sábado, 17 de outubro de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


 

Os velhos, perante as insónias, aconselhavam a que se contassem carneiros.

As terríveis insónias!...

Vergílio Ferreira: Comum ouvir dizer-se que os velhos dormem pouco porque sabem que não tardará o dia em que dormirão infindavelmente.

Dennis McShade. «Durmo muito pouco, três ou quatro horas em cada noite. As noites são sempre longas, estiradas, e eu fico deitado na cama como num rio de silêncio, ouvindo o marulhar do próprio coração.»

Marcelo Rebelo de Sousa dizia que lhe bastava dornir quatro horas por noite.

Já ultrapassei os 80 anos, cada vez durmo menos e o pouco que durmo é uma treta, não presta para nada.

Qualquer zumbido de mosquito, desprega-me do sono.

Estúpidas insónias acometem-me quase todas as noites.

O médico de família receitou-me um comprimidinho indutor do sono mas evito tanto quanto possível entrar no hábito rotineiro.

Resolvo as insónias lendo livros, lendo livros, lendo livros…

Há uma lenda que suporta que Bach compôs as Variações Goldberg para combaters as insónias,

Abençoadas insónias!...

O extraordinário poeta Jorge de Sena tem um livro a que chamou A Arte da Música.

Este é o poema a que chamou BACH: VARIAÇÔES GOLDBERG:

«A música é só música, eu sei. Não há

outros termos em que falar dela anão ser que

ela mesma seja menos que si mesma. Mas

o caso é que para falar de música em tais termos

é como descrever um quadro em cores e formas e volumes, sem

mostrá-lo ou sem querer havê-lo visto alguma vez.

Vejamo-lo, bem sei, calados, vendo. E se a música

for música, ouçamo-la e mais nada. No entanto,

nenhum silêncio recolhido nos persiste além

de alguns minutos. E não dura na memória como

silêncio. Ou, se dura, esse silêncio cala

a própria música que adora. Porque a música

não é silêncio mas silêncio que

anuncia ou prenuncia o som e o ritmo.

Se os sons, porém, não são de devaneio,

e sim a inteligência que no abstracto busca

ad infinitum combinações possíveis bem que ilimitadas;

se tudo se organiza como a variada imagem

de uma ideia despojada de sentido;

se tudo soa como a própria liberdade dos acasos lógicos

que os grupos, e os grandes números, e as proporções

conhecem necessários; se tudo repercute como

em cânones cada vez mais complexos que não desenvolvem

um raciocínio mas o transformam de um si mesmo em si;

se tudo se acumula menos como som que como pedras

esculpidas em volutas brancas e douradas cujos

recantos de sombra são um trompe-l’oeil

para que elas mais sejam em paredes curvas;

se uma alegria é força de viver e de inventar e de

bater nas teclas em cascatas de ordem;

e se tudo existiu na música para tal triunfo

e dele descende tudo o que de arquitectura

possa existir em notas sem sentido – COMO

não proclamar que essa grandeza imensa

não se comove com íntimos segredos (mesmo implica

que não haja segredo em nada que se faça

a não ser o espanto de fazer-se aquilo),

é como que uma cúpula de som dentro da qual

possamos ter consciência de que o homem é por vezes,

maior do que si mesmo. E que nada no mundo,

ainda que volte ao tema inicial, repete

o que só foi proposto como tema para

se transformar no tempo que contém. Quando, no fim,

aquele tema torna não é para encerrar

num círculo fechado uma odisseia em teclas,

mas para colocar-nos ante a lucidez

de que não há regresso após tanta invenção.

Nem a música, nem nós, somos os mesmos já.

Não porque o tempo passe, ou porque a cúpula se erga,

para  sempre, entre nós e nós próprios. Não. Mas sim porque

o virtual de um pensamento se tornou ali

uma evidência: se tronou concreto.

Um concreto de coisas exteriores – e o espanto é esse –

Igual ao que de abstracto têm as interiores que o sejam.

Será que alguma vez, senão aqui,

aconteceu tamanha suspensão da realidade a ponto

de real e virtual serem idênticos, e de nós

não sermos mais o quem que ouve, mas quem é? A ponto de

nós termos sido música somente?»


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