Legenda: Soeiro Pereira Gomes
terça-feira, 23 de abril de 2019
EPITÁFIO
Legenda: Soeiro Pereira Gomes
quinta-feira, 23 de agosto de 2018
QUE ME DEIXOU UM POUCO PERPLEXO
quarta-feira, 1 de junho de 2016
QUOTIDIANOS
As crianças da minha rua estiveram na praia - e vieram tristes.
Só eu sei, porque estiveram na praia e vieram tristes.
Soeiro Pereira Gomes de Crónicas em Obras Completas
Legenda: pintura de Paul Mitchell
domingo, 21 de dezembro de 2014
UM HOMEM COMOVENTE
sábado, 13 de dezembro de 2014
DESDE QUE A NOSSA PORTA SE FECHOU
«Estão amarelecidas as folhas dactilografadas que te mandei naquele Outono de 1944, e esbatido pelo tempo o vermelho da tinta com que foram escritas. Estão amarelecidas, e quase ilegível o que te contei. Mas conservam ainda manchas do bolo em que as introduzi. Esse bolo que o forno cozeu e depois foi levado, longe do alcance da PIDE, até às tuas mãos, na clandestinidade.
Que aperfeiçoasse o que escrevi, desenvolvesse o que pudesse, e depois fizesse «um livro, a publicar um dia», pediste na carta que as acompanhava quando mas devolveste, Já lá vão trinta e cinco anos.
Não cumpri, então, o teu pedido. E se hoje o faço é porque ele não mais se apagou na minha lembrança. Só que a dúvida persiste. A quem poderá interessar o que a ati tanto interessou? Quem quererá saber, decorridos, o que se passou comigo naqueles meses de Maio e Junho, desde que a nossa porta se fechou sobre a tua fuga, até à minha saída da prisão?
Seja como for, e embora volvidos trinta anos após a tua morte, as cartas aqui estão, feitas no pequeno livro que desejaste, e que escrevi, com a minha saudade em tua memória.»
Palavras de abertura do livro Eles Vieram de Madrugada (Dezembro de 1979), as Cartas da Clandestinidade que Manuela Câncio Reis, mulher de Soeiro Pereira Gomes, lhe escreveu.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
OUTROS CAMINHOS
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
LIAM-SE POEMAS
quarta-feira, 10 de dezembro de 2014
PASSEIOS DO TEJO
sábado, 6 de dezembro de 2014
QUANDO A NOTÍCIA CORREU
a última lição do companheiro
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
POSTAIS SEM SELO
SOU DE TODA A PARTE ONDE TRABALHO
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
OLHAR AS CAPAS
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
AMADO CAPITÃO DA AREIA
Se bem que livros de Jorge Amado (edições brasileiras) fizessem parte da biblioteca do meu pai, sou um leitor tardio das suas obras.
Tudo começou, em 1962, quando o meu pai apareceu com um livrinho de 32 páginas, com um nome sugestivo: De Como o Mulato Porciúncula Descarregou Seu Defunto.
A hstória está envolvida numa graça contagiante. Seu autor: Jorge Amado.
Li-o num sopro e ficou a ideia de que teria de ir à descoberta do autor.
Não aconteceu e os motivos devem estar relacionados com a dispersão de livros, de filmes, outras coisas, com que preenchi a adolescência.
Só em Fevereiro de 1966, mercê de uma pequeno texto publicado pelo jornal do Benfica, me dei conta que era mais que tempo, já tardio tempo, de conhecer Jorge Amado.
O estranho de tudo isto é como, em plena ditadura salazarista, um jornal de clube de futebol, publica um depoimento como este que podem ler aí em baixo.
O Benfica sempre foi um clube popular, nas assembleias gerais, praticava-se a democracia e ninguém, nem a PIDE, ousou contrariar o sentido do povo benfiquista.
Claro que, por lá, também havia uns ranhosos, mas… acontece em todos os lados, tal como, por outro motivo, Jorge Amado disse a Mário Ventura:
Eu sempre digo que as melhores pessoas que conheci na minha vida, eu as conheci no Partido. Algumas das piores, também. Mas isso acontece em todos os lados.
Recordo, como se fosse hoje, ter perguntado, ao meu pai, por onde começar.
Não hesitou: Capitães da Areia
E acertou.
Antes já tinha lido Esteiros de Soeiro Pereira Gomes, e nunca pude deixar de os sentir ligados.
Jorge Amado escreve Capitães da Areia em 1936, Soeiro Pereira Gomes escreve Esteiros em 1941.
Soeiro Pereira Gomes sempre disse que, entre os dois livros, não havia coincidências, mas diferenças essenciais.
Álvaro Pina, um estudioso do neo-realismo, realça que essas diferenças essenciais se situam no papel do trabalho e dos trabalhadores como protagonistas da sociedade nova, no protagonismo colectivo, no conteúdo revolucionário da luta por um futuro melhor, presentes mo livro de Pereira Gomes, ausentes no livro do Jorge Amado.
Puxando a brasa à sardinha: as diferenças essenciais entre os dois livros traduzem a qualidade nova do realismo de Soeiro – militante e socialista, reflexo e obreiro da resistência e da luta do povo
Discussão a dar muito para mangas.
Por agora importa realçar que estamos perante dois importantes e belíssimos livros que, cada um à sua maneira, mostram a luta pela libertação a construção de uma sociedade sem fome, sem miséria, sem crianças que nunca chegam a conhecer a felicidade de serem crianças.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
TEMPO DE FÉRIAS

Sua-excelência-o-presidente-da-república-professor-Anibal-Cavaco-Silva, numa daquelas brilhantes tiradas, com que amiúde nos brinda, disse aos portugueses que não fossem para o estrangeiro passar as férias, que deveriam ficar pelo país, para que não saíssem divisas.
A afirmação envolve algo que roça o disparate económico, uma trivialidade oca, mas o pior de tudo, reside no facto de, exceptuando os privilegiados do costume, Cavaco Silva, aparentemente desconhecer, esquecer, que os portugueses não têm dinheiro para gozar férias Tomara que o que ganham, o que vão tendo, lhes dê para (sobre)viver…
No início da estação, os jornais deixaram a notícia de que dois terços dos portugueses não vão sair de casa durante o período de férias, e apenas 7% admite viajar e gastar mais de 1.000 euros.
Mas sua-excelência-o-presidente-de-todos-os-portugueses, é assim…
Não vale a pena bater mais no ceguinho, mas o episódio trouxe-me à lembrança um pedacinho de uma crónica de Soeiro Pereira Gomes, incluída nas suas “Obras Completas”, publicadas em Janeiro de 1972 pelas “Publicações Europa-América”:
“Segunda-feira, sol-nado, fui pescar no bote do meu compadre. O vento enfunava as velas garridas dos barcos e refrescava-me o corpo, suado de puxar as redes, em vão.
Na terça-feira, caiei a minha casa. Pus no trabalho desvelos de artista, e ela ficou encantadora. Porém, o sol continuou à porta.
Deram-me um biscate para acabar, nos dois dias seguintes. À noite, joguei à bisca e ouvi, embevecido, fados plangentes na telefonia da taberna.
Na sexta-feira a mulher ficou de cama, doente, e eu fiquei entregue à vida idílica do lar.
E no último dia de férias vagueei pelas ruas da vila, a sonhar no que poderia comprara com o salário que recebi à tarde para entregar ao padeiro.”
domingo, 11 de abril de 2010
DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO

Uma sorte, um privilégio, diga-se. Foi assim que tudo começou.
Há os que não têm nem essa sorte, nem esse privilégio.
Havia o hábito de, nas prateleiras mais altas, colocar os livros que se convencionava não serem lidos em determinadas idades.
Lá em casa não havia essa regra. Os livros, todos, eram para serem lidos.
Juntamente com os Salgari, os Walter Scots, os Júlio Verne, ter lido o Eça de Queiroz aos 13/14 anos foi uma aventura inesquecível. Naturalmente que, mais tarde, ao Eça tive que voltar, e não é por já tanto o ter lido e relido, que alguma vez deixarei de lhe bater à porta.
Um livro de capa preta tinha o título de Dez Dias Que Abalaram o Mundo.
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O Mundo, alguma vez mudara? E em dez dias? Como teria sido?
Nada como ir ler para contar como foi.
No prefácio desta edição a que Egon Erwin Kish dá o nome “John Reed, o jornalistas das barricadas”, pode ler-se logo nas primeiras linhas:
“Combateu nas barricadas. Sua arma era o lápis, como a arma do ferreiro, lutando a seu lado, talvez fosse o martelo.
Mesmo examinada do ponto de vista jornalístico, a actividade de John Reed foi admirável. Os acontecimentos de uma semana, que seus colegas consideraram simples lutas episódicas entre os partidos russos ou incidentes pouco importantes da guerra, para John Reed foram dias que abalaram o mundo”.
Na abertura do prefácio, datado de Nova Iorque 1 de Janeiro de 1919, John Reed escreve:
“Este livro é um naco de história intensiva – tal como eu a vi. Nada mais pretende ser do que uma narrativa pormenorizada da revolução de Novembro, quando os bolcheviques, à frente dos operários e soldados, se apoderaram do poder governativo da Rússia e o colocaram nas mãos dos sovietes.”
E a fechar:
“Na luta, as minhas simpatias não ficaram neutrais. Mas, ao narrar a história daqueles dias grandiosos, tentei ver os acontecimentos com os olhos de um repórter consciencioso, interessado em registar a verdade”. (1)
Quando aos 17 anos, mais coisa menos coisa, em plena ditadura de Salazar, se pega num livro como “Dez Dias Que Abalaram o Mundo” só duas coisas poderiam suceder: colocar de imediato o livro de lado, lê-lo com o encantamento de uma aventura.
Sim, o livro é uma apaixonante reportagem, um livro honesto porque o autor declara de que lado está.
Penso que a vontade, a vontade e as ideias, têm um importante papel nos tempos da adolescência.
Caminhos que nos levam a tomar partido, não ficar naquela margem de não ser coisa nenhuma, nem direita, nem esquerda. Ficar no meio, com uma ténue ideia, a possibilidade de ver os dois lados.
Há uns anos, numa entrevista, António Mega Ferreira que, necessariamente, terá lido John Reed, dizia que o centro é uma cobardia, é uma falta de coragem, é para onde convergem, direita ou esquerda, quando não têm coragem.
Graham Greene, em “O Americano Traquilo” vai mais longe.:
“ Mais tarde ou mais cedo temos de pomar partido, de forma a parecermos humanos”.
É comum ouvir dizer que se chegou a determinado olhar sem ter passado por manifestos, pelos mais variados ismos.
Porque também se pode chegar a esse olhar, lendo, Albert Camus, Elio Vittorini, Roger Vailland, Jorge Amado Roger Martin du Gard, Hemingway, Soeiro Pereira Gomes, uma lista de nomes de todo interminável.
Em 1981 Warren Beaty realizou Reds um filme que retrata a vida do jornalista John Reed, protagonizado, entre outros, pelo próprio Warren Beaty, Diane Keaton, Jack Nicholson, Gene Hacmann.















