Mostrar mensagens com a etiqueta Ana Margarida de Carvalho Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ana Margarida de Carvalho Livros. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

OLHAR AS CAPAS

Partido Comunista Português (1921-2021)

Uma Antologia

Selecção, Introdução e Preâmbulos: José Neves

Textos, entre outros de:

João Arsénio Nunes, Fernando Rosas, Alvaro Cunhal, José Pacheco Pereira, João Madeira, Paula Godinho, Ana Margarida de Carvalho, Francisco Louçã

Capa: V. Tavares

Edições Tinta-da-China, Lisboa Abril de 2021

A clandestinidade de Teresa Dias Coelho, 45 anos, pintora, filha de Margarida Tengarrinha e do escultor assassinado pela PIDE José Dias Coelho, foi passada a desenhar. Compulsivamente. Ainda hoje guarda uma mala cheia de desenhos infantis, testemunhos da vida fechada em casa, fechada sobre aquele mundo de adultos excessivamente carregado para uma criança entender. Não havia outros miúdos, companheiros de brincadeiras, mas em família tudo lhe parecia demasiado normal – os piqueniques ao fim-de- semana em Monsanto, as historinhas lidas e ilustradas ao deitar, os Natais decorados com mais imaginaçõa do que dinheiro, as exposições de desenhos espalhados no chão da sala. Tudo, excepto «a vez em que a minha m~se desatou a correr comigo na rua para não se encontrar com alguém conhecido». Ou quando um simples desenho seu gerou o pânico lá em casa. Não era caso para menos: acabar de fazer uma réplica quase perfeita do cabeçalho do Avante!, e era conhecido o seu hábito de lançar folhas pintadas pela janela.

(De um texto de Ana Margarida Carvalho publicado na Visão – Filhos da Clandestinidade)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

OLHAR AS CAPAS


Que Importa a Fúria do Mar

Ana Margarida de Carvalho
Capa: Rui Garrido
Teorema, Lisboa, Maio de 2013

Tersa gente esta, de almas baldias, vontades torcidas pelo frio que aperta, amolecidas pelo sol que expande. Ando aqui a ganhar a morte. Nestes campos de giesta, engatadas raízes no chão, tão presas de seiva e vontade que não as pode a força de um homem arrancar. Ervas daninhas mais difíceis de vergar do que um pinheiro bravo à machadada. O pinheiro deixa o coto apodrecido, vã ruína orgânica, mas as raízes das giestas mantêm-se sorrateiras, infiltrantes, debaixo da terra, a aguardar melhor ocasião para levantar haste. E, mal um homem vira costas, lá estão elas, sob os pés, soturnas, insinuantes, sôfregas de todas as pingas de água, a saciarem-se, a exaurirem as lavouras, sem sequer a gentileza de uma sombra, só pasto de insetos, refúgio de furões, conspiração do matagal. Assim ando eu. Entre mato rasteiro e bravio. Que a vida sempre me foi um ferro de engomar. Quando há um prego que se destaca, martela-se. E no entanto, mesmo amolgado e enterrado, continua lá.  
De quem é o carvalhal?
Ando aqui a ganhar a morte. A vergar-me a cada passo, nesta rabugem vegetal, com involuções de ouriço-cacheiro. Se me tocam, eu abro pico em todas as frentes. Que eu nunca pedi nada. Nunca encomendei sermão. Nunca enclavinhei a mão par dar um murro na mesa. Nem me caberia esmurrar a mais dilecta peça de mobiliário da casa. Onde os manjares eram pousados de mansinho  e arrebatados em silêncio, aspirares de estagnação e respeito – e, no final, as migalhas ajuntadas e receosamente pinçadas entre o indicador e o polegar.
Graças vos dou, meu Deus, por me teres dado de comer e beber sem o merecer, dai-me o céu quando morrer.
Rogávamos-Lhe o céu, ambicionávamos-Lhe a terra. Não a leveza dela em cima de caixão, que esses póstumos torrões não aconchegam, mas afrontam quem nunca teve terra em vida à mão de semear, e agora conquistava sete palmos dela, abençoada, quando os dedos gélidos e descarnados repousavam, entrelaçados, sobre o peito. Inúteis até para arrancar raízes. Tanta terra no mundo para morrer, tão pouca para viver.
Leva-me devagar. Que não fui tido mas fiz achado.
A alma é do criador e da santíssima virgem. E da terra também.
O achado é meu.
E de quem é o carvalhal?

segunda-feira, 27 de março de 2017

OLHAR AS CAPAS


Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato

Ana Margarida Carvalho
Capa: Rui Garrido
Teorema, Lisboa, Abril de 2016

Nunzio queria ir consolar Emina, aconchegar-lhe os pensamentos, ensaiou mil maneiras de a abordar, todas lhe pareceram forçadas e profundamente ridículas. Não vinha nos livros, não constava dos manuais, quais as primeiras palavras que um náufrago apaixonado deve dirigir à sua amada numa praia exígua, rodeada de penhascos inescaláveis, sem víveres, ânimo ou escapatória. E tantas foram as oportunidades a bordo, sempre goradas, sempre boicotadas pelas inconveniências e mal propícios, sempre atravancadas de timidez, de desajeito e do mais acutilante sentido do ridículo. Gestos contidos, olhares dissimulados, um brilho que sempre se obscurecia no último pestanejar, as palavras morriam-lhe debaixo da língua.