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terça-feira, 11 de março de 2025

CINQUENTA ANOS



CARTA DE JC A MARTA TENTANDO NARRAR AS PERIPÉCIAS DUM DIA TÃO INCRÍVEL QUE PARECE FICTÍCIO

 

Lx, 11-3-75

Querida Marta,

 

                         não vais entender nada do que contam os jornais, nem nós, chamados testemunhas visuais, conseguimos perceber a aventura surrealista dum teco-teco militar sobrevoando a saloia capital durante mais de uma hora, metralhando um único quartel onde matou um soldado e regressou à base, liquidando a direita acusada de ter tentado tomar o poder com este avião de brinquedo, arrumada por isso para os próximos meses. Perdeste a oportunidade de presenciar uma intentona pela TV, que filmou o impagável diálogo dum oficial intentonista com o célebre Dinis de Almeida, comandante do quartel metralhado e sitiado pelo pelotão ou talvez nem isso, por um grupo de soldados “reaças” que começaram a chorar diante da TV quando a esquerda razoável lhes explicou terem sido enganados, manobrados ou obrados pelos maus que, como bons malandros já fugiram para Espanha deixando os pobres soldados ali de G3 na mão sem saberem bem porquê nem contra quem nem para quê nem para quem, os chefes só lhes disseram que era preciso ir salvar a revolução em perigo e todos se consideram salvadores da cuja dita. O Woody Allen tinha previsto um assassinato de presidente de república dado em directo pela TV, mas acho que a nossa ridícula realidade ultrapassa em tragicómico a ficção de “Bananas”. À hora em que te escrevo já os vencedores preparam a mitificação ou beatificação do soldado Luís, vítima desta brincadeira de mau gosto, ele que não tinha nenhum interesse em ver-se transformado em herói. Como explicação para tãoabsurda e obtusa acção de fogo, fala-se numa #matança da Páscoa” que o lobo mau prepararia a fim de cortar uma série de cabeças. Quem meteu isto nas fracas cabeças assim ameaçadas, ou se elas próprias inventaram tal estória, ignoro-o. Um ano de revolução permanente, ardentemente sonhada por nós leitores de Lev, começa a fatigar a burguesia que no início a ela aderiu por curiosidade ou simples desejo de mudar, como se fosse novo vestido ou penteado. Agora volta a vir ao de cima o nosso secular cepticismo, indiferença, fatalismo, transformado em gesto nacional o encolher-de-ombros de outrora conhecido. A fase de instrução colectiva luta agora contra as forças da inércia. Dizia mestre Lev: à fusão criadora do consciente com o inconsciente é que se chama inspiração. No momento em que a inércia tenta tomar conta do prec, uma espécie de usura apodera-se das pessoas, passam a pensar em termos de contabilidade, esquecem que com usura nenhum homem tem casa de boa pedra, que a usura é uma praga, que com usura, pecado contranatura, talvez se chegue ao poder, não se chega à liberdade. Também eu não chego a nenhum lado, a não ser aos exames que não sei se se fazem. De resto para que serve estudar leis num país que quero deixar? Ainda por cima leis tornadas diariamente arcaicas pela constante inflação da legislação, inflação só semelhante à da nossa moeda, pobre dela.

Da próxima vez prometo carta diferente, falando mais de mim que do prec que afinal te não interessa. Pergunto-me se eu te interesso.

 

 Teu

 JC

 

Almeida Faria em Lusitânia 

domingo, 14 de abril de 2024

OLHAR AS CAPAS

Ascensão, Apogeu e Queda do M.F.A.

1º Volume

Diniz de Almeida

Edições Sociais, Lisboa s/d

- Então  o Sr. Dr. Mário Soares já sabia do Golpe do 11 de Março… - perguntou intencionalmente Vasco Gonçalves, ao que o visado se justificaria, visivelmente embaraçado:

- Bem, eu na realidade tive conhecimento dele com uns dias de antecedência, mas isso não significa nada… o Dr. Cunhal, por exemplo, também soube com antecedência que ele se ia dar…

- Sim… sim…, - retorquiu severamente Vasco Gonçalves – mas a diferença é o que o Dr. Álvaro Cunhal avisou-me e o Dr. Mário Soares não…

terça-feira, 21 de abril de 2015

OS IDOS DE ABRIL DE 1975


21 de Abril de 1975

O DIÁRIO DE LISBOA, publica um suplemento com o Relatório Preliminar sobre o golpe de 11 de Março.
Preliminar ficou, porque nenhum outro voltou a ser elaborado.
Como, pura e simplesmente, nada se tivesse passado.
No documento é dado especial relevo ao envolvimento de Spínola no golpe.

O DECRETO-LEI nº 212/5 cria o cargo de Provedor de Justiça

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

terça-feira, 31 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


Nota final da II Parte «A Revolução Alarga o Passo» de Portugal Depois de Abril de Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Edição dos Autores,  Lisboa, Maio de 1976.

segunda-feira, 30 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


30 de Março de 1975

Desde que no dia 24 foi dado conhecimento público da existência do ELP, segundo o matutino O Século, desse mesmo dia, uma organização secreta, com estrutura tipo militar, que pretende desenvolver e levar, até às últimas consequências, uma guerra revolucionária com vista à alteração da situação política em Portugal e territórios africanos sob administração portuguesa, que não param as notícias sobre a sinistra organização.

Na sua edição do dia 26, o vespertino A Capital revela que o ELP foi concebido e planificado nos laboratórios da CIA e que Frank Carlucci, embaixador norte-americano em Lisboa, é mesmo um operacional estratega da agência de espionagem.

Luís Miranda Rocha na Vida Mundial:

No fim de semana o País foi alertado para a existência duma organização clandestina de ideário fascista e intenções liquidatárias para o que já se vem chamando a «jovem democracia portuguesa». Trata-se de salazaristas, têm a sua actividade centralizada em Espanha, a sua actuação dirigida para Portugal (de onde terão fugido, e onde se encontram). Alguns elementos já foram detidos, procede-se a mais consequentes averiguações.


Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

Legenda: perfil de alguns conspiradores do ELP, num restaurante à entrada de Salamanca. Fotografia disponibilizada pela Região Militar do Norte e retirada de Os Dias Loucos do PREC.

OLHAR AS CAPAS


Não Percas a Rosa

Natália Correia
Capa: Fernando Felgueiras
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Dezembro de 1978

30 de Março de 1975
Começa a ver-se no escuro. O 11 de Março é um dos patamares da escalada comunista. Recolho informações e vou construindo um quadro que desfez a irracionalidade da estrambótica intentona.
Spínola conspirava. Com ele ou por outras vias conspiravam «todos» os militares que tinham olhos para ver uma influência dominante do PCP no MFA. Spínola retraía-se perante a impaciência dos militares que defendiam a urgência do putsch. Havia que aguardar as eleições. Se os resultados que se previam imponentes na grande área democrática não fossem respeitados, então sim, dariam o golpe militar restaurador das liberdades prometidas pelo 25 de Abril.

quinta-feira, 26 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


26 de Março de 1975

POSSE do IV Governo Provisório chefiado por Vasco Gonçalves e composto por personalidades do PS, PSD, PPD, PCP, MDP/CE, bem como personalidades independentes, algumas oriundas da esquerda.
No discurso de tomada de posse, Vasco Gonçalves realça que a diminuição da actividade económica vai orientar-se essencialmente na política de consolidação da política anti-monopolista do programa do MFA e na defesa das classes mais desfavorecidas. Esta política foi iniciada com a nacionalização da Banca e dos Seguros e com intervenção decidida em algumas empresas-chave de vários sectores da actividade económica.
Para a consecução desta finalidade é necessário pôr a funcionar uma nova economia que conduza a uma verdadeira democracia política, económica e social.
A crise que atravessamos será vencida na medida em que consolidarmos as conquistas já feitas num sistema económico mais avançado.
Como intenção do governo figura, entre muitas outras, o desencadear do processo da Reforma Agrária.

OS ACORDOS de Alvor são diariamente violados e multiplicam-se confrontos entre os movimentos de libertação que são parte do Governo Provisório de Angola.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

quarta-feira, 25 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


26 de Março de 1975

O EDITORIAL do nº 13, saído neste dia, do Boletim Informativo das Forças Armadas, faz eco que só avançando, sempre em frente, se dará cumprimento às promessas do 25 de Abril.



Fontes:
- Acervo pessoal;

- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

segunda-feira, 23 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


23 de Março de 1975

NUMA ASSEMBLEIA, realizada em Sacavém, foi aprovado que uma comissão directiva provisória passou a gerir o Sindicato dos Metalúrgicos do Distrito de Lisboa, que conta com 64 mil associados.

O DECRETO-lei nº 238/75 torna obrigatório o seguro de responsabilidade civil automóvel a partir de 1 de Julho.

MAIS DE 400 trabalhadores da RTP aprovaram uma moção na qual manifestam o maior apreço pela integridade e rectidão de conduta do major Ramalho Eanes e pedem que ele volte a dirigir a empresa.
Ramalho Eanes demitiu-se após saber que, na reunião plenária do MFA, realizada na madrugada de 12 de Março, o seu nome surgiu entre os acusados de envolvimento na tentativa de golpe militar do 11 de Março.

O CONSELHO da Revolução não aceitou o símbolo partidário da FEC (ML), com vista às eleições do próximo mês de Abril, porque considera que esse símbolo, bem como o da UDP, podem confundir-se com o do PCP.
O mesmo decidiu em relação à Frente Socialista Popular cujos símbolos foram considerados demasiado semelhantes aos do PS.
A foice e o martelo são o símbolo internacional do comunismo, não são uma marca registada de qualquer mercadoria capitalista, disse o dirigente da UDP Vladimiro Guinot.

O MINISTÉRIO da Educação e Cultura determinou a substituição imediata de todos os directores escolares do continente e ilhas adjacentes.


Fontes:
- Acervo pessoal;

- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

domingo, 22 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


22 de Março de 1975

AO FIM da manhã é nomeada para  a Rádio Renascença uma comissão mista constituída por um delegado do MFA, um delegado do Ministério da Comunicação Social, um delegado a nomear pelo Ministério do Trabalho e um delegado da 5ª Divisão do estado-Maior das Forças Armadas.
Resolvido que seja o conflito entre os trabalhadores e a entidade patronal, a comissão dissolver-se-á.

SEGUNDO o Expresso, uma das consequências da nacionalização da banca remete para a circunstância de alguns jornais e semanários ficarem sob o controlo económico do Estado.
Estão neste caso o Diário de Notícias, O Século, Jornal do Comércio, Jornal de Notícias, parcialmente o Diário de Lisboa, Sempre Fixe, Vida Mundial, Século Ilustrado, Modas & Bordados, Flama, Record e o Mundo Desportivo.
Escapam a este controlo A Bola, o vespertino República, o matutino O Primeiro de Janeiro e o semanário Expresso.

NOS ÚLTIMOS dias, conduzidos, pela FSP e a LUAR, tem-se vindo a assistir ao processo de ocupação de edifícios vagos e abandonados.

JOSÉ GOMES FERREIRA em Intervenção Sonâmbula:
- É tão difícil ser revolucionário.
- Pois é. Para mim é uma espécie de religião que, em lugar de ligar, desliga as pessoas para s ligar melhor.
E então, já arrependido de não lhe ter falado apenas de «vigilância popular», de «aumento de produção», de «trabalho», de «coragem indomável para enfrentar o possível bloqueio» (conselhos também necessários e indispensáveis), resolvi animá-la com o melhor sorriso que tirei do coração e do cérebro:
- Bem vê: devemos aproveitar a Revolução para sermos melhores e maiores do que somos.
(Mas em geral todos se tornam mais anões e medíocres do tamanho de picadelas de alfinetes.)

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira;
- Intervenção Sonâmbula, José Gomes Ferreira, Diabril Editora, Lisboa 1977.

Legenda: Título da República de 22 de Março de 1975

sábado, 21 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


21 de Março de 1975

O ALMIRANTE Vítor Crespo, alto-comissário em Moçambique, vem expressamente a Lisboa para dar conta do seu desagrado por a composição do Conselho de Revolução integrar maioritariamente 0ficiais «gonçalvistas».
Numa reunião tensa é rectificada a composição do Conselho que passa a incluir Vítor Crespo, Melo Antunes, Vítor Alves e, por uma questão de equilíbrio, o «gonçalvista» Costa Martins.

FORAM expulsos das Forças Armadas os implicados no golpe do 11 de Março, entre os quais o general António Spínola, major Sanches Osório w o capitão-tenente Alpoim Calvão.

O DECRETO-LEI nº 147-C/75 atribui ao Conselho de Revolução o poder de passar à reserva militares que não ofereçam garantia de fidelidade ao MFA, bem como de graduar ou promover.

COMÍCIO do Partido Socialista no Campo Pequeno.
Não vamos fazer sair a NATO pelo Minho para deixarmos entrar o Pacto de Varsóvia pelo Algarve.
Do discurso do operário Alfredo Carvalho, candidato a deputado do Partido Socialista.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira


Legenda: imagem do Centro de Documentação 25 de Abril.

sexta-feira, 20 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


 20 de Março de 1975

Posse do Conselho da Revolução.

O Conselho resulta da dissolução do Conselho de Estado e da Junta de Salvação Nacional.

No discurso de posse, Costa Gomes define o Conselho como motor da revolução.

Constituição do Conselho:


 Luís de Miranda Rocha, num artigo publicado na revista Vida Mundial, saída hoje, pergunta:

321 dias depois… começou a revolução?

E observa:

Mas, se a Revolução começou, não terá outro caminho senão o seu próprio desenvolvimento. E há uma impaciência que não é reacionária.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira

Legenda: tomada de posse do Conselho da Revolução.

quinta-feira, 19 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


19 de Março de 1975

MARCADAS inicialmente para 12 de Abril, as eleições, para a Assembleia Constituinte, realizar-se-ão no Dia 25 de Abril.

NESTE DIA, Miguel Torga, sem qualquer ponta de ânimo, escreve no seu Diário:

Apetece fugir, deixar de vez esta pátria que mais ninguém sabe reconhecer, gramatical, cívica e humanamente, e onde o capricho de um galoado qualquer, a má disposição da sua amante ou a qualidade da aguardente que bebe mudam o curdo da revolução. Mas abandoná-la de que maneira? Com um saco às costas, como pode fazer um homem sumário, igual ao de há pouco, num filme, mudava de terra sem qualquer entrave, levando nos músculos de trabalho todos os vínculos e honra? Mobilado de valores morais e sentimentais, telúricos, intelectuais e outros, prendem-me ao chão nativo amarras indestrutíveis. Para poder partir teria de meter no bornal o Marão, o Douro, o Mondego, a luz de Coimbra, a biblioteca e as vogais da língua. Sou um prisioneiro irremediável numa penitenciária de valores tão entranhados na minha fisiologia que, longe deles, seria um cadáver a respirar.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Diário, Volume XII, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1999.

quarta-feira, 18 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


18 de Março de 1975

ÁLVARO CUNHAL, secretário-geral do Partido Comunista, manifestou a intenção de os implicados no 11 de Março, serem severamente punidos, nunca fuzilados, como chegou a ser apresntado, por militares extremistas, numa Assembleia do MFA.

Os comunistas portugueses sempre disserem que são homens de justiça e não de vingança.

Dezoito jipes, tês carrinhas Mercedes e uma Berliet partem de Lisboa em direcção a Viseu e aos dezassete conselhos do distrito.
É o início da Camaonha de Dinamização Cultural que integra elementos de todas as Forças Armadas incluindo representantes da PSP e GNR.

Mário Castrim no seu Canal de Crítica no Diário de Lisboa:

Virá o tempo em que já não será possível distinguir onde está o soldado e o operário, o oficial e o camponês esse tempo será quando as fardas estiverem tão sujas de terra que se perca a própria noção de farda para se adquirir uma nova noção: a de se vestir a pele de português e de trabalhador.


Mais tarde, no seu livro MFA Dinamização Cultural Acção Cívica, Ramiro Correia reconhecerá que um problema que surgiu desde o início, foi o da dificuldade dos militares responderem a questões políticas delicadas. Era evidente a incapacidade na criação de quadros e também se tornava cada vez mais claro que as lutas pela conquista do poder, iriam afectar a qualidade e quantidades de militares dispostos a empenharem-se em acções desta natureza.

É conhecido o episódio com aquele oficial miliciano que, numa aldeia  transmontana, perguntou à assistência presente da sala:

Vocês sabem o que é o socialismo?

Uma velhota devolveu-lhe:

E vossemecê sabe o que é um engaço?

A NATO, segundo notícia do Diário de Lisboa está preocupada com a decidida viragem à esquerda operada pelos dirigentes militares em Lisboa.

Dias antes o New York Times diz-se desiludido e escreve: um golpe nas esperanças que havia de se conseguir uma democracia política e que as nacionalizações pretendem sabotar a bases económica dos grupos não comunistas

O jornal francês L’Aurore que sempre foi um aliado incondicional da ditadura, fez contas e chegou à seguinte conclusão:

Os detidos políticos são hoje mais numerosos do que no tempo de Caetano.

VERGÍLIO  Ferreira no seu Conta-Corrente:

A Arcádia, ligada à Companhia de Seguros Império, passa ao governo. Devo estar a ser «saneado», quer dizer, «sacaneado». Se me deixarem em paz, o que me resta é escrever para o monte. Se ao menos um pequeno conforto no meio de tudo isto. Não há. Há só o desejo dele, que é ao menos para o prazer não acabar quando começa.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Conta-Corrente, 1º volume, Vergílio Ferreira.
- MFA Dinamização Cultural Acção Cívica, Ulmeiro, Lisboa s/d

Legenda: fotografia da Campanha de Dinamização Cultura tirada da Vida
                Mundial. 

OLHAR AS CAPAS


A Contra-Revolução de Fachada Socialista

Varela Gomes
Ler, Editora, Lisboa, Dezembro de 1981

O putsch spinolista não foi uma tentativa fortuita e isolada. Pelo contrário, integra-se na implacável ofensiva e reacionária e imperialista contra a Revolução Portuguesa, cujas outras emergências mais salientes foram: a montante, a crise Palma Carlos (17 de Julho 74) e o “28 de Setembro (maioria silenciosa/demissão de Spínola); e a juzante, o golpe contra-revolucuionário triunfante de 25 de Novembro.
O esquema utilizado no golpe de 11 de Março foi de natureza profundamente militar. Um putsch clássico, accionado pela hierarquia dos generais e coronéis.

terça-feira, 17 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


17 de Março de 1975

Depois da nacionalização da banca, o país fica a saber que o Conselho Superior da Revolução decretou que as companhias de seguros também eram nacionalizadas.
A nacionalização abrange todas as companhias de seguros com sede no continente e ilhas adjacentes, com excepção daquelas em que se verifica uma participação significativa de companhias estrangeiras no seu capital.

O mercado de seguros no nosso país era dominado por cinco grandes companhias: Império, Tranquilidade, Mundial, Confiança e Comércio e Indústria, basicamente controladas por cinco grandes grupos financeiros: C.U.F., Champalimaud, Espírito Santo, Jorge de Brito e Pinto de Magalhães.


Só por si a Companhia de Seguros Império detinha cerca de um quinto do mercado e exercia, conjuntamente com a Tranquilidade e a Mundial, uma influência declaradamente do tipo monopolista.


O Diário de Lisboa faz uma pequena análise sobre o ramo de seguros em Portugal.

Os jornais dão conta que, após três dias de encerramento, existe confiança e normalidade na banca nacionalizada.

O Partido da Democracia (PDC), o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP) e a Aliança Operária Camponesa (AOC), pelo Decreto-lei Nº 137-A/75, vêem suspensa a actividade política até à data das eleições da Assembleia Constituinte, não podendo apresentarem-se às urnas.

Vergílio Ferreira na sua Conta-Corrente:

De novo o desânimo. Parece agora impossível travar a escalada comunista. Raramente a pergunta é: que vou fazer. A táctica comunista agora é queimar os partidos menos à esquerda. Qualquer dia o PS, que já quase está «à direita». Mas então a Europa assiste ao nosso aniquilamento?
  
Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
- Conta-Corrente, 1º volume, Vergílio Ferreira.

Legenda: Título do Diário de Notícias de 17 de Março de 1975
                 Notícia do Diário de Lisboa de 17 de Março de 1975 

segunda-feira, 16 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


16 de Março de 1975

Neste dia ficava a saber-se que, após algumas hesitações, o governo brasileiro dava asilo político ao ex-general Spínola.

No avião da Ibéria que, mais os 18 oficiais que desde o golpe o acompanham, o transportou para São Paulo, em jeito de manifesto, justificaram-se aos jornalistas que se revoltaram para restabelecer a promessa de democracia da Revolução do 25 de Abril. O nosso povo tem estado a sofrer as mais abertas violações e a autoridade desapareceu nas ruas. A anarquia alastra pelo País. Foi para cumprir a nossa promessa, para garantir a liberdade, para salvaguarda as eleições de 12 de Abril, para aniquilar as forças antiportuguesas da desordem, que pegámos em armas. A perseguição política e religiosa é conduzida na sombra por agentes de partidos e internacionalistas, que se tornam cada dia mais fortes. A escalada da violência atingiu um ponto que nunca imaginámos. Um governo complacente, a actuar em conjunto com as forças de subversão, assiste à ruína material e moral da Nação… lançando Portugal no descrédito do mundo livre. As Forças Armadas não intervieram em 25 de Abril para mudar de ditadura. Foi para instalar a democracia, para restituir ao nosso povo a liberdade contra os fascismos da esquerda ou da direita, os que se vestem de negro ou de vermelho… Não podemos consentir no martírio de Portugal e na ruína da Pátria.

À chegada a São Paulo, Spínola apressou-se a desmentir que tivesse afirmado não  desejar voltar algum dia a Portugal, ao mesmo tempo que declarava que se dedicaria a «actividades intelectuais», com o propósito de escrever um livro: «Reflexões sobre os Dilemas do Mundo Contemporâneo».

Mas o antigo governador da Guanabara, Carlos Lacerda, afirmava, ao Jornal da Tarde, que o ex-general «está decidido a continuar a luta».

Em 1973, Amílcar Cabral retratava Spínola:


Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

domingo, 15 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


15 de Março 1975

Sábado é dia de Expresso.

O semanário ocupa-se, largamente, dos acontecimentos do 11 de Março.

Este é um pormenor da habitual coluna de comentário político de Marcelo Revelo de Sousa. Um requiem pelo spinolismo.

A determinado passo, pode ler-se:

O 11 de Março foi a oportunidade primeira de se suscitar o confronto destas duas linhas de pensamento e de acção. É ainda cedo para se compreender em toda a sua complexidade o que efectivamente sucedeu a 11 de Março. O inquérito oficial – assegurou o Chefe de Estado – corre ainda os seus trâmites, a ritmo acelerado. Segundo Costa Gomes, ele poderá mesmo a vir a clarificar os acontecimentos de 28 de Setembro que permaneciam, seis meses depois, envoltos em relativo segredo de estado.
Entretanto, algumas perguntas se fazem quanto aos factos os observadores políticos.
1ª Spínola terá liderado desde o início do golpe conforme é genericamente dito, ou teria assumido a liderança momentânea sob o peso de uma versão errada do que ocorria? – conforme disse Salgueiro Maia ao “Século”?
2ª Porquê a incipiente estrutura de um golpe que segundo meios oficiosos, estaria sendo preparado há já algum tempo?
3ª Porquê a aparente ausência de elementos golpistas operacionais de ligação às diversas unidades, e pelo contrário a sua concentração em Tancos de onde fugiram para Espanha?
Estas e outras questões serão certamente respondidas de forma cabal pelo relatório que está em preparação sobre a tentativa aventureirista da direita.

Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, em Os Loucos Dias do Prec, realçam um artigo do Jornal de Notícias com o título: Nacionalizar os bancos não é nacionalizar os depósitos, que ia ao encontro das preocupações dos portugueses sobre o que acontecia ao dinheiro que tinham depositado nos bancos.

E aproveitam para lembrar a seguinte história, ocorrida tempos antes do 25 de Abril:

António Champalimaud adquirira o Banco Pinto e Sottomayor. Ficou acordado que no acto da escritura pagaria 10 por cento do valor e passados seis meses os restantes 90 por cento. Champalimaud pagou os 10 por cento com um cheque dum banco que já detinha. E 180 dias depois pagou o restante com um cheque do banco que havia comprado. Em conclusão: não dispôs nem de um centavo do seu dinheiro e comprou a possibilidade de receber ao fim doa ano milhares de contos de lucro.

Conclusão do Jornal de Notícias:

Com este sistema ganhavam meia dúzia de capitalistas e perdia o povo.

Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.

OLHAR AS CAPAS


 Março Desavindo

Mário Ventura
Capa: Henrique Cayatte
Editorial Caminho, Lisboa, Novembro de 1987

- Claro, é evidente que existem as condições teóricas para que isso possa acontecer. Há uma burguesia que não é de esquerda, embora alguns pretendam absurdamente que está com a revolução, o que é um requinte de optimismo idiota se pensarmos que num dado momento ela apenas se afirmou democrata. E do outro lado há um processo revolucionário, melhor dizendo radical, que até hoje ninguém adoptou de forma coerente e até  às últimas consequências, chegando mesmo àquilo de que os jornalistas mais gostam: sangue e mortos. Não estou a brincar, admito apenas a possibilidade lógica de um processo que se pretende revolucionário. Mas se a esquerda não tem cojones ou inteligência para actuar com decisão e firmeza, também não vejo que a burguesia seja mais hábil ou voluntariosa. Se o fosse não teria perdido o seu lugar. Ainda que provisoriamente. A esquerda vai continuar a fazer a sua revolução verbal, assustando muito mas sem vontade e capacidade para fazer o que apregoa, ou seja, conquistar o Poder, e a burguesia, com a lógica habitual dos acossados, só actuará quando tiver a certeza de ganhar.
- Esqueceste-te dos comunistas – interrompeu Lozano.
- Os comunistas cumprem uma tarefa impossível: tentam arrumar uma casa constantemente sacudida por tremores de terra. Não conseguirão passar daí, embora também assustem muito.
- Diz-se que estão por detrás de tudo…
- Todos os partidos estão por detrás de tudo aquilo que fazem os militares, Cada um procura a sua marioneta.

sábado, 14 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


14 de Março de 1975

NESTE DIA, há 40 anos, o País surpreendia-se com a notícia de que o Conselho Superior da Revolução, como sua primeira grande decisão, nacionalizava todas as instituições de crédito bancário, com sede em Portugal e Ilhas Adjacentes, com pequenas excepções, atendendo à existência de filiais e bancos estrangeiros e caixas económicas e de crédito agrícola mútuo, que aguardarão lei especial.

General Vasco Gonçalves:

Penso que hoje é um dia histórico para o nosso povo. O 14 de Março fica gravado na história do nosso povo, como uma data que corresponde a um passo muito importante dado na sua libertação, na via do progresso, na via do País dominar os seus próprios recursos. Portanto julgo que hoje é um dia de alegria para todos, menos para aqueles que beneficiavam largamente com o sistema anterior vigente.

 O PPD, sublinha que substituir um capitalismo liberal por um capitalismo de estado não resolve as contradições com que se debate hoje a sociedade portuguesa.

Mário Soares chama-lhe um dia histórico em que se pode assinalar que o capitalismo se afundou.

O economista Eugénio Rosa lembra:

É suficiente dizer, e só a título de exemplo, o que aconteceu até há pouco tempo com um banco. O grupo económico a que ele pertencia criou 15 empresas no mesmo edifício, com um capital social de 3.500 contos, a quem emprestou mais de 3 milhões de contos para que aquelas pudessem jogar em acções especulativas, sem qualquer interesse para satisfação das necessidades populares.

Jornalista Miguel Serras Pereira:

Aquilo que se fará com a estatização da banca é, sem dúvida, bem mais importante do que essa estatização em si mesma.

Economista Maia Cadete:

Era absolutamente necessário extirpar o mal pela raíz. E a raiz estava efectivamente podre. Como é sabido a banca constituía um «reino» reacionário com autonomia dentro de um Portugal já democrático.



Neste mesmo dia, a profª Isabel de Magalhães Colaço, Diogo Freitas do Amaral, Henrique de Barros, Rui Luís Gomes, Teixeira Ribeiro e Azeredo,  civis do estado apresentam a sua renúncia.

Também se fica a conhecer os militares que compõem o Conselho da Revolução:

Pinheiro de Azevedo, Rosa Coutinho, Carlos Fabião, Mendes Dias, Lopes Pires, Pinho Freire, Costa Gomes, Vasco Gonçalves, Otelo saraiva de Carvalho.

Membros da Comissão Coordenadora:

Franco Charais, Canto e Castro, Pereira Pinto, Almada Contreiras, Miguel Judas, Vasco Lourenço, Pinto Soares, Ferreira de Sousa, Sousa e Castro, Pezarat Correia, Marques Júnior, Martins Guerreiro, Ramiro Correia, Costa Neves, Graça Cunha.

Os Bancos reabram amanhã.

QUEBRANDO um silêncio voluntariamente mantido nos últimos meses, o Capitão Salgueiro Maia dá uma entrevista ao jornalista Dinis de Abreu, publicada no Diário Popular.


Salgueiro Maia conta que ao principio da tarde do dia 11, deslocou-se a Tancos para dizer a Spínola que tudo aquilo era irracional e que o momento político não se compadecia com aventureirismos como aqueles que estavam a ser desencadeados.

Quando o viu, Spínola disse-lhe:

- Mas, então, você não está em Lisboa?

- Mas nós somos tudo menos malucos, e não compreendo como é que o meu general se mete numa alhada destas…

Salgueiro Maia fica com a ideia que o general está extraordinariamente mal informado, porque garantia que toda a situação era dele, todas as forças lhe obedeciam e que tinha sido levado àquilo por uma comunicação recebida nessa noite, através de uma lista de elementos a abater por determinada organização política; à cabeça da qual se encontrava com 500 militares e cerca de mil civis, numa operação designada por «Matança da Páscoa».

Salgueiro Maia desabafa a Dinis de Abreu:

Spínola está absolutamente irrecuperável. Na presente situação política, ele era para os seus adeptos um D. Sebastião. Agora, já não há D. Sebastião. É bom não esquecer  que ele foi um dos melhores generais e um dos piores como político.

Editorial de Augusto Abelaira na Vida Mundial:


Fontes:
- Acervo pessoal;
- Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira;
- Discursos – Vasco Gonçalves, Edição do Autor, Lisboa, 1976

Legenda:
- pormenor da 1ª página do Diário de Lisboa de 14 de Março de 1975;
- páginas centrais do Diário Popular de 14 de Março de 1975.