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terça-feira, 30 de setembro de 2025

POSTAIS SEM SELO


Narrar é a última forma de contrariar o fim.

Lídia Jorge

Legenda: Italo Calvino, fotografia de Sebastião Salgado

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

O INEXORÁVEL DEUS DO CONSUMO

Poupo-os à descrição da coisa fantasmagórica que é o Natal  nesta cidade, porque já a leram cem mil vezes e de meu não poderei acrescentar senão a garantia de que é muito mais do que possa imaginar e nunca se viu uma festa impregnar mais a vida de uma cidade; já não é uma cidade: é Natal. O Natal na civilização do consumo tornou-se na grande festa do consumo; o obsessionante Santa Claus que se vê em carne e osso nos átrios de todas as lojas com a campainha na mão, e figurado em todos os cartazes, em todas as montras, a todas as portas, é o inexorável deus do Consumo que nos impõe a alegria e o bem-estar a todo o custo.

Itako Calvino em Um Eremita em Paris

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

SÃO MAIS OS MORTOS QUE OS VIVOS

«Chega-se a um momento da vida em que da gente que se conheceu são mais os mortos do que os vivos. E a mente recusa-se a aceitar outras fisionomias, outras expressões: em todos os rostos novos que encontra, grava as velhas feições, para cada um arranja a máscara que melhor se lhe adapta.»

Italo Calvino em  As Cidades Invisíveis 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

TUDO SE REPETE SEM NADA SE PERDER

11 de Maio de 1992

Num livro único e maravilhoso, As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, livro em que tudo se repete sem nada se perder, há um momento em que o autor insinua que o outro lado, a face clandestina de todas as cidades, só pode ser a sereníssima cidade de Veneza – um lugar de partida onde nunca se chega. Porque Veneza é isso mesmo o paradoxo indecifrável de um lugar-mais-que-comum e de um não-lugar definitivo.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II

sábado, 17 de abril de 2021

RELACIONADOS


Nota que antecede O CavaleiroInexistente:

«Italo Calvino completa com O Cavaleiro Inexistente, a célebre trilogia Os Nossos Antepassados, cujos anteriores volumes foram O Visconde Cortado ao Meio e O Barão Trepador, já publicados nesta colecção. A designação «trilogia» não envolve nenhuma ideia de sequência ou intriga; qualquer das obras é absolutamente independente e só as liga o carácter simbólico dos temas. Está-se em presença de um novo rumo literário de Italo Calvino, onde (digamos) a fantasia forte da verdade se cobre com o manto diáfano da ironia. O leitor poderá, na verdade, verificar que se trata de deliciosas fábulas, narradas num estilo riquíssimo e esplendoroso. Mas fábulas sobre quê? Num lúcido prefácio que escreveu para a última edição italiana, em um só volume, desta trilogia, afirmou que fora propósito seu escrever uma espécie de pré-história do homem contemporâneo através dos seus antepassados e procurara estabelecer uma exacta relação entre a consciência individual e o curso da História. Fechado tal ciclo, e aproveitando a experiência adquirida, Calvino seguirá novo caminho como surpreendentemente se testemunha com o seu último romance Jornada de um Escrutinador (Até os Loucos Votaram), livro dos mais originais da moderna ficção italiana e que será apresentado ao público português na nossa Colecção Contemporânea.»

Legenda: Capa da edição brasileira de Os Nossos Antepassados, que reúne os três volumes das fábulas de Italo Calvino.

domingo, 22 de março de 2020

DIÁRIO DOS DIAS DIFÍCEIS

No findar do dia de hoje, fui no encalço de um muito velho recorte de um texto que o Mário Castrim deixou numa das suas críticas de televisão que, diariamente, publicava no Diário de Lisboa.

Contas muito por alto, Mário Castrim, enquanto crítico, passou 70 mil horas frente ao televisor.


Ainda morava frente à estação da Carris, perto do Calvário, trabalhava noite dentro, deixava a crítica no puxador da porta, ao lado do saco do pão, e era ali que o motorista do Diário de Lisboa ia busca-la às 7 da manhã.

José Mário Branco faz-nos hoje companhia: «Ser Solidário»



«Ser solidário assim p'ralém da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz

De como aqui chegar não é mister
Contar o que já sabe quem souber
O estrume em que germina a ilusão
Fecundará por certo esta canção

Ser solidário, sim, por sobre a morte
Que depois dela só o tempo é forte
E a morte nunca o tempo a redime
Mas sim o amor dos homens que se exprime

De como aqui chegar não vale a pena
Já que a moral da história é tão pequena
Que nunca por vingança eu te daria
No ventre das canções sabedoria

Ser solidário assim pr'além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz

Ser solidário assim pr'além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz

De como aqui chegar não é mister
Contar o que já sabe quem souber
O estrume em que germina a ilusão
Fecundará por certo esta canção

Ser solidário, sim, por sobre a morte
Que depois dela só o tempo é forte
E a morte nunca o tempo a redime
Mas sim o amor dos homens que se exprime

De como aqui chegar não vale a pena
Já que a moral da história é tão pequena
Que nunca por vingança eu te daria
No ventre das canções sabedoria

Ser solidário assim pr'além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E improvavelmente ser feliz»

1.

As autoridades portuguesas iniciaram uma operação de repatriamento de mais de 1300 passageiros que chegaram, este domingo, a Lisboa num navio de cruzeiro, dos quais 27 portugueses, no âmbito das medidas de combate à Covid-19.

2.

Um lar, numa terra junto a Vila Nova de Famalicã, tem 33 utentes, 18 trabalhadores. Destes, oito acusaram teste positivo de Covi-19. Os restantes encontram-se de quarentena.

3.

Covid-19 mata, em média, 33 italianos a cada hora que passa.

Não se realizam serviços funerários. São camiões militares que fazem o transporte dos corpos que ficam em regime de espera.

Em Itália há 59.138 pessoas infectados e já se registaram 5.476 mortes.

4,

Notícias provenientes de Madrid dão conta de que morre uma pessoa, vítima do Covi-19, de 15 em 15 minutos.

Os mais velhos estão a ser privados de acesso a ventiladores.

A Espanha regista 28.573 infectados e 1.725 mortos.

5.

Portugal regista 1.600 pessoas infectadas e 14 mortos.

Já se registaram 14.611 mortes em todo o mundo.

6.

De repente, as cidades tornaram-se desertas, tornaram-se cidades fantasmas, cidades invisíveis.


Italo Calvino escreveu As Cidades Invisíveis e guardou para o seu final estas palavras:

«Diz: - Tudo é inútil, se o último local de desembarque tiver de ser a cidade infernal, e é lá no fundo que, numa espiral cada vez mais apertada, nos chupar a corrente.

E Polo: - O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é inferno, e fazê-lo viver, e dar-lhe lugar.»

domingo, 27 de janeiro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Desde que me tornei um forçado do escrever, para mim acabou o prazer da leitura.


Legenda: Italo Calvino

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

PRAZERES



No dia 28 de Julho de 2010 recordámos, aqui, esse saudoso objecto que era um dos acessórios que, em tempos antigos, nos acompanhava no prazer da leitura, sem nunca esquecer o indispensável lápis para sublinhados.

E passámos os olhos por um velho texto de Jorge Listopad

«Ontem, quando aqui contei que abri o livro Os Poemas Possíveis de José Saramago, com uma faca própria para abrir livros, que também servia para abrir as cartas, quando havia cartas, quando as pessoas, por escrito, se correspondiam, lembrei-me de um velho texto de Jorge Listopad publicado na sua coluna «Secos &Molhados» que, durante anos, manteve na última página do «Diário de Notícias.»

Essas notas, essas fichas, foram, mais tarde, reunidas em livro, que Listopad também titulou como Secos Molhados.

É dele que transcrevo O Caso da Faca de Papel:

De repente senti saudade da velha ferramenta do jovem leitor que fui. A faca de papel.
Hoje em dia são raros os livros que precisam de faca para abrirem as páginas; os livros vendem-se já com as páginas cortadas. Sem dúvida, a leitura é mais cómoda. Ganhe-se em tempo o que se perde por outro lado: em “controle” de que o livro “foi” aberto e não é apenas uma prenda platónica ou um ornamento de biblioteca; em higiene e, sobretudo, no sentimento de sermos nós os primeiros a abrir as páginas do mistério do novo mundo que cada livro representa, fechado. Sem esquecer que esse tempo de trabalho manual, habitualmente acompanhado de umas primeiras paragens de leitura supragiagonal, mas quão impressiva, representa um contacto físico e quase amoroso com o papel impresso que é mais do que isso.
A ferramenta fora de uso morre. A faca de papel, belo objecto, está a desaparecer. E com ele talvez certa leitura.»

domingo, 12 de agosto de 2018

POSTAIS SEM SELO


Os únicos livros que reconheço como meus são os que ainda tenho de escrever.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

UMA JOVEM MULHER A LER


Sentada numa cadeira de praia, no terraço de um chalet no fundo do vale, há uma jovem mulher a ler. Todos os dias antes de me pôr a trabalhar fico um bocado a olhá-la com o óculo. Neste ar fino e transparente parece-me captar na sua figura imóvel os sinais desse movimento invisível que é a leitura, o correr do olhar e do respiro, mas ainda mais o percurso das palavras através da pessoa. O seu fluir ou deter-se, os impulsos, as demoras, as pausas, a atenção que se concentra ou se dispersa, os recuos, esse percurso que parece uniforme e afinal é sempre mutável e acidentado.
Há quantos anos não posso dar-me ao luxo de uma leitura desinteressada? Há quantos anos não consigo entregar-me a um livro escrito por outros, sem nenhuma relação com as coisas que devo escrever eu? Viro-me e vejo a secretária que me espera, a máquina com a folha no rolo, o capítulo para começar. Desde que me tornei um forçado do escrever, para mim acabou o prazer da leitura. O que eu faço tem como fim o estado de espírito desta mulher sentada na cadeira de braços enquadrada pelas lentes do meu óculo, e é um estado de espírito que me está proibido.
Todos os dias antes de me pôr a trabalhar olho para a mulher na cadeira: digo para comigo que o resultado do esforço inatural a que me submeto ao escrever deve ser o respiro desta leitora, a operação da leitura transformada em processo natural, a correspondente que levas as frases a roçar o filtro da sua atenção, a imobilizarem-se um instante antes de serem absorvidas pelos circuitos da sua mente e desaparecem convertendo-se nos seus fantasmas interiores, no que nela é mais pessoal e incomunicável.


Legenda: A Leitura de Bridget de Peter Samuelson

sábado, 5 de novembro de 2016

POSTAIS SEM SELO


Escrever é um acto solitário.

Legenda: Italo Calvino, fotografia de Sebastião Salgado.

sábado, 1 de agosto de 2015

POSTAIS SEM SELO


Pode-se dizer que os primeiros vinte anos da minha vida os passei com a cara de Mussolini sempre à vista, dado que o seu retrato estava pendurado em todas as salas de aula, assim como em todos os serviços e locais públicos.

Italo Calvino em Um Eremita em Paris

terça-feira, 7 de julho de 2015

POSTAIS SEM SELO


A cidade existe e tem um simples segredo: só conhece partidas e nunca regressos.

Italo Calvino em As Cidades Invisíveis

sexta-feira, 17 de abril de 2015

POSTAIS SEM SELO


A melancolia é uma tristeza com um pouco de leveza.

Italo Calvino

Legenda: imagem de Richard Broken

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

OLHARES


Há muito que os meus passos não caminhavam para os lados do Largo do Rato. A última vez que por lá andei, foi por mor dos jacarandás.

Esta fotografia foi tirada nesse Junho de 1980 e mostra a Charcutaria Brasil.

Situada na Rua Alexandre Herculano era uma das mais conceituadas charcutarias de Lisboa, se bem que nos últimos dez anos tivesse entrado em período de algum desleixo e degradação.

Passei por lá ontem, e já não existe.

Fechou em finais de 2009, não consegui obter a data exacta, tinha mais de 70 anos e chegou a empregar 23 trabalhadores.

No seu lugar está, agora, uma dessas lojas, que vão enxameando a cidade, e designadas por Cashconverters, que ostenta nas montras, o tratar-se de um dos líderes mundiais na compra e venda de ouro e jóias.




Lentamente a cidade vai-se descaracterizando.

Há quem diga que é excesso de saudosismo, não digo que não, mas é assim que vamos morrendo.

Italo Calvino, lido em segunda mão, escreveu um dia:

Tomemos as lojas, que constituem o discurso mais aberto, o mais comunicativo que uma cidade pode exprimir: lemos todos uma cidade, uma rua, um bocado de passeio seguindo a fila das suas lojas. Há lojas que são como capítulos de um tratado, lojas como artigos de uma enciclopédia, lojas como páginas de jornais.

Foi ao lado da então Charcutaria Brasil, que nasceu o grupo de teatro A Barraca, fundado em 1975, pela Maria do Céu Guerra, o Mário Alberto, o Helder Costa. 
O Mário Alberto já nos deixou, A Barraca mantém portas abertas no antigo Cinearte.

sábado, 9 de abril de 2011

POSTAIS SEM SELO


Deveria haver uma época na vida adulta destinada a revisitar as leituras mais importantes da nossa juventude.
Italo Calvino

Legenda: Lisboa, Miradouro da Senhora do Monte.