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terça-feira, 22 de março de 2016

OLHAR AS CAPAS


Viver Todos os Dias Cansa

Pedro Paixão
Cotovia, Lisboa Julho de 1995

Sei pouco sobre as mulheres e cada vez sei menos. Nem sei – ou quando sei já é tarde demais – se gostam de mim e, quando isso acontece, não chego a saber o que isso possa querer dizer. Há muitas maneiras de gostar, é verdade. Quando se gosta de um casaco é ele o que trazemos mais vezes. Com as mulheres é diferente. O que importa, acho eu, não é nem o que elas dizem nem o que elas fazem mas o que elas não dizem e pensam fazer. É preciso adivinhar e eu sou muito mau a adivinhar. Depois, quando as coisas acabam e olhamos para trás, não ficamos mais elucidados. Sabemos contar aos amigos uma história que tem princípio meio e fim mas que podia ter sido outra. Uma pessoa é um mistério, duas, com um abismo pelo meio, uma prodigiosa contradição.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

POSTAIS SEM SELO



Há dias, sabes, em que gostava de ser como o gato e que me tocasses sem desejar encontrar quaisquer sentimentos a não ser o que se exprime num espreguiçar muito lento - um vago agradecimento? - e que depois me deixasses deitado no sofá sem que nada pudesses levar da minha alma, pois nem saberias o que dela roubar.

Pedro Paixão em Assinar a Pele, Antologia de Poesia Contemporânea Sobre Gatos, organizada por João Luís Barreto Guimarâes, “Assírio &Alvim”, Lisboa, Novembro 2001.

Legenda: fotografia de Avelino Vieira