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domingo, 23 de fevereiro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


«Gabriela, Cravoe Canela, o mais conhecido romance de Jorge Amado,  é o amor tórrido entre Nacib e Gabriela. Os brasileiros fizeram do romance de Jorge Amado uma telenovela, que alguns dizem que banalizou o romance, mas a editora Europa-América informou que Gabriela Cravo e Canela foi o livro mais vendido na Feira do Livro de 1977.  A novela foi protagonizada por uma esplendorosa Sónia Braga, era a televisão por cá a preto e branca, e a RTP estreou-a em 16 de Maio de 1977. Chegou a atingir quatro milões de espectadores e quem não tinha televisão em casa, deslocavam-se ao café e associações populares do bairro onde viviam.

Algumas vezes, a Assembleia Nacional adiou ou suspendeu sessões para que os deputados pudessem assistir ao episódio da novela.


O livro da Biblioteca da Casa, na página em que os livreiros colocavam, a lápis, o preço do livro, está lá o selo da Livraria Moraes, onde o livro foi comprado por mim, Livraria Moraes, fundada em 1958 pelo António Alçada Baptista, que no seu livro de memórias, A Pesca à Linha, conta a história da livraria, bem como da editora que há-de publicar OTempo e o Modo.

Nunca fui um habitual cliente da Moraes, passava por lá volta e meia, um espaço que era frequentada pelas elites intelectuais e políticas. Foi na Moraes que JoaquimVieira conta a história passada com Mário Soares, presidente, ao olhar no escaparate, o livro de José Saramago Manuel de Pintura e Caligrafia, e interpretando o livro à letra, perguntou, em alto e bom som:

«Mas o que é o que o Saramago sabe disto?

Chegados aqui acabámos por encontrar a Música pela Manhã de hoje, e aqui vamos nós com o tema de abertura da novela, com música e letra de Dorival Caymmi e a interpretação da extraordinária Gal Costa.

«Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim vou ser sempre assim, Gabriela, sempre Gabriela».


terça-feira, 28 de janeiro de 2025

OLHAR AS CAPAS


Por Enquanto, O Povo Unido Ainda Não Foi Vencido

Manuel Vasquez Montalbán

Selecção, organização e tradução: Rita Luís

Posfácio: Francesc Salgado

Capa: V. Tavares

Edições Tinta-da-China, Lisboa, Junho de 2024

Mário Soares iniciou o seu périplo europeu em Roma, como convidado de honra na homenagem mundial de Dolores Ibárruri, La Passionaria. Estava na tribuna e levantou o punho esquerdo, que é o punho levantado pelos socialistas; os comunistas, que são casmurros, peculiares e reformistas, levantam o punho direito só para chatear. Pois bem, Soares esteve com La Passionaria e depois conversou com comunistas espanhóis e italianos e com socialistas espanhóis, italianos e alemães. Falou também com Calvo Serer, outro dos surpreendentes assistentes que presidiram à homenagem a Ibárruri. Soares queria favorecer uma imagem esquerdista deteriorada pela luta contra o «cunhalismo» que, segundo ele, é uma doença senil do comunismo e que, segundo nós, é o que quer que soe, e a ti encontro-te na rua.

sábado, 7 de dezembro de 2024

100 ANOS DO NASCIMENTO DE MÁRIO SOARES


 Os políticos não são gente consensual.

Não o foi Mário Soares, nem Álvaro Cunhal, nem Sá Carneiro, nem Freitas do Amaral.

Foram apenas políticos, algo em vias de completo desaparecimento e que tanta falta nos vai faltando.

Veja-se Cavaco Silva, presente na cerimónia do 25 de Novembro na Assembleia da República, ausente na homenagem que a mesma Assembleia prestou nos 100 anos do nascimento de Mário Soares.

 Legenda: Mário Soares e Maria Barroso, no 25 de Abril de 74, a chegarem, de comboio, vindos de Paris, à Estação de comboios  de Santa Apolónia.

segunda-feira, 27 de maio de 2024

QUOTIDIANOS


Ele tinha guardado, religiosamente, aquela garrafa de tinto de Portalegre, do tempo em que o Mário Soares fez por ali uma presidência aberta e a Adega Cooperativa celebrou a ocasião com uma excelente edição de tintos.

O vinho já não lembra para que estava guardado, qualquer coisa especial, uma qualquer celebração, que num qualquer dia pudesse acontecer, não importava o quê.

Um dia, almoço de amigos, a ocasião era excelente para abrir a garrafa.

Não a encontrou. Beberam-se outros vinhos nesse almoço.

Mais tarde, veio a saber que o filho mais velho fizera uma festa com amigos cá em casa, e usaram a garrafa de Portalegre-presidência-aberta-de-Mário-Soares, na sangria.

Crime de lesa pátria.

Coisas do Arco do Vinho.

Quem anda à chuva molha-se.

sexta-feira, 17 de maio de 2024

OLHAR AS CAPAS

 

O 25 de Abril Visto da História

José António Saraiva

Vicente Jorge Silva

Capa: José Cândido

Livraria Bertrand, Lisboa, Novembro de 1976

Sobre o fenómeno PS, será oportuno fazer um pequeno recuo no tempo, até 1969, quando Mário Soares e outras figuras hoje preponderantes daquele parido concorrente às eleições para a Assembleia Nacional, pelo círculo de Lisboa, integrados numa lista distinta da CDE, a CEUD. Enquanto a CDE representava alguma tendências da oposição ditas mais «radicais» - PCP e católicos progressistas incluídos - , a CEUD era a expressão típica dos democratas liberais, ainda fiéis à herança política da I República, e que pretendia «colar» com algumas propostas de «liberalização» avançadas por certos sectores marcelistas. A CEUD orienta a sua campanha para a reivindicação das «liberdades», quase não referindo a questão colonial a não ser numa perspectiva que, curiosamente, Spínola viria a defender mais tarde (isto é em Portugal!) sobre a apolítica a adoptar em relação às colónias. Como é conhecido a CEUD obteve apenas cerca de um quarto dos sufrágios obtidos pela CDE; concretamente, menos de nove ,il pessoas votaram na lista onde figurava Mário Soares.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


29 de Abril de 1974

O quinto dia da nossa vida em liberdade.

 A importante, quase única, notícia que percorre todos os jornais:

É instituído como feriado nacional obrigatório o dia um de Maio, considerado o «Dia do Trabalhador.»

Por outro lado, continuam as manifestações, as reuniões políticas, a «caça ao pide.»

Outras decisões:

Amnistia para os Presos Políticos.

Abolida a censura aos espectáculos.

Dissolução da Acção Nacional Popular.

Destituído o Chefe de Estado, bem como todo o Governo do regime deposto.

Serão reintegrados os funcionários despedidos por motivos políticos

 Continuava o regresso dos exilados políticos.

 Os desertores e refractários do Exército Português, saúdam a Junta de Salvação Nacional, querem voltar e pedem amnistia.

 Tal como o MPLA, a FRELIMO rejeita a solução federativa entre Portugal e os países africanos.

 

1.

Na página desportiva do Diário de Lisboa, uma interessantíssima observação do jornalista Neves de Sousa e que constitui a abertura da sua crónica sobre o jogo entre o Sporting e o Belenenses para a Taça de Portugal.

Com tanto pide preso e barões e baronetes em fuga, gentes que tinham cartões de livre- trânsito para todos os jogos de futebol, não ocuparam os seus lugares…

2.

O República chama para a 1ª página uma afirmação de Mário Soares na sua chegada a Lisboa.


Nas páginas interiores noticia que essa figura sinistra, que dá pelo nome de Capitão Maltês e era o comandante da Polícia de Choque, ainda andava a monte.


Quem quisesse sair do País só poderia levar um máximo de 50 contos.

Na última página, ficava a saber-se que Henrique Tenreiro, ex-deputado e presidente da Junta Central da Legião Portuguesa, para além de outros títulos, apresentou-se, voluntariamente, à Junta de Salvação Nacional.

Também no República, uma notícia insólita: a administração dos TLP tenciona descontar aos trabalhadores o facto de não terem ido trabalhar no dia 25 de Abril.

3.

Na primeira página, A Capital dava conta da constituição do Movimento Democrático Português.

Para a Comissão Central Provisória, entre outros, foram votados Francisco Pereira de Moura, José Tengarrinha, Victor Wengorovius, Luís Moita, Henrique Neto.

domingo, 14 de abril de 2024

OLHAR AS CAPAS

Ascensão, Apogeu e Queda do M.F.A.

1º Volume

Diniz de Almeida

Edições Sociais, Lisboa s/d

- Então  o Sr. Dr. Mário Soares já sabia do Golpe do 11 de Março… - perguntou intencionalmente Vasco Gonçalves, ao que o visado se justificaria, visivelmente embaraçado:

- Bem, eu na realidade tive conhecimento dele com uns dias de antecedência, mas isso não significa nada… o Dr. Cunhal, por exemplo, também soube com antecedência que ele se ia dar…

- Sim… sim…, - retorquiu severamente Vasco Gonçalves – mas a diferença é o que o Dr. Álvaro Cunhal avisou-me e o Dr. Mário Soares não…

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


São perto de 650 páginas reunindo entrevistas, declarações, citações de livros e artigos escritos por Mário Soares versando os mais diversos assuntos pessoais e políticos.

Um preciso trabalho de Pedro Ramos de Almeida.

Lendo estes depoimentos, naturalmente muitos faltam, fica-se com uma ideia um pouco mais clara do que foi Mário Soares, por muitos citado como o «pai da democracia portuguesa, antes e depois de Abril.»

É Mário Soares que entende que deveríamos ter relações diplomáticas com Israel, é Mário Soares que desenvolve todos os esforços para fazer regressar do Brasil o banqueiro Ricardo Salgado que fugira logo após o 25 de Abril, um regresso que marcaria o nascimento do homem que passaria a mandar em tudo isto.

Das muitas citações que poderíamos colocar em Olhar as Capas, escolhemos uma em que Mário Soares, numa entrevista ao La Stampa, declara o seu apreço pelo perdão a dar aos pides ainda presos!...

No prefácio do livro, escreve Pedro Ramos de Almeida:

«Pode-se dizer que MS é, em muitos aspectos, a expressão pessoal da tragédia histórica da burguesia portuguesa e, desse modo, até da comunidade nacional: um grupo dominante que só se sente socialmente para uma lainaça sob a direcção de grandes potências estrangeiras.»

E em que canto, Mário Soares escondeu, numa gaveta, o socialismo de que se dizia seguidor?

OLHAR AS CAPAS


Dicionário Político de Mário Soares

Pedro Ramos de Almeida

Capa: Henrique Cayatte

Editorial Caminho, Lisboa, Setembro de 1985

1978: MS: «É preciso esclarecer que actualmente, no que se refere aos agentes da PIDE, foram todos soltos, excepto quatro ou cinco, implicados no assassínio de Delgado. Todos os demais foram postos em liberdade. Para um País que atravessa um período tão dramático, com tantos problemas  e confrontos, foi necessária uma grande doses de sabadoria e de sensatez para acalmar as águas e para que não se reabram as feridas.

La Stampa: «Significa isso, em última análise, que todos estes acusados vão ser amnistiados em vez de processados?»

MS – Para mim seria a solução ideal: cancelar todos estes problemas e seguir uma política de reconciliação.» ) Entrevista a La Stampa, 24.2.78).

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

OLHAR AS CAPAS


Portugal Amordaçado

Mário Soares

Capa: Manuel Dias

Editora Arcádia, Lisboa, Outubro de 1974

- «Arrisquei e perdi tudo na luta: família, posição, amigos, dinheiro. Sou um homem aniquilado e terrivelmente só!»

Estas palavras foram-me ditas, com um acento de desesperada emoção, por Humberto Delgado, quando o visitei, em 1964, no hospital em que estava internado, nos arredores de praga. Não posso esquecer a funda impressão que me produziram!

Minutos depois, numa reviravolta de humos tão próprio da sua maneira de ser, chamava a enfermeira que desveladamente o tratava, reclamando no seu tom imperiosos e com uma ponta de alegria contida na voz:

- Traga-me uma garrafa de champanhe da Crimeia. Quero festejar a presença deste meu querido Amigo!»

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 A imagem mostra a contra capa da 1ª edição de Manual de Pintura e Caligrafia de José Saramago.

Saramago classificou este livro como um ensaio de romance.

Numa conversa com Carlos Reis, Saramago disse-lhe:

«Provavelmente não siu um romancista; provavelmente eu sou um ensaísta que precisa de escrever romances porque não sabe escrever ensaios».

Nas  fichas de leitura do serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, assinada por Joana Varela:

«Se José Saramago quisesse ser exacto e gostasse de desvendar segredos, em vez de Manual de Pintura e Caligrafia, chamaria muito simplesmente ao seu livro Manual de Vida, porque, no fundo, é só disso que se trata.

Mário Soares comprou  o seu exemplar do Manual de Saramago na Livraria Moraes e, em alto e bom som, terá dito:

«Manual de Pintura e Caligrafia? Mas o que é que o Saramago sabe disto?»

Nas fichas de leitura do serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, assinada por Joana Varela:

«Se José Saramago quisesse ser exacto e gostasse de desvendar segredos, em vez de Manual de Pintura e Caligrafia, chamaria muito simplesmente ao seu livro Manual de Vida, porque, no fundo, é só disso que se trata.»

Quando em Dezembro de 1976 José Saramago publica Manual de Pintura e Caligrafia, rodeou o livro de uma esperança de que teria uma boa aceitação por parte da crítica e pelos eseus leitores que, certamente, Saramago desconhecia quantos seriam.

Leitor assumido de Saramago, comprei o livro e dele muito gostei, gosto que, com o andar dos tempos, não se perdeu.

Robert Walser, citado por Rosa Montero em A Louca da Casa, após a publicação do seu primeiro livro, escreveu:

«É uma verdadeira desgraça quando um escritor não obtém sucesso com o seu primeiro livro, como me aconteceu a mim.»

Ainda Rosa Montero:

«Estou a pensar no pobre Robert Walser. Hoje é uma personagem de culto, um nome importante, embora não popular, da literatura contemporânea em alemão Mas a verdade é que, enquanto foi vivo, ninguém lhe deu a menor importância.

Finalmente, em 1905, o jovem Walser conseguiu que lhe publicassem o seu primeiro livro e até que lhe fizessem um contrato para o segundo. Esta conquista, que deve ter sido um dos momentos mais felizes da sua vida, implicou, a sua perdição. Walser, entusiasmado, deixou o trabalho de empregado de escritório assim que assinou o contrato, decidido a dedicar-se profissionalmente à escrita mesmo antes de sair a sua primeira obra e sem ter em conta o êxito que podia ter. Ou melhor, que não teve, porque foi um completo fracasso. Fizeram-lhe dias excelentes críticas, uma delas assinada por Herman Hesse, mas o livro com uma tiragem de mil e trezentos exemplares, só vendeu quarenta e sete cópias, e o editor franziu o nariz e decidiu não cumprir o acordo e não publicar a segunda obra.»

Deixemos Robert Walser, deixemos Rosa Montero, voltemos a José Saramago:

Joaquim Vicente no seu Rota de Vida,  conta que Nelson de Matos terá dito que o Manual tinha vendido três exemplares, um dos quais comprado por Mário Soares, que quando o adquiriu  na Livraria Moraes, terá dito: «Manual de Pintura e Caligrafia? Mas o que é que o Saramago sabe disto?»

É uma história, malévola história, de quem detesta Saramago, no fundo dos fundos também uma história muito mal contada. Eu comprei o livro. E ao tempo, sei de mais pessoas que o compraram.

«É talvez o meu livro mais autobiográfico», reconhecerá o próprio Saramago.

O escritor Mário de Carvalho:

«O livro não entusiasmou ninguém. Julgo ter percebido, então, o quanto aquele livro era importante para José Saramago e a incomodidade por que deve ter passado perante apreciações mais ou menos evasivas ou condescendentes. Tinha apostado muito forte. Creio que ainda hoje valoriza muito o Manual… Mas nas opiniões então dominantes, que, no essencial me parecem acertadas, não era ainda o romance de um grande escritor. Não tinha sido desta…»

José Manuel Mendes inserirá o livro do amigo na coerência de um percurso literário: «Se lermos com atenção os dois livros que ele escreveu antes, Terra do Pecado e Claraboia (sobretudo Claraboia), entendemos que está ali integralmente um homem capaz de fazer uma obra de grande envergadura. Depois, a tarimba do jornal e particularmente da crónica, mais do que os artigos de opinião, servem-lhe para experimentação de mecanismos de escrita e de procedimentos textuais de vária ordem. E quando um dia parte para a escrita do Manual de Pintura e Caligrafia, livro que valorizo bastante, ele está maduro para fazer esse tipo de experiência e levá-la a bom porto, a um bom resultado. O romance é um bom romance.»

 Começa nestas páginas o estilo que Saramago aperfeiçoará constantemente ao longo da sua obra.

 «Poderei escrever sempre, até ao fim da vida.»

 «Que quero eu? Primeiramente, não ser derrotado. Depois, se possível, vencer.»

 E quase definitivo:

 «Não sou já, não sou ainda, não sei que serei.»

José Saramago vai ter com Nelson de Matos à Moraes para que lhe publique Levantado do Chão. 

Nelson de Matos diz que não pode. 

Os motivos, e o resto, estão neste excerto de uma entrevista que deu ao Expresso de 27 de Novembro de 2004.

Nela se fica a saber o motivo porque não aconteceu continuar a ser o editor do que seria o futuro Prémio Nobel de Literatura, do amigo, do camarada…

Nelson de Matos tem razões suficientes para, cada vez que se lembra do episódio, murmurar de si para si, que o destino é mesmo um tipo sem moral nenhuma.

«- Quando estava na altura na editora Moraes, você não publicou o terceiro original de José Saramago.

- Nós não temos a mesma leitura dos acontecimentos, porque o Saramago conta isso de uma maneira e eu conto de outra. Peço desculpa ao Saramago por considerar que ele conta mal, porque ele acha que existiram influências sinistras da minha decisão. E a verdade é que não existiram, foi uma coisa bastante mais prosaica. Ou seja: eu publiquei um livro de contos que se chamava “Objecto Quase” e um romance, “Manual de Pintura e Caligrafia”.

- Qual era o terceiro?

- O “Levantado do Chão”, que o Saramago me apresentou, que eu li, e gostei – nada a dizer sobre o livro, que é um excelente romance. Mas nessa altura a Moraes estava no fim.

- Falida?

Exactamente. Os livros anteriores do Saramago não tinham vendido. Ele tinha estado no “Diário de Notícias” e estava a atravessar aquele período negativo posterior, muito marcado politicamente. Tive que lhe dizer: “José, fiz duas experiências, não resultaram, lamento não ter condições para poder fazer a terceira.” E não publiquei. Esse livro, por coincidência e por felicidade – e digo-o sem nenhum rancor…

- … foi a explosão

- … foi o início da explosão de Saramago e do seu sucesso futuro. Portanto, passei a ter no meu currículo de editor o ter recusado publicar um futuro Prémio Nobel.

- Essa é uma nódoa inapagável!

- E não é a única! Na vida dos editores, essas coisas acontecem com relativa frequência: o não se apostar num autor e ter uma grande surpresa.

- Ficou surpreendido quando ganhou o Nobel?

- Claro, porque um Nobel nunca se espera. Quando me disseram, eu estava em Frankfurt, no meio de uma reunião. Claro que fiquei contente. Mas foi mais um contentamento do que uma surpresa.- Voltou a chamar-se a si próprio: “Que grande estúpido que eu fui!”
- Sim…Lembro-me que, depois, estive com o Saramago, sentado, no “stand” da “Dom Quixote”, num momento de descanso. Estivemos a falar e divertimo-nos um pouco com essa situação.

- Não ficaram sequelas entre os dois?

- Da minha parte, nunca. Da parte do José Saramago, creio que ele ficou desgostoso e suponho que nunca me perdoou ou entendeu esse gesto. Sempre relatou isso como se eu tivesse tido pressões para não o editar. E isso não é verdade.

- Que tipo de pressões?

- Políticas, empresariais, eu sei lá!

- Mas vocês pertenceram ao mesmo partido, ainda por cima.

- Sim, sim, sim

- Você ainda estava no PCP?

- Ainda, o que mostra o absurdo da situação.»

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 Andou a fazer umas passeatas pelo país, tomar o pulso aos militantes, mostrou o seu cínico sorriso em jantaradas seguidas de discursatas e chegado ao remanso do lar, concluiu que vir a ocupar o cargo de primeiro-ministro do pedaço, não é tarefa fácil, apesar dos marcelistas elogios, a tentativa da imprensa de direita de lhe dar um certo apoio bem como uma artigallhada que a múmia de Boliqueime/Belém fez publicar no direitista Público, em que o governo de António Costa é desancado.

Poderá sempre dizer como um seu correleginário que talvez apareça escrito nas etrelas que um dia será primeiro ministpo do reino, mas não há qualquer certeza que ias palavras apareçam escritas.

A não ser… ah! sim, omais fiável é juntar-se aos racistas-xenófobos-do partido-esgoto-do Ventura.

E não há que hesitar!

Os trabalhos já começaram.

1.

 

Ricardo Salgado fez muita coisa no BES enquanto por lá se sentou.

Mas tudo só foi possível porque no Banco de Portugal quem também por lá andou sentado, tudo permitiu.

Medo?

Compadrio?

Falta de memória?

Lembro-me quando Mário Soares o mandou vir do Brasil, para onde fugira a seguir ao 25 de Abril, porque seria muito útil à Democracia.

Mas o que é a Democracia?

Aquelas coisas do Soares…

2.

«Como na frase de Nani Moretti, poderia pedir-se ao Governo: «Digam qualquer coisa de esquerda!» Neste caso pedir sobretudo que façam, por favor, que façam qualquer coisa de esquerda.»

Carmo Afonso , Público

3.

«A prescrição moral não está regulada juridicamente, está sujeita ao julgamento final. Se perante um crime, o julgamento de direito admite a prescrição como um valor que preserva a segurança do funcionamento jurídico, já na moral cristã não há prescrições: um assassino será sempre um assassino; um ladrão, ladrão; um abusador será sempre abusador. Só a confissão, o arrependimento e penitência atenuam, convocando o perdão. Perante os casos de suspeitas e denúncias de abusos sexuais que se acumulam, todos os meses, pendendo na jugular da Igreja Católica portuguesa como um cutelo, uma parte das suas mais altas figuras permanece muda ou envolvida num manto desculpabilizador absolutamente intolerável. Mais perto do arrependimento mas ainda longe da penitência, nem sequer confessa abertamente os seus pecados. Perante tudo o que se passou, soma aos factos uma atitude sem perdão. A Igreja continua a defender-se com a teoria dos factos à época, como se fossem cometidos na Idade Média.»

Miguel Guedes no Jornal de Notícias

4.

«As pessoas nunca são tão completa e entusiasticamente más como quando agem por convicção religiosa"»

Umberto Eco

5.

«Um sacerdote não pode continuar a ser sacerdote se for um abusador.»

Padre Francsco

6.

«A ridícula ideia de não voltara a ver-te.»

Rosa Montero

7.

 «Um ministro não ganha para o que faz.»

 Francisca Van Nunen, ex-ministra da Justiça

8.

O filme O Livro de Imagem, derradeira longa-metragem de Godard — a meu ver tão significativo para a modernidade cinematográfica como Les Demoiselles d’Avignon (1907), de Pablo Picasso, para a pintura do século XX — estreou-se nas salas portuguesas, com distribuição da Midas Filmes, no dia 6 de dezembro de 2018. Segundo os dados oficiais do ICA -Instituto do Cinema e do Audiovisual, O Livro de Imagem esteve em exibição seis semanas, até 16 de janeiro, tendo sido visto por um total de 1343 espectadores.

A pequenez de tal número é apenas uma variante de um fenómeno das últimas décadas: são muito poucos os que, realmente, viram os filmes de Godard. O certo é que, perante o clamor de exaltação e reverência suscitado pela notícia da sua morte, dir-se-ia que, depois do lançamento de Gabriela (16 de maio de 1977), os nossos horários nobres têm sido preenchidos apenas e só com filmes de Godard...

Num curtíssimo filme (2 minutos) que aborda uma fotografia da guerra da Bósnia — Je Vous Salue, Sarajevo (1993) —, Godard fala da cultura como a “regra” e da arte como a “excepção”. E refere alguns “objectos” que estipulam a regra que “todos dizem”. São eles: “cigarro, computador, t-shirt, televisão, turismo, guerra”. Acrescenta que “ninguém diz a excepção”. Porquê? Porque “isso não se diz, escreve-se: Flaubert, Dostoievski; compõe-se: Gershwin, Mozart; pinta-se: Cézanne, Vermeer; filma-se: Antonioni, Vigo. Ou isso vive-se e, então, é a arte de viver: Srebrenica, Mostar, Sarajevo.” E termina citando Louis Aragon (peço desculpa pela tradução literal): “Quando for necessário fechar o livro, será sem lamentar nada. Vi tanta gente viver tão mal e tanta gente morrer tão bem.”

João Lopes em  Sound + Vision

9.

Tirado do anúncio ao Livro de Imagem do Jean-Luc Godard:

«Ainda te lembras como costumávamos treinar o nosso pensamento?
A maioria das vezes partíamos de um sonho…
Perguntávamo-nos como, na total escuridão,cores de tal intensidade podiam emergir dentro de nós.
Numa voz suave e fraca
Dizendo coisas grandiosas,
Coisas importantes, surpreendentes, profundas e exactas.
Imagem e palavra
Como um pesadelo escrito numa noite de tempestade.
Sob os olhos do Ocidente.
Os paraísos perdidos.
A guerra está aqui…»

10.

Os Bancos já custaram ao Estado mais de 22 mil milhões de euros desde 2008.

11.

Existem 2,3 milhões de portugueses em risco de pobreza ou exclusão social, o equivalente a 22,4% da população. Portugal passou de 13.º para 8.º na lista de países europeus com maior risco de pobreza ou exclusão social.

12.

Em Lisboa, por dia, são recolhidos 990 toneladas de lixo.

domingo, 3 de abril de 2022

OLHAR AS CAPAS


Salgueiro Maia – Um Homem da Liberdade

António de Sousa Duarte

Prefácio. Mário Soares

Capa: A. Rochinha Diogo

Círculo de Leitores, Lisboa, Março de 1995

A vida nunca lhe foi fácil. A doença caiu sobre ele quando estava em plena maturidade e ainda tanto havia a esperar do seu talento.

Sei que morreu amargurado, considerando-se injustiçado, apesar da devoção extraordinária da sua Mulher e Filhos. A coragem e a dignidade que revelou face a uma doença impiedosa, devastadora e terrível deu bem a medida da sua excepcional coragem e física.

Esta biografia representa uma homenagem à sua memória e um acto de justiça. Mas dar a conhecer a pessoa e a vida de Salgueiro Maia é também um valiosos acto de pedagogia e solidariedade, sem discriminações nem injustiças, que ele sonhou para todos os portugueses.

Porque, como disse Sophia de Mello Breyner, no belo poema que lhe dedicou, ele foi

«Aquele que na hora da vitória

Respeitou o vencido


Aquele que deu tudo e não pediu a paga

 

Aquele que na hora da ganância

Perdeu o apetite

 

Aquele que amou os outros e por isso

Não colaborou com a sua ignorância ou vício

 

Aquele que foi “fiel à palavra dada à ideia tida”

Como antes dele mas também por ele

Pessoa disse»

 

(Do Prefácio)

domingo, 15 de agosto de 2021

DÁ CÁ VINTES!


Lisboa, finais dos anos 60.

Eu a descer o Chiado, o Luiz Pacheco a subir.

A tal imagem de marca do artista: saquinho de plástico, calça curta, canela quase à mostra, peúgas descaídas por falta de elástico.

«Repare nas minhas calças: sou o gajo das calças curtas. Porquê? Porque não mando fazer um fato desde 1957 ou 1958! E por acaso tinha um bom alfaiate, mas o último fato não o paguei e nunca mais lá fui… «O gajo anda de calças assim para provocar, para se mostrar original.» Não é! Eu vejo aí é calças a três e quatro contos e eu ia dar três contos por um par de calças?! Jamais de ma vie, porra! Se me dão calças compridas, visto-as, dão-me curtas, eu visto-as! Quero lá saber… são dadas! Essa carneirada acha de mim uma coisa, eu acho deles outra! Agora, isto não tem nada a ver com a obra que fiz!»

(De uma entrevista de Luiz Pacheco no Público, Março de 1995, e que consta dO Crocodilo Que Voa, organização de João Pedro George)

Cruzamo-nos à porta da Leitaria Marques, que continua fechada, questões de massas ou lá o que é, mexe no saco de plástico, saca umas folhas copiadas a stencil.

- Dá cá vintes!

Os tempos eram difíceis, mas o Pacheco era o Pacheco, dei-lhe os vintes.

Fiquei com dezes e a Comunidade.

A capa e a primeira folha que aqui se reproduzem.

Amareladas pelo tempo não consegui uma boa reprodução., mas ficam aqui.

Um lindíssimo texto, uns vintes, em tempos tão difíceis, muito bem empregues.

Em Março de 1970, a Comunidade saiu em folheto, ainda pela Contraponto, «fez-se uma tiragem especial de trezentos exemplares, numerada e assinada pelo Editor, com um «poster-hors-texte», original de Carlos Ferreiro.»

Segundo o catálogo da Exposição 1 Homem Dividido vale por 2, a Comunidade foi saindo editada não só pela Contraponto. Da  edição do ano de 1996, publicaram-se 500 exemplares, «especialíssima, dedicada em preito de homenagem e gratidão, a Sua Excelência o presidente da República Portuguesa, Dr. Mário Soares».


Por Mário Soares, conta a Pachecal figura:

«Essa história do gajo me dar dinheiro? As pessoas têm esta coisa que é assim: «o presidente da República deu 200 contos àquele calhordas», isso provocou espanto. Estupefacção. Andámos na faculdade, nunca tivemos um relacionamento íntimo ou uma grande amizade. Eu via o gajo no Chiado: «Ó Mário, passa-me aí algum, pá.» Ele puxava da carteira, tirava cinco paus, fazia um gesto com o dinheiro na mão para o mostrar, e dava-mo. Agora, aqui, em Setúbal, isso tem uma explicação. O assessor cultural foi à livraria da Raposo (Pacheco refere-se à livraria UniVerso, em Setúbal) e este, para se evidenciar, disse logo: «quem está aí é o Pacheco e tal». E o outro foi dizer ao Mário Soares. Não é lá essa história do presidente descobrir que eu estou aqui no buraco e manda-me 200 contos, dentro do envelope vinham 25 notas de 10 contos. Ia morrendo. Acho que tem uma razão deontológica…, o escritor, o escriba, depois como é que agradece um gesto destes?»

(De uma entrevista de Luiz Pacheco, publicada em Dezembro de 1995, no Blitz e que consta O Crocodilo Que Voa)

«Do Jorge Sampaio nem cheiro. Pior foi o Eanes. Como o David  Mourão-Ferreira tinha conseguido um subsídio para o Raul de carvalho, o Alçada Baptista falou-lhe em mim. E o Eanes respondeu-lhe: «Para quê? Para ir gastar na taberna?» O Soares não perguntou onde é que eu ia gastar a massa.»

(De uma entrevista de Luiz Pacheco, dada a Rodrigues da Silva, publicada no JL e que consta de O Crocodilo que Voa).


quinta-feira, 29 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ATÉ MAIO


29 de Abril de 1974

O quinto dia da nossa vida em liberdade.

 A importante, quase única, notícia que percorre todos os jornais:

É instituído como feriado nacional obrigatório o dia um de maio, considerado o «Dia do Trabalhador.»

Por outro lado, continuam as manifestações, as reuniões políticas, a «caça ao pide.»

Outras decisões:

Amnistia para os Presos Políticos.

Abolida a censura aos espectáculos.

Dissolução da Acção Nacional Popular.

Destituído o Chefe de Estado, bem como todo o Governo do regime deposto.

Serão reintegrados os funcionários despedidos por motivos políticos

 Continuava o regresso dos exilados políticos.

 Os desertores e refractários do Exército Português, saúdam a Junta de Salvação Nacional, querem voltar e pedem amnistia.

 Tal como o MPLA, a FRELIMO rejeita a solução federativa entre Portugal e os países africanos.

1.

Na página desportiva do Diário de Lisboa, uma interessantíssima observação do jornalista Neves de Sousa e que constitui a abertura da sua crónica sobre o jogo entre o Sporting e o Belenenses para a Taça de Portugal.

Com tanto pide preso e barões e baronetes em fuga, gentes que tinham cartões de livre- trânsito para todos os jogos de futebol, não ocuparam os seus lugares…

 


2.

O República chama para a 1ª página uma afirmação de Mário Soares na sua chegada a Lisboa.

Nas páginas interiores noticia que essa figura sinistra, que dá pelo nome de Capitão Maltês e era o comandante da Polícia de Choque, ainda andava a monte.


Quem quisesse sair do País só poderia levar um máximo de 50 contos.


Na última página, ficava a saber-se que Henrique Tenreiro, ex-deputado e presidente da Junta Central da Legião Portuguesa, para além de outros títulos, apresentou-se, voluntariamente, à Junta de Salvação Nacional.

Também no República, uma notícia insólita: a administração dos TLP tenciona descontar aos trabalhadores o facto de não terem ido trabalhar no dia 25 de Abril.


3.

Na primeira página, A Capital dava conta da constituição do Movimento Democrático Português.

Para a Comissão Central Provisória, entre outros, foram votados Francisco Pereira de Moura, José Tengarrinha, Victor Wengorovius, Luís Moita, Henrique Neto.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ANTES DE MAIO


28 de Abril de 1974

Barradas de Oliveira é demitido de director do jornal Época, que ontem não saiu para as bancas.

Depois de populares terem, anteontem, tentado destruir as instalações do jornal, que era um sustentáculo da ditadura, o Conselho de Redacção nomeou José Manuel Pintasilgo, chefe de redacção de ex-Época, como director do jornal, que passa, a partir de hoje, a publicar-se com o nome de A Época.

Esta é a capa do nº1 do ano I de A Época.

Começam a surgir os primeiros sinais de camaleonismo.

Atente-se no final da sua declaração de princípios:


1.

É  manchete em todos os jornais, a chegada a Lisboa de Mário Soares, bem como a recepção entusiástica que milhares de pessoas prestaram à sua chegada à estação de Santa Apolónia, no regresso do exílio em Paris.

Pela primeira vez os jornais dão conta da pretensão de o 1º de Maio ser decretado feriado nacional. O pedido foi formulado pelo «leader» da C.D.E., Prof. Francisco Pereira de Moura, durante a reunião de ontem com a Junta de Salvação Nacional

Diário Popular noticia que, num avião militar, partem amanhã, com destino ao Funchal a esposa e a filha do ex-presidente da república Américo Tomás.

Desde o dia 25, mais de um milhão de exemplares do Diário Popular têm sido disputados aos ardinas. Ontem, o jornal colocou três tiragens nas bancas.

2.

Fotografia publicada na página 14 de A Capital que mostra o baptismo do novo nome da Ponte sobre o Tejo.

A acção foi levada a cabo por um movimento, espontaneamente formado, denominado 1º Comité de Acção Popular.

3.

Destaque na 1ª página de O Século para a prisão de Silva Pais, ex-director da PIDE-DGS.

4.


Mário Castrim dedica a sua crítica de televisão às imagens da libertação dos presos políticos em Caxias.

Este é o começo da crónica:


terça-feira, 27 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ATÉ MAIO


27 de Abril de 1974.

O terceiro dia da nossa vida em liberdade.

Todos os jornais dão conta das reuniões que vão ocorrendo, no Palácio da Cova da Moura, com a Junta de Salvação Nacional, das manifestações de apoio ao Movimento das Forças Armadas, que vão acontecendo por todo o País.

1.

Mas a ÚNICA notícia é apenas uma:

Após demoradas negociações são libertados os presos políticos que se encontravam no Forte de Peniche e em Caxias. Os presos tinham decidido que ou saiam todos ou não saia nenhum.

2.

Anuncia-se que está prevista para amanhã a chegada a Lisboa de Mário Soares e que os bancos reabrirão na segunda-feira dia 29.

 3.

No topo a 1ª página de A Capital que na sua página 4 noticia que o presidente da assembleia nacional, Engº Amaral Neto cancelou a reunião marcada para este dia e aguarda, apenas, que a Junta de Salvação Nacional decrete a dissolução da assembleia.


4.


Diário Popular dava conta que, em Beja, foi preso pela polícia, um homem que ostentava um cartaz a pedir a extinção da PIDE.


5.

Destaque na página 14 para a reunião que a Conferência Episcopal iniciou, no dia 23, em Fátima, ainda em tempo de ditadura, e que teve o encerramento ontem ao final da tarde.

Os senhores bispos mudaram de agulha e emitem um comunicado em que formulam votos para que os acontecimentos destes dias contribuam para o bem da sociedade portuguesa, na justiça, na reconciliação e no respeito

por todas as pessoas. Apelam para a virtudes cívicas dos católicos e demais portugueses de boa vontade. E rezam a Deus pelo povo de Portugal.

A conferência aproveita para se solidarizar com o Bispo de Nampula, expulso de Moçambique, nos primeiros dias de Abril, pela ditadura.


Essa solidariedade teria sido bem-vinda aquando dos acontecimentos, que também envolveram a expulsão de diversos missionários acusados de atentados e de se oporem à guerra colonial.

Mas apenas um beato silêncio.

Profundo foi também o silêncio que os senhores bispos mantiveram, durante quarenta e oito anos, com um regime que oprimia e perseguia um povo e mantinha em África uma guerra  que matou, estropiou milhares de portugueses e africanos.

6.

O República revelava que no Forte de Caxias estavam presos 228 membros da Ex-PIDE-DGS e que ainda continuavam à solta mais de dois mil agentes.


Oportuna a entrevista que na página 13, do República, o desembargador Rocha Cunha concedeu a Fernando Assis Pacheco.

 Está por fazer a história da participação dos juízes dos Tribunais Plenários.

 Pior ainda o sabermos que, após o 25 de Abril, esses mesmos juízos foram integrados no sistema judicial sem nunca terem sido responsabilizados e julgados. Eles foram protagonistas do aparelho repressivo da ditadura.

 Uma impunidade que há-de estender-se aos agentes da PIDE-DGS e outros servidores do Estado Novo.

 Não por uma questão de vingança, apenas por uma questão de justiça.

 Na sua página de espectáculos o jornal avisava que, por motivos óbvios, não era possível publicar a programação da RTP:


7.

Como os restantes jornais, O Século noticiava o assalto que populares fizeram ao edifício do jornal Época, que não se publicou neste dia, e que obrigou à intervenção de elementos das Forças Armadas.

Face a este incidente, e outros que iam acontecendo, como a invasão das instalações da A.N.P., a Junta de Salvação Nacional emitia um comunicado:


Na página 7,  publicava-se uma fotografia de Eduardo Gageiro  que registava o momento em que um membro da PIDE-DGS era preso.

Esta fotografia correrá mundo.


Também a notícia da morte do poeta Pedro Oom, fulminado por um ataque cardíaco. O poeta que tinha 47 anos, um pouco menos que o regime deposto, e não resistiu à emoção de ver cair a ditadura.



8.

Fotografia na última página do Diário de Lisboa.


No Largo da Misericórdia, o povo largou fogo a um automóvel da PIDE, ontem á tarde. Três agentes transportavam-se nele quando, cerca do meio-dia, foram identificados por populares arrastados para junto do pelourinho do largo e desramados pelo Exército. O povo queria linchá-los, tendo sido contido só a muito custo pelo capitão e pelos poucos soldados que os guardavam.