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terça-feira, 23 de abril de 2019

EPITÁFIO


Mais vivo porque sofreste
a morte não veio, foi-se:
A eternidade constrói-se
na beleza com que viveste.

Carlos de Oliveira de Terra da Harmonia em Poesias

Legenda: Soeiro Pereira Gomes

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

QUE ME DEIXOU UM POUCO PERPLEXO


Em Amsterdão, Outubro de 1970, António José Saraiva escreve a Óscar Lopes e a dado ponto anda às bicadas ao neo-realismo português:

Provisoriamente a minha conclusão (ainda há autores para ler ou reler) é esta. À excepção do Manuel Alegre (e do O’Neill, se teimarmos em o considerar neo-realista, o que me parece impróprio) não há um ínico grande escritor neo-realista, não há sobretudo um único grande criador literário que tenha inventado alguma coisa de novo em Literatura. Em prosa não há ninguém comparável ao Aquilino, à Agustina, ou mesmo ao Miguéis, ou mesmo ao Torga, ou mesmo à Irene Lisboa, que, sem ser propriamente uma águia, inventou uma maneira nova de fazer prosa. O que não quer dizer que não haja entre eles alguns bons poetas e prosadores: O Manuel da Fonseca, o Mário Dionísio, o Cardoso Pires, o Namora por exemplo (excluo o Carlos de Oliveira, que li agora pela primeira vez, e que me pareceu profundamente inautêntico, a não ser na amargura envenenada). Parece-me que a teoria estética neo-realista não tem culpa disto, porque quando um autor tem génio não há teorias que o limitem.
E não há só uma invenção. Há talvez até recuo em relação a aquisições já feitas. Há um classicismo inquietante no Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, etc. (sem falar na simples ignorância do ofício do redol e outros.
(…)
Para resumir, para o conhecimento do nosso povo rural os neo-realistas nada acrescentaram ao Camilo e ao Aquilino; para o conhecimento da nossa burguesia citadina, nada acrescentaram ao Eça e ao Teixeira de Queiroz, e ficam muito abaixo do Paço d’Arcos.
Há a excepção do Ferreira de Castro, que me deixa um pouco perplexo. Ele não sabe escrever, tem diálogos horrorosos e é muito provável que a obra dele caia no esquecimento por lhe faltar a factura artística que dá perdurabilidade a uma obra. Mas abriu horizontes, chamou à literatura outra temática, e por esse lado tem um grande papel histórico. Mas tenho o palpite que, à excepção do Redol e do Soeiro, os neo-realistas voltaram a fechar o horizonte.


Legenda: Ferreira de Castro

quarta-feira, 1 de junho de 2016

QUOTIDIANOS


As crianças da minha rua estiveram na praia - e vieram tristes.
Só eu sei, porque estiveram na praia e vieram tristes.

Soeiro Pereira Gomes de Crónicas em Obras Completas

Legenda: pintura de Paul Mitchell

domingo, 21 de dezembro de 2014

UM HOMEM COMOVENTE


Fernando Lopes Graça com Soeiro Pereira Gomes, Sidónio Muralha e outros, a bordo da fragata Liberdade, num dos Passeios doTejo.

Legenda: fotografia tirada de Na Esteira da Liberdade, Edição do Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira, Novembro de 2009.

sábado, 13 de dezembro de 2014

DESDE QUE A NOSSA PORTA SE FECHOU

 «Estão amarelecidas as folhas dactilografadas que te mandei naquele Outono de 1944, e esbatido pelo tempo o vermelho da tinta com que foram escritas. Estão amarelecidas, e quase ilegível o que te contei. Mas conservam ainda manchas do bolo em que as introduzi. Esse bolo que o forno cozeu e depois foi levado, longe do alcance da PIDE, até às tuas mãos, na clandestinidade.

Que aperfeiçoasse o que escrevi, desenvolvesse o que pudesse, e depois fizesse «um livro, a publicar um dia», pediste na carta que as acompanhava quando mas devolveste, Já lá vão trinta e cinco anos.

Não cumpri, então, o teu pedido. E se hoje o faço é porque ele não mais se apagou na minha lembrança. Só que a dúvida persiste. A quem poderá interessar o que a ati tanto interessou? Quem quererá saber, decorridos, o que se passou comigo naqueles meses de Maio e Junho, desde que a nossa porta se fechou sobre a tua fuga, até à minha saída da prisão?

Seja como for, e embora volvidos trinta anos após a tua morte, as cartas aqui estão, feitas no pequeno livro que desejaste, e que escrevi, com a minha saudade em tua memória.»


Palavras de abertura do livro Eles Vieram de Madrugada (Dezembro de 1979), as Cartas da Clandestinidade que Manuela Câncio Reis, mulher de Soeiro Pereira Gomes, lhe escreveu.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

OUTROS CAMINHOS


Soeiro Pereira Gomes tem colaboração espalhada pela imprensa regional da época, bem como da imprensa diária, especialmente o República.

Mas é em O Diabo e na Sol Nascente que encontramos o grosso da sua colaboração.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

LIAM-SE POEMAS


Subia-se o Tejo, liam-se poemas e outros textos literários, discutiam-se problemas da criação artística, o papel dos intelectuais, a organização do Partido.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

PASSEIOS DO TEJO


Os célebres passeios do Tejo, na fragata Liberdade do Mestre Jerónimo Matos, o Tarrinca, efectuavam-se entre Vila Franca de Xira e Azambuja.
Subia-se o Tejo, liam-se poemas e outros textos literários, discutiam-se problemas da criação artística, o papel dos intelectuais, a organização do Partido.
Para além de Soeiro Pereira Gomes, participaram Alves Redol, Arquimedes da Silva Santos, Álvaro Cunhal, Manuel Campos Lima, Fernando Piteira Santos, Cândida Ventura, Dias Lourenço, Fernando Lopes Graça, entre outros.

sábado, 6 de dezembro de 2014

QUANDO A NOTÍCIA CORREU


quando a notícia correu
de coração em coração
as ruas ficaram geladas
as casas ficaram geladas

cada um tentava imaginar
entre os punhais do desespero
a última vez que o vira
a última vez que o ouvira

a última esquina o último nome
o último olhar do companheiro
a última lição do companheiro
a última lição do companheiro

e tu que só lhe conhecias
um pedaço do rosto e tu do riso
sentiste à volta a mesma solidão
a mesma desolada solidão

oh um minuto apenas um minuto
abandono das horas desgraçadas
põe-nos a mão de ferro sobre os ombros
o desespero do luto sobre os ombros

de pé bebo no choro inconformado
a tormentosa rebeldia amarga
que entre lágrimas nasce
que entre lágrimas cresce

homens casas árvores caminhos
parar um breve instante
varrei as ruas de silêncio
chicoteai  as ruas de silêncio

uma bandeira negra de silêncio
desfraldai sobre as casas
que este silêncio fala
que este silêncio arde

Mário Dionísio em O Riso Dissonante


Nota do editor; poema escrito quando Mário Dionísio soube da morte de Soeiro Pereira Gomes

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

POSTAIS SEM SELO


- Gineto: descobri que as estrelas dormem de dia.
-És parvo.

Soeiro Pereira Gomes em Esteiros.

Fotografia de Jay Landar

SOU DE TODA A PARTE ONDE TRABALHO


Quando morre no dia 5 de Dezembro de 1949, Soeiro Pereira Gomes tem 40 anos.

Soeiro Pereira Gomes morreu em Lisboa e, por vontade da família, foi a enterrar no cemitério de Espinho.

O povo exigiu a passagem do cortejo fúnebre por Alhandra.

Nesse dia, aquele papel anónimo lançado para as flores do caixão, que dizia:

Ao nosso querido e inesquecível amigo, Joaquim Soeiro Pereira Gomes, lhe rendemos, neste momento, em nome de todo o povo honrado e trabalhador de Alhandra, a última e derradeira homenagem àquele que soube, perto ou longe, contribuir para a liberdade do Povo de Portugal
Nós te juramos, querido e saudoso camarada, que, sejam quais forem os obstáculos que os responsáveis da tua morte nos levantarem, levantaremos sempre bem alto, mas enfrentando a morte, a bandeira da democracia pela qual sempre honradamente sonhaste lutar e morrer.
Nós te juramos, saudoso amigo, pelo amor dos nossos filhos.

Esteiros de Soeiro Pereira Gomes é um daqueles livros que nos marcam para uma vida.

Na biblioteca do meu pai estava lá o livro, edição da Sírius, com os belíssimos desenhos de Álvaro Cunhal e aquela dedicatória:

Para os filhos dos homens que nunca foram meninos, escrevi este livro.

Uma dedicatória como esta não pode enganar qualquer leitor.

Aliás, são lindíssimas as dedicatórias dos livros de Soeiro Pereira Gomes.


Para os trabalhadores sem trabalho – rodas paradas duma engrenagem caduca.

De Contos Vermelhos:

Aos meus companheiros que, na noite fascista, ateiam clarões duma alvorada.

Do conto Mais Um Herói, incluído em Refúgio Perdido:

À memória de Ferreira Marquês e de quantos, nas masmorras fascistas, foram mártires e heróis.

Manuel Gusmão em Soeiro Pereira Gomes tomar a palavra: dedicatórias e promessa:

Quando o lemos, percebemos que quem dedica aqueles contos e romances é alguém que assim estava a dedicar a sua vida.

Em Janeiro de 1972 a Editora Europa-América publicou as, possíveis, Obras Completas de Soeiro Pereira Gomes.

Dela não fazem parte os Contos Vermelhos e o que de Refúgio Perdido se publica, não consta, entre outros, o conto Mais um Herói.

Para Refúgio Perdido, as Publicações Europa-América, seguem o volume editado, em Junho de 1950, pelas Edições SEN, do Porto, com prefácio do jornalista Manuel de Azevedo.

Recentemente, o jornal Público, na sua colecção Livros Proibidos, publicou uma edição fac-símile em que reproduz os ofícios trocados entre a Censura salazarista e a editora.




A versão completa de Refúgio Perdido é publicada, em Fevereiro de 1975, pelas Edições Avante.

Soeiro Pereira Gomes nasceu em Gestaçô, concelho de Baião, distrito do Porto, no dia 14 de Abril de 1909.

Com 22 anos fixou-se em Alhandra e, por intervenção do pai de sua mulher, Manuela Câncio Reis, empregou-se nos escritórios da Fábrica de Cimento Tejo.

Em Alhandra, foi o grande impulsionador do movimento cultural entre os trabalhadores e o povo. Montou bibliotecas, nas colectividades de cultura e recreio, realizou conferências sobre temas culturais, de desporto, promoveu cursos de alfabetização e de ginástica, a construção de uma piscina – A Charca – em que trabalhou como operário e, juntamente, com Alves Redol e Dias Lourenço, organizou os célebres passeis de fragata que mais não eram que uma subtil maneira de proporcionar encontros entre intelectuais e quadros do Partido, longe dos olhos e ouvidos das polícias.

Conta quem com ele conviveu, que Soeiro Pereira Gomes não se limitava a escrever livros: vivia-os.

Os seus contactos pessoais, os laços humanos que construiu, a fraternidade que respirava cada uma das suas palavras, forneciam-lhe os materiais com que organizava a luta, dia e noite, sem qualquer ponta de desfalecimento. Na luta por um país sem fome nem miséria, Soeiro Pereira Gomes, juntamente com outros intelectuais, esteve na linha da frente.

A tua alegria é a minha alegria. A tua tristeza é a minha tristeza. Na vitória final estaremos todos, e até mortos vão ao nosso lado como escreveu José Gomes Ferreira.

Esteiros. Minúsculos canais, como dedos de mão espalmada, abertos nas margens do Tejo. Dedos das mãos avaras dos telhais, que roubam nateiro às águas e vigores à malta. Mãos de lama que só o rio afaga.

Um livro a que volto sempre com o mesmo gosto ternurento de quando o li pela primeira vez.

Você, este ano, só trouxe novatos, ó mestre!
Mas dão conta do recado, patrão. Valem por homes.

Adolfo Casais Monteiro:

O seu romance foi recebido pela crítica de todas as tendências com o maior aplauso. Isto se deve, sem dúvida, a ser Esteiros uma obra que se impõe pela veracidade ao mesmo tempo que pela poesia, dos sucessivos quadros em que nos apresenta essas inesquecíveis figuras de crianças miseráveis, o pessoal mártir dos esteiros da margem do Tejo, na época do ano em que se fabrica o tijolo; mártires também, durante o resto do ano, em que nem o sofrimento do trabalho bárbaro os ajuda a subsistir condenados à vagabundagem e à fome.

O sonho do Gineto na prisão, por andar a roubar carvão e fruta: que os amigos, o Gaitinhas, o Sagui, virão para o libertar e  mandar para a escola aquela malta dos telhais – moços que parecem homens e nunca foram meninos.

 Gente que Soeiro Pereira Gomes conheceu bem e soube amar como ninguém.

E só se fala bem daquilo que se ama.

Ou, como diria, Paul Éluard: o poeta deve ser mais útil do que qualquer outro cidadão da sua tribo.

Nota do Editor: o título é retirado de um diálogo de Engrenagem.

Legenda: ampliação dos desenhos de Álvaro Cunhal que ilustravam o início de cada capítulo d 1ª edição de Esteiros, tirada de Soeiro Pereira Gomes: Na Esteira da Liberdade, edição do Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira, Novembro de 2099.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

OLHAR AS CAPAS


Eles Vieram de Madrugada
Cartas para a Clandestinidade a Soeiro Pereira Gomes

Manuela Câncio Reis
Capa: José António Flores
Editorial Caminho, Lisboa, Julho de 1981

Eu não gostava das visitas do Alexandre. Não gostava que ele viesse falar contigo às ocultas, fechados ambos no teu escritório, depois de escondida a bicicleta no quintal. Adivinhava nesses misteriosos diálogos alguma coisa que cedo ou tarde te arrancaria a nossa casa. Mas gostava do Alexandre, da bondade que revelavam os seus olhos azuis, transparentes, e do modo compreensivo com que me falava quando o meu «burguesismo» estava em causa. Admirava o arrojo de vir assim, na sua bicicleta, em pleno meio-dia, bater-nos à porta, tão naturalmente como se a sua segurança, a sua vida não perigassem. E fazia-me pena o seu corpo magoado entalado no mesmo fato cinzento, curto e apertado, a palidez do seu rosto que a varíola um dia picou, a magoada ternura com que falava do filhito sempre doente. Dizias que ele passava fome e eu via que era verdade, no apetite com que partilhava o nosso almoço reforçado à pressa. Só que não gostava nada, também, que ele dissesse, trocando breve olhar contigo, que a vida na clandestinidade não era assim tão má como eu poderia julgar.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

AMADO CAPITÃO DA AREIA


 Jorge Amado nasceu há cem anos.

Se bem que livros de Jorge Amado (edições brasileiras) fizessem parte da biblioteca do meu pai, sou um leitor tardio das suas obras.

Tudo começou, em 1962, quando o meu pai apareceu com um livrinho de 32 páginas, com um nome sugestivo: De Como o Mulato Porciúncula Descarregou Seu Defunto.

A hstória está envolvida numa graça contagiante. Seu autor: Jorge Amado.

Li-o num sopro e ficou a ideia de que teria de ir à descoberta do autor.

Não aconteceu e os motivos devem estar relacionados com a dispersão de livros, de filmes, outras coisas, com que preenchi a adolescência.

Só em Fevereiro de 1966, mercê de uma pequeno texto publicado pelo jornal do Benfica, me dei conta que era mais que tempo, já tardio tempo, de conhecer Jorge Amado.

O estranho de tudo isto é como, em plena ditadura salazarista, um jornal de clube de futebol, publica um depoimento como este que podem ler aí em baixo.


O Benfica sempre foi um clube popular, nas assembleias gerais, praticava-se a democracia e ninguém, nem a PIDE, ousou contrariar o sentido do povo benfiquista.

Claro que, por lá, também havia uns ranhosos, mas… acontece em todos os lados, tal como, por outro motivo, Jorge Amado disse a Mário Ventura:

Eu sempre digo que as melhores pessoas que conheci na minha vida, eu as conheci no Partido. Algumas das piores, também. Mas isso acontece em todos os lados.

Recordo, como se fosse hoje, ter perguntado, ao meu pai, por onde começar. 

Não hesitou: Capitães da Areia

E acertou.

Antes já tinha lido Esteiros de Soeiro Pereira Gomes, e nunca pude deixar de os sentir ligados.

Jorge Amado escreve Capitães da Areia em 1936, Soeiro Pereira Gomes escreve Esteiros em 1941.

Soeiro Pereira Gomes sempre disse que, entre os dois livros, não havia coincidências, mas diferenças essenciais.

Álvaro Pina, um estudioso do neo-realismo, realça que essas diferenças essenciais se situam no papel do trabalho e dos trabalhadores como protagonistas da sociedade nova, no protagonismo colectivo, no conteúdo revolucionário da luta por um futuro melhor, presentes mo livro de Pereira Gomes, ausentes no livro do Jorge Amado.

Puxando a brasa à sardinha: as diferenças essenciais entre os dois livros traduzem a qualidade nova do realismo de Soeiro – militante e socialista, reflexo e obreiro da resistência e da luta do povo

Discussão a dar muito para mangas.

Por agora importa realçar que estamos perante dois importantes e belíssimos livros que, cada um à sua maneira, mostram a luta pela libertação a construção de uma sociedade sem fome, sem miséria, sem crianças que nunca chegam a conhecer a felicidade de serem crianças.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

TEMPO DE FÉRIAS


Sua-excelência-o-presidente-da-república-professor-Anibal-Cavaco-Silva, numa daquelas brilhantes tiradas, com que amiúde nos brinda, disse aos portugueses que não fossem para o estrangeiro passar as férias, que deveriam ficar pelo país, para que não saíssem divisas.

A afirmação envolve algo que roça o disparate económico, uma trivialidade oca, mas o pior de tudo, reside no facto de, exceptuando os privilegiados do costume, Cavaco Silva, aparentemente desconhecer, esquecer, que os portugueses não têm dinheiro para gozar férias Tomara que o que ganham, o que vão tendo, lhes dê para (sobre)viver…

No início da estação, os jornais deixaram a notícia de que dois terços dos portugueses não vão sair de casa durante o período de férias, e apenas 7% admite viajar e gastar mais de 1.000 euros.

Mas sua-excelência-o-presidente-de-todos-os-portugueses, é assim…

Não vale a pena bater mais no ceguinho, mas o episódio trouxe-me à lembrança um pedacinho de uma crónica de Soeiro Pereira Gomes, incluída nas suas “Obras Completas”, publicadas em Janeiro de 1972 pelas “Publicações Europa-América”:

“Segunda-feira, sol-nado, fui pescar no bote do meu compadre. O vento enfunava as velas garridas dos barcos e refrescava-me o corpo, suado de puxar as redes, em vão.
Na terça-feira, caiei a minha casa. Pus no trabalho desvelos de artista, e ela ficou encantadora. Porém, o sol continuou à porta.
Deram-me um biscate para acabar, nos dois dias seguintes. À noite, joguei à bisca e ouvi, embevecido, fados plangentes na telefonia da taberna.
Na sexta-feira a mulher ficou de cama, doente, e eu fiquei entregue à vida idílica do lar.
E no último dia de férias vagueei pelas ruas da vila, a sonhar no que poderia comprara com o salário que recebi à tarde para entregar ao padeiro.”

domingo, 11 de abril de 2010

DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO


Cresci rodeado de livros.

Uma sorte, um privilégio, diga-se. Foi assim que tudo começou.

Há os que não têm nem essa sorte, nem esse privilégio. 

Os que têm de procurar são as pessoas que me merecem admiração, as pessoas de quem gosto, enquanto que os que têm livros à disposição, entendem que ler é uma grande maçada, ignoro-os, esqueço-me que existem, se bem que os oiça bolsar que os livros estão empoeirados, as canecas de cerveja ensinam melhor, a cerveja dá prazer, os livros apenas aborrecimento.

Havia o hábito de, nas prateleiras mais altas, colocar os livros que se convencionava não serem lidos em determinadas idades.

Lá em casa não havia essa regra. Os livros, todos, eram para serem lidos.

Juntamente com os Salgari, os Walter Scots, os Júlio Verne, ter lido o Eça de Queiroz aos 13/14 anos foi uma aventura inesquecível. Naturalmente que, mais tarde, ao Eça tive que voltar, e não é por já tanto o ter lido e relido, que alguma vez deixarei de lhe bater à porta.

Um livro de capa preta tinha o título de Dez Dias Que Abalaram o Mundo.

Tratava-se da edição basileira do livro de John Reed., um edição popular, publicada em 1945 pela Editorial Calvino Lda do Rio de Janeiro
.
O Mundo, alguma vez mudara? E em dez dias? Como teria sido?

Nada como ir ler para contar como foi.

No prefácio desta edição a que Egon Erwin Kish dá o nome “John Reed, o jornalistas das barricadas”, pode ler-se logo nas primeiras linhas:

“Combateu nas barricadas. Sua arma era o lápis, como a arma do ferreiro, lutando a seu lado, talvez fosse o martelo.
Mesmo examinada do ponto de vista jornalístico, a actividade de John Reed foi admirável. Os acontecimentos de uma semana, que seus colegas consideraram simples lutas episódicas entre os partidos russos ou incidentes pouco importantes da guerra, para John Reed foram dias que abalaram o mundo”.


Na abertura do prefácio, datado de Nova Iorque 1 de Janeiro de 1919, John Reed escreve:

“Este livro é um naco de história intensiva – tal como eu a vi. Nada mais pretende ser do que uma narrativa pormenorizada da revolução de Novembro, quando os bolcheviques, à frente dos operários e soldados, se apoderaram do poder governativo da Rússia e o colocaram nas mãos dos sovietes.”

E a fechar:

“Na luta, as minhas simpatias não ficaram neutrais. Mas, ao narrar a história daqueles dias grandiosos, tentei ver os acontecimentos com os olhos de um repórter consciencioso, interessado em registar a verdade”. (1)

Quando aos 17 anos, mais coisa menos coisa, em plena ditadura de Salazar, se pega num livro como “Dez Dias Que Abalaram o Mundo” só duas coisas poderiam suceder: colocar de imediato o livro de lado, lê-lo com o encantamento de uma aventura.

Sim, o livro é uma apaixonante reportagem, um livro honesto porque o autor declara de que lado está.

Penso que a vontade, a vontade e as ideias, têm um importante papel nos tempos da adolescência.

Caminhos que nos levam a tomar partido, não ficar naquela margem de não ser coisa nenhuma, nem direita, nem esquerda. Ficar no meio, com uma ténue ideia, a possibilidade de ver os dois lados.

Há uns anos, numa entrevista, António Mega Ferreira que, necessariamente, terá lido John Reed, dizia que o centro é uma cobardia, é uma falta de coragem, é para onde convergem, direita ou esquerda, quando não têm coragem.

Graham Greene, em “O Americano Traquilo” vai mais longe.: 

“ Mais tarde ou mais cedo temos de pomar partido, de forma a parecermos humanos”.

É comum ouvir dizer que se chegou a determinado olhar sem ter passado por manifestos, pelos mais variados ismos.

Porque também se pode chegar a esse olhar, lendo, Albert Camus, Elio Vittorini, Roger Vailland, Jorge Amado Roger Martin du Gard, Hemingway, Soeiro Pereira Gomes, uma lista de nomes de todo interminável.

Em 1981 Warren Beaty realizou Reds um filme que retrata a vida do jornalista John Reed, protagonizado, entre outros, pelo próprio Warren Beaty, Diane Keaton, Jack Nicholson, Gene Hacmann.



(1) – A tradução de “Dez Dias Que Abalaram o Mundo”, aqui citada, é a de A. Dias Gomes para “Publicações Europa-América”, Maio de 1976.