Mostrar mensagens com a etiqueta Diniz de Almeida. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Diniz de Almeida. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 22 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL



 

                   Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                            João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

22 de Abril de 1974

Os jornais trazem nas suas primeiras páginas, fotografias do almoço íntimo que o chefe de estado Almirante Américo Tomás ofereceu, ontem, no Palácio Nacional de Belém do Chefe do Governo.

Sem protocolo, revestido de cunho de cordialidade, num ambiente extraordinariamente amistoso, escreveram os jornalistas. Não adiantaram os motivos do festim mas, sabe-se por portas travessas que Tomás, com esta reunião, tentou conciliar os ministros que, ouvia-se pelos corredores, andavam às turras, uns com saudades de Salazar, outros por Marcelo andava tropeçar nos próprios passos.

Olha-se a fotografia, publicada pelo ultra-fascista jornal Época, e vemo-los descontraídos e sorridentes.

Desconheciam ainda que almoçavam, todos juntos, pela última vez, tal como desconheciam que poucos dias faltavam para deixarem de sorrir.

O pânico haveria de tomar conta das suas excelsas e distintas pessoas.

O JORNAL REPÚBLICA conseguiu, numa pequena notícia, dar conta que quatrocentos democratas marcaram presença na homenagem a Óscar Lopes.

No mesmo jornal, o jornalista e escritor Álvaro Guerra, encarregado pelos capitães da ligação com a imprensa, no seu habitual Ponto Crítico, abordava a meteorologia e, se pudéssemos ter decifrado as entrelinhas, teríamos ficado a saber que o tempo ia mesmo mudar.

«A Primavera continua chuvosa, um resto de invernia que se arrasta, retardando o sol aquém, de tantos sóis adiados, se vai fartando e chegando ao Inverno da vida com um levíssimo e já frio raio de luz teimando penetrar na floresta desencantada da memória.
Naturalistas, alegóricos, nostálgicos, vamos seguindo os caprichos do clima, mitigando a ausência das palavras primaveris com a decifração de eternos boletins meteorológicos.»

OTELO SARAIVA DE CARVALHO comunica aos seus camaradas que tem pronto o Plano Geral das Operações.

DINIZ DE ALMEIDA, em Origens e Evolução do Movimento de Capitães, conta, que neste dia, «Grândola» de José Afonso foi escolhida como canção-segunda-senha para saída, em todo o país, dos regimentos afectos ao Movimento dos Capitães.

A canção foi escolhida por Almada Contreiras que, mais tarde, justificará a escolha: «em primeiro lugar, porque sou alentejano, depois porque gosto muito da canção. Se fosse minhoto, provavelmente a senha seria um “vira”, não sei».

domingo, 21 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                   Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                            João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


21 de Abril de 1974

Há 50 anos, o dia 21 de Abril calhou a um domingo, um dia simpático para que Américo Tomás, juntasse, no Palácio de Belém, sem  saber que o faria pela última vez, num almoço íntimo, algumas das principais figuras da vida nacional, e outras personalidades.

Para além da veneranda figura, sentaram-se à mesa, Marcelo Caetano, os presidentes da Assembleia Nacional, da Câmara Corporativa e do Supremo Tribunal de Justiça, os ministros da Defesa Nacional, da Justiça, das Finamças, o procurador geral da República, os conselheiros de estado dr. Albino Reis, prof. Costa Leite (Lumbrales), dr. Luís Supico Pinto, o governador civil de Lisboa, o deputado contra- almirante Henrique Tenreiro.

Não se sabem razões para a realização do festim, tão pouco foi pública a ementa.

Quatro dias depois deste festim, aconteceria a tal madrugada que Sophia registou para a História.

DINIZ DE ALMEIDA no seu livro Origens e Evolução do Movimento dos Capitães, regista que a redacção do programa do Movimento havia-se entretanto processado a partir de um documento inicialmente discutido entre Almada Contreiras, Martins Guerreiro e Melo Antunes.

Nessa redacção intervieram:

Pela Armada: Crespo, Contreiras, Lauret, Simões Teles, Vidal Pinho.

Pelo Exército: Melo Antunes, Costa Brás, Charais, Vítor Alves, José Maria Azevedo.

Pela Força Aérea, praticamente fora do assunto, só se fará sentir a sua opinião já no final dos trabalhos, em 24 de Abril de 1974.

A versão definitiva do programa, passada à máquina directamente pelo próprio Hugo dos Santos, ficou estabelecida em casa de Vítor Crespo, no dia 21 de Abril de 1974, domingo (epílogo das muitas reuniões efectuadas sobre o programa).

NA PRAIA DA AGUDA, em Gaia, e por iniciativa do jornal Opinião, realizou-se um jantar de homenagem  a Óscar Lopes.. A censura interveio com uma série de cortes pelo que as notícias publicadas, pouco ou nada referem. Os serviços da censura avisavam que as fotografias e as legendas da homenagem teriam que ser enviadas ao Dr. Ornelas.

EM ABRIL DE 1974, Portugal era um país onde coexistiam a maior miséria e a riqueza mais faustosa. Com oito milhões de habitantes, em cada mil crianças nascidas 56 morriam antes de completarem um ano de idade e em cada mil habitantes 15 morriam de tuberculose pulmonar. Apenas 40 por cento da população tinha água em casa e 75 por cento não dispunha de esgotos. Em cada 100 portugueses 37 eram analfabetos e em cada 100 alunos que frequentavam o ensino primário 30 não o completavam e apenas 2 por cento vinham a obter uma graduação universitária.

E havia uma guerra em África. 

Milhares e milhares de mortos, feridos, estropiados.

A Pátria não se discute, defende-se!

PASSAGEM PELO LIVRO  40 Anos de Servidão de Jorge de Sena:

«Uma vez eu, chegando a Portugal 

após muitos anos de ausência minha e alguns

de guerras africanas, encontrei uma vizinha

muito estimável que era casada com

um operário categorizado e antigo republicano.

O filho dela estava nas Africas, arriscando

a vida dele e a dos outros em defesa

do património da pátria de alguns (muito mais

que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).

Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.

E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:

- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!»

EM SANTA MARIA DE BELÉM realizou-se a tradicional bênção dos bacalhoeiros, repetida todos os os anos por ocasião da partida da frota para os mares da Terra Nova e da Gronelândia.

sexta-feira, 19 de abril de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                    Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                             João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


19 de Abril de 1974

O que acima se reproduz, é a legenda de uma fotografia publicada na 1ª página de O Século, que dava conta que o ministro do interior César Moreira Baptista deslocou-se ao Porto para a tomada de posse do Governador Civil.

«Para a sua primeira deslocação ao Porto como ministro do Interior, o dr. César Moreira Baptista escolheu mais democrático dos meios de transporte ao seu alcance: o comboio. Como um vulgar passageiro embarcou, no rápido das 8 e 40 em Santa Apolónia e, ora entretido na leitura, ora contemplando a paisagem através das amplas “vidraças” da carruagem, “venceu, a distância, chegando ao Porto à hora do almoço, para, durante a tarde e a noite cumprir o programa oficial que ali o aguardava.»

Apenas três pormenores: o repórter invoca o comboio como o mais democrático meio de transporte, o ministro como «vulgar passageiro» e durante a viagem, entretido com a paisagem ou com a leitura.

Mas não diz o que o ministro lia, ele que era um perfeito analfabeto.

A CENSURA determinava para os jornais que eram proibidas todas as notícias a dizer “Traineiras não foram para o mar.” 

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Américo Tomás visita a Barragem da Aguieira

O MINISTRO DO ULTRAMAR, Baltasar Rebelo de Sousa, ao despedir-se de um grupo de alunas do Instituto de Odivelas, que se preparava para visitar Angola, garantiu-lhe que naquelas terras se sentiriam “ainda mais portuguesas perante a lição de patriotismo que as populações de todas as etnias lhes vão proporcionar, pela comunhão humana que ali se respira e pelo entusiasmo galvanizante de todos, especialmente da sua generosa e promissora juventude”

NUMA REPORTAGEM  no Mercado de Alcântara o jornalista do Diário de Lisboa registava as queixas de uma florista de que cada vez se vendiam menos flores. “Só nos sábados é que as pessoas compram um raminho para alindar as casas. As rosas vermelhas estavam a 25 escudos e os cravos, de qualquer cor, a 20  escudos.

NESTE DIA, conta Dinis de Almeida no seu livro «Origens e Evolução do Movimento dos Capitães»:
«Acompanhado do capitão Almeida Pereira, dirigi-me ao C.I.C.A, 4 onde contactei o major Borges.
Posto ao corrente da situação, não aderiu, embora se comprometesse inclusive a colaborar passivamente em tudo o que não o comprometesse directamente.»

quarta-feira, 17 de abril de 2024

OLHAR AS CAPAS


Trinta Facadas de Raiva

Capitão Calvinho

Prefácio: Diniz de Almeida

Capa: Luiz Suarez

Edição da Associação dos Deficientes das Forças Armadas,

Lisboa, Abril de 1976

 

Agressão Cultural

 

Mataca é nome de régulo.

Régulo é nome tradicional de chefe

Chefe deriva neste poema:

de Gungunhana.

 

Guerra é nome de crime.

Crime é nome de agressão.

Agressão deriva deste poema:

do gesto dum capitão

que hoje é «gente grande»

 

- Põe teu filho nos ombros!

Ordenam lábios finos,

secos, quase cerrados.

 

- Não!

Responde um régulo ferido

no seu orgulho e razão.

 

- Pega no teu filho!

Insiste um rosto

feito de triângulos.

 

- Não!... não pega – replica um régulo

já sem convicção.

E explica:

Minino não é carga de régulo!

 

E o seco rosto

do seco oficial:

ensaia um tique de nervos

para lá das lentes escuras

que lhe escondem os olhos.

 

E o régulo curvou-se…

fixou os olhos num filho

     (de olhos escancarados)

 

e perante a força do novo Mouzinho:

- «sentou-se no chão»!...

 

       (Meses depois, apesar de «muito bem tratado»,

        fugia para junto daqueles que nunca traiu)

segunda-feira, 15 de abril de 2024

OLHAR AS CAPAS


Ascensão, Apogeu e Queda do M.F.A.

2º Volume

Diniz de Almeida

Edições Sociais, Lisboa s/d

Por outro lado, a manutenção das próprias estruturas do velho regime, preenchidas na generalidade pelos mesmos elementos de antes do 25 de Abril, que faziam o contra-vapor piorava a situação. Particular gravidade assumiria todo o sistema judicial, civil e militar, que se manteve praticamente intacto até aos nossos dias.

domingo, 14 de abril de 2024

OLHAR AS CAPAS

Ascensão, Apogeu e Queda do M.F.A.

1º Volume

Diniz de Almeida

Edições Sociais, Lisboa s/d

- Então  o Sr. Dr. Mário Soares já sabia do Golpe do 11 de Março… - perguntou intencionalmente Vasco Gonçalves, ao que o visado se justificaria, visivelmente embaraçado:

- Bem, eu na realidade tive conhecimento dele com uns dias de antecedência, mas isso não significa nada… o Dr. Cunhal, por exemplo, também soube com antecedência que ele se ia dar…

- Sim… sim…, - retorquiu severamente Vasco Gonçalves – mas a diferença é o que o Dr. Álvaro Cunhal avisou-me e o Dr. Mário Soares não…

domingo, 24 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                        João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.



Neste 24 de Março de 1974 regressamos ao livro de Dinis de Almeida Origens e Evolução do Movimento de Capitães,e, por mais nada digno de nota a assinalar, copiamos o que o autor deixou para a História:

«Nova reunião entre os elementos da Comissão Coordenadora que voltou a acentuar a determinação de refazer o plano de operações de 12 de Março.

Otelo Saraiva de Carvalho, presente na reunião anterior, marcou então, em princípio, o golpe para a semana de 20 a 27 de Abril.»

Em nota de rodapé, Dinis de Almeida lembra que «também o período entre 20 a 29 e 29 de Abril ficou no ar, alvitre de um dos presentes».

segunda-feira, 18 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


       Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


Neste dia 18 de Março, os jornais dedicavam-se a colocar nas suas primeiras que a tranquilidade era geral em todo o país.

O pasquim «Época», realçava que o Mercado das Caldas da Raínha, num domingo igual aos outros, registara «o movimento normal de forasteiros que habitualmente ali se deslocam para abastecimento, sobretudo de fruta, uma das melhores do País. E não só. Também nas pastelarias, onde se fabricam as apetitosas «cavacas», não decresceu o movimento dos apreciadores.»

Num qualquer dia de Março é atribuída a Marcelo Caetano a seguinte frase: «Cuidado com os capitães. O perigo vem deles, pois não têm ainda idade suficiente para poderem ser comprados.»

Diga-se ainda que a insurreição do Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Raínha teve a ordem de avançar de António de Spínola porque sabia que o MFA estava num quase de tempo de não voltar atrás, e tentou um golpe antecipativo. Sabendo-se isto, e algo mais, há, pois, quem se espante de Spínola ter sido chamado, após o 25 de Abril, para a presidência da República.

Percorrendo o livro de Diniz de Almeida «Origens e Evolução do Movimento de Capitães», pode ler-se na página 297:

«Mesmo nas proximidades do 25 de Abril, a falta de politização da esmagadora maioria dos oficiais do Quadro Permanente era aterradora.»

Mais à frente:

«A derrota do 16 de Março desanimou numerosos sectores do Movimento. Em certos sectores, o pânico degenerou mesmo em debandada. Muitos, porém, não cederam perante o fracasso e retomaram rapidamente a iniciativa. Daí em diante seria uma corrida contra o tempo. A pesada máquina jurídica movia-se contra nós e atingir-nos-ia em breve.»

Entretanto a «Época», pela pena do seu director-fascista Barradas de Oliveira, interrogava-se em editorial:

«QUEM SÃO ELES»!

Quem alimenta as forças terroristas que actuam contra nós em Àfrica? Quem sustenta os focos da agitação interna?»

quarta-feira, 6 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


             Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


 «No uso de uma prerrogativa constitucional que lhe confere o direito de expor à Assembleia Nacional assuntos de «reconhecido interesse nacional, o Presidente do Conselho fez, no dia 5, àquela câmara uma comunicação sobre política ultramarina que publicamos em suplemento a este número do «Notícias de Portugal».

Transmitida em directo pela rádio e pela televisão, a comunicação foi feita antes da ordem do dia.»

Notícias de Portugal, 9 de Março de 1974.

Citações do discurso que Marcelo, com casa cheia, como se diz no futebol, proferiu na Assembleia Nacional:

«Nenhuma dúvida pode haver de que o mais grave problema que presentemente se põe à Nação portuguesa é o Ultramar.

(…)

Nunca será demais recordar que as operações militares em Angola, em Moçambique e na Guiné resultaram da legítima defesa perante uma agressão preparada e desesncadeada a partir de territórios estrangeiros.

(…)

Como, porém tive ocasião de dizer em Julho de 1972, «as forças militares que servem ma África portuguesa e hoje têm cerca de metade dos seus efectivos constituídos por africanos, não fazem a guerra: asseguram a paz.

Não dominam, não subjugam, não anexam, não conquistam – apenas vigiam, e repelem quando necessário a força pela força, proporcionando aos habitantes a possibilidade de fazer normalmente a sua vida, apoiando a sua evolução e promoção social, e garantindo o fomento e o progresso dos territórios.»

Servindo-nos de Origens e Evolução do Movimento de Capitães de Diniz de Almeida, ficamos a saber que neste mesmo dia, do discurso de Marcelo:

«… num atelier pertencendo ao arquitecto Braula Reis, por detrás do Restaurante João Padeiro, em Cascais, arranjado pelo major Sanches Osório, era já noite, quando o soalho dum modesto e canhado primeiro andar flectia sob o peso das inúmeras presenças, (cerca de 200 oficiais dos 3 ramos das Forças Armadas).»

É nesta reunião que se decide que dois camaradas da Comissão Coordenadora «indicados pelos restantes membros, designassem secretamente (retendo apenas portanto esses membros o conheciment0 de tal designação, dois camaradas, sendo um responsável pela elaboração do programa político a partir do Manifesto e outro pela elaboração de uma ordem de operações a utilizar em caso de necessidade de emprego de Forças Armadas.»

Conclui Diniz de Almeida:

«Registe-se que esses camaradas viriam a cumprir as suas tarefas já que é daí que nasce o programa do M.F.A. e embora não previsto na altura, é a 25 de Abril feito o recurso à intervenção de unidades do Exército.»

Ficavam a faltar 50 dias para o 25 de Abril.

terça-feira, 5 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


           Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                    João Bénard da Costa

 

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

O que acima se vê é o relatório do dia 3 de Março de 1974, um domingo, publicado por Diniz de Almeida, no seu livro Origens e Evolução do Movimento dos Capitães, dando conta que nesse dia teve lugar em Algés, na casa do capitão Seabra, uma reunião que resultou na elaboração  do documento O Movimento, as Forças Armadas que veio a ser presente dois antes da reunião de Cascais.

Diniz de Almeida que para sua elaboração do documento concorreram elementos de uma Comissão dos 3 ramos das Forças Armadas e cujos nomes se podem ler.

O Dia das Surpresas caminhava a todo o vapor.

Amanhã, Marcelo Caetano, com uma vaga (?) sensação do que os militares empreendiam,  discursará na Assembleia Nacional e. socorrendo-nos do Notícias de Portugal, veremos o que o ditador disse e o que então disse estava muito longe dos que os militares tinham quase concluído: «Sem democratização do País não é possível pensar em qualquer outra solução válida para os gravíssimos problemas que se abatem sobre nós.»

Entretanto, 16 de Março há-de acontecer a saída das tropas do RI5 sito nas Caldas da Raínha, mas isso foi apenas um episódio fora da caixa de que a seu tempo, nestas Viagens Por Abril, será abordado.

segunda-feira, 17 de maio de 2021

ALGUÉM PRONUNCIARA A PALAVRA NECESSÁRIA


Rómulo de Carvalho continua a explicar aos seus tetranetos os passos que conduziram ao 25 de Abril de 1974. O tempo de lhes dizer que talvez eles estejam surpreendidos por o tetravô tanto saber de acontecimentos com tanto pormenor sem ter participado neles. E explica:

Tudo decorria em segredo «mas houve um militar de carreira, que foi um dos cabecilhas de toda a movimentação que se seguiu, que, depois da questão resolvida, escreveu um livro em que relata todos os pormenores do que aconteceu, quase dia-a-dia. O homem era capitão e chamava-se Diniz de Almeida (não sei se ainda é vivo), e o livro que escreveu e publicou intitulava-se “Origem e Evolução do Movimento dos Capitães”. O livro caiu no esquecimento, conforme conveio àqueles que, posteriormente, se interessaram em dar aos acontecimentos então decorridos, o ar mítico e heróico dos gestos portugueses. Tenho aqui o livro ao meu lado e nele uns sinaizinhos que me revelam as particularidades do que então se passou.

O abaixo-assinado dirigido ao Presidente do Conselho não o comoveu. Felizmente para a nossa História. “Creio que teria sido catastrófico para a sobrevivência do Movimento a revogação imediata do decreto”, lê-se na página 66 do citado livro. De facto, se o Governo revogasse o decreto, os oficiais acomodavam-se e ainda talvez a esta hora estivéssemos em guerra no Ultramar.»

Pela leitura do livro de Diniz de Almeida, Rómulo conclui que grande parte dos militares envolvidos nas reuniões estavam mais preocupados com o seu prestígio, «o qual prestígio dependeria da satisfação dos seus interesses económicos.»

Mais ainda:

«A ditadura que nos oprimia há quarenta e tantos anos, em nada os preocupava. Dessem-lhes o que pretendiam e tudo prosseguiria na mesma, a ditadura e a guerra. Numa das circulares assinadas por dois heróis do próximo futuro, Vasco Lourenço e Otelo Saraiva de carvalho, lê-se: “como o nosso movimento está isento de qualquer cunho político” (p. 175). Venham as regalias, renove-se o nosso prestígio, e a ditadura pode contar connosco.»

Assim prosseguia o «sereno desassossego», como lhe chama Rómulo e, seguindo o livro de Diniz de Almeida, lembra que em finais de Novembro 73 aparece um tenente-coronel de apelido Bazanol a dizer aos seus camaradas:

«Estão a esgotar-se com um assunto que não vale a pena. Isto não é uma questão de galões. O que vocês estão, e todos nós, é agonizantes. Estrangulados por um regime que nos conduz directamente para o abismo. É preciso que acordemos do pesadelo, é preciso acabarmos de vez com a maldita guerra colonial. Impõe-se a revolução armada desde já, seja qual for o seu preço e as suas consequências.»

Ainda Rómulo de Carvalho:

«Em outra reunião, dias depois, noutro local, novamente o tenente-coronel atroa os ares com a sua proposta revolucionária. O acolhimento foi pior do que no encontro anterior. Recebeu o apoio de alguns mais entusiasmados e generosos e a censura da maioria. Ficou desde aí injustamente marginalizado por louco ou incapaz. (p. 217-218).

De qualquer modo já alguém pronunciara a palavra necessária: Revolução.»

Rómulo de Carvalho em Memórias

PAPÉIS DATADOS


Durante seis meses privou com ele no Regimento de Infantaria 5 nas Caldas da Rainha. Dois temas os levaram a conversas várias: o Benfica e a guerra colonial. Terá sido ele o primeiro que, quase por sinais de fumo, lhe disse que o regime só cairia por intervenção dos militares. Como sempre desprezou fardas, lembra-se de lhe dizer: “bem poderei esperar sentado, meu tenente.”
Mais ou menos seis anos depois destas conversas, acontecia aquela madrugada “onde emergimos da noite e do silêncio”.
Uma pequeníssima notícia de jornal diz-lhe que, com 67 anos, morreu ontem João Manuel Bicho Beatriz, um dos co-organizadores da primeira reunião do movimento dos “Capitães de Abril.”
Sentia que tinha uma tarefa a cumprir e não descansou enquanto não a pôs em marcha e, tal como lhe dissera, uma grande convicção de que seriam os militares a resolver o problema da Guerra Colonial. Juntamente com muitos outros restituíram a este país a dignidade, das poucas vezes que a palavra Portugal foi soletrada com respeito. “Foi bonita a festa, pá”!
Cumprida a tarefa não andou para aí em bicos de pés a contar feitos e proezas, a mostrar os galões, foi mais um dos poucos salgueiros maias que fugiram à luz dos holofotes.
Após aquelas conversas, nas Caldas da Rainha, só o voltou a encontrar uma vez, já capitão ou major, não lembra bem, porque para ele foi sempre o tenente BichoBeatriz. Eram umas eleições para a presidência do Benfica, ali na secretaria do clube na Rua Jardim do Regedor. Já, então, Abril há muito se desfazia em oportunismos e traições vários. Falou-lhe das muitas esperanças frustradas, das desilusões, os esforços que só em parte resultaram, mas nada disso o levara à condição de um derrotado. Por temperamento optimista, esmagou logo ali o desencanto e propôs um almoço, num qualquer dia, para uma converseta e um tinto escolhido por colheita. Nunca houve esse almoço, aquelas coisas que vão ficando para amanhã e acabam em nunca mais. Se isso tivesse acontecido decerto que lhe levaria para ler, aquele fragmento de poema de Sophia Mello Breyner Andresen:

«Os ricos nunca perdem a jogada
nunca fazem um erro.
E esperam os erros dos outros,
São hábeis e sábios
têm uma larga experiência do poder
e quando não podem usar a própria força
usam a fraqueza dos outros
E ganham.»

Pois foi, limitámo-nos a administrar as nossas divisões, as nossas fraquezas. Crê que foi aqui que chegámos. Um país onde grassa o clientelismo, a corrupção e onde a lei é a do salve-se quem puder, exige que voltemos às nossas velhas conversas e, se possível, restituir os sonhos de uma vida. Que os sonhos existem e porque tem mesmo que haver um futuro.
Até já, tenente Bicho Beatriz!


30 de Outubro de 2008

Legenda: encontro de militares de Abril para lembrar em 2004, em Évora, uma das reuniões preparatórias do Movimento. Bicho Beatriz é o segundo à esquerda. Dinis de Almeida é o segundo à direita

Fotografia de Manuel Moura/Lusa tirada de Abril

sexta-feira, 23 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ANTES DE ABRIL


23 de Abril de 1974

Sob a presidência do Prof. Doutor Marcelo Caetano, reuniu, hoje, em São Bento, o Conselho de Ministros.


O Conselho ocupou-se largamente da conjuntura económica do País e da necessidade de acompanhar a marcha da inflação, nos aspectos que não possam ser totalmente travados, de modo a combater a especulação e a moderar quanto possível a alta dos preços.


Iniciou também o estudo de providências sobre a situação do funcionalismo.


Os trabalhos prosseguirão sobre estas matérias em reuniões do Conselho de Ministros para Assuntos Económicos, até estarem prontos os diplomas a aprovar.

1.

Foi tornado público um aviso dirigido a todos os mancebos que se apresentem às Juntas de Recrutamento Militar, no ano em curso de que devem fazê-lo acompanhados dos documentos necessários e obrigatórios para a sua identificação e regular funcionamento das Juntas, nomeadamente o bilhete de identidade, a cédula de recenseamento, certificados de habilitações literárias e carteiras profissionais ou sindicais.

2.

O serviço de Informação Pública das Forças Armadas anuncia a morte de dez militares: quatro na Guiné e três em Moçambique, em combates, e três por doença em Angola.

3.

Foi adiado para 15 de Maio, por falta de testemunhas, o julgamento de Maria Helena Vidal, acusada de ter feito parte do comando que, em 10 de Novembro de 1961 assaltou um avião da TAP, que fazia a carreira Casablanca/Lisboa, espalhando panfletos contra o regime, sob Faro, Beja, Barreiro e Lisboa. Outros implicados no assalto foram Palma Inácio e Camilo Mortágua.

4.

Em Espanha começa a Vuelta com a presença de ciclistas portugueses, entre os quais  Joaquim Agostinho.

5.

Diniz de Almeida, no seu livro Origens e Evolução do Movimento dos Capitães, confirma o início das operações:

1 – A confirmação do início das operações é determinada por qualquer dos seguintes sinais indicados nos parágrafos 2 e 3.

2 – Às vinte e duas horas e cinquenta e cinco minutos (22,55 horas) do dia 24 de Abril de 1974 será transmitida pelos «Emissores Associados de Lisboa» uma frase indicando que faltam cinco minutos para as vinte e três (23 horas) e anunciando o disco de Paulo de carvalho, «E Depois do Adeus».

3 – Entre as zero horas  e a uma hora (1 hora) do dia 25 de Abril de 1974, através do programa da Rádio Renascença será transmitida a seguinte sequência:

a)      Leitura da estrofe do poema «Grândola, Vila Morena».

                 Grândola Vila Morena

                 Terra da Fraternidade

                 O povo é quem mais ordena

                 Dentro de ti, ó cidade.

b)     Transmissão da canção do mesmo nome, interpretada por José Afonso.

6.


Este EP de Samuel também deu muitas voltas e voltas.

No país cinzento da guerra colonial, da PIDE, da Censura, só tinha licença de cantigueiro quem fosse o bobo do rei.


Muitos recusaram esse papel e ajudaram-nos a acreditar que a Liberdade era possível, que não era apenas uma ideia cravada no calendário, não declarado, dos nossos sonhos.


Tudo era proibido, menos sonhar.


Os cantigueiros ajudaram-nos a palmilhar caminhos, muitos desses caminhos eram picadas.


E também se podia morrer pelo sonho que sonhávamos.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ANTES DE 25


21 de Abril de 1974

Calhou a um domingo.

 Pela última vez estiveram todos juntos à mesa.

O Diário de Notícias dava conta que, no Palácio de Belém, o chefe de estado ofereceu um almoço íntimo em que estiveram presentes, para além da veneranda figura, Marcelo Caetano, os presidentes da Assembleia Nacional, da Câmara Corporativa e do Supremo Tribunal de Justiça, os ministros da Defesa Nacional, da Justiça,, das Finamças, o procurador geral da República, os conselheiros de estado dr. Albino Reis, prof. Costa Leite (Lumbrales), dr. Luís Supico Pinto, o governador civil de Lisboa, o deputado contra almirante Henrique Tenreiro.

Não se sabem razões para a realização do festim.

O jornal O Século dá conta do vincado cunho de cordialidade, mas ficámos sem saber do menú do almoço das importantes figuras do regime.

1.

Dinis de Almeida no seu livro Origens e Evolução do Movimento dos Capitães, regista que a redacção do programa do Movimento havia-se entretanto processado a partir de um documento inicialmente discutido entre Almada Contreiras, Martins Guerreiro e Melo Antunes.

Nessa redacção intervêm:

Pela Armada: Crespo, Contreiras, Lauret, Simões Teles, Vidal Pinho.

Pelo Exército: Melo Antunes, Costa Brás, Charais, Vítor Alves, José Maria Azevedo.

Pela Força Aérea, praticamente fora do assunto, só se faz sentir a sua opinião já no final, em 24 de Abril de 1974.

A versão definitiva do programa, passada à máquina directamente pelo próprio Hugo dos Santos, focou estabelecida em casa de Vítor Crespo, no dia 21 de Abril de 1974, domingo (epílogo das muitas reuniões efectuadas sobre o programa).

2.

Na praia da Aguda, em Gaia, e por iniciativa do jornal Opinião, realizou-se um jantar de homenagem  a Óscar Lopes.. A censura interveio com uma série de cortes pelo que as notícias publicadas, pouco ou nada referem. As fotografias e as legendas da homenagem teriam que ser enviadas ao Dr. Ornelas.

3.

Em Abril de 1974 Portugal era um país onde coexistiam a maior miséria e a riqueza mais faustosa. Com oito milhões de habitantes, em cada mil crianças nascidas 56 morriam antes de completarem um ano de idade e em cada mil habitantes 15 morriam de tuberculose pulmonar. Apenas 40 por cento da população tinha água em casa e 75 por cento não dispunha de esgotos. Em cada 100 portugueses 37 eram analfabetos e em cada 100 alunos que frequentavam o ensino primário 30 não o completavam e apenas 2 por cento vinham a obter uma graduação universitária.

E havia uma guerra em África. 

Milhares e milhares de mortos, feridos, estropiados.

 A Pátria não se discute, defende-se!

Poema Uma Vez Eu,… de Jorge de Sena publicado em 40 Anos de Servidão:

Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha e alguns
de guerras africanas, encontrei uma vizinha
muito estimável que era casada com
um operário categorizado e antigo republicano.
O filho dela estava nas Africas, arriscando
a vida dele e a dos outros em defesa
do património da pátria de alguns (muito mais
que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).
Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.
E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:
- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!

4


Hoje, olhamos a capa deste EP e sorrimos quando no topo lemos: Dr. José Afonso, e que as letras e as música também têm a autoria designada como «Dr.» .

Este velho disco rodou milhares de voltas por causa dos Vampiros: senhores à força mandadores sem lei, eles comem tudo e não deixam nada.

Mas diga-se que as outras canções do EP são muito bonitas, principalmente Menino do Bairro Negro.


Menino pobre o teu lar

Queira ou não queira o papão

Há-de um dia cantar

Esta canção

Inevitavelmente, José Afonso era acompanhado à viola por Rui Pato.

Legenda:  primeira página do Programa do MFA, tirada de Origens e Evolução do Movimento de Capitães de Dinis de Almeida.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ANTES DE 25


 

Falta uma semana para que aconteça o 25 de Abril de 1974.

Neste dia 19 de Abril de 1974,  o chefe de estado, o governo de Marcelo Caetano, prosseguem as rotinas das suas governações. Esta imagem, tirada do Notícias de Portugal, mostra as visitas que membros do governo, governadores civis e outras gentes, fizeram a Américo Tomás.

1.

O ministro do interior César Moreira Baptista deslocou-se ao Porto para a tomada de posse do Governador Civil.
No corpo da notícia, publicada por O Século, uma fotografia com a seguinte legenda:
«Para a sua primeira deslocação ao Porto como ministro do Interior, o dr. César Moreira Baptista escolheu mais democrático dos meios de transporte ao seu alcance: o comboio. Como um vulgar passageiro embarcou, no rápido das 8 e 40 em Santa Apolónia e, ora entretido na leitura, ora contemplando a paisagem através das amplas “vidraças” da carruagem, “venceu, a distância, chegando ao Porto à hora do almoço, para, durante a tarde e a noite cumprir o programa oficial que ali o aguardava.»

2.

A censura determinava para os jornais que eram proibidas todas as notícias a dizer «Traineiras não foram para o mar.»

3.

O Presidente da República Américo Tomás visita a Barragem da Aguieira.

4.

O ministro do Ultramar Baltasar Rebelo de Sousa, ao despedir-se de um grupo de alunas do Instituto de Odivelas que se preparava para visitar Angola, garantiu-lhe que naquelas terras se sentiriam ainda mais portuguesas perante a lição de patriotismo que as populações de todas as etnias lhes vão proporcionar, pela comunhão humana que ali se respira e pelo entusiasmo galvanizante de todos, especialmente da sua generosa e promissora juventude.

5.

Numa reportagem na Praça de Alcântara o jornalista do Diário de Lisboa registava as queixas de uma florista que cada vez se vendiam menos flores. Só nos sábados é que as pessoas compram um raminho para alindar as casas. As rosas vermelhas estavam a 25 escudos e os cravos, de qualquer cor, a 20 escudos.

6.

Neste dia, Diniszde Almeida no seu livro Origens e Evolução do Movimento dos Capitães:

Acompanhado do capitão Almeida Pereira, dirigi-me ao C.I.C.A, 4 onde contactei o major Borges.
Posto ao corrente da situação, não aderiu, embora se comprometesse inclusive a colaborar passivamente em tudo o que não o comprometesse directamente.

7.


Com regularidade, ouvíamos os velhos discos que davam conta de lutas e esperança.

Quantas vezes tocou este EP do Manuel Freire, editado em 1968 pela Tagus , principalmente Livre, poema de Carlos de Oliveira: Não há machado que corte a raiz ao pensamento?

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

ESTE DIA HÁ 45 ANOS


25 de Novembro de 1975.

 Cerca das 02 e 30 horas da madrugada, quatro chaimites dos comandos da Amadora chegam ao Palácio de Belém. Duas delas bloqueiam a Calçada da Ajuda. O comandante da Polícia Militar, Campos Andrada, contacta o Regimento de Comandos sendo-lhe respondido que aquela força estava a cumprir ordens do Presidente da República. Pedidas explicações para a Presidência da República, é confirmado que as chaimites estavam à ordem do Presidente da República, mas que tinha havido uma má interpretação e iriam regressar imediatamente

 O Conselho da Revolução, ao fim de oito horas de reunião em Belém, decidiu manter a nomeação de Vasco Lourenço para comandante da Região Militar de Lisboa.

 04,00 horas -  tropas pára-quedistas ocupam as bases aéreas de Tancos, Montijo, o Estado Maior da Força Aérea, o Comando da Região Aérea, o GDACI , em Monsanto, e a Ota.

 05,40 horas - após cerca de 12 horas de interrupção do trânsito entre Leiria e Lisboa, são levantadas as barricadas montadas por agrários e pequenos proprietários.

 13,30 horas – o Presidente da República classifica a operação dos para-quedistas de sublevação.

14,30 horas - Otelo Saraiva de Carvalho chega ao COPCON no Forte do Alto do Duque.

 Varela Gomes há-de escrever:

 «Mas não havia nada a fazer. A grande decisão estava tomada. Otelo Saraiva de  Carvalho obedecia à convocação do general Costa Gomes, largando os “paras” à sua sorte. O estratega do 25 de Abril de 1974 abandonava vergonhosamente o seu posto de comando em 25 de Novembro de 1975. Na hora do aperto, fugia de calças na mão, à procura do refúgio protector.

Deveriam ser cerca das 15,00 horas quando o general graduado Otelo Saraiva de Carvalho saiu do Copcon… e da revolução.(1)

 Dinis de Almeida também, escreverá:

 O desinteresse manifesto de Otelo pelo controlo e coordenação das suas próprias forças militares, torna-se hora a hora mais inquietante.

 Só da parte da tarde aparecerá no COPCON, onde apenas permanecerá por momentos.

 Arrancará pouco depois para Belém onde afirmará junto a Vasco Lourenço e Marques Junior que ”… eu próprio lancei os pára quedistas, após o que a seguir os abandonei de propósito para lixar a esquerdalhada… que andava sempre a chatear-me…” 

 “Desgraçada Revolução que tais chefes teve”, dissera um dia Vasco Gonçalves, referindo-se concretamente a uma das muitas inconsequências de Otelo.» (2)

 16,35 horas -  a emissão Telescola, a ser transmitida pela RTP, é interrompida e surge no écran o Capitão Duran Clemente que pretende apelar para que as massas populares se mobilizem junto dos quartéis e estações da RTP, mas a transmissão é desviada para os estúdios do Porto e os portugueses passam a assistir ao filme de Frank Tashlin O Homem do Diners Club com Danny Kaye.

 16,30 horas -Costa Gomes decreta o estado de emergência na Região de Lisboa.

  Posteriormente é decretado o estado de sítio parcial na Região de Lisboa e a suspensão da publicação da imprensa escrita.

 22,00 horas - a emissão do Rádio Clube Português é silenciada e a Emissora Nacional, a transmitir dos estúdios do Porto, fica sob o controlo do CEMGA.

 Do livro Abril nos Quartéis de Novembro: 

« A calma, o saber esperar, adicionados à capacidade de provocar o adversário, terão sido os aspectos que mais contaram para a vitória dos “Nove”, que, à partida, não eram a força melhor colocada em termos militares na cidade de Lisboa. Tais capacidades são especialmente demonstradas no próprio dia 25, quando evitam actuar sem a cobertura de Costa Gomes. Esperaram que ele tentasse resolver o problema por outros meios, ao mesmo tempo que o iam pressionando, demonstrando a urgência de passara à acção. Em verta altura argumentam que não se pode deixar cair a noite para agir e que tudo está por fazer. » (3)

 Costa Gomes toma o comando directo das Forças Armadas, e as unidades de Lisboa são informadas de que além dele também recebem ordens de Vasco Lourenço, que Costa Gomes nomeia como seu adjunto, e mais tarde juntará o nome de Ramalho Eanes à cadeia de comando.

 José Gomes Mota no seu livro A Resistência:

«Tudo se passava, portanto, segundo os nossos planos, ou seja, Vasco Lourenço chefiava o Movimento e Ramalho Eanes dirigia o Grupo Militar.

Em seguimento à proclamação do estado de sítio parcial, na área da região de Lisboa, o Estado Maior das Forças Armadas difunde uma nota oficiosa em que se informa a população de que foi determinado o recolher obrigatório no período que se estende das zero às seis horas da manhã, e em que, também, alerta para o facto a rádio e a televisão não poderem emitir comunicados dos partidos políticos, apenas comunicados oficiais.»

 Simone Beauvoir, algures no tempo:

 O mais terrível dos sentimentos é o de ter a esperança perdida.

 José Gomes Ferreira no seu livro Intervenção Sonâmbula:

 Estamos no fim da Revolução. E porventura não tardará aí o inferno que ninguém quer.


Fontes:

- Acervo pessoal.

 (1)   – Sobre os Golpes Contra-Revolucionários de 11 de Março e de 25 de Novembro de 1975 – Varela Gomes, edição do autor, Lisboa s/d

(2)   - Ascensão, Apogeu e Queda do M.F.A. 2º volume, Edição do Autor, Lisboa s/d

(3)   - Abril nos Quartéis de Novembro – Avelino Rodrigues, Cesário Borga, Mário Cardoso, Livraria Bertrand, Junho 1979

(4)    - A Resistência – José Gomes Mota, Edições Jornal Expresso, Lisboa, Junho 1976