Já não assim muitos os que se lembram da alvorada de
Abril, das aventuras e desventuras do nosso caminhar naquele Verão dito quente
de 1975, do homem que acreditava no povo e disso vez bandeira e luta.
Chamava-se Vasco Gonçalves.
Este livro é algo de importante para os que esqueceram,
para os que não sabem o que foram aqueles mágicos e muito difíceis dias.
O título do livro diz tudo: «Não Pode Haver Neutros»,
todos aqueles que pensaram, que pensam, que ficar no meio é o espaço ideal para
poder ver os dois lados. Também não pode haver sacanas que, então, apareceram
em quantidade desmesurada, quando o que se podia era algo diferente:
«Nós também precisamos de aliados nesta
revolução; precisamos de pequenos empresários, médios empresários, que
compreendam esta revolução, que caminhem ao nosso lado; nós precisamos também
de alianças porque isto é uma tarefa muito grande. Mas, repito, a revolução só
comporta duas situações: ou se está com ela ou contra ela. Não há tipos que
possam dizer «eu sou neutral, não me interessa nada a política.»
Vasco Gonçalces do Discurso da Sorefame, 17 de Maio de
1975.
Naturalmente, nem tudo correu como se esperaria.
Sobre Vasco Gonçalves fica uma opinião do pintor João
Abel Manta:
«Conheci o Vasco Gonçalves mal. Ele gostou muito desse cartaz “Povo
MFA/MFA Povo”, e quis oferecer-lhe o original. Fui a São Bento, ele disse-me
que gostava muito dos meus bonecos, nem era dos meus cartazes, era mais dos
meus desenhos. Fui recebido, ofereci-lhe o original e ele ficou muito
agradecido. O Vasco Gonçalves parecia-me um daqueles revolucionários dos tempos
antigos, já não havia homens daqueles. Irritava-se, exaltava-se. Havia uma
honestidade, digamos, estomacal, naquele homem, que não sentia nos outros.
Depois, tinha aquele ar. Os outros tinham um ar dúbio. Tinha-lhe uma grande
admiração, e ele aparecia nas exposições, pude falar com ele. Fiz um cartaz, em
que fui odiado em Portugal por isso, coloquei-o entre o soldado e o camponês. O
cartaz foi arrancado por tudo o que é sítio. O Mário Soares ficava histérico
quando vis esse cartaz! Também lhe ofereci esse cartaz. Concluindo: tenho uma
boa impressão do Vasco Gonçalves».