel para passarem a ser dedicados a Pilar.

Os dois primeiros livros de José Saramago, Terra do Pecado (1947), Os Poemas Possíveis (1966), não têm qualquer dedicatória.

Mas em Provàvelmente Alegria já se revela uma leve indicação do que serão as dedicatórias futuras:

«Para tão grande amor tão curta a vida.»

Cheguei tarde ao encontro deste verso,

Outro o escreveu por mim, mas dele tomo,

Como rosa colhida que te ofereço.

Em Deste Mundo e do Outro (1971), algo um pouco mais especifico:

Não se dirá aqui o nome. Mas da sua exaltação nasceu este poema, do seu rigor esta autobiografia, da sua verdade esta meditação e basta.

Mas é com o livro seguinte, A Bagagem do Viajante (1973) que o nome finalmente surge e que, por diversos livros, José Saramago manterá:

Dir-se-á desta vez aqui o nome. Pelas mesmas razões da exaltação, do seu rigor e da sua verdade. E porque estes dias são mais exaltantes ainda, mais rigorosos e de uma verdade que já é unidade inultrapassável. Isabel.

Seguem-se:

As Opiniões que o DL Teve (1974):

Para a Isabel e para os meus amigos.

O Ano de 1993 (1975):

Para a Isabel. Este livro, o antes e o depois dele, todos os passos e todos os gestos, todas as palavras ditas e as que estão por dizer. Assim. Mesmo que o tempo não entenda já de coisas como esta.

Os Apontamentos (1976):

À Isabel, este livro e todos.

Aos trabalhadores do «Diário de Notícias» que foram o meu apoio e a primeira justificação de quanto escrevi.

Manual de Pintura e Caligrafia (1976):

Para a Isabel, tão inseparável deste livro como da minha vida.

Objecto Quase (1977):

Para a Isabel, porque me disse de que lado está a vida.

A Noite (1979)

À Luzia Maria Martins, que me achou capaz de escrever esta peça.

À Isabel

Levantado do Chão (1980):

À Isabel sempre.

A João Domingos Serra e João Besuga, e também a Mariana Amália Besuga, Elvira Besuga, Herculano António Redondo, António Joaquim Cabecinha, Maria João Mogarro, João Machado, Manuel Joaquim Pereira Abelha, Joaquim Augusto Badalinho, Silvestre António catarro, José Francisco Curraleira, Maria saraiva, António Vinagre, Bernardino barbas Pires, Ernesto Pinto Ângelo – sem eles não teria sido escrito este livro.

À memória de Germano Vidigal e José Adelino dos Santos, assassinados.

Que Farei Com Este Livro? (1980):

À Isabel cada vez mais.

Viagem a Portugal (1981)

A quem me abriu portas e mostrou caminhos, à companheira constante que tantas vezes disse. «Repara» - e também em lembrança de Almeida Garrett, mestre de viajantes.

Memorial do Convento (1982):

À Isabel, porque nada perde ou repete, porque tudo cria e renova.

O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984):

À Isabel, outro livro, o mesmo sinal.

A Jangada de Pedra (1986)

Sem dedicatória

A Segunda Vida de Francisco de Assis (1987):

Sem dedicatória.

A História do Cerco de Lisboa (1989) é o primeiro livro em que aparece Pilar:

A Pilar

A partir daqui todos os livros serão dedicados a Pilar.

Em As Pequenas Memórias (2006), pode ler-se:

A Pilar, que ainda não havia nascido e tanto tardou a chegar.

Todo o ser humano é falível.

Felizmente!

Em 1944, José Saramago casa com a pintora Ilda Reis.

Entre 1954 e 1964, Isabel da Nóbrega viveu com o crítico João Gaspar Simões, que nunca perdoou ter sido trocado por um obscuro jornalista e tradutor.

A relação com Saramago durará de 1970 a 1976.

Pelo próprio Saramago fica a saber-se que Isabel da Nóbrega lhe abriu portas e novos caminhos.

Completamente despropositado e idiota existir quem defenda que foi Isabel da Nóbrega quem ensinou José Saramago a escrever.

Antes de Isabel, Saramago já era escritor.

O outro texto foi publicado  a 28 de Junho de 2015:

«Na Cronobiografia de José Saramago, preparada por Fernando Gómez Aguilera, pode ler-se:

1970

Começa a viver com a escritora Isabel da Nóbrega, relação que durará até 1986.

Contudo, a atracção de Saramago por Isabel, ou vice-versa, é anterior a 1970.

No índice Onomástico da Correspondência trocada entre José Rodrigues Miguéis e José Saramago, há três entradas para Isabel da Nóbrega.

Em nenhuma delas o seu nome aparece, mas poderá concluir-se que se o pormenor é citado no Índice motivos existirão, e a isso não será alheio o desejo do autor que assim fosse.

Vejamos:

Desculpe esta secura. Esta carta, embora pequena, foi interrompida várias vezes por questões tão comezinhas que até fazem raiva.

(Carta datada de 31 de Julho de 1961)

Leu já a «crítica» que o Gaspar Simões fez ao seu livro (A Escola)? Tardou mas arrecadou, benza-o Deus! Por que bulas é aquele homem crítico literário, e influente, é que eu não entendo. Ou o homem é estúpido, ou não sabe ler. Ou será as duas coisas? Duma coisa estou eu certo: é da maldade dele. Porque se aquilo não é maldade, então só vejo outra saída: senilidade, que, como todos sabemos, às vezes refina na velhacaria.

(Carta datada de 4 de Novembro de 1961)

Uma carta minha, depois de todo este tempo de silêncio, deve causar-lhe uma impressão de revenant. Em certo sentido, essa impressão é justificada, poi tanta coisa se passou na minha vida, nestes últimos meses, que eu próprio chego a pensar se não terei morrido mesmo – e ressuscitado. Não estive doente, pelo menos no sentido usual da palavra, não tive médico à cabeceira nem termómetro ao canto da boca, mas estive prestes a destruir toda a minha futura, sabe-se lá de que maneira e com que consequências. Para abreviar: saí de casa, deixei a família, atrás de uma miragem em figura de mulher – que são sempre as piores miragens. Felizmente que o bom-senso e a descoberta de que a razão verdadeira da minha vida estava, afinal, naquilo que estaticamente deixara. Tudo se recompôs, é certo, mas depois de tanto sofrimento (sofrido e infligido) que ainda me espanta agora como estou são de espírito.

Com tal situação, que se arrastou durante meses, não prejudiquei apenas a minha vida particular e a dos meus. Os meus deveres na editora foram um pouco esquecidos, e devo à amizade e compreensão dos nossos amigos Canhão e Correia o não estar agora numa situação difícil.

(Carta datada de 19 de Setembro de 1962)

quarta-feira, 2 de junho de 2021

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Este livro de Agatha Christie fazia parte da biblioteca do meu pai e ao seu comprador custou 20 escudos, o que em moeda nos dias de hoje seriam 10 cêntimos.

Eu digo o seu comprador porque não foi o meu que o comprou no estado de novo.

Numa esquina da Praça Paiva Couceiro, um velhote vendia livros em 2ª mão. Era aí que o meu pai, já reformado, se abastecia de livros da Colecção Vampiro. Ficava perto de casa e ajudava o velhote a ganhar uns tostões, para além de lhe dar uns cigarritos «Ritz».

Não sei a que preço os livros eram vendidos porque o meu pai, a tal gentileza para com o velhote, pagava-os a cinco escudos cada um.

Saía de casa pela manhã, bebia o café no «Chaimite», duas ou três cigarradas, e depois chegava a casa com um saco de plástico cheio de livros da Vampiro.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

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Sou um velho apreciador de antologias.

Chegou-me às mãos uma revista de ensaios criativos e pessoais, inquietações na primeira pessoa, que dá pelo nome de Mamute, e o volume de que vos falo é o nº 2 referente a esta Primavera.

No editorial, Gonçalo Mira, escreve, entusiasmado, que o nº 1 da Mamute, encontra-se esgotado e isso deixou-o surpreendido.

Não dei pela revista, também terei que dizer que não tenho ido a livrarias, estupidamente o governo, por causa da pandemia, determinou que encerrassem e, como as livrarias independentes de que gostava, fecharam, para sempre portas, não tenho paciência para ir, motivos diversos e muito meus, às que me estão ao pé, como a Leya e a Bertrand na Avenida de Roma.

Devo, a estas antologias de textos, de poesias, muito, mas mesmo muito, do gosto pela leitura. Na biblioteca do meu pai havia uma série de antologias publicados pela Portugália Editora que serviram de trampolim para outros voos: Líricas Portuguesas, organizadas pelo Jorge de Sena, Antologia de Mestres do Conto Policial, Antologia de Obras de António Sérgio, Os Melhores Contos Portugueses, As Melhores Histórias Fantásticas, por aí fora.

Mais tarde comprei as antologias que iam sendo editadas: as da Inova, poesias publicadas nos anos 70 e 71 com direcção do poeta Egito Gonçalves, os textos da Grifo, editados pelo Vitor Silva Marques, As Escadas Não Têm Degraus da Cotovia, mais recentemente, os resumos de poesia publicados pela Assírio & Alvim, começados com a poesia publicada em 2009 e findos com a poesia publicada em 2013.

São cinco os textos deste número da Mamute.

Chamou-me logo a atenção o texto de Margarida Ferra, não só pela referência que tinha da autora como pelo título: Janela de Sacada.

Gosto do nome que logo me remeteu para os meus tempos de infância, passados numas águas-furtadas na Rua da Senhora do Monte, à Graça, uma vista esplendorosa para o Tejo, cheio de fragatas, de navios a descarregarem cereais a granel, a outra margem com as altas chaminés do Barreiro, desprendendo fumos.

A minha avó, nos dias de sol, punha um pano branco para fazer sombra, uma mesinha na pequena varanda daquela águas-furtadas, frente a um rio que é um mar, eu almoçava um bife, batatas fritas às rodelas, um ovo, manjar raríssimo lá pela casa dos meus pais, tempos muito difíceis…

Ficava ali horas.

Sentia que o mundo era maravilhoso e assim seria para todo o sempre.

Ali, era o meu lugar de eleição, uma magia única, um paraíso que não mais voltei a encontrar, qualquer coisa que toca, enfeitiça e que deixou marcante rasto.

Algures, Walter Benjamim diz que para conhecer toda a melancolia de uma cidade, é preciso ter sido lá criança.

 Como António Gedeão, sempre quis voltar a subir aquelas escadas, bater à porta, dizer a quem a abrisse, que um miúdo de 8 anos, em tempos distantes, olhava o Tejo daquela varanda e se poderia rever essa sensação.

Quando subo aquela rua, olho o marco do correio que ainda se encontra junto à porta e, ao contrário de Gedeão, nem as escadas subo.

Dado os tempos de insegurança que se vivem, talvez a ideia não fosse assim tão fácil de concretizar.

Quanto ao nome de Margarida Ferra, com o livro Curso Intensivo de Jardinagem, ainda está numa longa lista de livros a comprar. O livro foi editado, em 2010, pela & etc e nunca o encontrei nas livrarias, porque são livros que raramente descem aos escaparates, ninguém os compra, dão pouco lucro, ao contrário do lixo «escrito» por «pivots» e outros personagens de televisão ou do futebol.

Por uma manhã de Abril de 2014, quando finalmente concretizei uma visita ao subterrâneo do Vitor Silva Tavares, na Rua da Horta Seca, tantas e tantas vezes prometida aquando de nossas conversas em todas as Feira do Livro, até ele sair pela esquerda alta, não sei para onde, («olhe que a acampainha, por vezes, não toca…») levava uma lista de alguns livros editados pela & etc., tenho o nº 1 da Colecção, todos os do Eduardo Guerra Carneiro, do João César Monteiro,  mas faltam-me alguns do Jorge Fallorca, a Carta ao Pai do Kafka  e o da margarida Ferra. O Vitor ainda se levantou da secretária, percorreu as estantes, não tinha nenhum dos livros que eu queria, desolado disse-me que iria falar com o Paulo da Costa Domingos e se tivesse alguma sorte me comunicaria.


O texto da Margarida Ferra, publicado neste volume da Mamute, espraia-se pela dificílima experiência que a autora enfrentou, um mês em casa com Covid, numa narrativa comovente e, num ápice, o leitor fica enredado naquela intensa comoção: janelas quase sempre abertas, um companheiro em tratamentos oncológicos, «cresce muito, o medo, quando tememos pelos que amamos», três filhos (15, 13, 2 anos), um gato, o frigorífico que se supõe avariado, a televisão que se recusa a fornecer imagens, a solidariedade dos amigos, dos familiares, dos vizinhos, as mensagens que a educadora do filho mais novo lhe manda, um postal da Hélia, as flores da Ana entregues por uma rapariga sorridente de bicicleta, a rua que a janela de sacada empresta, rua onde um inimigo sem rosto, implacável nos cerca, ameaça e humilha, mas tudo tão difícil por aqueles dias… tudo… a comida que tem de ser feita, um esparguete com ameijoas, o lamento por ter saído demasiado cosido quando lhe pareceu que a textura se afigurava «al dente», ah! e onde o sabor dos coentros?... também os testes do olfacto, cheirar mil vezes o café, cada vez mais longínquo... uma frase sentida : «nessa noite, jantei sem fome…», também a preocupação com os estudos dos miúdos «terei sempre dificuldade em perceber a carga de trabalhos que o ensino à distância trouxe a estes alunos.»

Se cada um fizesse o registo dos confinamentos que nos invadiram o quotidiano, ficariam as imagens escritas de que há sempre uns piores que outros, que há sempre histórias, experiências tristes, deslumbrantes, o ficarmos a saber que é possível, sempre, enfrentar os perigos, as dificuldades, somos por ventura melhores do que aquilo que pensamos saber.

Cá por casa também estivemos perfilados de medo, como na canção do Zé Mário Branco, confinados,  mas nunca doentes.

Saíamos pouco de casa, os filhos traziam o que era necessário, ocorreu-me, então, escrever sobre o desfiar daqueles dias, comecei a 18 de Março, não fui além de 3 de Maio, estão por aí com a etiqueta Diário dos Dias Difíceis.

Não que entendesse que os dias não iriam a continuar a serem difíceis, mas perdi-me, nada era como inicialmente previra fazer, acabei por cair em extremismos opinativos, em lamechices parvas, as palavras nunca saíam como queria que saíssem, e não vislumbrava ponta alguma daquele novelo…

Pus as culpas na historieta que os dias do vírus me perturbavam.

Balelas.

Senti que para continuar a viver os dias de pesadelo, teria que viver de forma mais inteligente, mas os tempos eram medíocres, repletos de chicos-espertos-opinativos, repletos de aldrabões e oportunistas, um oceano de palradores televisivos: use máscara, não use máscara, as melhores são aquelas que…

Tinha saudades da vida, mesmo sabendo que essa vida não tinha excepcionalidades por aí além, mas era a minha vida, a possível.

Sobravam-me, sobrarão para sempre, muitas dúvidas que essa tal vida nos volte a acontecer.

Quando os gestos diários estão sujeitos a estados de emergência ou de calamidade, sabia que nada disso provoca serenidade, tentava o meu melhor esforço para irradiar um ligeiro optimismo, mas…

Um dia, numas imagens que as televisões deram do encontro que a CGTP realizou no 1º de Maio, ficou-me uma: um homem já de meia-idade, máscara no rosto, bandeira vermelha na mão, tem um minuto em que baixa a máscara, põe a bandeira vermelha debaixo do braço, e mete um cigarro à boca. O repórter demora um pouco a imagem, mas segue para outros personagens, e eu sorri largo, fiquei a pensar no prazer do fumar que aquele homem de meia-idade conquistou naquele manso cair da tarde.

Fumar mata!

E daí?

Morre-se de tanta coisa.

Até de amor, como o King Kong, seguindo os passos de um texto-poema do Eduardo Guerra Carneiro.

Daqueles dias cruéis, de gratificante ficou pela casa o cheiro do bolo de laranja/limão que eu e a Aida, comíamos acompanhado com tisanas, perto das 2/3 horas da madrugada, quando terminávamos, mantas nos joelhos, o visionamento de velhos filmes em DVD e sempre a enorme frustracção de não podermos olhar, por avaria técnica, as tais 650 (180 minutos cada) cassettes VHS, com outros velhos filmes, documentários, concertos.

Tempo de deixar esta janela de sacada:

«A janela chega até ao chão. E tem uma porta como se levasse a uma varanda, protegida por uma grade de ferro trabalhado, sem lugar para pôr os pés. Sem espaço para avançar. Um rectângulo alto, uma falsa promessa de um piso diferente.»

Mas ainda o tempo para reencontrar, algures no texto, uma frase:

«O mais difícil está sempre para vir.»

quinta-feira, 20 de maio de 2021

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Maria Archer  nasceu em Lisboa a 4 de Janeiro de 1899 e morreu, também em Lisboa, a 23 de Janeiro de 1982.

Só terminou a escola primária aos 16 anos, tendo para isso que insistir com seus pais, que achavam desnecessária a sua formação.

Escritora, lutadora pelos direitos humanos.

Perseguida pela PIDE, foi obrigada a refugiar-se no Brasil. Depois do 25 de Abril regressou a Portugal com poucos meios de subsistência. O país, já democrático, negou-lhe a dignidade, o respeito, tudo o que lhe era devido pelas causas por que se bateu. Merecia que lhe dessem algo mais do que lágrimas de crocodilo, e até essas faltaram. Regressou pobre do Brasil, mas não queria caridadezinha, queria o respeito a que tinha direito por ter ajudado, pela sua atitude cívica e de escritora, a liquidar um regime opressivo e senil.

Morreu só, no Asilo de Santa Maria de Marvila.

Consideraram-na uma das principais mulheres escritoras portuguesas, talvez a grande ficcionista da primeira metade do século passado.

Disse João Gaspar Simões, em 1930:

 «Não conheço mesmo outra (escritora portuguesa) que à audácia dos temas e das ideias alie uma expressão tão enérgica e pessoal. O seu estilo respira força e solidez.»

Considerou ainda que apenas dois nomes eram dignos de emparceirar com os escritores homens: Maria Archer e Irene Lisboa.

Maria Archer, uma prosa elegante, século passado, uma prosa amável.

Recordo-me de ter lido este «Casa Sem Pão.

Por motivos que desconheço, o livro, quando fechei a cada do meu pai, não estava nas estantes.

A edição que hoje aqui se recorda, é o 3º volume da Colecção Censura no Feminino que o jornal Público tem vindo a publicar em edições fac-símile.

Foi o segundo livro de Maria Archer proibido pela PIDE.

A obra foi proibida aquando da sua publicação, em 1947, vindo a ser autorizada, embora com cortes, 12 anos depois.

O censor-leitor foi o capitão Rodrigues de Carvalho que não tem dúvidas em «achar perniciosa a divulgação deste livro sob o ponto de vista da moral social.» e para que não existam quaisquer dúvidas junta ao processo, «um relato desenvolvido com as transcrições dos passos mais escabrosos.»

Uma parte imoral, assim considerada pelo capitão-censor, aparece na pág. 60:

«Os passos de Felismina soam na passadeira do corredor. A chave da porta do seu quarto corre na fechadura. As duas raparigas fecham-se mais no silêncio e dobram-se sobre o bordado. Ambas pensam no pai e em Felismina, um homem e uma mulher fechados à chave no mesmo quarto, a despirem-se, a dormirem na mesma cama.. Ambos pensam em que seu pai, metido com uma mulher no quarto, está fazendo uma coisa vergonhosa, e em que Felismina não é uma pessoa de sentimentos. A Clarisse ensaia, timidamente, uma censura, em voz quase imperceptível:

- Casam-se para fazerem porcarias… 

quarta-feira, 12 de maio de 2021

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O jornal Público está a publicar, em edição fac-símile, 10 obras de de autoras portuguesas que a PIDE censurou e proibiu.

O Vinho e a Lira de Natália Correia, distribuído em 6 de Junho de 1966, ao leitor Joaquim Palhares, mereceu a inicial observação de que aos serviços censórios não cabia a função de apreciar literariamente a obra, antes havia que «proteger os portugueses de ideias e expressões eróticas, imorais, algumas expressas em termos escatológicos e insinuações de ordem política com tendência dissolvente, o que é suficiente para se propor a sua proibição e circulação no país.»

A indignação do leitor Palhares, depois de declarar o valor nulo da obra, invoca o desplante da gente que edita este tipo de livros anti-sociais e opina que, a seu ver,  esta gente seria merecedora de uma severa punição.

Este livro, composto por 43 poemas, foi proibido pela PIDE e tornou-se na quarta obra de Natália Correia a ser censurada e proibida.

No dia 30 de Abril saiu Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, no dia 7 de Maio este O Vinho e a Lira de Natália Correia e no dia 14 de Maio Casa Sem Pão de Maria Archer.