Quem não nos deu amor não nos deu nada.
João
Rui de Sousa
Legenda:
pintura de Nikolay Bogdanov
Edições Cosmos, Lisboa, Março de 2001
Colaborações, entre outros:
Joaquim-Francisco Coelho, Almeida Faria, Fernando Guimarães, João Rui de Sousa, Eugénia Vasquies, Luís Francisco Rebello, Jorge Fazenda Lourenço, Eugénio Lisboa, José-Augusto França.
«À morte de Jorge
de Sena, em 1979, fiz uma aula de História da Arte na minha Universidade, com a
leitura deste poemas, uns atrás dos outros, e projecção das obras referidas – e
foi, assim somente, uma lição com certeza
mais útil do que todas as mais que dei
na minha cadeira. Pela emoção intelectual e sensitiva que nenhum outro poeta português
poderia assim provocar, em conhecimento vivido ou convivido, de obras de arte
ao longo de mais de dois mil anos…»
Do texto de José Augusto França.
A
João Rui de Sousa pelo seu aniversário
Il
ne se passe pas grand - chose... mais à condition d´être suffisamment attentif,
on
trouve toujours des petits détails à raconter
Patrick
Deville (Longue Vue)
...é
sempre de um outro para um outro
no
vazio numa distância
num
espaço branco
propício
à imagem
a
uma metamorfose talvez
talvez
porque
não
perdemos a possibilidade de admirar
o
simples insignificante na singularidade indizível
talvez
o espaço a cor o gosto
de
respirar através de uma sombra
o
gosto de um fruto
um
fragmento do indivisível
e
a ignorância de ver
no
ébrio entusiasmo paciente
de
sermos nada
na
lentidão vaga da visão
entre
duas cores ou dois matizes de uma cor
o
amarelo e o dourado
a
música de uma sombra diluída
fronteira
flutuante entre duas sílabas
um
pequeno pormenor a génese indecisa
de
um começo
de
uma outra sintaxe
que
respira
como
o azul no cinzento
a
cor viva de um enigma amoroso
Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou
uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou
um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não
tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De
súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A
minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com
esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O
que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto
a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa
e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não
estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero
conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não
sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
António
Ramos Rosa
Desenho
pintado por Aida Santos
Aproveitando aquela floresta de enganos que ficou conhecida na história como “primavera marcelista”, Urbano Tavares Rodrigues escreveu no “República” de 28 de Outubro de 1968, um artigo em que falava da “urgente necessidade do restabelecimento da Sociedade Portuguesa de Escritores.”