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domingo, 23 de agosto de 2026

MÚSICA PELA MANHÃ


Agosto a terminar, o Outono a bater à porta, e por Agosto, vou buscar um lindíssimo poema de José Carlos Ary dos Santos, cantado por Simone de Oliveira num Festival da Eurovisão, que melhor sorte não teve por ao tempo a ditadura de Salazar imperar e as democracias europeias vincavam, não votando em Portugal, esse pormenor.   

O que mais me entusiasma na canção é quando se canta que por Agosto «quem faz um filho fá-lo por gosto».

A canção chegou a ter Madalena Iglésias como indicada para intérprete, mas só aceitaria

se retirassem «Quem faz um filho fá-lo por gosto»

Claro que Ary dos Santos mandou-a dar uma volta ao bilhar grande!

Colaboração de Aida Santos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

OS CROMOS DO BOTECO


No tempo em que My Fair Lady foi um estrondoso êxito em exibição no esplendor do Cinema Monumental, apareceu este EP com versões de quatro canções do filme nas vozes de Simone de Oliveira e António Calvário.
As canções tiveram uma constante divulgação na rádio, mas nunca tive este disco.
Os parcos tostões não davam mesmo para tudo. 
Melhor dito: não davam para nada.
Encontrei o disco na Loja do Nuno Potes e coloco-o aqui.
Acho a capa uma delícia.
Simone e Calvário são acompanhados pela Orquestra de Jorge Costa Pinto e do Conjunto Sem, e cantam: 

A Rua Onde Mora Meu Bem - Eu Dançaria Assim - O Rei De Roma - Um Bocadinho Só.

No disco não há qualquer referência à autoria das versões.


sexta-feira, 21 de março de 2014

DESFOLHADA


Poucas dúvidas existem de que, Desfolhada é uma bonita canção que, na altura, foi uma pedrada no charco do nacional-cançonetismo que nos assistia.

Para a desilusão da votação que a canção obteve em Madrid há um pormenor de que muitos se esqueceram: não era a Desfolhada que estava em votação, antes uma ditadura que mantinha uma guerra contra povos africanos.
Por mera curiosidade diga-se que a Áustria recusou participar no Festival da  Eurovisão desse ano por decorrer num país governado por um ditador: Francisco Franco.

Na Fotobiografia de José Carlos Ary dos Santos pode ler-se que, provavelmente, foi ao assistir a uma desfolhada, numa festa, que Zé Carlos se sentiu inspirado para escrever esta letra. No manuscrito da canção, a letra aparece primeiro com o título de Lenda Encantada, depois riscada e substituída por Desfolhada. No final do poema lê-se: Letra de Terrear para música de Água de-Fogo.

A canção aparece no Festival da Canção da RTP como Desfolhada e com é esse estampado na lª edição em disco.

A 2ª edição do EP já mudou o nome da canção para DesfolhadaPortuguesa.

As razões da alteração tiveram a ver, ao que parece, com o facto de na Sociedade portuguesa de Escritores já existir o registo de uma canção com o nome Desfolhada e o seu autor exigiu que se fizesse a alteração na canção de Ary dos Santos e Nuno Nazareth Fernandes.

Mais um pouco de história.

Simone de Oliveira não foi a primeira escolha para cantar Desfolhada.

Três ou quatro intérpretes foram apontadas, entre as quais Madalena Iglésias, que chegou a gravar a canção mas quis que o verso quem faz um filho fá-lo por gosto fosse cortado, a que Ary dos Santos, obviamente, recusou.

Ficou Simone, e ficou muito bem.

Dificilmente outra intérprete teria dado tanta força àquela seara louca em movimento.  Cheia de confiança, Simone, à partida para Madrid declarava: vai ser uma actuação à Benfica!


Legenda: a capa de Desfolhada é uma  cortesia deMr. Ié-Ié

DESFOLHADA


Neste dia, no ano de 1969, Simone de Oliveira, vinda de Madrid, depois de ter participado, com Desfolhada, no 14º Festival da Eurovisão chegou à Estação de Santa Apolónia, sendo recebida por milhares de portugueses - as crónicas da época falam em 20 mil – gritando o seu nome e empunhando cartazes e bandeiras, o levantamento do povo tal como Simone disse aos jornalistas.

Portugal ficou no penúltimo lugar com apenas 4 pontos que causaram enorme frustração e indignação. Consta que o Ministro da Informação e Turismo de Espanha foi aos bastidores pedir desculpas a Simone, que a maior parte das delegações cantantes prestaram solidariedade à artista e o maestro Ferrer Trindade, que dirigiu a orquestra, chamou à votação uma enorme palhaçada.

Indignado, O Século exigia que abandonássemos, para sempre, o Festival da Eurovisão.

O para sempre não se cumpriu e acabámos por regressar em 1971 com mais um canção de José Carlos Ary dos Santos: Menina cantada pela Tonicha.

Quando em 24 de Fevereiro Desfolhada venceu o VI Grande Prémio da Canção Portuguesa, saltou a euforia e as expectativas para o Festival da Eurovisão subiram demasiado alto.


Numa prosa muito secretariado da informação, o Notícias de Portugal, epicamente exultava:

Com todo o sabor de um panegírico ressurgido da terra, força imanente da alma da gente agrária no simbolismo das palavras ao ritmo melódico  da música popular, «Desfolhada» constitui um hino de louvor à grei, expressão maior desta geografia humana tão fortemente portuguesa, das serranias cobertas de pinheirais, às planícies atapetadas de searas, do verde das árvores, às espigas de trigo loiro, dos areais da costa beijada pelo mar infinito em ondas, ao firmamento sem quebras na unidade de azul. Todo o espaço de Portugal europeu onde o Amor e a Fé renascem a cada momento de vida, para, numa viagem ao encontro do tempo, disseminar, por todo o Mundo, o talento de bem fazer.

Legenda: a fotografia da chegada de Simone de Oliveira a Santa Apolónia é tirada do Notícias de Portugal de 5 de Abril de 1969.
Capa de O Século Ilustrado é tirada da Fotobiografia de Ary dos Santos - o Homem, o Poeta, o Publicitário de Alberto Bemfeita, Editorial Caminho Lisboa, Agosto de 2003.