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sábado, 31 de maio de 2025

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Este nº 7 da Colecção que o Público, mensalmente, tem vindo a apresentar, é o catálogo de uma exposição itinerante inaugurada a 26 de Abril de 1975, na Galeria de Arte Moderna, em Lisboa.

O livro abre com uma citação de Mário Castrim:

«Para colher um cravo, desfolhou o nosso povo os pés nos tojos e nos cardos.»

Segue-se um texto introdutório de José Saramago, um outro de Ramiro Correia:

«48 anos de fascismo. 14 anos de guerras coloniais. 32% de analfabetos. 10% de população emigrada. Milhares e milhares de mortos e inválidos de guerra. Índices sanitários dos mais baixos da Europa. Problemas dramáticos de habitação. Economia desastrosa. Prestígio Internacional nulo. Repressão. Tortura. Censura. Corrupção.

Foi neste clima de tragédia que na madrugada de 25 de Abril o M.F.A. e o Povo iniciaram a árdua caminhada para a construção da sociedade socialista em Portugal.

Democratizar. Descolonizar. Desenvolver.»

quarta-feira, 24 de abril de 2024

OLHAR AS CAPAS


MFA e Luta de Classes

Ramiro Correia, Pedro Soldado, João Marujo

Biblioteca Ulmeiro nº 2

Editora Ulmeiro, Lisboa s/d

Vasco Gonçalves, a defesa lúcida dos trabalhadores, o democrata que não pactuava com manobras palacianas, que não aceitava pressões externas humilhantes, que sabia bem como a divisão dos militares progressistas enfraquecia perigosamente a Revolução, é objecto de uma das mais demagógicas campanhas de difamação de que há memória neste País (período fascista incluído), campanha que, por vezes, atingiu a vileza, pela mentira, pelo despudor, pela ausência de ética, pela irresponsabilidade. 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL


Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 Campanhas de Dinamização Cultural e Ação Cívica do MFA.

Uns nunca ouviram falar, outros já esqueceram.

Existe um livro, publicado pela Ulmeiro, da autoria de Ramiro Correia, Pedro Soldado e João Marujo : MFA: Dinamização Cultural, Acção Cívica, onde tudo, ou quase tudo, está explicado.

Um projecto de boas ideias que encontrou dificuldades enormes, desde o primeiro minuto boicotado, sabotagens diversas, umas silenciosas, outras bem gritadas.

Em MFA Dinamização Cultural Acção Cívica, Ramiro Correia reconhece que um problema que surgiu desde o início, foi o da dificuldade dos militares responderem a questões políticas delicadas. Era evidente a incapacidade na criação de quadros e também se tornava cada vez mais claro que as lutas pela conquista do poder, iriam afectar a qualidade e quantidades de militares dispostos a empenharem-se em acções desta natureza.

Neste país, a cultura sempre foi um enorme busílis.

Decididamente não devemos, não podemos, espantar-nos com as atitudes (não) culturais dos políticos, dos autarcas, dos deputados, dos governos. Têm todos sem excepção,  um soberano desprezo pela cultuar. Talvez não puxem da pistola mas não conseguem distinguir um livro de uma abóbora.

Deixou escrito Mário Dionísio:

«Que a cultura é uma arma poderosa na luta pela emancipação dos homens, nunca o fascismo português o ignorou ou esqueceu. O seu reino de opressão durou quase meio século – o tempo bastante para que outros fascismos nascessem, crescessem, desencadeassem a maior Guerra mundial de todos os tempos, nema fossem vencidos, fossem esquecidos, embora com outras máscaras regressassem ou  sem grandes alterações continuassem a existir. Nesse quase meio século, o fascismo português teorizou e praticou, do princípio ao fim, uma doutrinação obscurantista tão zelosa e permanentemente observada que ele próprio nunca mais conseguiu libertar-se dela, mesmo quando julgou que isso poderia ser-lhe de alguma utilidade: quando por necessidades de funcionamento  do Regime e, não menores de propaganda ante um mundo mais e mais hostil (sobretudo a partir da Guerra colonial), em vão tentou, nos últimos anos corrigir à pressa, ainda que superficialmente, a base fundamental da sua filosofia.»

Com as Campanhas de Dinamização Cultural não se pretendia levar cultura, mas motivar a população para que recuperasse as suas realidades através de uma cultura que possuíam mas não desenvolviam, não frequentavam.

Foi quando apareceram uns habilidosos que entenderam que o importante não era dinamizar a cultura mas estupidificar o povo.

Montanhas e montanhas de tele-novelas que obrigassem as gentes a ficar agarradas aos televisores e… nada de cultura.

Ao ponto de, durante os debates televisivos para as eleições de 10 de Março se tenha abordado tudo (?) excepto CULTURA.

As televisões transmitem diariamente horas e horas e horas, e horas de programas sobre futebol e não gastam 3 minutos a falar de um livro, de um f ilme, de uma exposição.

Sobre as dificuldades dos dinamizadores culturais, recorda-se  aquele oficial miliciano que, numa aldeia  transmontana, perguntou à assistência presente da sala:

«Vocês sabem o que é o socialismo?

Uma velhota devolveu-lhe:

E vossemecê sabe o que é um engaço?

O recorte, no topo do texto, recorda o episódio.

Habilidosamente, o jornalista que mais tarde recorda a cena, não deixa de comentar:

«…suspeito que o doutor já se tenha esquecido do socialismo mas ainda hoje a velhota, se for viva, há-de saber o que é o engaço.»

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Este livro trata da História a que os hstoriadores, os manuais fogem como o diabo foge da cruz.

Não podemos encherea boca com palavras como «o meu país» e não saber, também não querer saber, o que, ao longo dos tempos no País foi acontecendo.

Na página 5 há um poema de  Bertolt Brecht e esse poema diz, em poucas palavras, o que o livro encerra.

 

«General, o teu tanque é um carro forte

Arrasa um bosque e esmaga centos de homens

Mas tem um defeito:

Precisa de um condutor.

 

General, o teu bombardeiro é forte.

Voa mais rápido que uma tempestade e carrega mais que um elefante.

Mas tem um defeito:

Precisa de um mecânico.

 

General, o homem é muito hábil.

Sabe voar e sabe matar.

Mas tem um defeito:

Sabe pensar.»

 

A páginas 211, iniciando um capítulo de «Conclusões» pode ler-se:

 

O difícil é continuara lutar

Quando o desistir é fácil.»

OLHAR AS CAPAS


MFA: Dinamização Cultural, Acção Cívica

Ramiro Correia, Pedro Soldado, João Marujo

Biblioteca Ulmeiro nº 3

Editora Ulmeiro. Lisboa s/d

A todos os camaradas que, por todo o país, por vezes nas condições mais adversas, não se pouparam a sacrifícios, incompreensões e discriminações, para cumprirem a tarefa exaltante de lutarem ombro a ombro com o povo português por um futuro melhor, onde não tenha lugar a exploração e a injustiça e o homem alcance os espaços da liberdade.

quarta-feira, 18 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


18 de Março de 1975

ÁLVARO CUNHAL, secretário-geral do Partido Comunista, manifestou a intenção de os implicados no 11 de Março, serem severamente punidos, nunca fuzilados, como chegou a ser apresntado, por militares extremistas, numa Assembleia do MFA.

Os comunistas portugueses sempre disserem que são homens de justiça e não de vingança.

Dezoito jipes, tês carrinhas Mercedes e uma Berliet partem de Lisboa em direcção a Viseu e aos dezassete conselhos do distrito.
É o início da Camaonha de Dinamização Cultural que integra elementos de todas as Forças Armadas incluindo representantes da PSP e GNR.

Mário Castrim no seu Canal de Crítica no Diário de Lisboa:

Virá o tempo em que já não será possível distinguir onde está o soldado e o operário, o oficial e o camponês esse tempo será quando as fardas estiverem tão sujas de terra que se perca a própria noção de farda para se adquirir uma nova noção: a de se vestir a pele de português e de trabalhador.


Mais tarde, no seu livro MFA Dinamização Cultural Acção Cívica, Ramiro Correia reconhecerá que um problema que surgiu desde o início, foi o da dificuldade dos militares responderem a questões políticas delicadas. Era evidente a incapacidade na criação de quadros e também se tornava cada vez mais claro que as lutas pela conquista do poder, iriam afectar a qualidade e quantidades de militares dispostos a empenharem-se em acções desta natureza.

É conhecido o episódio com aquele oficial miliciano que, numa aldeia  transmontana, perguntou à assistência presente da sala:

Vocês sabem o que é o socialismo?

Uma velhota devolveu-lhe:

E vossemecê sabe o que é um engaço?

A NATO, segundo notícia do Diário de Lisboa está preocupada com a decidida viragem à esquerda operada pelos dirigentes militares em Lisboa.

Dias antes o New York Times diz-se desiludido e escreve: um golpe nas esperanças que havia de se conseguir uma democracia política e que as nacionalizações pretendem sabotar a bases económica dos grupos não comunistas

O jornal francês L’Aurore que sempre foi um aliado incondicional da ditadura, fez contas e chegou à seguinte conclusão:

Os detidos políticos são hoje mais numerosos do que no tempo de Caetano.

VERGÍLIO  Ferreira no seu Conta-Corrente:

A Arcádia, ligada à Companhia de Seguros Império, passa ao governo. Devo estar a ser «saneado», quer dizer, «sacaneado». Se me deixarem em paz, o que me resta é escrever para o monte. Se ao menos um pequeno conforto no meio de tudo isto. Não há. Há só o desejo dele, que é ao menos para o prazer não acabar quando começa.

Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira.
Conta-Corrente, 1º volume, Vergílio Ferreira.
- MFA Dinamização Cultural Acção Cívica, Ulmeiro, Lisboa s/d

Legenda: fotografia da Campanha de Dinamização Cultura tirada da Vida
                Mundial. 

sábado, 14 de março de 2015

OS IDOS DE MARÇO DE 1975


14 de Março de 1975

NESTE DIA, há 40 anos, o País surpreendia-se com a notícia de que o Conselho Superior da Revolução, como sua primeira grande decisão, nacionalizava todas as instituições de crédito bancário, com sede em Portugal e Ilhas Adjacentes, com pequenas excepções, atendendo à existência de filiais e bancos estrangeiros e caixas económicas e de crédito agrícola mútuo, que aguardarão lei especial.

General Vasco Gonçalves:

Penso que hoje é um dia histórico para o nosso povo. O 14 de Março fica gravado na história do nosso povo, como uma data que corresponde a um passo muito importante dado na sua libertação, na via do progresso, na via do País dominar os seus próprios recursos. Portanto julgo que hoje é um dia de alegria para todos, menos para aqueles que beneficiavam largamente com o sistema anterior vigente.

 O PPD, sublinha que substituir um capitalismo liberal por um capitalismo de estado não resolve as contradições com que se debate hoje a sociedade portuguesa.

Mário Soares chama-lhe um dia histórico em que se pode assinalar que o capitalismo se afundou.

O economista Eugénio Rosa lembra:

É suficiente dizer, e só a título de exemplo, o que aconteceu até há pouco tempo com um banco. O grupo económico a que ele pertencia criou 15 empresas no mesmo edifício, com um capital social de 3.500 contos, a quem emprestou mais de 3 milhões de contos para que aquelas pudessem jogar em acções especulativas, sem qualquer interesse para satisfação das necessidades populares.

Jornalista Miguel Serras Pereira:

Aquilo que se fará com a estatização da banca é, sem dúvida, bem mais importante do que essa estatização em si mesma.

Economista Maia Cadete:

Era absolutamente necessário extirpar o mal pela raíz. E a raiz estava efectivamente podre. Como é sabido a banca constituía um «reino» reacionário com autonomia dentro de um Portugal já democrático.



Neste mesmo dia, a profª Isabel de Magalhães Colaço, Diogo Freitas do Amaral, Henrique de Barros, Rui Luís Gomes, Teixeira Ribeiro e Azeredo,  civis do estado apresentam a sua renúncia.

Também se fica a conhecer os militares que compõem o Conselho da Revolução:

Pinheiro de Azevedo, Rosa Coutinho, Carlos Fabião, Mendes Dias, Lopes Pires, Pinho Freire, Costa Gomes, Vasco Gonçalves, Otelo saraiva de Carvalho.

Membros da Comissão Coordenadora:

Franco Charais, Canto e Castro, Pereira Pinto, Almada Contreiras, Miguel Judas, Vasco Lourenço, Pinto Soares, Ferreira de Sousa, Sousa e Castro, Pezarat Correia, Marques Júnior, Martins Guerreiro, Ramiro Correia, Costa Neves, Graça Cunha.

Os Bancos reabram amanhã.

QUEBRANDO um silêncio voluntariamente mantido nos últimos meses, o Capitão Salgueiro Maia dá uma entrevista ao jornalista Dinis de Abreu, publicada no Diário Popular.


Salgueiro Maia conta que ao principio da tarde do dia 11, deslocou-se a Tancos para dizer a Spínola que tudo aquilo era irracional e que o momento político não se compadecia com aventureirismos como aqueles que estavam a ser desencadeados.

Quando o viu, Spínola disse-lhe:

- Mas, então, você não está em Lisboa?

- Mas nós somos tudo menos malucos, e não compreendo como é que o meu general se mete numa alhada destas…

Salgueiro Maia fica com a ideia que o general está extraordinariamente mal informado, porque garantia que toda a situação era dele, todas as forças lhe obedeciam e que tinha sido levado àquilo por uma comunicação recebida nessa noite, através de uma lista de elementos a abater por determinada organização política; à cabeça da qual se encontrava com 500 militares e cerca de mil civis, numa operação designada por «Matança da Páscoa».

Salgueiro Maia desabafa a Dinis de Abreu:

Spínola está absolutamente irrecuperável. Na presente situação política, ele era para os seus adeptos um D. Sebastião. Agora, já não há D. Sebastião. É bom não esquecer  que ele foi um dos melhores generais e um dos piores como político.

Editorial de Augusto Abelaira na Vida Mundial:


Fontes:
- Acervo pessoal;
Os Dias Loucos do PREC de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira;
Discursos – Vasco Gonçalves, Edição do Autor, Lisboa, 1976

Legenda:
- pormenor da 1ª página do Diário de Lisboa de 14 de Março de 1975;
- páginas centrais do Diário Popular de 14 de Março de 1975.