Narrar é a última forma
de contrariar o fim.
Lídia
Jorge
Legenda:
Italo Calvino, fotografia de Sebastião Salgado
Narrar é a última forma
de contrariar o fim.
Lídia
Jorge
Legenda:
Italo Calvino, fotografia de Sebastião Salgado
Poupo-os à descrição da coisa fantasmagórica que é o Natal nesta cidade, porque já a leram cem mil vezes e de meu não poderei acrescentar senão a garantia de que é muito mais do que possa imaginar e nunca se viu uma festa impregnar mais a vida de uma cidade; já não é uma cidade: é Natal. O Natal na civilização do consumo tornou-se na grande festa do consumo; o obsessionante Santa Claus que se vê em carne e osso nos átrios de todas as lojas com a campainha na mão, e figurado em todos os cartazes, em todas as montras, a todas as portas, é o inexorável deus do Consumo que nos impõe a alegria e o bem-estar a todo o custo.
Itako Calvino em Um Eremita em Paris
«Chega-se a um momento da vida em que da gente que se conheceu são mais os mortos do que os vivos. E a mente recusa-se a aceitar outras fisionomias, outras expressões: em todos os rostos novos que encontra, grava as velhas feições, para cada um arranja a máscara que melhor se lhe adapta.»
Italo Calvino em As Cidades
Invisíveis
11 de Maio de 1992
Num
livro único e maravilhoso, As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, livro em que tudo se
repete sem nada se perder, há um momento em que o autor insinua que o outro
lado, a face clandestina de todas as cidades, só pode ser a sereníssima cidade
de Veneza – um lugar de partida onde nunca se chega. Porque Veneza é isso mesmo
o paradoxo indecifrável de um lugar-mais-que-comum e de um não-lugar definitivo.
Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II
Nota que antecede O CavaleiroInexistente:
«Italo Calvino completa com O
Cavaleiro Inexistente, a célebre trilogia Os Nossos Antepassados,
cujos anteriores volumes foram O Visconde Cortado ao Meio e O Barão
Trepador, já publicados nesta colecção. A designação «trilogia» não envolve
nenhuma ideia de sequência ou intriga; qualquer das obras é absolutamente
independente e só as liga o carácter simbólico dos temas. Está-se em presença
de um novo rumo literário de Italo Calvino, onde (digamos) a fantasia forte da
verdade se cobre com o manto diáfano da ironia. O leitor poderá, na verdade,
verificar que se trata de deliciosas fábulas, narradas num estilo riquíssimo e
esplendoroso. Mas fábulas sobre quê? Num lúcido prefácio que escreveu para a
última edição italiana, em um só volume, desta trilogia, afirmou que fora
propósito seu escrever uma espécie de pré-história do homem contemporâneo
através dos seus antepassados e procurara estabelecer uma exacta relação entre
a consciência individual e o curso da História. Fechado tal ciclo, e
aproveitando a experiência adquirida, Calvino seguirá novo caminho como
surpreendentemente se testemunha com o seu último romance Jornada de um
Escrutinador (Até os Loucos Votaram), livro dos mais originais da
moderna ficção italiana e que será apresentado ao público português na nossa
Colecção Contemporânea.»
Legenda: Capa da edição
brasileira de Os Nossos Antepassados, que reúne os três volumes das fábulas
de Italo Calvino.